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John Shaw Banks: O missionário de Mysore que ensinou teologia em Headingley
Neste texto
- Vida
- Filho de missionário
- Nove anos no sul da Índia
- Pastor e tradutor
- Trinta anos em Headingley
- Pensamento
- Um arminiano wesleyano
- O pecado e a graça que vem antes
- A expiação para todos e a eleição condicional
- Perseverança condicional
- A inteira santificação
- O cristianismo diante das religiões e da teologia moderna
- Onde ele se afasta da declaração de fé do site
- Legado
- Obras principais
- Para aprofundar
Na noite de 2 de agosto de 1880, a capela de City Road, em Londres, a casa que John Wesley construiu, estava cheia até o último lugar. A Conferência Wesleyana se reunia naqueles dias, e o pregador da Fernley Lecture, a palestra de teologia que acompanhava a Conferência, era um ministro de 44 anos recém-eleito para a cadeira de teologia do colégio de Headingley, em Leeds. Ele tinha passado nove anos como missionário no sul da Índia. O tema era o cristianismo e a ciência da religião, e a tese ia contra a moda da época: a história das religiões não mostra a fé subindo sozinha do fetiche ao monoteísmo, e o hinduísmo aponta para uma revelação antiga que se perdeu e para a incapacidade da razão de construir sozinha uma religião verdadeira. O pregador era John Shaw Banks, e durante os trinta anos seguintes os estudantes de Headingley aprenderam doutrina com ele.
Vida
Filho de missionário
John Shaw Banks nasceu em Sheffield, no condado de York, em 8 de outubro de 1835. O pai, Matthew Banks (1798-1878), era ministro wesleyano desde 1826 e tinha sido missionário nas Índias Ocidentais. A família se mudou cedo para Birmingham, onde o menino estudou na King Edward’s School e começou a vida pública na igreja. Depois de passar por um dos colégios teológicos da Conexão Wesleyana, como os metodistas chamavam o conjunto das suas igrejas, foi mandado para a Índia em 1856.
Nove anos no sul da Índia
O destino foi o distrito de Mysore, onde a Sociedade Missionária Wesleyana trabalhava entre os povos de língua canaresa. Banks e John Hutcheon chegaram ao distrito em 1857, o ano do grande levante indiano contra o domínio britânico, e o presidente do distrito, Thomas Hodson, ficou tão bem impressionado que, cada vez que pedia reforços a Londres, insistia que os dois eram exatamente o tipo de homem de que o trabalho precisava.
Banks cuidou das escolas da missão em Bangalore e pregou na cidade de Mysore. Num relatório, contou que a oposição dos brâmanes não tinha sido tão amarga quanto esperava e que as verdades centrais da pregação, “pecado e expiação, arrependimento e santidade”, se recomendavam à razão e à consciência dos ouvintes. No começo de 1860, ele e Daniel Sanderson fizeram uma viagem de dois meses pelas aldeias do oeste da província, onde o nome de Jesus era desconhecido. O relato de Banks apontou duas cidades para novas missões, Hassan e Shimoga, e o historiador da sociedade missionária viu nele as marcas que o acompanharam a vida inteira: percepção aguda, juízo moderado e lealdade à verdade. Em 1863 coube a ele mesmo abrir o trabalho em Shimoga, onde os pregadores de uma viagem anterior tinham sido recebidos a pedradas. Foi o primeiro missionário protestante da região.
Nesses anos ele estudou as religiões e a filosofia da Índia. A morte da esposa encerrou a missão: viúvo, Banks voltou para a Inglaterra em 1865.
Pastor e tradutor
Na Inglaterra, Banks serviu nos circuitos de Plymouth, Dewsbury, Londres, Manchester e Glasgow e ganhou nome como pregador e defensor das missões. Ao mesmo tempo, fez do alemão a ferramenta de um segundo ministério: para a editora T. & T. Clark, de Edimburgo, traduziu o comentário de F. A. Philippi a Romanos (1878-1879), o Sistema de doutrina cristã de Isaak August Dorner, em quatro volumes, com Alfred Cave (1880-1882), As parábolas de Jesus, de Siegfried Goebel (1883), e os comentários do suíço Conrad von Orelli sobre os profetas (1885-1893).
