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John Plaifere: O pároco de Suffolk que apelou ao Evangelho
Em 25 de abril de 1632, a paróquia de Depden, no condado inglês de Suffolk, enterrou o seu reitor. John Plaifere cuidara daquela igreja de aldeia por 27 anos e não deixou livro impresso. Deixou um manuscrito, escrito para alguns amigos que desconfiavam das suas opiniões, em que examinava cinco maneiras de entender a predestinação e defendia uma delas pela Escritura, pelos pais da igreja e pelos documentos da Igreja da Inglaterra. O texto saiu em Londres dezenove anos depois, em 1651, com o título de Appello Evangelium, “apelo ao Evangelho”. Em 1719 a imprensa da Universidade de Cambridge o reeditou, e em 1778 John Wesley o reimprimiu, em partes, na revista que acabara de fundar para defender a redenção universal, a Arminian Magazine.
Vida
Cambridge no ano de Lambeth
Plaifere entrou no Emmanuel College, em Cambridge, em 17 de abril de 1595, como sizar, o estudante pobre que pagava os estudos servindo no colégio. O Emmanuel, fundado em 1584, era a casa dos puritanos na universidade. Ele se formou bacharel em artes em 1597-1598 e mestre em 1601. O nome aparece nos registros também como Playfer e Playford.
Em 1595, Cambridge estava dividida pela predestinação. William Whitaker, professor régio de teologia, defendia a doutrina de Beza e de Perkins, e Peter Baro, o francês da cátedra Lady Margaret, ensinava que Deus predestina conhecendo de antemão quem crerá. Em novembro, o arcebispo John Whitgift aprovou em Lambeth nove artigos redigidos por Whitaker contra Baro. Décadas depois, Plaifere lembraria no seu livro que esses artigos nunca entraram na confissão da Igreja da Inglaterra: os professores seguintes discordaram deles, e em Hampton Court, em 1604, o pedido para incluí-los foi recusado.
Fellow de Sidney Sussex
O Sidney Sussex College, fundado pelo testamento de Lady Frances Sidney, abriu as portas no fim da década de 1590. Plaifere foi admitido como fellow, membro efetivo do colégio, e no mesmo ano recebeu as duas ordens, de diácono e de presbítero, das mãos do bispo sufragâneo de Colchester. A folha de rosto do seu livro o apresenta como bacharel em teologia e antigo fellow do Sidney Sussex.
Reitor de Depden
Em 1605, John Jermyn, de Depden, apresentou Plaifere ao bispo como reitor da paróquia, e ali ele ficou até morrer. Depden fica no oeste de Suffolk, perto de Bury St Edmunds, e Plaifere não recebeu outros cargos. O pároco de aldeia lia muito: o livro cita Ireneu, Hilário, Jerônimo, Agostinho, Próspero, Fulgêncio, Bernardo, Tomás de Aquino, Molina, Suárez, Melanchthon, Beza e os delegados ingleses em Dort.
Por volta de 1630 ele escreveu o tratado, e a introdução explica o motivo: alguns amigos “doutos e queridos” tinham ouvido falar das suas opiniões e podiam estar pensando mal dele. Plaifere quis mostrar que não ensinava nenhuma das heresias antigas nem as novidades condenadas, mas a doutrina dos pais da igreja, fundada na Escritura e conforme os Artigos, o Livro de Oração Comum e as Homilias da Igreja da Inglaterra. O livro não foi escrito para o público, e ele diz que, se fosse, teria escondido os nomes dos autores, para que ninguém julgasse a verdade pela fama de quem a defende.
Plaifere foi sepultado em Depden em 25 de abril de 1632, e o testamento foi homologado em Bury St Edmunds em 13 de maio, com o nome grafado Playford.
O livro depois do autor
Em 1651, o livreiro John Clark o publicou em Londres com o título Appello Evangelium for the True Doctrine of the Divine Predestination, Concorded with the Orthodox Doctrine of Gods Free-Grace, and Mans Free-Will, e acrescentou ao volume a carta de 1629 em que Christopher Potter, diretor do Queen’s College de Oxford, explicava a um amigo por que deixara de atacar os arminianos. Houve novas tiragens em 1652 e 1653.
Em 1719, a imprensa da Universidade de Cambridge reuniu numa Collection of Tracts Concerning Predestination and Providence o livro de Plaifere, a carta de Potter, o Exame de Tileno de Laurence Womock e uma disputa de Thomas Goad sobre a necessidade e a contingência. Os editores corrigiram as citações, verteram para o inglês os trechos em latim e grego e contaram que William Clagett seguira o livro de perto no seu tratado sobre as operações do Espírito Santo e que Thomas Bennet o recomendara, nas Directions for Studying, como introdução a essas controvérsias. O jovem John Wesley leu as Directions de Bennet em 1732.
