AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaTeólogos arminianos18 de 276

J. W. McGarvey: O professor de Lexington que ensinou a história sagrada a uma geração de pregadores

Diego Gonçalves13 min de leitura2.601 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Certa vez, em Dover, no Missouri, os negros da cidade caminhavam para o culto quando homens armados apareceram a cavalo diante da igreja e os mandaram voltar com ameaças violentas. Outros brancos saíram em defesa deles. O pastor, um homem baixo e de cabelo escuro, se pôs entre eles e falou até que ambos se retirassem e o deixassem, como anotou nas memórias, com a sua “audiência negra”. Era John William McGarvey, que depois passaria quase meio século ensinando a Bíblia a pregadores em Lexington, no Kentucky, como uma das vozes mais conhecidas do conservadorismo bíblico entre os Discípulos de Cristo.

Retrato de J. W. McGarvey em 1904
J. W. McGarvey em 1904, fotógrafo desconhecido, em John T. Brown, Churches of Christ (Louisville, 1904). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Infância e conversão em Bethany

McGarvey nasceu em 1º de março de 1829, em Hopkinsville, no Kentucky. O pai, imigrante irlandês, morreu em 1833. A mãe, Sarah Ann Thomson, tinha sido aluna de Barton W. Stone quando menina. Casou-se de novo com o médico Gurdon F. Saltonstall, que não queria criar os filhos num estado escravista e em 1839 levou a família para Tremont, em Illinois.

O menino cresceu ouvindo que a pessoa está salva no momento em que crê, e aquilo o inquietava. Anos depois repetia o que dizia a si mesmo naquele tempo: “Creio em Cristo tanto quanto aquele pregador, mas não estou salvo”. Em abril de 1847 entrou no Bethany College, a escola de Alexander Campbell, na Virgínia, e as preleções bíblicas que Campbell dava todas as manhãs foram para ele o centro da vida no colégio. Ali entendeu com clareza o caminho da salvação, disse, e em abril de 1848 foi imerso pelo professor W. K. Pendleton. Decidiu que, se até a formatura aprendesse a falar em público, tomaria isso como chamado para pregar. Formou-se em 4 de julho de 1850, entre os primeiros da turma, com o discurso em grego da cerimônia.

Pastor no Missouri durante a guerra

Depois de dirigir por dez meses uma escola de meninos em Fayette, no Missouri, foi chamado ao ministério pela igreja da cidade em setembro de 1852. No começo de 1853 mudou-se para Dover, como pastor de tempo integral, e em março casou-se com Otwayana Frances Hix, a “Ottie”, com quem teve oito filhos. Em nove anos de Dover percorreu o Missouri pregando, sustentou cinco debates públicos com presbiterianos, metodistas e universalistas, escreveu para a American Christian Review e para o Millennial Harbinger de Campbell e começou o comentário de Atos que lhe daria nome. A sua relação com a escravidão foi ambígua: ele mesmo possuía dois escravos, a quem chamava de “servos”.

Na Guerra Civil, McGarvey se opôs à secessão e também à guerra para impedi-la, e sustentou em sermões e artigos que pegar em armas contrariava o ensino de Cristo e dos apóstolos. Num Missouri dividido, isso soava como traição, e os seus escritos sofreram censura, mas ele não recuou.

Lexington e o Colégio da Bíblia

Na primavera de 1862 sucedeu W. H. Hopson no púlpito da igreja cristã da Main Street, em Lexington, e manteve unida uma congregação rachada pela guerra, cujo prédio serviu de hospital militar aos dois exércitos. Em 1863 saiu o Commentary on Acts of Apostles, terminado em plena guerra.

Em 1865 a Kentucky University se mudou para Lexington e criou o College of the Bible (Colégio da Bíblia), para formar pregadores, com Robert Milligan na presidência e McGarvey na cadeira de história sagrada. Em 1867 deixou o púlpito para estudar, mas em 1870 foi o primeiro pastor da nova igreja da Broadway, até 1882. Com Moses E. Lard, Robert Graham e outros fundou o semanário The Apostolic Times (1869-1876).

A carreira quase terminou em 1873. McGarvey criticou pelos jornais o regente John B. Bowman, que governava a universidade quase sozinho, por deixar de lado os interesses dos Discípulos, e em setembro a maioria dos curadores o tirou da cátedra. Cento e oitenta e uma igrejas pediram a sua volta, e ele foi restituído em 1875, mas o Colégio da Bíblia continuou quase parado. Os Discípulos do Kentucky criaram então um colégio independente, com Graham na presidência e McGarvey e I. B. Grubbs como professores, que abriu em 1877 no porão da igreja da Main Street e depois ganhou prédio no campus da Transylvania, com o interior desenhado por McGarvey.

