
HistóriaTeólogos arminianos2 de 276
Lancelot Andrewes: O pregador da corte que contestou os Artigos de Lambeth
Neste texto
- Vida
- Londres e Cambridge
- St Giles, Pembroke e Westminster
- Os Artigos de Lambeth
- Hampton Court, a Bíblia e o bispado
- Os últimos anos
- Pensamento
- Onde Andrewes fica no arminianismo
- O parecer sobre Lambeth
- A justiça que vem de fora
- Perseverar até o fim
- Sacramentos, liturgia e autoridade
- Herança e diferenças com o site
- Obras principais
- Para aprofundar
Na quarta-feira, 6 de março de 1594, a rainha Elizabeth ouvia no palácio de Hampton Court um sermão sobre um versículo curto: “Lembrai-vos da mulher de Ló” (Lucas 17:32). O pregador explicou que Sodoma representava o pecador que nunca se arrependeu, mas a mulher de Ló era outra coisa: alguém que já tinha saído da cidade, que andava havia anos no caminho certo e que se perdeu olhando para trás. “A perseverança é a única virtude coroada”, disse ele, e advertiu que todo desânimo é o passo que vem antes do abandono. O pregador era Lancelot Andrewes, então diretor do Pembroke Hall, em Cambridge, e vigário de St Giles, em Londres. No ano seguinte, quando o arcebispo de Cantuária aprovou nove artigos de predestinação absoluta, Andrewes escreveu contra eles a crítica que fez dele um dos pais do arminianismo anglicano.
Vida
Londres e Cambridge
Lancelot Andrewes nasceu em 1555, na paróquia de All Hallows Barking, junto à Torre de Londres. O pai, Thomas Andrewes, passou a maior parte da vida no mar e chegou a mestre da Trinity House, a corporação dos marinheiros e pilotos de Londres; a mãe chamava-se Joan.
Estudou na escola dos Merchant Taylors, com Richard Mulcaster, e em 1571 entrou no Pembroke Hall, em Cambridge, com uma das bolsas criadas por Thomas Watts para o estudo do grego. Em 1576 foi eleito membro (fellow) do colégio e, em 1578, recebeu o grau de mestre.
Henry Isaacson, que trabalhou na casa dele e escreveu a primeira biografia (1650), conta que ele ia todo ano a pé de Cambridge a Londres para visitar os pais e que a única recreação dele era caminhar. As manhãs eram do estudo e da oração, e ele dizia que quem vinha falar com ele antes do meio-dia não era um estudioso de verdade. Aprendeu latim, grego, hebraico, caldeu, siríaco e árabe, e os contemporâneos lhe atribuíam cerca de quinze línguas modernas.
Foi ordenado presbítero em 11 de junho de 1580 e, no mesmo ano, tornou-se catequista do Pembroke. Aos sábados e domingos, às três da tarde, explicava os Dez Mandamentos, e estudantes de outros colégios e gente do campo vinham ouvi-lo. Em 1586 Henry Hastings, conde de Huntingdon e presidente do Conselho do Norte, o levou como capelão para o Norte, onde Andrewes pregou e discutiu com católicos recusantes, os que se negavam a frequentar a Igreja da Inglaterra.
St Giles, Pembroke e Westminster
Em 1588 recebeu a paróquia de St Giles, Cripplegate, em Londres, e no ano seguinte foi feito cônego de São Paulo e diretor (master) do Pembroke, cargo que manteve até 1605 e que lhe custou mais do que lhe rendeu. Pregava em St Giles e dava aulas em São Paulo, três vezes por semana durante o período letivo, um esforço que quase lhe custou a vida. Socorria os pobres e os presos da paróquia, sempre exigindo que o nome dele ficasse escondido.
Foi capelão do arcebispo John Whitgift e um dos doze capelães ordinários da rainha. Em 1598 recusou os bispados de Salisbury e de Ely, porque a nomeação vinha ligada à entrega de parte das rendas da diocese a leigos, e ele não aceitava alienar bens da igreja. Em 1601 tornou-se deão de Westminster. Ali ensinava ele mesmo os meninos da escola da abadia.
