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HistóriaTeólogos arminianos5 de 258

John Overall: O teólogo de Cambridge que abriu caminho ao arminianismo anglicano

Diego Gonçalves13 min de leitura2.533 palavras

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Neste texto

Em 16 de janeiro de 1604, no palácio de Hampton Court, o rei Jaime I ouvia bispos e puritanos discutirem o que devia mudar na Igreja da Inglaterra. Quando a conversa chegou à predestinação, o deão da catedral de São Paulo ajoelhou-se e pediu licença para falar, porque o assunto o tocava de perto. Em Cambridge, contou, ensinara que quem comete um pecado grave, como adultério, homicídio ou traição, mesmo tendo sido justificado antes, fica sob a ira de Deus e em estado de condenação até se arrepender. Alguns colegas o combatiam, dizendo que o justificado continua justo mesmo sem arrependimento. O rei lhe deu razão: sem arrependimento, disse, não há reconciliação com Deus. O deão era John Overall, o homem que naquele mesmo ano escreveria a parte do catecismo anglicano sobre os sacramentos e que, anos depois, chamaria a causa dos remonstrantes holandeses de “tão justa, tão santa e tão razoável”.

Retrato de John Overall
Retrato de John Overall, gravura de Wenceslaus Hollar (1657). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Hadleigh e Cambridge

John Overall foi batizado em Hadleigh, no condado de Suffolk, em 2 de março de 1560 (1559 no calendário inglês da época, em que o ano começava em 25 de março). Era o filho mais novo de George Overall, que morreu em julho de 1561. Na escola da cidade, Overall teve como colega John Bois, outro futuro tradutor da Bíblia do rei Jaime, e com ele entrou no St John’s College, em Cambridge, em 1575.

Em abril de 1578 passou para o Trinity College, onde se formou bacharel em 1579 e mestre em 1582. Ali foi membro (fellow) desde 1581 e ensinou grego e matemática. Foi ordenado presbítero em 1591 e, no ano seguinte, recebeu a paróquia de Epping, no condado de Essex. Pregava pouco: chamado a pregar diante da rainha Elizabeth, confessou a um amigo que tinha falado latim por tanto tempo que lhe custava fazer em inglês um discurso seguido.

Contra os Artigos de Lambeth

Nos anos 1590, Cambridge estava dividida pela predestinação. William Whitaker, professor régio de teologia, e William Perkins, o mais lido dos puritanos, defendiam a predestinação absoluta de Calvino e Beza. Peter Baro, francês refugiado que ocupava a outra cátedra de teologia, ensinava, com Melanchthon, que a predestinação segue a presciência da fé e que a graça que justifica pode ser perdida. Em novembro de 1595, o arcebispo John Whitgift aprovou em Lambeth nove artigos propostos por Whitaker: Deus predestinou alguns para a vida e reprovou outros desde a eternidade, e a fé verdadeira dos justificados nunca se apaga. A rainha desaprovou a iniciativa, e os artigos não foram publicados oficialmente. Em janeiro de 1596, Baro pregou contra eles, foi chamado diante das autoridades da universidade e deixou a cátedra.

Overall declarou abertamente que concordava com Baro e, em 1596, foi eleito para a cátedra régia de Whitaker, morto pouco depois de Lambeth, e recebeu o doutorado em teologia. A escolha soou como protesto contra os artigos, e ele entrou em choque com Perkins. Em 1599 voltou a ensinar que o justificado que cai em pecado grave perde o estado de justificação até se arrepender, e isso lhe valeu um ano inteiro de campanha dos adversários. Na Páscoa de 1598 tornou-se diretor (master) do Catharine Hall, cargo que manteve até 1607, quando também deixou a cátedra.

Deão de São Paulo, Hampton Court e o catecismo

Em 29 de maio de 1602, por indicação de Sir Fulke Greville, Overall sucedeu Alexander Nowell como deão de São Paulo, em Londres. Em Hampton Court, no mesmo dia do discurso sobre o pecado grave, o puritano John Rainolds pediu um catecismo mais completo. O rei concordou em acrescentar ao catecismo curto do Livro de Oração Comum uma parte sobre os sacramentos, e quem a escreveu foi Overall. Com pequenos retoques de palavras em 1662, ela continua como ele a deixou, e a sua definição de sacramento é a mais citada da tradição anglicana: “sinal exterior e visível de uma graça interior e espiritual dada a nós, instituído pelo próprio Cristo, como meio pelo qual a recebemos e penhor que nos assegura dela”. O catecismo fala de dois sacramentos “geralmente necessários para a salvação”, o batismo e a Ceia do Senhor.