Quando lançou a Arminian Magazine, em 1778, Wesley publicou a disputa de Goad e, logo depois dela, o tratado de Plaifere, com o título An Appeal to the Gospel e a nota “escrito por volta do ano 1630”. A publicação seguiu em partes até o segundo volume, de 1779.
Pensamento
Um arminiano que evitava o nome
Plaifere é um arminiano clássico da Igreja da Inglaterra, da geração de Richard Montagu, Christopher Potter e John Hales. O livro ensina a predestinação fundada na presciência de Deus, a graça oferecida a todos e resistível, e a possibilidade de o crente verdadeiro cair e se perder. Ele mesmo evitou o rótulo: critica a “quarta opinião”, a dos remonstrantes, e chama a sua de “quinta”. Os editores de 1719 notaram que as duas pouco diferem e que “arminiano” era então nome odioso, posto ao lado de “papista” e “ateu” nos panfletos. Jae-Eun Park descreve a doutrina dele como predestinação condicional, que combina duas marcas do arminianismo, a ciência média e a graça resistível, e Richard Muller o chama de arminiano inglês.
As cinco opiniões
Plaifere expõe cinco opiniões sobre “a ordem e o modo” da predestinação e diz que em quatro delas encontrou “partes e pedaços de verdade”, misturados com defeitos.
A primeira é a de Beza, Whitaker e Perkins: Deus decretou salvar uns e condenar outros e depois decretou permitir a queda para executar esse plano. Plaifere a acusa de fazer de Deus o autor do pecado e de reprovar pessoas antes que fossem más. A segunda é a do Sínodo de Dort: Deus escolheu alguns dentre a humanidade já caída e deixou os outros no pecado. Ela também manda Cristo só para os eleitos e chama à salvação quem não pode aceitá-la. A terceira, que ele atribui a John Overall, põe uma graça comum, suficiente, para todos e uma graça especial e eficaz para alguns escolhidos. Plaifere responde que uma graça que não salva ninguém nem merece o nome de graça. A quarta, de Melanchthon, dos luteranos e dos remonstrantes, faz um decreto geral de salvar quem crer e perseverar e um decreto especial sobre os que Deus previu que creriam. Acerta ao fundar a eleição na presciência (Romanos 8:29; 1 Pedro 1:2), mas, para ele, um decreto apenas geral não é predestinação de ninguém.
A quinta reúne o que há de verdadeiro nas outras e quer mostrar todos os atributos de Deus juntos: o domínio, com a primeira; a misericórdia e a justiça, com a segunda; a verdade das promessas e a graça especial, com a terceira; a sabedoria e a presciência, com a quarta. Plaifere a atribui aos pais gregos e latinos anteriores a Agostinho, a Jacó Armínio, “se interpretado segundo os seus próprios princípios” nas teses sobre a natureza de Deus, e a jesuítas como Molina e Suárez.
A ciência média
O centro da quinta opinião é a ciência média, que os escolásticos chamavam de scientia media. A expressão quer dizer que Deus conhece não só tudo o que é possível e tudo o que vai acontecer, mas também o que cada criatura livre faria em cada situação, se fosse posta nela. Plaifere a explica em passos. Deus conhece desde a eternidade todos os mundos possíveis, entre eles este, com cada pessoa, cada meio de graça e cada desfecho. Sabe que, se criar este mundo, estas pessoas, com estes meios, chegarão à vida eterna, e aquelas, com os seus meios, irão para a perdição “por sua própria culpa”. E então, por vontade livre e absoluta, decide dizer “faça-se” a esse mundo, e nesse ato predestina uns e outros.
Para ele, a ordem tem duas vantagens. A primeira é que a eleição continua sendo de Deus: o decreto não tem causa na pessoa eleita, porque, quando Deus decreta, ela ainda é só possível e não pode mover Deus a nada. Deus escolhe o homem antes que o homem escolha Deus. A segunda é que ela livra a doutrina do “destino estoico”: como o decreto vem depois da presciência, a salvação e a perdição são certas para o conhecimento de Deus e livres para o ser humano, porque o conhecer de Deus não causa nada e o decreto ratifica o que Deus sabia que a pessoa faria. E a doutrina não leva ao desespero, porque ninguém é condenado senão por ter recusado a vida oferecida, nem à presunção, porque as promessas têm condições.
Graça primeiro, sempre
Plaifere não defende um poder natural da vontade. “Sem a graça”, escreve, “o livre-arbítrio para o bem não deve nem ser imaginado no homem caído” (Appello Evangelium, 1651, cap. 10). A queda destruiu a liberdade para o bem espiritual, como amar a Deus, arrepender-se e crer em Cristo, e ela só volta pela graça de Cristo que acompanha o Evangelho (João 8:36).
