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Joseph S. Wang: o engenheiro de Taiwan que ensinou Romanos em Asbury
Em 1971, a revista The Asbury Seminarian publicou o artigo de um professor convidado que tinha acabado de chegar ao corpo docente do seminário. Para explicar como um cristão pode estar livre da lei de Moisés e, ainda assim, não matar, não adulterar e não roubar, ele contou a história de um semáforo. Durante a Segunda Guerra, a França ocupada obedecia ao código de trânsito alemão, que mandava parar no sinal vermelho. Com a libertação, os franceses ficaram livres da lei alemã, mas continuaram parando no vermelho, agora por obediência à lei francesa. O cristão, dizia ele, obedece a esses preceitos “não como o componente moral da lei mosaica, mas como a lei de Cristo”. O autor era Joseph S. Wang, um engenheiro eletricista de Taiwan que passaria mais de três décadas ensinando o Novo Testamento no Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky.
Vida
De Taiwan aos Estados Unidos
Joseph Wang nasceu em Taiwan. O nome chinês dele é Wang Shou-jen (王守仁), o mesmo nome pessoal do filósofo confuciano da dinastia Ming que a história conhece como Wang Yangming. Formou-se em engenharia elétrica na Universidade Nacional de Taiwan e, em 1960, mudou-se para os Estados Unidos para estudar teologia.
Matriculou-se no Asbury Theological Seminary, a escola de tradição wesleyana fundada por Henry Clay Morrison, e concluiu ali o bacharelado em Divindade em 1963 (o curso que hoje se chama mestrado em Divindade). Seguiu para o Princeton Theological Seminary, onde fez o mestrado em Teologia, e depois para a Emory University, em Atlanta, onde recebeu o doutorado em estudos do Novo Testamento em 1970. A tese, Pauline Doctrine of Law (“a doutrina paulina da lei”), ficou depositada na biblioteca de Emory e está por trás do artigo do semáforo.
Professor em Asbury
Em 1970 Wang entrou para o corpo docente de Asbury. Em 1971 assinava como professor convidado de Novo Testamento; em 1977, como professor associado; depois tornou-se professor titular e, por muitos anos, chefe do departamento de Novo Testamento. Ensinou em tempo integral até 2004, quase trinta e cinco anos.
Foi ordenado pela Igreja Metodista Livre da América do Norte, a denominação de santidade fundada por B. T. Roberts: diácono em 1971 e presbítero em 1973. Foi membro do Institute for Biblical Research e da Wesleyan Theological Society, entre outras sociedades, e recebeu o prêmio Outstanding Educator of America.
Dava a introdução ao Novo Testamento e cursos de exegese no texto grego. Na disciplina sobre Efésios, de 2003, o aluno unia o estudo bíblico indutivo à análise do grego e estudava de perto “eleição”, “predestinação”, “igreja” e “plenitude de Cristo”. Wang também escrevia resenhas para a revista do seminário, ao lado de colegas como Joseph R. Dongell e Jerry L. Walls.
Comentarista de Romanos
Em 1981 contribuiu para An Inquiry into Soteriology from a Biblical Theological Perspective, organizado por John E. Hartley e R. Larry Shelton, primeiro volume da série Wesleyan Theological Perspectives. Em 1990 escreveu as notas de Romanos de The Wesley Bible, uma Bíblia de estudo wesleyana da editora Thomas Nelson, na versão New King James. Em 1992 voltou a Romanos no Asbury Bible Commentary, o comentário wesleyano em um volume organizado por Eugene E. Carpenter e Wayne McCown, que reuniu biblistas como Joel B. Green e John Oswalt.
Para as classes de adultos, escreveu com Anne B. Crumpler On This Rock: A Study of Peter’s Life and Ministry (“sobre esta pedra: um estudo da vida e do ministério de Pedro”), publicado pela Abingdon e reeditado em 1998. São dez lições, do chamado de Pedro à missão aos gentios.
Mestre das igrejas chinesas
Em 1993 publicou em chinês 從新約聖經看靈恩運動, “o movimento carismático à luz do Novo Testamento”, e mais tarde escreveu o volume bíblico de uma coleção de cem lições de formação para o cristão do século XXI. Foi preletor de grandes conferências cristãs chinesas e professor convidado em seminários e universidades de vários países, entre elas a Universidade de Pequim e a Universidade Tsinghua. Depois de deixar a sala de aula em Asbury, continuou viajando para ensinar e tornou-se professor especial de Novo Testamento, hermenêutica, exegese e teologia bíblica no North America Bible Institute.
Em abril de 2008, numa reunião evangelística numa igreja chinesa de Nova York, falou sobre a divindade de Jesus. Apresentou a profecia de Miqueias sobre Belém e a predição do cerco de Jerusalém (Lucas 21:20-24), cumprida por Tito, e resumiu: “Por que creio em Jesus? Porque há provas sólidas como ferro de que ele é Deus”.
