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Kenneth Keathley: O teólogo batista que propôs o molinismo como caminho entre Calvino e Armínio
Neste texto
Em outubro de 1975, uma série de cultos de avivamento na Tabernacle Baptist Church, em Piedmont, no sudeste do Missouri, alcançou um rapaz do último ano do ensino médio. Ken Keathley ia à igreja de vez em quando e se descrevia, anos depois, como “um cristão nominal”. Naquela noite ele se converteu e sentiu um chamado claro para o ministério do evangelho. Décadas depois, já professor de teologia e deão, continuava a se apresentar do mesmo jeito: “sempre me considerei um pastor que ensina teologia”.
Vida
Matemática e púlpito no Missouri
Kenneth D. Keathley formou-se em Bíblia na Tennessee Temple University, em Chattanooga, e fez depois um mestrado em ciências naturais, com ênfase em matemática, na Southeast Missouri State University. Casou-se com Penny em 1980, e o casal tem um filho e uma filha.
Dirigiu a música e os jovens da First Baptist Church de Ellsinore, no Missouri (1980-1982), e em 1984 assumiu a Westwood Baptist Church, em Poplar Bluff, onde ficou dez anos.
Wake Forest
Em janeiro de 1994 chegou como aluno ao Southeastern Baptist Theological Seminary, em Wake Forest, na Carolina do Norte. Enquanto estudava, foi pastor da Open Door Baptist Church, em Raleigh (1995-1998); somando as duas igrejas, foram quase quinze anos como pastor titular. Concluiu o mestrado em Divindade em 1995 e o doutorado em teologia em maio de 2000. Antes de terminar, já lecionava teologia e filosofia no Midwestern Baptist Theological Seminary, em Kansas City (1998-2000).
New Orleans
Em 2000 foi eleito deão de estudantes e professor do New Orleans Baptist Theological Seminary; em 2004 passou a deão associado de pós-graduação. Em março de 2002, numa reunião regional da Evangelical Theological Society em Dallas, apresentou o estudo “Alguém sabe mesmo se está salvo?”, sobre a certeza da salvação, publicado no mesmo ano.
De volta ao Southeastern
Em 2006, quando L. Russ Bush, professor de filosofia do Southeastern, adoeceu, o seminário chamou Keathley de volta para ser deão de pós-graduação e professor de teologia. Desde então dirige o L. Russ Bush Center for Faith and Culture e ocupa a cátedra Jesse Hendley de teologia. Em 2007 escreveu o capítulo sobre a salvação em A Theology for the Church, a teologia sistemática organizada por Daniel Akin, presidente do seminário.
Em 12 de outubro de 2010, depois de alguns meses como interino, os curadores o elegeram vice-presidente sênior de administração acadêmica e deão do corpo docente, cargo que ocupou até 2012. Hoje é professor pesquisador de teologia e nunca deixou o púlpito: desde 2006 foi pastor interino de várias igrejas na Carolina do Norte e na Virgínia.
O debate sobre o calvinismo
Nos anos 2000 o calvinismo cresceu entre os batistas do Sul, e Keathley entrou no debate do lado dos não calvinistas. Em 6 e 7 de novembro de 2008, a Primeira Igreja Batista de Woodstock, na Geórgia, recebeu a Conferência João 3:16, promovida pelo ministério de Jerry Vines para responder aos cinco pontos do calvinismo. Keathley tratou da perseverança dos santos e pregou sobre 2 Timóteo 1:12. A palestra virou capítulo de Whosoever Will (2010), organizado por David L. Allen e Steve Lemke.
Roger Olson elogiou o livro e chamou os autores de arminianos. Em setembro de 2010 Keathley assinou, com Allen, Lemke, Richard Land, Paige Patterson, Vines e Malcolm Yarnell, o documento “Nem calvinistas nem arminianos, mas batistas”. O texto pedia que os autores fossem identificados pela tradição batista e pela Grande Comissão, e não pelos rótulos herdados do Sínodo de Dort.
