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Klyne Snodgrass: O professor de North Park que leu as parábolas como histórias com intenção

Diego Gonçalves13 min de leitura2.539 palavras

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Neste texto

Em 1974, um professor de 29 anos começou a ensinar Novo Testamento no North Park Theological Seminary, em Chicago, o seminário da Igreja do Pacto Evangélico. Quarenta anos depois ele lembrou que era “muito jovem e verde” e que tinha a idade da maioria dos alunos. Klyne Ryland Snodgrass ficou ali por 41 anos, e durante esse tempo a primeira aula de quase todo aluno que entrava no seminário foi a dele, Novo Testamento 1. Dali saíram um guia das parábolas de Jesus que virou obra de referência e um comentário sobre Efésios que lê a eleição divina como a escolha de um povo em Cristo.

Vida

Tennessee, Columbia e St Andrews

Snodgrass nasceu em 28 de dezembro de 1944 e cresceu no leste do Tennessee, numa família batista do Sul. Estudou no Columbia Bible College, na Carolina do Sul, e foi lá, como contou ao teólogo Darrell Bock, que se viu “confrontado com a fé” de um modo que nunca tinha experimentado. Fez depois o mestrado em Divindade na Trinity Evangelical Divinity School, perto de Chicago.

O doutorado foi na Universidade de St Andrews, na Escócia, sob a orientação de Matthew Black, estudioso do aramaico por trás dos Evangelhos. A tese, de 1973, tratava dos “testemunhos da pedra” no Novo Testamento: os textos do Antigo Testamento sobre a pedra que os construtores rejeitaram (Salmo 118:22), a pedra angular posta em Sião (Isaías 28:16) e a pedra de tropeço (Isaías 8:14), que os apóstolos aplicaram a Cristo. Os três aparecem juntos em 1 Pedro 2:6-8, e Snodgrass publicou em 1978, na New Testament Studies, um estudo sobre a formação desse trecho da carta.

Do mesmo salmo veio o primeiro livro. A parábola dos lavradores maus termina com a citação do Salmo 118:22 (Marcos 12:10-11), e Snodgrass dedicou a ela The Parable of the Wicked Tenants (1983), publicado em Tübingen pela Mohr Siebeck. O livro compara os relatos dos três Evangelhos e o do Evangelho de Tomé e pergunta o que a parábola mostra sobre o modo como Jesus falava de si mesmo. Quinze anos depois, num balanço das pesquisas para o Bulletin for Biblical Research (1998), ele a classificou como parábola jurídica, construída sobre o cântico da vinha de Isaías 5:1-7. Parábola jurídica é a história que leva o ouvinte a julgar um caso e, sem perceber, a condenar a si mesmo, como Natã fez com Davi (2 Samuel 12:1-7).

Quatro décadas em North Park

Antes de Chicago, Snodgrass ensinou um ano no Georgetown College, no Kentucky (1973-1974). Em North Park ocupou a cátedra Paul W. Brandel de Estudos do Novo Testamento e foi deão do corpo docente de 1988 a 1993. A partir de 1992 editou a revista Ex Auditu, dedicada à interpretação teológica da Escritura.

Ordenado ministro pela Convenção Batista do Sul, ele frequentava em Chicago uma igreja do Pacto e resumia no currículo a dupla filiação: “batista do Sul e do Pacto”. A Igreja do Pacto Evangélico nasceu entre imigrantes suecos marcados pelo avivamento pietista e foi organizada em Chicago em 1885. Para ela Snodgrass escreveu pareceres sobre o divórcio, sobre o modo de ler a Escritura e, sobretudo, sobre o ministério das mulheres.

Em 1976 a assembleia anual do Pacto votou a favor da ordenação de mulheres, e em novembro daquele ano a Covenant Quarterly publicou o artigo dele “Paulo e as mulheres”. Em 1987 a denominação aprovou “Uma base bíblica e teológica para as mulheres no ministério”, texto de uma comissão editado por ele. Em 2009 voltou ao tema com “Em defesa do ministério sem restrições das mulheres”.

O guia das parábolas

O livro pelo qual ele é mais conhecido saiu em 2008 pela Eerdmans: Stories with Intent (“Histórias com intenção”), um guia de todas as parábolas de Jesus, com mais de oitocentas páginas. Recebeu em 2009 o prêmio de livro do ano da Christianity Today em estudos bíblicos. Snodgrass propôs também uma classificação das parábolas pela forma: similitudes, parábolas interrogativas, parábolas jurídicas, parábolas narrativas indiretas (simples e duplas) e parábolas do “quanto mais”, que raciocinam do menor para o maior.

