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Eurico Bergstén: O missionário finlandês que organizou a doutrina das Assembleias de Deus

Diego Gonçalves12 min de leitura2.484 palavras

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Neste texto

Em 1942, com a Finlândia em guerra contra a União Soviética, um pastor de 28 anos assumiu a igreja pentecostal Filadelfia, de Helsinque, que reunia cerca de 200 pessoas de língua sueca. Lars-Eric Bergstén servia também no exército finlandês. Durante o seu pastorado a igreja passou por um avivamento e chegou a perto de mil membros. No auge desse crescimento, ele entregou a liderança a outro pastor, ficou como auxiliar e, pouco depois, sentiu que Deus o chamava para longe dali, sem entender por quê. Em 2 de setembro de 1948 desembarcou no Rio de Janeiro com a família. No Brasil, onde ficou conhecido como Eurico Bergstén, passou cinquenta anos, escreveu 35 revistas de Escola Dominical e deixou às Assembleias de Deus uma teologia sistemática que os obreiros ainda estudam.

Vida

Helsinque

Lars-Eric Ole Bergstén nasceu em 13 de agosto de 1913, em Helsinque, capital da Finlândia, numa família da minoria de língua sueca do país. Foi o terceiro dos seis filhos de Nils August e Else Aurora Bergstén, luteranos que ensinaram a Bíblia aos filhos. Na juventude ele se afastou da fé. Em 6 de julho de 1931, num acampamento de evangelização para jovens, entregou a vida a Cristo. Foi batizado nas águas e recebeu o batismo no Espírito Santo, a experiência que os pentecostais esperam depois da conversão.

Em outubro de 1933, aos 20 anos, foi consagrado ao ministério e passou a pastorear igrejas no interior da Finlândia. Em 2 de dezembro de 1936 casou-se com Ester Lindfors, que já trabalhava como evangelista. O casal teve cinco filhos: Nils Göran, Ulla, Gitta, Else e Ruy.

A Filadelfia de Helsinque, fundada em 1920, é a mais antiga igreja pentecostal de língua sueca da Finlândia. Bergstén a dirigiu de 1942 a 1948, e foi ela que enviou a família ao Brasil, onde a Assembleia de Deus tinha nascido em 1911 com os suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg. No campo, ele trabalhou ligado à Missão Sueca.

O pacificador das igrejas

Bergstén chegou num momento de transição. Desde a convenção de 1930, em Natal, as igrejas do Norte e do Nordeste estavam nas mãos de pastores brasileiros, e o papel dos missionários escandinavos mudava de fundadores para conselheiros. Ele veio ajudar os pastores em questões de liderança. No primeiro ano ficou no Rio e em Belo Horizonte, ao lado do pastor Anselmo Silvestre, observando o trabalho brasileiro antes de assumir qualquer coisa.

Em 29 de novembro de 1949 mudou-se para Salvador, numa fase difícil da igreja na Bahia, e ficou até 1956. De lá foi para Recife, onde também ajudou a encerrar uma disputa interna e deu posse ao pastor José Amaro da Silva. Entre 1959 e 1960 passou nove meses como pastor interino da Assembleia de Deus em Natal. A convite do pastor Cícero Canuto de Lima, da igreja do Belém, mudou-se em 1961 para São Paulo, onde ficou até 1967. Seguiu então para o Rio de Janeiro, até 1973. Depois de temporadas curtas em Belo Horizonte, Recife e Salvador, fixou residência em São Paulo em 1978.

Bergstén ia aonde havia briga de liderança, ficava o tempo necessário e saía quando a igreja voltava a andar. Ele mesmo se chamava “carregador de malas dos pastores”. Na Suécia ficou lembrado como o diplomata que orava. Quem conviveu com ele falava da humildade e da vida de oração: ele orava de joelhos por cerca de duas horas antes de dormir e de novo a partir das quatro da manhã.

Durante os cinquenta anos em que ele esteve no Brasil, o movimento pentecostal do país passou de cerca de 120 mil para 8 milhões de membros. Em 1974, quando Lewi Pethrus morreu, foi Bergstén quem representou a Assembleia de Deus do Brasil no funeral, em Estocolmo.

O mestre da Escola Dominical

A contribuição mais duradoura de Bergstén foi o ensino. A partir da década de 1950 ele passou a escrever os comentários das Lições Bíblicas, as revistas de Escola Dominical da Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), estudadas a cada trimestre nas igrejas de todo o país. Foram 35 revistas em quase quarenta anos, quase uma por ano, todas sobre doutrinas bíblicas. Nenhum outro comentarista das Assembleias de Deus escreveu tantas. Reescrevia muito os textos e dizia que o que havia de bom neles vinha de Deus.