Os Artigos de Lambeth
Os sermões mais antigos de Andrewes, do tempo de Huntingdon, supõem a predestinação calvinista que era a regra entre os protestantes ingleses, mas nos anos 1590 ele deixou de pregar sobre ela e passou a insistir na perseverança na fé e nas boas obras. Em novembro de 1595 Whitgift aprovou em Lambeth nove artigos redigidos por William Whitaker: Deus predestinou alguns para a vida e reprovou outros, o número dos eleitos é fixo, a graça salvadora não é dada a todos e a fé dos justificados nunca se apaga. A rainha desaprovou a iniciativa, e os artigos não se tornaram doutrina oficial.
Andrewes foi chamado a dar o seu parecer e o fez artigo por artigo, num texto latino que foi impresso em 1651 e entrou em 1700 na Defesa dos Trinta e Nove Artigos de John Ellis. O conselho final foi pedir “um silêncio fiel” dos dois lados da disputa.
Hampton Court, a Bíblia e o bispado
Jaime I, rei desde 1603, deu a Andrewes a sua confiança. Andrewes participou da Conferência de Hampton Court em 1604 e foi posto em primeiro lugar na lista dos tradutores da Bíblia do rei Jaime, publicada em 1611. Dirigiu a primeira companhia de Westminster, que traduziu de Gênesis a 2 Reis e onde trabalhou também o seu colega de Cambridge John Overall.
Foi sagrado bispo de Chichester em 3 de novembro de 1605, dois dias antes da data marcada para a explosão da Conspiração da Pólvora, e tornou-se esmoler do rei, função que o punha com frequência no púlpito da corte. Em 1606, no primeiro aniversário da conspiração, pregou diante do rei o sermão que ajudou a fixar a celebração anual do 5 de novembro.
Em 1609 passou para o bispado de Ely e entrou no Conselho Privado da Inglaterra. No mesmo ano, a pedido do rei, respondeu ao cardeal Roberto Belarmino, que atacara o juramento de fidelidade exigido dos católicos depois da Conspiração da Pólvora: escreveu Tortura Torti (1609) e Responsio ad Apologiam Cardinalis Bellarmini (1610). Em 1613, quando Hugo Grócio veio à Inglaterra em missão diplomática, conversou com Andrewes e Overall, e Andrewes saiu do encontro impressionado com o holandês, que considerava uma autoridade na doutrina da predestinação.
Em 1617 acompanhou Jaime à Escócia para defender ali o governo por bispos e entrou também no Conselho Privado escocês. Em 1619 foi transferido para Winchester e feito deão da Capela Real. No sinete episcopal mandou gravar a pergunta de Paulo: “E para estas coisas quem é idôneo?” (2 Coríntios 2:16).
Os últimos anos
Andrewes nunca se casou. Isaacson e John Buckeridge, bispo de Rochester, contam que ele passava boa parte do dia em oração, cerca de cinco horas, muitas vezes com lágrimas. No testamento deixou 4.000 libras para uma renda anual destinada a marinheiros idosos, viúvas pobres, órfãos e presos.
A morte dos irmãos, sobretudo de Nicholas, levado pela peste, ele tomou como aviso da sua. Na última febre orou em voz alta enquanto pôde, depois só com os olhos e as mãos e, no fim, em silêncio. Morreu na segunda-feira, 25 de setembro de 1626, por volta das quatro da manhã, na casa dos bispos de Winchester em Southwark, aos 71 anos. Foi sepultado na igreja de St Saviour, hoje catedral de Southwark, e Buckeridge pregou no enterro.