Em 2018 saiu a edição comemorativa de dez anos, com um capítulo novo sobre os mais de vinte e cinco livros sobre parábolas publicados na década anterior. Nela Snodgrass mantém que o Evangelho de Tomé depende dos Evangelhos sinópticos e não oferece “uma janela antiga” para as parábolas de Jesus. No Brasil o livro saiu pela CPAD com o título Compreendendo todas as parábolas de Jesus.

Aposentadoria e últimos livros

Em fevereiro de 2010 Snodgrass deu as conferências W. H. Griffith Thomas no Dallas Theological Seminary, sobre o que chamou de “hermenêutica da identidade”. Saíram em 2011, em quatro artigos da Bibliotheca Sacra, e viraram em 2018 o livro Who God Says You Are (“Quem Deus diz que você é”), pela Eerdmans.

Em 2014, no último ano de ensino em tempo integral, colegas e ex-alunos o surpreenderam com um livro em sua homenagem, Doing Theology for the Church (“Fazer teologia para a igreja”), organizado por Rebekah Eklund e John E. Phelan Jr., com textos de N. T. Wright, Richard Longenecker e Scot McKnight. Ele comentou que o seu trabalho “nunca é só trabalho acadêmico, é trabalho de vida”. Aposentou-se em 2015 como professor emérito e continuou dando aulas como professor adjunto. Em 2022 a Baker Academic publicou You Need a Better Gospel (“Você precisa de um evangelho melhor”).

Pensamento

Onde ele fica

Classe: simpatizante. Snodgrass não se apresenta como arminiano, e a sua obra se ocupa mais do texto bíblico que dos debates de sistema. Mas, onde o debate passa pela exegese, ele está do lado arminiano: lê a eleição como a escolha de um povo em Cristo, e não como a escolha prévia de indivíduos, afirma que a pessoa escolhe e responde de verdade e põe a graça de Deus diante de todos. A sua leitura da eleição é a mesma que Robert Shank, Brian Abasciano e Chad Thornhill desenvolveram.

A eleição em Cristo

No prefácio do comentário sobre Efésios (1996), Snodgrass conta que escolheu Efésios, “ou melhor, Efésios me escolheu anos antes”. Ele chama Efésios 1:3-14 de um dos textos mais importantes sobre a eleição na Bíblia. Quando falamos de eleição, pensamos logo em indivíduos; Paulo, diz ele, tem outra ênfase, porque “a eleição é antes de tudo um termo coletivo”, e nada em Efésios 1 se concentra em indivíduos.

O argumento vem do próprio texto. Deus nos escolheu “nele” (Efésios 1:4) e nos predestinou “por meio de Jesus Cristo” (1:5). Cristo é o Eleito por excelência, aquele que cumpre a eleição de Israel. Daí a frase do comentário que William Klein e Paul Copan citam nos seus livros: “Os indivíduos não são eleitos e depois postos em Cristo. Eles estão em Cristo e, por isso, são eleitos”. Se as pessoas só são eleitas no Eleito, o texto nada tem a ver com o medo de não estar entre os escolhidos. Snodgrass acrescenta que o tema da escolha de Deus nada tem de fatalismo nem de um determinismo que diminua a ação e a responsabilidade humanas: “enquanto Deus escolhe, as pessoas ainda têm escolha e são responsáveis”.

É uma forma da eleição condicional em Cristo, a forma corporativa que Abasciano desenvolveria em Romanos 9: o povo é eleito em Cristo, e cada pessoa entra nessa eleição quando é unida a ele pela fé. Snodgrass segue a mesma linha em Efésios 2:8-9. Para ele, o “dom de Deus” desse versículo é a salvação inteira, recebida pela graça mediante a fé, e não a fé tomada à parte, embora reconheça que outros textos falam da própria fé como dom (Atos 3:16; 14:27; 18:27).

Graça primeiro, obras como fruto

Nos anos 1980 Snodgrass entrou no debate sobre Paulo e a Lei. Em “Justificação pela graça, para os que praticam” (New Testament Studies, 1986), ele examinou Romanos 2, onde Paulo diz que Deus “retribuirá a cada um segundo o seu procedimento” (Romanos 2:6) e que “os que praticam a lei hão de ser justificados” (2:13). A tese era que o julgamento segundo as obras faz parte da teologia de Paulo. Em “Esferas de influência” (Journal for the Study of the New Testament, 1988) explicou as frases aparentemente contraditórias de Paulo sobre a Lei: as negativas falam da Lei na esfera do pecado e da carne; as positivas, da Lei na esfera da fé, do Espírito e de Cristo.