Nas escolas bíblicas de obreiros, que percorriam o país de São Paulo ao Ceará, Bergstén era presença regular. Do lado escandinavo, ele e Nels Nelson eram os grandes nomes; Nelson ensinava sobretudo a prática pastoral, e Bergstén era o sistemático: os seus estudos percorriam todas as doutrinas, com linguagem simples e muitas citações bíblicas, e ele insistia que o obreiro só cresce espiritualmente se amar a Bíblia. Depois da morte de Nelson, nos anos 1960, Bergstén ficou como a principal referência teológica escandinava das Assembleias de Deus.

As apostilas que escreveu para a Escola Teológica das Assembleias de Deus no Brasil (ESTEADEB) serviram por muitos anos de livro-texto. Saíram na Nova Coleção Teológica da ESTEADEB, pela CPAD; o terceiro volume, A Santa Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (1989), traz a apresentação do pastor José Wellington Bezerra da Costa, presidente da Convenção Geral, atestando que o livro estava de acordo com a doutrina das Assembleias de Deus. Esses estudos viraram a Introdução à Teologia Sistemática e, em 1999, a Teologia Sistemática da CPAD. Ao lado de Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, de Myer Pearlman, e da Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal, editada por Stanley Horton, o livro de Bergstén se tornou uma das referências doutrinárias da denominação no país.

Bergstén também cuidou da própria editora. Com os contatos que tinha na Suécia, conseguiu para a CPAD uma impressora rotativa e outras máquinas, e participou da construção do prédio da editora em Vicente de Carvalho, no Rio. Em 1987 a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) deu a ele e a Bernhard Johnson Jr. o título de conselheiro vitalício da CPAD.

A sopa do Jacarezinho

Em 1967, no Rio, Ester se comoveu com a pobreza de uma favela perto de casa. O casal começou a distribuir sopa no Jacarezinho, com recursos de igrejas da Suécia e da Finlândia. Daí nasceu a Associação de Ação Social Ester Bergstén (ASEB), que chegou a repassar recursos para cerca de quatro mil crianças. Vieram depois uma escola com o nome dele em Fortaleza, uma escola profissionalizante em Caucaia (CE), um orfanato em Feira de Santana (BA) e o Desafio Jovem de Santo André (SP).

Os últimos anos

Na velhice Bergstén continuou a dar estudos bíblicos e conferências pelo país. Morreu em São Paulo às 20h30 de 6 de março de 1999, de edema pulmonar, aos 85 anos, depois de 65 anos de ministério, cinquenta deles no Brasil. Foi sepultado no dia seguinte no Cemitério Horto da Paz. No velório, o pastor José Wellington Bezerra da Costa falou em nome das Assembleias de Deus e citou 2 Samuel 3:38, o lamento de Davi pela queda de um príncipe em Israel.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

Eurico Bergstén foi um pentecostal arminiano. Os missionários escandinavos que formaram as Assembleias de Deus no Brasil eram arminianos, como os americanos que vieram depois, e a doutrina que ele ensinou por cinquenta anos na Escola Dominical é a dessa tradição: Cristo morreu por todos, Deus elege em Cristo os que creem, a graça pode ser recusada e o crente permanece seguro enquanto permanece na fé. Sobre a raiz arminiana da denominação, veja a biografia de José Gonçalves.

Os textos dele mostram essa posição. Sobre a cruz, Bergstén ensinava a substituição penal: Cristo, “como nosso substituto, sofreu na cruz o castigo que as nossas culpas mereciam” (A Santa Trindade, 1989). E o alcance dessa morte é universal. Ele cita 1 Timóteo 2:6, Cristo “se deu a si mesmo em preço de redenção por todos”, e chama Jesus de “garantia do perdão de todos os pecados, para todos que crerem em seu nome” (A Santa Trindade). Ao tratar da onisciência de Deus, explica que Deus previu a queda e providenciou a salvação em Cristo antes da fundação do mundo (Apocalipse 13:8), e que “somos eleitos segundo a presciência de Deus” (1 Pedro 1:2). Quem rejeita Cristo fica sob o juízo, mas não por falta de boa vontade de Deus: “Em tudo que depende de Deus, Ele está sempre a favor de todos os homens” (Teologia Sistemática, cap. 2).