O professor de história sagrada

McGarvey quis que os alunos, muitos vindos do interior, conhecessem antes de tudo a narrativa bíblica. Recitava de memória o trecho do dia, dava uma lista de perguntas e, na aula seguinte, os alunos respondiam. Guardava as perguntas em cadernos pretos e revisava um curso por ano; em 1893 as Class Notes on Sacred History já estavam na sétima revisão.

Em 1879 viajou pelo Egito, Sinai, Palestina, Síria, Ásia Menor e Grécia, para ensinar a história sagrada com a geografia diante dos olhos. Anotava cada lugar enquanto o via, e dessas notas saiu Lands of the Bible (1881), que vendeu 15 mil exemplares na primeira tiragem e foi usado por muitos anos em colégios e seminários. Em agosto de 1887, num domingo em que ele participava de uma ordenação em Mayslick, a casa pegou fogo, e perderam-se a biblioteca, as cartas, os diários e boa parte dos manuscritos, entre eles o volume sobre a inspiração do Novo Testamento, que ele refez e publicou em 1891. Em 1895 sucedeu Graham na presidência do Colégio da Bíblia, até a morte.

Contra a alta crítica

Em 1893 McGarvey abriu no Christian Standard uma página semanal de “Crítica Bíblica”, que manteve por quase duas décadas. O alvo era a alta crítica, que dividia o Pentateuco entre fontes tardias, datava o Deuteronômio no tempo de Josias e punha Daniel no século II antes de Cristo. Ele aceitava a crítica textual, que busca o texto original, mas via nessa outra um ataque à autoridade da Bíblia e chamou os seus defensores de “inimigos da Bíblia”. Em palestras sobre o Pentateuco, expunha primeiro os críticos, com a Introdução ao Antigo Testamento de S. R. Driver nas mãos, e depois examinava cada passagem; um dos argumentos era que Jesus e os apóstolos tinham Moisés por autor da Lei.

O tom cáustico da página acirrou a disputa entre os Discípulos, e um dos alvos foi Herbert L. Willett, da Universidade de Chicago. O próprio biógrafo de McGarvey, W. C. Morro, reconheceu que poucos estudiosos foram conquistados por ela. McGarvey considerava The Authorship of the Book of Deuteronomy (1902) a sua obra maior: se os críticos errassem a data do Deuteronômio, pensava, toda a construção deles cairia.

O órgão e os últimos anos

Desde 1864, num debate com A. S. Hayden no Millennial Harbinger, McGarvey sustentou que os instrumentos musicais no culto não têm autorização no Novo Testamento. Já a cooperação das igrejas em sociedades missionárias ele defendia como questão de conveniência, o que o deixou entre os dois grupos que mais tarde se separariam. Quando a igreja da Broadway decidiu pôr um órgão, pediu que esperassem a sua morte. A igreja não esperou, e ele se transferiu para a congregação da Chestnut Street, que cantava sem instrumentos.

No último ano deixou as aulas, mas avisou que continuariam a vê-lo pelo colégio enquanto vivesse. Morreu em casa, em Lexington, na noite de 6 de outubro de 1911, aos 82 anos, dizendo: “Ó Senhor, eu vou, eu vou”. A esposa morreu poucas semanas depois. O Colégio da Bíblia é hoje o Lexington Theological Seminary, e os livros de McGarvey continuam a ser lidos nas igrejas cristãs independentes e nas igrejas de Cristo sem instrumentos.

Pensamento

McGarvey é um simpatizante do arminianismo, e não um arminiano clássico. Como todo o movimento de Stone e Campbell, recusava credos e nomes de partido e se apresentava só como intérprete do Novo Testamento. Nos pontos que separam calvinistas e arminianos, a sua exegese fica do lado arminiano: a eleição não escolhe indivíduos sem condição, a graça pode ser recusada e a salvação é recebida pela fé. Mas ele prendeu a obra do Espírito à Palavra pregada e deu pouco espaço à incapacidade humana, e nisso se afasta de Armínio e de John Wesley, como outros autores do mesmo movimento, B. W. Johnson e Jack Cottrell.

A eleição em Atos 13:48

O texto calvinista mais citado em Atos é Atos 13:48: “creram todos quantos estavam ordenados para a vida eterna”. No comentário de 1863, McGarvey argumenta que o verbo grego tasso é genérico, algo como “pôr em ordem”, e nunca é usado no Novo Testamento para a predestinação. Traduz: os que “estavam decididos para a vida eterna”. Paulo acabara de dizer aos judeus que eles mesmos se julgavam indignos da vida eterna, e Lucas põe uma atitude diante da outra. Pela leitura calvinista, todos os que não creram naquele dia, crianças inclusive, seriam réprobos, conclusão “tão anômala” que só se aceitaria se o texto a impusesse. A decisão foi deles, mas não sem Deus: “embora fosse um ato da mente deles decidir-se pela vida eterna, foi Deus quem os levou a isso”, enquanto os outros rejeitaram a mesma influência divina.