Pensamento
Joseph Wang é um teólogo wesleyano. Foi ordenado na Igreja Metodista Livre, ensinou a vida inteira num seminário wesleyano e, no comentário a Romanos, dedicou uma seção inteira à relação entre a carta e a teologia wesleyana. Ali ele defende os dois pontos que separam essa tradição do calvinismo: a eleição condicional e a santificação como libertação do poder do pecado, coroada pela “segunda obra da graça”.
Graça e lei
O artigo de 1971, “Grace and Law”, resume a tese de doutorado. Wang responde ao dispensacionalismo e a muitos evangélicos que opunham graça e lei, como se guardar mandamentos fosse coisa de legalista. Ele parte dos tratados de vassalagem hititas, que os estudiosos tinham comparado com a aliança do Sinai: primeiro os favores do rei, depois as cláusulas impostas ao vassalo. Em Êxodo 20 o Senhor primeiro lembra o que fez (“Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito”) e só depois dá os mandamentos.
Daí a conclusão: a lei de Moisés é a cláusula de uma aliança que Deus deu de graça. Guardá-la não cria a aliança nem compra a bênção; apenas mantém, como resposta de fidelidade, uma relação que já existe. A única coisa que o israelita podia fazer por conta própria era transgredir. Por isso, lido no seu lugar, o Antigo Testamento nunca ensinou salvação pelas obras.
Paulo, segundo Wang, pensa do mesmo modo. Em Romanos 9:31 Israel buscou “a lei de justiça” como meio de estabelecer a própria justiça e, com isso, errou o alvo da própria lei. Em Romanos 3:31 a fé não anula a lei, mas a confirma, porque a fé pressupõe a graça, como a aliança pressupunha. Com a vinda de Cristo, o cristão não está mais debaixo da lei mosaica (Gálatas 3:25), mas também não está sem lei: está “debaixo da lei de Cristo” (1 Coríntios 9:21; Gálatas 6:2), um conjunto de mandamentos que obriga os que vivem pela graça. É aqui que entra o semáforo francês. A conclusão do artigo cabe numa linha: graça e lei “não são antitéticas, mas complementares”.
O texto termina nos debates americanos da época: a lei de Cristo manda garantir ao próximo os direitos civis que queremos para nós, e a desobediência civil só cabe contra a lei que contraria um mandamento explícito de Cristo (Atos 5:29), de forma pacífica e como último recurso.
Romanos lido por um wesleyano
No Asbury Bible Commentary Wang trata Romanos 9 como uma passagem muitas vezes mal lida. A soberania de Deus, diz ele, é a liberdade de Deus para fixar as condições da salvação, da bênção e do juízo, e não uma escolha arbitrária de quem será salvo. Os israelitas incrédulos ficam de fora por causa da incredulidade (Romanos 9:30-10:21; 11:20-23), e podem ser enxertados de novo se não permanecerem nela. A condição da herança foi fixada antes do nascimento de Jacó e Esaú. O faraó endureceu o próprio coração antes que Deus o endurecesse. E o oleiro de Romanos 9:21 remete a Jeremias 18, onde Deus muda o que anunciou a uma nação conforme ela se arrepende ou não.
Em Romanos 8:29-30, Wang lê “predestinar” a partir dos outros usos da palavra no Novo Testamento, que falam do plano de Deus e não de uma lista de nomes. O alvo da predestinação é que os crentes sejam conformes à imagem do Filho, e o chamado é um convite a todos. Sobre a presciência, a frase dele é direta: “A presciência não os faz ter fé; é a fé deles que faz Deus conhecer de antemão”. É a mesma estrutura do quarto decreto de Jacó Armínio, que fala de salvar os que Deus sabia de antemão que creriam e perseverariam, e da eleição condicional em Cristo. No arminianismo clássico, essa fé não é mérito, mas a resposta que a própria graça torna possível; o texto do site sobre Romanos 8:28-30 trata da mesma passagem.
Em Romanos 7:14-25, Wang recusa duas leituras comuns. O “eu” que está “vendido como escravo ao pecado” não pode descrever a vida cristã normal, porque o capítulo 6 acabou de dizer que o crente morreu para o pecado. Também não descreve o pagão, porque esse “eu” ama a lei de Deus e quer fazer o bem. O texto retrata a pessoa que vive “na carne”, qualquer um que tenta obedecer sem a vida do Espírito. Um cristão pode cair nessa condição, como os coríntios “crianças em Cristo” (1 Coríntios 3:1-3), mas ela é anormal. O remédio é entregar-se a Deus e confiar que ele santifica e dá a vida de Romanos 8:1-17, passagem que a teologia wesleyana chama de segunda obra da graça. É o que a declaração de fé deste site chama de inteira santificação: obra posterior à regeneração, recebida pela fé, que purifica o coração e o enche de amor (ver a santificação na teologia sistemática).
O Espírito e a razão
O livro chinês de 1993 começa reconhecendo o que há de bom nos carismáticos: buscam a obra do Espírito com seriedade e estão certos ao dizer que todo cristão deve ser cheio do Espírito. O erro deles, diz, está no princípio: pôr a experiência subjetiva acima da verdade objetiva da Escritura. Ele compara as heresias ao câncer, em que um grupo de células cresce depressa demais e rompe o equilíbrio do corpo. Uma parte da verdade tomada como o todo produz o mesmo efeito.