No mesmo ano saiu o livro que o tornou conhecido, Salvation and Sovereignty: A Molinist Approach (B&H Academic, 2010), com prefácio de Patterson. O Journal for Baptist Theology and Ministry dedicou a ele uma série de resenhas, e o calvinista Bruce Ware objetou que o modelo não cumpria o que prometia. Keathley respondeu às resenhas no Ano-Novo de 2011, com uma pergunta que ouviu do teólogo Gerry Breshears: por que tantos cristãos tentam ser “calminianos”, meio calvinistas e meio arminianos? A resposta de Breshears, que Keathley adotou, foi: “Porque leem a Bíblia”.
Fé e ciência
A outra frente do seu trabalho é a relação entre a Bíblia e as ciências naturais. Depois de conhecer Darrel Falk, presidente da BioLogos, organização que defende a criação por meio da evolução, em 2012 Keathley abriu a série “Southern Baptist Voices” no site da BioLogos, com seis pontos de discordância. O principal era a autoridade da Bíblia e a historicidade de Adão e Eva e da queda, que ele ligava à morte salvadora de Cristo. Explicou assim o motivo do diálogo: “não adianta nada ficar gritando uns com os outros por cima da cerca”.
Keathley se define como criacionista da terra antiga: aceita que o universo tem bilhões de anos e entende que Deus interveio diretamente em pontos da história natural. Organizou o diálogo entre a Reasons to Believe e a BioLogos em Old-Earth or Evolutionary Creation? (2017) e, em 2024, o debate entre quatro visões sobre Adão e Eva, uma delas a de William Lane Craig. No mesmo ano publicou Faith and Science, para estudantes que pensam em seguir carreira em ciência, em que rejeita o cientificismo, a ideia de que só a ciência responde às perguntas importantes, e o fideísmo, que faria de tudo uma questão de fé cega.
Em 2026 lançou, com Akin e Keith Whitfield, a segunda edição de A Theology for the Church, de novo com o capítulo sobre a salvação.
Pensamento
Um simpatizante molinista
Classe: simpatizante. Keathley rejeita o calvinismo em pontos centrais, mas não se diz arminiano. Ele chama o molinismo de “caminho do meio entre o calvinismo e o arminianismo” (Salvation and Sovereignty, p. 7). Na abertura do livro diz que concorda com três pontos da TULIP, o resumo clássico do calvinismo: a depravação total, a eleição incondicional e a perseverança dos santos. Os outros dois, a expiação limitada e a graça irresistível, ele rejeita, porque a defesa bíblica deles é “espantosamente fraca” (pp. 1-2). Fica, assim, no mesmo campo de Craig, que também é molinista.
O conhecimento médio
O molinismo vem do jesuíta espanhol Luis de Molina (1535-1600). Keathley o resume em três “momentos” do conhecimento de Deus, que são lógicos e não cronológicos. Deus conhece tudo o que poderia acontecer (conhecimento natural); conhece o que cada criatura livre faria em qualquer circunstância (conhecimento médio, “médio” porque fica entre os outros dois); escolhe então que mundo criar, e conhece tudo o que vai acontecer nele (conhecimento livre). Nas palavras dele, entre os mundos possíveis há um conjunto de mundos “factíveis” que cumprem a vontade de Deus, e Deus escolhe livremente um deles (pp. 18-19). Assim Deus governa tudo sem ser o autor do pecado.
Na mesma linha, Keathley distingue duas vontades em Deus. Deus quer, antes de tudo, que todos sejam salvos; para os que se recusam a crer e a se arrepender, ele quer, em consequência, que sejam condenados (p. 58). Aqui ele se apoia em autores arminianos como Robert Shank e Jerry Walls.
ROSES no lugar da TULIP
O resto do livro segue o acróstico ROSES (Radical depravity, Overcoming grace, Sovereign election, Eternal life, Singular redemption), tomado do teólogo batista Timothy George.