Pouco depois, William Laud e Buckeridge publicaram, por ordem de Carlos I, 96 sermões dele organizados pelo calendário litúrgico. O volume fez de Andrewes o patrono do partido de Laud, e os puritanos responderam imprimindo os textos mais antigos e mais calvinistas dele. Antes de morrer, Andrewes deu a Laud uma cópia das orações que escrevera para si em grego, hebraico e latim, um manuscrito gasto pelo uso. Elas saíram em inglês em 1648, na tradução de Richard Drake, e como Preces privatae tornaram-se um clássico da devoção anglicana, depois traduzidas também por John Henry Newman (1840). O poeta T. S. Eliot, admirador dos sermões dele, abriu o poema A viagem dos magos (1927) com uma frase tirada do sermão de Natal de 1622: “A cold coming they had of it”, uma vinda fria a deles.
Pensamento
Onde Andrewes fica no arminianismo
Andrewes é um simpatizante e precursor do arminianismo anglicano. Rejeitou nos pontos centrais o calvinismo de Lambeth: pôs a reprovação na conta do pecado, atribuiu à vontade corrompida, e não ao decreto de Deus, a razão de alguns não virem a Cristo, preferiu a certeza da esperança à certeza da fé sobre a própria salvação e pregou que quem começou bem pode cair. A geração de Laud e de Henry Hammond o tomou como referência, e os historiadores o contam entre os precursores do arminianismo inglês. Mas Andrewes manteve uma predestinação de um número certo de pessoas, fundada no beneplácito de Deus em Cristo, na linha de Agostinho tal como Tomás de Aquino a ajustou. A distância em relação ao arminianismo clássico está aí: para Jacó Armínio, Deus elege os que ele prevê que crerão e perseverarão.
O parecer sobre Lambeth
No primeiro artigo, Andrewes aceita que Deus escolheu “não todos os homens do mundo, mas só alguns”, e acrescenta que a reprovação deve ser explicada como reprovação por causa dos pecados. No segundo, pede que a causa da predestinação seja “o beneplácito de Deus em Cristo”, porque o próprio Cristo foi predestinado primeiro, e adverte contra a expressão “vontade só”, porque “a vontade de Deus que se agrada é condicional”. Não separa a presciência da predestinação, e não condena os pais da igreja que ensinaram que somos eleitos segundo uma fé prevista.
Sobre a perseverança, admite que a fé não falha de modo final nos eleitos, mas por causa da pessoa, e não da natureza da fé. Em lugar da “certeza da fé” sobre a salvação, prefere falar de persuasão e de “plena certeza da esperança”. No sétimo artigo, que negava a graça salvadora a todos, responde que a graça é oferecida a todos e resume: “a graça não nos falta; somos nós que faltamos a ela”. No oitavo, diz que a causa de nem todos serem atraídos a Cristo “é a vontade corrompida dos homens”. No nono, que a salvação não está no poder de ninguém, “a não ser que lhe seja dado do alto”, e que a vontade, redimida pelo Filho, tem sob a graça um poder subordinado.
O ponto de partida é o da Reforma e do arminianismo clássico: a vontade caída não salva a si mesma, e só a graça a liberta. O que Andrewes recusa é a outra metade do sistema de Lambeth, a que faz da reprovação e da incredulidade efeitos de um decreto absoluto.
A justiça que vem de fora
Andrewes defendeu a justificação pela fé com a mesma firmeza dos reformadores. Num sermão pregado em Whitehall em 23 de novembro de 1600, sobre Jeremias 23:6, “o Senhor, justiça nossa”, ele argumenta que o nome tem de ser guardado inteiro. Diante do tribunal de Deus, a justiça do próprio crente é imperfeita demais para resistir a um julgamento rigoroso: “é outra justiça, e não essa, que tem de absolvê-lo”. Roma, diz ele, aceita a justiça de Cristo imputada para satisfazer pelo pecado, mas exige mérito próprio para a recompensa, e assim encolhe o nome pela metade. A vida santa é real e necessária, mas nasce da justiça que Cristo dá e não toma o lugar dela. É o que Armínio e John Wesley diriam depois.