Para Wang, ser cheio do Espírito significa que o Espírito exerce sobre a pessoa uma influência decisiva, como a ira “enchia” os que quiseram jogar Jesus do monte em Nazaré (Lucas 4:28-29). Como o Espírito é pessoa e não líquido, pode encher alguém muitas vezes: Pedro foi cheio pelo menos três vezes em Atos, e o verbo de Efésios 5:18 pede uma plenitude contínua. Os efeitos são dois: a purificação do coração, que Pedro descreve ao comparar a casa de Cornélio com o Pentecostes (Deus “purificou os seus corações pela fé”, Atos 15:9), e o poder para testemunhar (Atos 1:8). A leitura une o Pentecostes à pureza de coração, como fazia o movimento de santidade em que Wang foi ordenado.
Daí a crítica a pregadores como Kenneth Hagin, Kenneth Copeland e John Wimber, que tratavam a razão como inimiga do Espírito. Percorrendo os cheios do Espírito na Bíblia, de Zacarias a Estêvão, Wang conclui que a plenitude do Espírito não apaga a razão, e às vezes a eleva. Os dons (charisma), lembra ele, vão muito além das curas e das línguas: incluem servir, ensinar, socorrer e até a própria vida eterna (Romanos 6:23). Corinto tinha mais dons que qualquer igreja, e Paulo a chamou de carnal. Sobre o “batismo no Espírito”, Wang distingue os autores: em 1 Coríntios 12:13 Paulo fala do batismo com água, em que o Espírito está presente; em Lucas e Atos a expressão indica a primeira vez que alguém é cheio do Espírito, que pode vir ou não acompanhada de línguas.
Um Reino sem Rei
Em 1977 Wang escreveu sobre a teologia da libertação latino-americana. Expôs Gustavo Gutiérrez, Rubem Alves e José Míguez Bonino e elogiou a disposição deles de enfrentar a miséria do continente. A crítica principal era exegética: o centro do Reino de Deus no Novo Testamento é o reinado de Deus, como mostrara George Eldon Ladd, e a sociedade justa é fruto desse reinado, que o próprio Deus vai consumar. Os teólogos da libertação, escreveu, “falam do Reino de Deus sem Deus”. Contra a revolução armada, propôs o exemplo da reforma agrária de Taiwan, que a partir de 1953 comprou as terras dos grandes proprietários, com indenização, e as revendeu aos lavradores sem derramamento de sangue.
Nos textos de Wang a mesma convicção volta sempre: a graça de Deus não dispensa a obediência, e produz um povo que guarda os mandamentos de Cristo por amor.
Obras principais
- Pauline Doctrine of Law (tese de doutorado, Emory University, 1970)
- “Grace and Law”, The Asbury Seminarian 25, n. 3 (1971), p. 12-25
- “Latin American Liberation Theology”, The Asbury Seminarian 32, n. 3 (1977), p. 18-39
- Colaboração em An Inquiry into Soteriology from a Biblical Theological Perspective (org. John E. Hartley e R. Larry Shelton, Warner Press, 1981)
- Notas de Romanos em The Wesley Bible (Thomas Nelson, 1990)
- “Romans”, em Asbury Bible Commentary (org. Eugene E. Carpenter e Wayne McCown, Zondervan, 1992)
- 從新約聖經看靈恩運動 (O movimento carismático à luz do Novo Testamento, 1993)
- On This Rock: A Study of Peter’s Life and Ministry, com Anne B. Crumpler (Abingdon, edição revista, 1998)
Para aprofundar
- Joseph S. Wang, “Grace and Law”, The Asbury Seminarian 25, n. 3 (1971).
- Joseph S. Wang, “Latin American Liberation Theology”, The Asbury Seminarian 32, n. 3 (1977).
- Joseph S. Wang, 從新約聖經看靈恩運動, texto integral em chinês no site Christian Classics Bible Study.
- Asbury Bible Commentary: Romanos, seções sobre a teologia wesleyana, Romanos 7:7-25, Romanos 8:28-39 e Romanos 9:6-29, Bible Gateway.
- Asbury Bible Commentary, ficha e lista de autores, Accordance.
- Joseph S. Wang, “NT 660 Exegesis of Ephesians” (2003) e “NT 520 New Testament Introduction”, ementas, Asbury Theological Seminary.
- Rev. & Prof. Joseph Wang (王守仁), Who’s Who Taiwanese American, Taiwanese American Historical Society.
- Marquis Who’s Who Honors Dr. Joseph Shou-Jen Wang with Inclusion in Who’s Who in the World, 24-7 Press Release, 2022.
- 著名神學家王守仁:「耶穌是神 鐵證如山!」, reportagem de 2008 reproduzida pela Igreja Hoping, de Taipé.
- Corpo docente, North America Bible Institute.
- On This Rock: A Study of Peter’s Life and Ministry, ficha da edição de 1998.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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