A depravação radical afirma que o ser humano caído não consegue fazer nenhum bem sem a graça. Keathley defende um “libertarismo brando”: o caráter limita as escolhas, e algumas decisões fixam a direção da vida, mas a pessoa continua sendo a origem dos próprios atos.
A graça vencedora é o centro do livro. A pergunta dele é como dar a Deus todo o crédito pela fé e ao incrédulo toda a culpa pela incredulidade. Para responder, conta uma imagem: você acorda dentro de uma ambulância, a caminho do pronto-socorro, em estado grave. Se não fizer nada, chega ao hospital; se exigir sair, o motorista lamenta, avisa do perigo e deixa você descer. Ninguém recebe mérito por ter sido levado ao hospital, mas quem recusa a ambulância tem a culpa. “A única coisa que você tem capacidade de fazer é resistir”, escreve (p. 104). Se a pessoa crê, é porque o Espírito Santo a levou à fé; se não crê, é só porque resistiu. A graça de Deus que atrai “deveria ser e seria eficaz para todos”, e só a recusa a impede. Por isso a pergunta muda de “por que alguns creem?” para “por que nem todos creem?” (p. 106). À objeção calvinista de que quem crê seria mais nobre que o vizinho, ele responde com o mendigo que recebe um presente e nada merece por estender a mão: “Não há mérito em aceitar o evangelho, mas há culpa em rejeitá-lo” (p. 60).
A eleição soberana é onde ele se aproxima do calvinismo. Keathley afirma que Deus não elegeu ninguém por causa de méritos ou de uma fé prevista. Pelo conhecimento médio, Deus escolheu o cenário em que cada um vive: “a nossa escolha livre determina como responderíamos em qualquer situação, mas Deus decide a situação em que nós de fato nos encontramos”. Deus elegeu ativamente os salvos e apenas permite a ruína dos perdidos (pp. 154-160). Para ele, Deus criou o mundo com a maior proporção possível de salvos em relação aos perdidos (p. 153).
A vida eterna é o tema que ele estudava desde o artigo de 2002, onde mostra que arminianos e muitos calvinistas acabam baseando a certeza da salvação na evidência da santificação. Propõe quatro pontos: a única base da segurança é a obra objetiva de Cristo; a certeza faz parte da própria fé que salva; a fé salvadora persiste até dar lugar à visão; e há recompensas, que o crente pode ganhar ou perder depois de salvo (1 Coríntios 3:12-15). As boas obras confirmam a segurança, mas não a sustentam. “A provisão de Cristo é o solista, e as evidências são só o coro de apoio”, escreve. Também não trata como iguais a fraqueza e o descaso: “a indiferença é um sinal de alerta maior que a fraqueza”, e o Espírito que habita no crente garante que não exista desviado tranquilo.
A redenção singular é a expiação. A morte de Cristo provê a salvação para toda a humanidade, mas os benefícios são assegurados só para os que creem e aplicados no momento da conversão (p. 193).
Onde ele se afasta do arminianismo clássico
Em vários pontos Keathley está com o arminianismo clássico: Cristo morreu por todos, a graça pode ser resistida, a fé não é mérito, Deus não é o autor do pecado e ninguém faz bem algum sem a graça. O mendigo que estende a mão é a imagem de Jacó Armínio, e a Society of Evangelical Arminians viu no modelo uma boa defesa da graça preveniente, a graça que vem antes e liberta a vontade para crer.
A distância está em três lugares. O primeiro é a eleição. Na Declaração de Sentimentos (1608), Armínio ensina que Deus decreta salvar pessoas determinadas segundo a sua presciência de quem creria e perseveraria. Keathley recusa justamente a eleição pela fé prevista. A nossa declaração de fé segue Armínio na eleição condicional em Cristo.
O segundo é o modo como Deus governa as escolhas. Robert Picirilli respondeu que, se Deus escolhe as circunstâncias em que cada um crê ou rejeita, ele arranja o resultado, e chamou isso de “determinismo por manipulação indireta”. Também lembrou que “não resistir” continua sendo um ato da vontade. O arminianismo clássico afirma que Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres, mas não precisa do conhecimento médio para isso.