É a eleição condicional da tradição de Jacó Armínio: Deus decidiu salvar os que estão em Cristo pela fé e conhece de antemão quem vai crer, sem que essa presciência produza a decisão de cada um. Bergstén diz isso com as palavras do ensino popular: a presciência de Deus não interfere no livre-arbítrio do homem, e o Deus todo-poderoso limita o uso do seu poder para respeitar essa liberdade.

Essa linguagem do livre-arbítrio precisa ser lida dentro do quadro que ele mesmo dá. Na exposição da Trindade, Bergstén atribui toda a salvação a Deus: o Pai a planejou desde a eternidade, o Filho a realizou na cruz e o Espírito Santo a aplica, fazendo o pecador nascer de novo (João 3:6). No arminianismo clássico a liberdade de crer não é uma força natural que sobrou no ser humano depois da queda, mas a vontade libertada pela graça preveniente, a ação do Espírito que vem antes de qualquer resposta humana, convence do pecado e torna a pessoa capaz de crer, sem forçá-la. A fé que recebe a salvação não acrescenta mérito, como a mão vazia que aceita um presente. O site trata disso em A graça preveniente: a graça que vem antes.

A segurança da salvação

Um ponto pesava para a geração de Bergstén. No começo dos anos 1930, no Nordeste, depois que um deles leu um folheto calvinista, um grupo de obreiros brasileiros, entre eles Manoel Higino de Souza, passou a ensinar que quem aceita Cristo nunca pode perder a salvação e saiu da Assembleia de Deus para formar a Assembleia de Cristo. A grande maioria ficou com os missionários suecos, mas a divisão aconteceu. Por isso, quando Bergstén expunha a salvação, ele não parava na conversão: destrinchava a expiação, a justificação, a adoção e a glorificação, e tratava expressamente da perseverança dos santos e da segurança da salvação. A posição que ensinava é a das Assembleias de Deus, a perseverança condicional: o crente está seguro em Cristo enquanto permanece unido a ele pela fé, e a apostasia, o abandono consciente da fé, é uma possibilidade real contra a qual a Escritura adverte (Hebreus 3:12-14; 10:26-39). Veja A perseverança dos santos e Apostasia na Bíblia.

A Trindade e a Bíblia

O volume que dedicou a Deus resume o seu método. Ele parte do texto bíblico, encontra nele três pessoas, cada uma com personalidade própria, e conclui com a fórmula clássica: “Um só Deus em Três Pessoas Divinas e Três Pessoas Divinas num só Deus” (A Santa Trindade, 1989, p. 30). Depois mostra as três pessoas agindo juntas na criação, na salvação e na volta de Cristo. Num ambiente pentecostal em que também havia grupos unicistas, que negam a Trindade, esse ensino deu aos obreiros um vocabulário seguro para a doutrina. Veja também A Trindade.

A criação e a volta de Cristo

Dois pontos marcam a teologia dele em relação a outros mestres. Na criação, Bergstén ensinava a teoria da recriação, ou do intervalo: entre Gênesis 1:1 e 1:2 teria passado um tempo incalculável, em que Satanás caiu e a terra ficou “sem forma e vazia”; o relato dos seis dias seria, assim, o de uma recriação. Na escatologia, Bergstén era pré-milenista e dispensacionalista: a volta de Cristo teria duas fases, primeiro o arrebatamento invisível da Igreja antes da Grande Tribulação e, sete anos depois, a vinda visível com poder, para salvar Israel e reinar por mil anos. Ele considerava a distinção entre as duas fases necessária para entender as profecias. Ainda assim, a escatologia dos escandinavos era menos especulativa que a de muitos livros americanos da Guerra Fria.

Onde ele difere da nossa declaração de fé

Na salvação, a convergência com a declaração de fé do site é grande: a salvação pela graça mediante a fé, a substituição penal, a expiação por todos, a eleição em Cristo e a perseverança condicional. As diferenças estão nos pontos próprios do pentecostalismo assembleiano. Bergstén ensinava o batismo no Espírito Santo como experiência posterior à conversão, que Jesus deseja dar a todos os crentes, enquanto a nossa declaração entende a segunda obra da graça como a inteira santificação, recebida pela fé, na linha de John Wesley. E a escatologia dele, pré-milenista e com arrebatamento antes da tribulação, difere da nossa, que é amilenista.

Obras principais

  • Lições Bíblicas (CPAD): comentários de 35 revistas trimestrais de Escola Dominical, da década de 1950 à de 1990.
  • A Santa Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (CPAD, 1989), volume 3 da Nova Coleção Teológica da ESTEADEB.
  • Introdução à Teologia Sistemática (CPAD).
  • Teologia Sistemática (CPAD, 1999).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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