Em 1605 foi eleito prolocutor, o presidente da câmara baixa da assembleia do clero de Cantuária. Em 1606, depois da Conspiração da Pólvora, essa assembleia redigiu cânones sobre o governo civil. O cânone 28 negava aos súditos o direito de resistir ao rei, mas dava autoridade divina aos governos nascidos de uma rebelião vitoriosa, e Jaime, que viu nisso uma ameaça ao seu título, não sancionou o livro. A cópia de Overall só foi publicada em 1690, pelo arcebispo William Sancroft, como Bishop Overall’s Convocation Book.

Overall trabalhou também na Bíblia do rei Jaime (1611), na primeira companhia de Westminster, que traduziu de Gênesis a 2 Reis sob a direção de Lancelot Andrewes. Andrewes era o outro grande crítico dos Artigos de Lambeth. Por volta de 1607 Overall casou-se com Anne Orwell, e o casal não teve filhos.

Grócio e os remonstrantes

Em 1613, Hugo Grócio esteve na Inglaterra em missão diplomática e conversou com Overall e Andrewes, esperando deles apoio aos remonstrantes, os seguidores de Jacó Armínio. A correspondência continuou. Em 27 de julho de 1616, Overall escreveu a Grócio que nenhuma calúnia o assustava “nesta vossa causa da predestinação e da graça divina”, que se alegrava ao saber que a opinião “moderada, ou melhor, mais verdadeira” ganhava terreno na Holanda, e que lhe parecia indiferente seguir a última opinião de Agostinho, explicada por Próspero e Fulgêncio, ou a primeira, aperfeiçoada pela última.

Em 20 de junho de 1617, lamentou que as disputas holandesas tivessem azedado de novo, “como se a preservação da fé católica dependesse inteiramente dessas posições”, que eram especulações de teólogos. Contou uma conversa com Jaime I no Natal anterior: o rei dissera que era ousadia demais discutir a predestinação com tanta minúcia e decidir tudo como se os teólogos “tivessem estado no céu” e assistido ao conselho divino. Em 13 de agosto, depois de ler a resposta dos remonstrantes a uma carta da Zelândia, escreveu que se espantava de haver tanta gente incapaz de suportar opiniões “tão piedosas e moderadas”, atribuiu essa dureza às “tábuas das Parcas”, as deusas pagãs do destino, e prometeu promover a causa deles, que recomendava a Deus nas suas orações. Gerardo Vossius, amigo de Grócio, usou material de Overall na sua História pelagiana (1618).

Bispo

Em 1614 Overall foi eleito bispo de Coventry e Lichfield, sagrado em 3 de abril. A partir de 1616 teve como secretário o jovem John Cosin, que guardou os seus manuscritos. Em 1618 foi transferido para Norwich. O episcopado ali durou menos de um ano, mas Fuller o chamou de “discreto promotor da conformidade”. Quando Peter De Laune, ordenado por presbíteros em Leiden, pediu uma paróquia na diocese, Overall propôs ordená-lo sob condição, no modelo do batismo condicional, ou então aceitá-lo com as ordens que tinha, por conta e risco dele.

John Overall morreu em 12 de maio de 1619, no mês em que o Sínodo de Dort encerrava os trabalhos com a condenação dos remonstrantes. Foi sepultado na catedral de Norwich, onde Cosin, já bispo de Durham, mandou erguer em 1669 um monumento com o busto dele e uma inscrição latina que o chama de “homem doutíssimo em tudo e maior que qualquer elogio”.

Pensamento

Onde Overall fica no arminianismo

Overall é um simpatizante e precursor do arminianismo anglicano. Rejeitou nos pontos centrais o calvinismo de Lambeth: ensinou que Cristo morreu por todos, que Deus dá a todos graça suficiente, que a graça não age de modo irresistível e que crentes verdadeiramente regenerados podem cair e se perder. Mas manteve uma eleição especial de alguns, feita pelo puro beneplácito de Deus, na linha do último Agostinho, e nisso fica a distância em relação a Armínio, que funda a eleição na presciência de quem crerá e perseverará. A posição dele está na Sententia de praedestinatione, escrita quando era professor em Cambridge e impressa em 1631 junto com os Artigos de Lambeth.

Uma eleição especial e uma graça para todos

Partindo do artigo XVII da Igreja da Inglaterra, Overall propõe esta ordem: Deus, prevendo a queda, decidiu por pura misericórdia enviar o Filho e pôs nele a condição da salvação; para cumpri-la, deu a todos auxílios necessários e meios suficientes, em medida maior ou menor; e aos que escolheu em Cristo deu, por beneplácito, uma graça mais abundante, pela qual são levados com toda a certeza à fé, à perseverança e à salvação. Os outros “nada têm de que se queixar”, porque receberam graça comum e suficiente. Ele resume tudo em 1 Timóteo 4:10, onde Deus é “o Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis”, o versículo que, segundo Próspero de Aquitânia, deveria decidir a questão inteira.