O terceiro é a perseverança. Keathley sustenta que a fé verdadeira não pode ser destruída. Desde a Remonstrância, os arminianos ensinam a perseverança condicional, e a nossa declaração de fé diz que o crente é chamado a permanecer em Cristo e que a fé pode ser abandonada (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14).
Na resposta de 2011 Keathley escreveu que o molinista prega confiante de que o Senhor da seara fará a sua obra (Atos 18:9-10), sabendo que a própria obediência terá consequências eternas (Ezequiel 3:17-18). E citou o pastor batista John Leland, que em 1791 descreveu a pregação mais abençoada como a doutrina da graça soberana “misturada com um pouco do que se chama arminianismo”.
Obras principais
- “Does Anyone Really Know If They Are Saved?”, Journal of the Grace Evangelical Society 15.1 (2002).
- “The Work of God: Salvation”, em Daniel L. Akin (org.), A Theology for the Church (B&H, 2007; ed. revista, 2014).
- Capítulo sobre a perseverança dos santos em David L. Allen e Steve W. Lemke (orgs.), Whosoever Will (B&H Academic, 2010).
- Salvation and Sovereignty: A Molinist Approach (B&H Academic, 2010).
- 40 Questions About Creation and Evolution (Kregel, 2014), com Mark F. Rooker.
- Old-Earth or Evolutionary Creation? (IVP Academic, 2017), organizado com J. B. Stump e Joe Aguirre.
- Perspectives on the Historical Adam and Eve: Four Views (B&H Academic, 2024), organizador.
- Faith and Science: A Primer for a Hypernatural World (B&H Academic, 2024).
- A Theology for the Church, 2ª ed. (B&H Academic, 2026), organizado com Daniel L. Akin e Keith Whitfield.
Para aprofundar
- Southeastern Baptist Theological Seminary, “Ken D. Keathley”, página do corpo docente com formação, cargos e pastorados.
- L. Russ Bush Center for Faith and Culture, “Dr. Ken Keathley: ‘I’ve always considered myself a pastor who teaches theology’”, entrevista.
- Ken Keathley, “Does Anyone Really Know If They Are Saved?”, Journal of the Grace Evangelical Society 15.1 (2002).
- David L. Allen, Ken Keathley, Richard Land, Steve Lemke, Paige Patterson, Jerry Vines e Malcolm B. Yarnell III, “Neither Calvinists nor Arminians but Baptists”, White Paper 36, Center for Theological Research (2010).
- Andrew Lindsey, “John 3:16 Conference: Message on Perseverance of the Saints by Dr. Ken Keathley”, Challies.com (2008).
- Bruce A. Ware, resenha de Salvation and Sovereignty, Southern Baptist Journal of Theology 14.4 (2010).
- Steven W. Ladd, “Salvation and Sovereignty: A Review Essay”, e a resposta de Ken Keathley às resenhas, Journal for Baptist Theology and Ministry 7.1 (2010).
- Glenn R. Kreider, resenha de Salvation and Sovereignty, DTS Voice (2012).
- Society of Evangelical Arminians, “Kenneth Keathley and the Doctrine of Overcoming Grace” (2010) e “Quotation of Kenneth Keathley on Whether the Person Who Believes Is More Virtuous…” (2014).
- Robert E. Picirilli, “Can Arminians Be Molinists?” parte 1 e parte 2, Society of Evangelical Arminians (2020).
- J. W. Wartick, resenha de Salvation and Sovereignty, Always Have a Reason (2012).
- “Scientists, seminarians debate evolution online”, Bangor Daily News (2012).
- Peaceful Science, “Ken Keathley: Notes from Dabar and a Baptist’s Hope” (2018).
- Southeastern Baptist Theological Seminary, “Beyond the Book with Dr. Keathley: ‘Faith and Science’” (2024).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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