A mesma ordem aparece em Between Two Truths (“Entre duas verdades”, 1990), sobre as tensões da vida cristã: santo e pecador, fé e obras, graça e lei, liberdade e responsabilidade. No capítulo sobre graça e lei ele escreve que há uma ordem entre as duas e que “a graça sempre vem primeiro”. Para resumir, cita o teólogo escocês James Moffatt: “Tudo é da graça, e a graça é para todos”. No mesmo livro, trata o livre-arbítrio como um dom que Deus valoriza tanto que o mantém mesmo quando alguém o usa para fazer mal a outro.

As parábolas e a responsabilidade de ouvir

Em Stories with Intent o título já é um programa. Parábolas são histórias com intenção: Jesus as contou para levar os ouvintes a ver, julgar e mudar, e o intérprete precisa ouvir o que ele quis dizer no seu contexto histórico, social e literário. Isso o afasta de dois extremos: a alegorização antiga e popular, que faz o azeite das dez virgens representar o Espírito Santo, e as leituras que deixam o leitor dar à parábola o sentido que quiser.

Essa ênfase na intenção vale também para o ouvinte. Ao comentar Marcos 4:10-12, onde Jesus cita Isaías 6:9-10 sobre os que veem e não percebem, Snodgrass defende a responsabilidade humana: não é Deus quem quer impedir a conversão e o perdão, mas o próprio povo que se recusa a ouvir. É a lógica das parábolas do Reino em Mateus 13: quem tem ouvidos, ouça.

Identidade e participação

Em Who God Says You Are ele descreve os fatores de que se faz a identidade de qualquer pessoa, do corpo e da história às relações, aos compromissos e ao futuro. A Escritura, diz ele, existe em grande parte para nos dizer quem somos. Um texto central para ele é 1 Coríntios 15:10, “pela graça de Deus, sou o que sou”. Para Snodgrass, a identidade resolve a velha briga entre fé e obras, porque quem vive o que é em Cristo age de acordo.

You Need a Better Gospel leva a ideia ao centro da salvação. Snodgrass acusa as igrejas de oferecerem “um evangelho deficiente, inepto e inerte”, reduzido a ir para o céu e escapar do inferno. O evangelho da Bíblia, escreve, “oferece participação na própria vida de Deus”: somos unidos a Cristo, morremos e ressuscitamos com ele (Romanos 6:1-14), permanecemos nele como o ramo na videira (João 15:4-6), e essa união transforma a vida. “Como funciona a salvação? Pela participação” (p. 141). A fé, nessa leitura, é confiança e lealdade pessoal a Cristo, e não só concordância com uma doutrina.

Perto e longe do arminianismo clássico

Em vários pontos Snodgrass está perto da nossa declaração de fé. A eleição em Cristo, a graça que vem primeiro e é oferecida a todos, a responsabilidade real de quem ouve e a salvação como união com Cristo são temas que Armínio e Wesley reconheceriam. A ênfase na participação lembra a “fé que opera pelo amor” (Gálatas 5:6) da tradição wesleyana.

A distância está na base. Quando Snodgrass afirma que “as pessoas ainda têm escolha”, fala como exegeta de Efésios. O arminianismo clássico põe essa escolha sobre um fundamento preciso, a graça preveniente: a graça que vem antes de qualquer resposta humana, alcança todas as pessoas, liberta a vontade presa pelo pecado e torna possível crer, sem forçar ninguém. Para Armínio, a vontade caída só escolhe Deus depois de libertada pela graça, e a fé que recebe Cristo é fruto dessa graça, nunca mérito. Snodgrass chega por outro caminho, o da exegese, a várias conclusões dos arminianos, e a sua obra mostra que a eleição em Cristo nasce do próprio texto bíblico.

Obras principais

  • The Parable of the Wicked Tenants: An Inquiry into Parable Interpretation (Tübingen: Mohr Siebeck, 1983).
  • “Justification by Grace—to the Doers: An Analysis of the Place of Romans 2 in the Theology of Paul”, New Testament Studies 32 (1986).
  • “Spheres of Influence: A Possible Solution to the Problem of Paul and the Law”, Journal for the Study of the New Testament 32 (1988).
  • Between Two Truths: Living with Biblical Tensions (Grand Rapids: Zondervan, 1990).
  • Ephesians, NIV Application Commentary (Grand Rapids: Zondervan, 1996).
  • Stories with Intent: A Comprehensive Guide to the Parables of Jesus (Grand Rapids: Eerdmans, 2008; 2.ª ed., 2018).
  • “A Case for the Unrestricted Ministry of Women”, Covenant Quarterly 67, n. 2 (2009).
  • Who God Says You Are: A Christian Understanding of Identity (Grand Rapids: Eerdmans, 2018).
  • You Need a Better Gospel: Reclaiming the Good News of Participation with Christ (Grand Rapids: Baker Academic, 2022).

Livros em português

  • Compreendendo todas as parábolas de Jesus: guia completo (CPAD), tradução de Stories with Intent. Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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