Hammond e Robert Sanderson, uma geração depois, chamavam isso de “o caminho do bispo Overall”: Deus ordena os meios e as ocasiões com tal adequação que a graça chega aos escolhidos no momento certo, quando ele prevê que a aceitarão, sem que ela deixe de ser resistível. Henry Hammond aceitou a fórmula para chegar a um acordo com Sanderson, mas insistiu em que a pessoa continua podendo resistir.

Cristo morreu por todos

A doutrina de que Cristo morreu por todos os homens, “ou por todos os pecados de todos os homens”, é tão clara nas Escrituras que espanta que alguém a tenha posto em dúvida. Overall a encontra nos Trinta e Nove Artigos, no catecismo, que ensina a crer em Deus Filho, “que me redimiu e a toda a humanidade”, e na liturgia da Ceia. Deus deu o Filho pelo mundo e pôs como condição a fé: “se não creem, a culpa está nos homens, e não em Deus; se creem, isso se deve à graça divina, e não à virtude humana”. Lembra que o próprio Calvino lê “muitos” como “todos” em Hebreus 9:28 e aceita a fórmula das escolas: Cristo morreu por todos de modo suficiente e pelos eleitos e crentes de modo eficaz. É a expiação para todos que os arminianos defenderiam.

A graça que vem antes

Para o livre-arbítrio, Overall parte do artigo X: depois da queda, o homem não pode converter-se nem preparar-se para a fé por suas forças naturais, e não tem poder para fazer obras agradáveis a Deus sem a graça que o previne. É o mesmo texto que John Wesley levou para o artigo VIII dos metodistas. Overall explica como essa graça preveniente age: ela ilumina a mente, inspira a vontade, desperta pensamentos piedosos e bons desejos; depois coopera, dirigindo, protegendo e fortalecendo. Mas nos artigos da igreja, observa, não há “uma só palavra” sobre graça irresistível. Mesmo onde opera de modo certo e infalível, segundo a eleição, a graça não usa força irresistível e preserva a liberdade da vontade. Nem nada nem demais deve ser dado ao livre-arbítrio: enquanto o primeiro lugar for da graça, a vontade se junta a ela “como serva, embora livre”.

Cair da graça

A tese de Hampton Court reaparece na Sententia. O artigo XVI ensina que se pode “afastar da graça recebida” pelo pecado mortal cometido de propósito, e as homilias e o rito do batismo supõem que muitos, depois de receber a graça, caem e se perdem. A ideia de que todos os que uma vez creram e foram regenerados perseveram com certeza, escreve, “nunca foi aprovada por nenhum dos pais da igreja primitiva” e nasceu no século da Reforma, da briga de Zuínglio com Lutero. Os eleitos perseveram com certeza, mas a eleição é secreta e se conhece pelos frutos, por isso “não devemos presumir facilmente a eleição”. Nem todo crente, mesmo regenerado, tem certeza da salvação, e nem todos ficam entregues a uma salvação incerta: quem está enraizado na fé e no amor pode ter confiança firme de perseverar. A perseverança dos crentes comuns é, para ele, condicional.

Herança e diferenças com o site

A linha de Overall passou a Cosin, aos teólogos ligados a William Laud e a Hammond. A tradução inglesa da Sententia, publicada por John Ellis em 1700, circulava entre os estudantes de Oxford no tempo dos Wesley. Com a declaração de fé deste site, Overall concorda na expiação universal, na graça preveniente e resistível e na possibilidade da apostasia. Difere em dois pontos: a eleição especial por beneplácito, onde o site afirma a eleição condicional em Cristo, e o batismo de crianças, que o seu catecismo chama de “novo nascimento para a justiça”, onde o site batiza depois da conversão.

Obras principais

  • Parte do Catecismo do Livro de Oração Comum sobre os sacramentos (1604).
  • Convocation Book (escrito em 1606, publicado em 1690; reedição em Oxford, 1844).
  • Articles to be Enquired of in the Diocese of Norwich (1619).
  • Sententia de praedestinatione, em Articuli Lambethani (1631; tradução inglesa em John Ellis, A Defence of the Thirty-Nine Articles, 1700).
  • Quaestio utrum animae patrum ante Christum defunctorum fuerant in coelo, em Richard Montagu, Apparatus ad origines ecclesiasticas (1635).
  • Cartas a Hugo Grócio e Gerardo Vossius, em Praestantium ac eruditorum virorum epistolae (1660).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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