Trinta anos em Headingley
Em 1880 a Conferência elegeu Banks para a cadeira de teologia sistemática de Headingley, no lugar de Samuel Coley. O colégio tinha sido aberto em Leeds em 1868, com lugar para quarenta estudantes do ministério.
Em 1881 entrou para o Legal Hundred, os cem ministros que, pelo documento legal deixado por Wesley, formavam juridicamente a Conferência. Durante muitos anos presidiu o distrito de Leeds e se tornou figura pública da cidade: a Missão de Leeds devia muito à energia dele, e ele presidiu também o Conselho das Igrejas Livres de Leeds. Em 1902 foi eleito presidente da Conferência Wesleyana, sucedendo a W. T. Davison, com todos os votos do Legal Hundred. No ano seguinte a Universidade de Edimburgo lhe deu o título de doutor em teologia.
Era tímido por temperamento e fugia dos palanques, mas falava com peso. O historiador dos colégios metodistas, W. Bardsley Brash, lembrou um homem que lutava “não com alguns livros, mas com bibliotecas”, desajeitado na aparência e nos gestos, cujas palavras, nas grandes reuniões de Leeds, soavam como golpes de martelo. Era também muito míope. Certa vez, durante o sermão, um ouvinte pôs fogo sem querer numa caixa de fósforos no bolso e teve de sair às pressas. Banks ouviu o barulho sem ver o que acontecia e pediu que a congregação cantasse, enquanto isso, um verso do hino de William Cowper “Sometimes a light surprises”, “às vezes uma luz surpreende”.
Deixou a cátedra em 1910 e continuou morando em Headingley, onde morreu em 17 de março de 1917, aos 81 anos. Foi sepultado no cemitério de Lawnswood, em Leeds. Em 1922, um colaborador da Expository Times lembrou que Banks era conservador por inclinação, mas tinha “uma hospitalidade de alma verdadeiramente régia”: manteve a mente aberta até o fim, e os ministros jovens sentiram que tinham perdido um pai e um irmão.
Pensamento
Um arminiano wesleyano
Banks é um teólogo wesleyano, e diz isso pelo nome. O Manual of Christian Doctrine (1887), em que reuniu as aulas de Headingley, defende “a melhor forma da doutrina arminiana, como a mantêm as igrejas metodistas”: expiação universal, graça resistível, perseverança condicional e inteira santificação. Ele cita com frequência John Wesley e, sobretudo, William Burt Pope, e indica aos estudantes as Institutes de Richard Watson. O método é próprio: para cada tema, primeiro a “doutrina”, o ensino da Escritura, e depois o “dogma”, a forma que a igreja deu a esse ensino na história. O livro chegou à décima edição.
O pecado e a graça que vem antes
Banks parte da incapacidade humana. A natureza humana, por si mesma, não tem nada de bom, e ele usa as palavras de Romanos 7:18: nela “não habita bem algum”. Mas, por causa da redenção de Cristo, toda a humanidade recebe a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer desejo ou esforço humano. Ela chega a todos sem condição e é o poder pelo qual a pessoa consente em receber mais graça. Banks repete Pope: “a cooperação com a graça é da graça”. Todo homem perde em Adão e ganha em Cristo. Assim, diz ele, o arminianismo conserva a verdade essencial de Agostinho, nega qualquer bondade original no homem e evita o pelagianismo e o semipelagianismo. O erro de Agostinho foi ver a ação do pecado desde a queda sem ver, desde o mesmo momento, a ação da graça (ver pecado original e depravação total).