Para explicar como graça e vontade trabalham juntas, ele enumera quatro proposições. A primeira, que a vontade pode querer e fazer o bem sem a graça, é a heresia de Pelágio. A segunda, que a graça só é necessária para começar e depois a vontade anda sozinha, é o erro dos semipelagianos de Marselha. A terceira, que a vontade só quer e faz o bem pela graça, e precisa de graça nova a cada passo, é a doutrina católica e a do Agostinho maduro, e é a dele. A quarta, que sob a graça a vontade não pode deixar de querer o bem, é o “extremo” de Agostinho no calor da polêmica e de muitos teólogos modernos. A vontade nunca trabalha sozinha nem vai na frente, mas, “como a roda do moinho de água”, é posta e mantida em movimento pela corrente contínua da graça, e para logo que a água para (Filipenses 2:13). A graça aperfeiçoa as faculdades humanas em vez de destruí-las, e sob a ajuda dela a vontade continua livre para o mal. Nisso está a resistibilidade da graça, e Plaifere nega qualquer parentesco com Pelágio, a não ser que se chame de pelagiano quem diz isso.
Daí a resposta à velha pergunta: se dois são chamados igualmente e um se converte e o outro não, quem faz a diferença? Plaifere responde que é o homem, e não Deus, porque Deus julga os atos dos homens e não os seus próprios, e o juiz justo encontra a diferença entre as partes, não a fabrica. A incredulidade ofende a Deus, que quer que todos creiam, e não pode tê-lo por autor. Na parábola dos talentos (Mateus 25:14-30), as quantias vieram do senhor, mas o uso diferente veio dos servos.
Perseverança
Sobre a perseverança, Plaifere separa as questões. Os eleitos perseveram, porque a eleição já supõe o conhecimento infalível da perseverança final. A pergunta verdadeira é se a fé verdadeira, mas fraca, como a de Pedro antes da Paixão, pode se perder, e ele dedica um capítulo à fé verdadeira dos que não perseveram. Contra os delegados ingleses em Dort, sustenta que o regenerado que cai num pecado grave, como adultério ou homicídio, não está em estado de salvação enquanto não se arrepende. É a tese que Overall defendera diante do rei em Hampton Court.
Pontos de distância
Duas coisas afastam Plaifere do arminianismo deste site. A eleição dele passa pela ciência média de Molina, em que Deus dá aos eleitos os “meios felizes” que sabia que eles usariam bem, e não pelos quatro decretos de Armínio, que começam pela designação de Cristo como Mediador. E ele fala da fé, da esperança e do amor como hábitos “infundidos”, linguagem escolástica que Armínio evitava. No essencial, porém, ele está com a declaração de fé do site: a incapacidade humana depois da queda, a graça que vem antes e sustenta todo bem, a promessa universal do Evangelho, a graça resistível e a perseverança condicional dos crentes.
Influência
A importância de Plaifere está menos na novidade das ideias, que ele mesmo diz não serem novas, e mais na clareza com que as ordenou dentro dos documentos da própria igreja: o último capítulo analisa o artigo XVII dos Trinta e Nove Artigos, e outro examina o livre-arbítrio no livro de doutrina de 1543, do reinado de Henrique VIII. Pela Arminian Magazine, o tratado chegou aos leitores metodistas.
Obras principais
- Appello Evangelium for the True Doctrine of the Divine Predestination, Concorded with the Orthodox Doctrine of Gods Free-Grace, and Mans Free-Will (escrito por volta de 1630; Londres, 1651; novas tiragens em 1652 e 1653).
- An Appeal to the Gospel for the True Doctrine of Divine Predestination, edição revista em A Collection of Tracts Concerning Predestination and Providence (Cambridge, 1719).
- An Appeal to the Gospel, em partes, na Arminian Magazine, vols. 1 e 2 (1778-1779), editada por John Wesley.
Para aprofundar
- John Plaifere, Appello Evangelium (Londres, 1651), Internet Archive.
- A Collection of Tracts Concerning Predestination and Providence (Cambridge, 1719), com o prefácio dos editores sobre Plaifere, Internet Archive.
- The Arminian Magazine, vol. 1 (Londres, 1778), com o início de An Appeal to the Gospel, Internet Archive.
- Playfer, John, em John Venn e J. A. Venn, Alumni Cantabrigienses, A Cambridge Alumni Database, Universidade de Cambridge.
- Barry E. Bryant, Molina, Arminius, Plaifere, Goad, and Wesley on Human Free-Will, Divine Omniscience, and Middle Knowledge, Wesleyan Theological Journal 27 (1992), via Society of Evangelical Arminians.
- Jae-Eun Park, John Plaifere (d. 1632) on Conditional Predestination: A Well-mixed Version of scientia media and Resistible Grace, Reformation & Renaissance Review 18, n. 2 (2016), p. 155-173.
- Richard A. Muller, Goading the Determinists: Thomas Goad (1576-1638) on Necessity, Contingency and God’s Eternal Decree, Mid-America Journal of Theology 26 (2015), p. 59-75.
- Publicações de John Plaifere, Grub Street Project, University of Saskatchewan.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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