Perseverar até o fim
O sermão de 1594 sobre a mulher de Ló mostra a outra face do anticalvinismo de Andrewes. A advertência de Cristo, diz ele, foi feita para quem já deixou o pecado, e a mulher de Ló é o retrato de quem era justo e estava a caminho da salvação. Ela se cansou, ficou para trás, sentiu saudade de Sodoma e preferiu “o conforto de Sodoma à segurança de Zoar”. O remédio é o sal: vigilância e temor contra a falsa segurança, porque “vemos o nosso começo, mas não vemos o nosso fim”. É a perseverança condicional dos arminianos, apresentada como exortação pastoral, e não como tese de escola.
Sacramentos, liturgia e autoridade
Andrewes tinha uma visão alta dos sacramentos, mais alta que a de Richard Hooker. Ensinava a presença real de Cristo na Ceia, sem querer definir o modo, como não se define o modo da encarnação, aceitava falar em sacrifício e em altar, ensinava a absolvição pelo sacerdote e insistia em que se comungasse e orasse de joelhos. Atribui-se a ele a fórmula que resume a autoridade na tradição anglicana: um cânon, dois Testamentos, três credos, quatro concílios gerais e os cinco primeiros séculos da igreja.
Herança e diferenças com o site
Por meio de Laud, de Buckeridge e de Hammond, a linha de Andrewes passou ao partido que dominou a Igreja da Inglaterra sob Carlos I e voltou com a Restauração. O livro de Ellis, com os pareceres de Andrewes e de Overall sobre Lambeth, era leitura em Oxford no tempo de John e Charles Wesley. Com a declaração de fé deste site, Andrewes concorda na incapacidade da vontade sem a graça, na justificação pela justiça imputada de Cristo, na graça oferecida a todos e na possibilidade de cair. Difere em três pontos: a predestinação de um número certo por beneplácito, onde o site afirma a eleição condicional em Cristo; a presença real e o caráter de sacrifício da Ceia, que o site entende como memorial; e o batismo de crianças, onde o site batiza depois da conversão.
Obras principais
- Parecer sobre os Artigos de Lambeth (escrito em 1595, impresso em 1651; tradução inglesa em John Ellis, A Defence of the Thirty-Nine Articles, 1700).
- A Sermon of Justification, sobre Jeremias 23:6 (Whitehall, 1600).
- Tortura Torti (1609).
- Responsio ad Apologiam Cardinalis Bellarmini (1610).
- XCVI Sermons (edição de William Laud e John Buckeridge, publicada depois da morte do autor).
- Preces privatae (tradução inglesa de Richard Drake, 1648).
- A Pattern of Catechistical Doctrine (aulas sobre os Dez Mandamentos, 1650).
- Apospasmatia sacra (aulas sobre Gênesis, 1657).
Para aprofundar
- John Henry Overton, Andrewes, Lancelot, Dictionary of National Biography, volume 1 (1885), no Wikisource.
- Henry Isaacson, An Exact Narration of the Life and Death of Lancelot Andrewes (1650), Project Canterbury.
- John Buckeridge, sermão no enterro de Lancelot Andrewes, em Works, volume 5, Project Canterbury.
- Arthur T. Russell, Memoirs of the Life and Works of Lancelot Andrewes (Cambridge, 1863), capítulo IV, sobre os Artigos de Lambeth.
- John Ellis, A Defence of the Thirty Nine Articles of the Church of England (Londres, 1710), com o parecer de Andrewes sobre Lambeth.
- Lancelot Andrewes, sermão sobre Lucas 17:32 (Hampton Court, 1594), em Works, volume 2, Project Canterbury.
- Lancelot Andrewes, A Sermon of Justification (Whitehall, 1600), em Works, volume 5, Project Canterbury.
- Henry Barclay Swete, introdução às Devotions of Bishop Andrewes (1917), CCEL.
- Eamon Duffy, Hew their bones in sunder, London Review of Books, 28, n. 15 (2006), resenha de Peter McCullough (org.), Lancelot Andrewes: Selected Sermons and Lectures (Oxford, 2005).
- Westminster Abbey, Lancelot Andrewes.
- Andrew V. Sullivan, The Arminian Roots of John and Charles Wesley, Society of Evangelical Arminians.
- Lancelot Andrewes, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Anglicanismo