A frase mostra a graça que vem antes e pode ser recusada, que é a convicção arminiana. A diferença está no modo como essa influência chega. Sobre Lídia, “cujo coração o Senhor abriu” (Atos 16:14), McGarvey nega que o Espírito tenha agido diretamente no coração dela: a causa conhecida é a pregação de um apóstolo inspirado, cujas palavras levavam o poder do Espírito, e supor outra influência seria “inteiramente gratuito e ilógico”.

Fé, condições e a distância de Armínio

Nos Sermões pregados em Louisville em 1893, a fé nasce sempre da palavra de Deus: Abel, Noé e Abraão creram porque Deus lhes falou. No sermão “Condições do perdão”, sobre Atos 2:37-41, McGarvey ensina que o pecador não pode expiar os próprios pecados, “isso Jesus fez por ele”, mas precisa cumprir as condições postas por Deus para receber o benefício do sangue derramado: crer, arrepender-se e ser batizado. “Ao sermos salvos pela graça de Deus”, diz, “devemos agarrar a ajuda que Deus nos estende do céu.” E critica a pregação que diz ao pecador que ele nada pode fazer.

O arminianismo clássico também nega salvação sem fé, mas começa antes. Para Armínio, a vontade caída está morta para o bem, e só a graça preveniente, a obra do Espírito que vem antes de qualquer resposta, a liberta para que a pessoa possa crer; essa graça age onde a Palavra é pregada, mas não depende dela (ver a Declaração de Sentimentos). McGarvey chega à mesma conclusão prática, de que todos podem crer, pela suficiência do testemunho bíblico, como Stone antes dele.

O testemunho do Espírito e o Espírito que habita

No sermão “O testemunho do Espírito” (1868), sobre Romanos 8:16, McGarvey observa que muitos cristãos sinceros vivem só com a esperança de estar salvos, enquanto os apóstolos não mostram essa dúvida. A certeza é questão de fato: o Espírito descreve nas Escrituras, o seu testemunho escrito, como é um filho de Deus, e a consciência do crente diz como ele é. Quando os dois testemunhos coincidem, a conclusão é certa: quem se examina procura os frutos do Espírito, e não “sussurros misteriosos”.

Wesley também falava desse testemunho indireto, mas afirmava ainda um testemunho direto, pelo qual o Espírito assegura ao crente que ele é filho de Deus (ver regeneração, adoção e certeza da salvação), e McGarvey o recusava. Ele não negava a presença do Espírito: em “O Espírito que habita” (1883), ensina que o dom prometido em Atos 2:38 vale para todos os cristãos, que o Espírito habita no corpo do crente e produz o seu fruto com a cooperação da vontade dele. Como, não pretendia explicar: “Posso crer no fato, e creio, mas não posso conhecer o processo”.

A Escritura e as diferenças com o site

McGarvey cria na inspiração verbal, na autoria mosaica do Pentateuco e na exatidão histórica dos relatos bíblicos. Nisso está perto da declaração de fé deste site, que confessa a Bíblia como autoridade final, sem erro nos escritos originais (ver a doutrina da Escritura). As diferenças também são claras: o site confessa a graça preveniente do Espírito em todas as pessoas, antes da fé; entende o batismo como testemunho que segue a conversão e aceita a aspersão (ver batismo por aspersão ou imersão), enquanto McGarvey ensinava a imersão dos que creem para a remissão dos pecados; e afirma o testemunho direto do Espírito. Em comum ficam a morte de Cristo por todos, a eleição que não anula a resposta humana, a graça que pode ser recusada e a confiança na Escritura.

Obras principais

  • A Commentary on Acts of Apostles (1863; New Commentary on Acts of Apostles, 1892).
  • Lands of the Bible (1881).
  • Evidences of Christianity: Text and Canon of the New Testament (1886) e Credibility and Inspiration of the New Testament (1891).
  • Class Notes on Sacred History (4 volumes, 1893-1894).
  • Sermons Delivered in Louisville, Kentucky (1894).
  • Jesus and Jonah (1896).
  • The Authorship of the Book of Deuteronomy (1902).
  • Short Essays in Biblical Criticism (1910).
  • The Fourfold Gospel (1914, com Philip Y. Pendleton).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

140pal/min