O arminianismo, escreve Banks, mantém a verdade da graça e a da liberdade humana sem pô-las no mesmo nível: “põe a graça em primeiro lugar e a torna suprema”. O Espírito é dado a todos como fruto da expiação e trabalha em todos, inclusive nos que nunca ouviram falar de Cristo: refreia o pecado, desperta boas inclinações e atrai a pessoa a buscar mais graça. Acolhida, essa graça se torna salvadora, e só a negligência ou a resistência impedem esse resultado. Por isso Banks rejeita a distinção calvinista entre uma graça comum, dada a todos, que nunca salva, e uma graça eficaz, só para os eleitos. À acusação de semipelagianismo, que dá ao homem o poder de começar o bem, ele responde que o poder de aceitar a graça vem de Deus.
A expiação para todos e a eleição condicional
A expiação limitada, para Banks, não saiu da Escritura, que fala sem restrição (João 3:16; 1 João 2:2; 1 Timóteo 2:4-6; Hebreus 2:9) e chega a dizer que Cristo morreu por quem pode se perder (Romanos 14:15). Ela nasceu como consequência da teoria da predestinação: admitida a eleição incondicional, seguem-se a redenção particular, a graça irresistível e a perseverança incondicional. Ao argumento de que, se Cristo morreu por todos e nem todos se salvam, o propósito de Deus falhou, Banks responde com uma pergunta: Deus quer a nossa salvação incondicionalmente? Se o propósito dele é condicional, não há falha. O autor real do sistema, para ele, foi Agostinho, levado ao extremo pela reação contra Pelágio, e Calvino o desenvolveu até as últimas consequências (ver os decretos de Deus e a predestinação).
Perseverança condicional
Sobre a perseverança, Banks lê João 15:4-6, 1 Coríntios 9:27 e as advertências de Hebreus (Hebreus 3:14; 6:4-6; 10:26-39) como prova de que o crente pode cair de vez. Mas ele não quer uma fé assustada: o poder de Cristo, a certeza das promessas e a eficácia da oração devem ser pregados com o mesmo empenho que os perigos, porque nenhum cristão precisa ser vencido (Filipenses 2:12-13; Judas 24).
A inteira santificação
A parte mais metodista do Manual é a defesa da inteira santificação, a obra da graça pela qual Deus purifica o coração e o enche de amor perfeito. A santidade perfeita, observa Banks, faz parte da fé de toda a cristandade; o metodismo só vai além ao sustentar que ela é possível nesta vida. Uns a esperam na morte, outros num purgatório. “Por que na morte ou depois da morte, e não antes?”, pergunta ele. O mandamento de amar a Deus de todo o coração (Deuteronômio 6:5; Lucas 10:27) resume tudo o que se quis dizer com perfeição cristã, e a lei foi dada para ser cumprida. Achar que o pecado natural, as tentações ou as circunstâncias tornam essa obediência impossível é pôr essas coisas acima da graça de Deus. Seguindo os sermões de Wesley, Banks insiste que essa santificação, como a justificação, vem pela fé e não pelas obras, e que não é perfeição absoluta: não dispensa o crescimento, não torna impossível a queda e depende o tempo todo da graça de Cristo (ver a santificação).
O cristianismo diante das religiões e da teologia moderna
Na Fernley Lecture de 1880, Banks não teme a ciência das religiões, que estuda as crenças da humanidade como a linguística estuda as línguas. Recusa, porém, a ideia de que um sistema futuro reunirá o melhor de todas as religiões: o que há de verdade nelas está no cristianismo em forma acabada. “O Evangelho do primeiro século é o Evangelho para o décimo nono” (Christianity and the Science of Religion, 1880).
Em The Tendencies of Modern Theology (1897), ensaios saídos antes na London Quarterly Review e na Expository Times, ele examina o liberalismo alemão, sobretudo Albrecht Ritschl, para quem a divindade de Cristo era um “juízo de valor” da fé. Banks conclui que, nesse sistema, a divindade de Cristo fica só com sentido moral e não resta doutrina da Trindade. No prefácio, avisa que a crítica se dirige “contra teorias, não contra homens”. Os dois volumes sobre o desenvolvimento da doutrina (1900 e 1901) contam a formação do dogma cristão até a Reforma.
Onde ele se afasta da declaração de fé do site
No essencial, Banks está com a declaração de fé deste site: a incapacidade humana, a graça preveniente dada a todos, a expiação universal, a graça resistível, a perseverança condicional e a inteira santificação recebida pela fé. A diferença está no batismo. Banks defende o batismo de crianças a partir da circuncisão, sinal da antiga aliança dado às crianças, e a declaração do site entende que o batismo segue a conversão. Na escatologia ele fica perto do site: rejeita o pré-milenismo e lê Apocalipse 20 como parte de uma visão cheia de símbolos.
Legado
Banks não deixou uma escola com o seu nome. Deixou ministros. Durante trinta anos, os estudantes de Headingley aprenderam com ele a teologia de Wesley, de Watson e de Pope numa forma que conversava com Dorner, com Ritschl e com a ciência das religiões, e o Manual, reeditado muitas vezes, levou esse ensino para além do colégio. Headingley se uniu ao colégio de Didsbury em 1967, e o seu último diretor foi A. Raymond George. Sobre a tradição dele, ver a tradição arminiana de Armínio a Wesley e a biografia de John Wesley.
Obras principais
- Three Indian Heroes (1874).
- Martin Luther, the Prophet of Germany (1877).
- Christianity and the Science of Religion, Fernley Lecture (1880).
- Our Indian Empire (1880).
- Tradução, com Alfred Cave, de I. A. Dorner, A System of Christian Doctrine, 4 vols. (1880-1882).
- Traduções dos comentários de Conrad von Orelli sobre os profetas (1885-1893).
- A Manual of Christian Doctrine (1887).
- Scripture and Its Witnesses: Outlines of Christian Evidence (1896).
- The Tendencies of Modern Theology (1897).
- The Development of Doctrine in the Early Church (1900).
- The Development of Doctrine from the Early Middle Ages to the Reformation (1901).
- Words on Immortality (1902).
Para aprofundar
- John S. Banks, A Manual of Christian Doctrine, 10.ª ed. (Londres: Robert Culley), Internet Archive.
- John S. Banks, Christianity and the Science of Religion (Londres: Wesleyan Conference Office, 1880), Internet Archive.
- John S. Banks, The Tendencies of Modern Theology (Londres: Charles H. Kelly, 1897), Internet Archive.
- John S. Banks, The Development of Doctrine in the Early Church (Londres: Charles H. Kelly, 1900), Internet Archive.
- John A. Vickers (org.), Banks, Dr John Shaw (1835-1917) e Headingley College, Leeds, A Dictionary of Methodism in Britain and Ireland, Wesley Historical Society.
- Banks, John Shaw, The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 1 (1908), Christian Classics Ethereal Library.
- G. G. Findlay e W. W. Holdsworth, The History of the Wesleyan Methodist Missionary Society, vol. 5 (Londres: Epworth Press, 1924), p. 272-281, sobre o distrito de Mysore, Internet Archive.
- John Telford, A Short History of Wesleyan Methodist Foreign Missions (Londres: Charles H. Kelly, 1906), p. 155, Internet Archive.
- The Story of the Namadaris (1922), sobre a missão de Shimoga, Internet Archive.
- “The Fernley Lecture” e “Tutors of Theological Colleges”, The Nonconformist and Independent, 5 de agosto de 1880, Internet Archive.
- Nota sobre a eleição de Banks à presidência da Conferência, Zion’s Herald, 6 de agosto de 1902, Internet Archive.
- Nota biográfica sobre o novo presidente da Conferência Wesleyana, The Graphic, 26 de julho de 1902, Internet Archive.
- Nota sobre Banks na seção de anedotas, The Sunday Magazine, novembro de 1904, Internet Archive.
- “The Temptations of Middle Life”, The Expository Times, vol. 34, n. 1 (outubro de 1922), Internet Archive.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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