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Keith D. Stanglin: o historiador que devolveu Armínio às suas próprias fontes
Em agosto de 2016, um professor de teologia do Texas passou onze dias no Brasil e falou em igrejas de quatro cidades, para plateias formadas sobretudo por membros e líderes das Assembleias de Deus. Keith D. Stanglin dava duas palestras, uma sobre a vida e o pensamento de Jacó Armínio e outra sobre a perseverança e a apostasia na teologia dele, e ao seu lado Wellington Mariano passava cada frase para o português. Mariano tinha traduzido o livro que motivou a viagem, Jacó Armínio: teólogo da graça, escrito por Stanglin com Thomas McCall. Na volta, Stanglin escreveu que talvez nenhum outro país tenha tantos cristãos interessados no arminianismo e dispostos a se chamar arminianos. Poucos estudiosos vivos leram tanto do próprio Armínio, no latim das disputas de Leiden, quanto ele.
Vida
Formação
Keith Douglas Stanglin pertence às Igrejas de Cristo, congregações do Movimento de Restauração, ou Stone-Campbell, nascido nos Estados Unidos no começo do século XIX para deixar os credos e restaurar a igreja do Novo Testamento. Formou-se em 1998 na Oklahoma Christian University e concluiu em 2001 o mestrado em divindade (M.Div.) na escola de pós-graduação em religião da Harding University, hoje Harding School of Theology. Ali foi, durante vários anos, assistente de John Mark Hicks, a quem agradeceu publicamente, em 2009, por tê-lo levado a se aprofundar na teologia histórica.
O doutorado foi feito no Calvin Theological Seminary, em Grand Rapids, no Michigan, o seminário da Igreja Cristã Reformada. Stanglin passou ali quatro anos e concluiu em 2005 o Ph.D. em teologia histórica da Reforma e da pós-Reforma. Diz ter orgulho da escola, embora as doutrinas reformadas nunca o tenham atraído. Serviu em equipes ministeriais de igrejas no Oklahoma, no Tennessee, no Michigan, no Arkansas e no Texas, e ensina em faculdades e seminários desde 2004.
Armínio no latim de Leiden
A tese virou livro em 2007: Arminius on the Assurance of Salvation, publicado pela Brill, de Leiden. O tema é a certeza da salvação, isto é, como o crente sabe que é salvo, no debate de 1603 a 1609, quando Armínio ensinava em Leiden e discutia com o colega Francisco Gomaro. Stanglin trabalhou sobre disputas acadêmicas nunca traduzidas, traduziu de novo o latim de Armínio, corrigiu a tradução inglesa clássica dos Nichols e comparou Armínio com Gomaro, com os outros professores de Leiden e com o puritano William Perkins.
Stanglin ensinou depois teologia histórica na Harding University, em Searcy, no Arkansas. Em outubro de 2009, quarto centenário da morte de Armínio, a Universidade de Leiden reuniu estudiosos num congresso, e os trabalhos saíram no volume Arminius, Arminianism, and Europe (Brill, 2009), que ele organizou com Th. Marius van Leeuwen e Marijke Tolsma, do Seminário Remonstrante. Escreveu ali um panorama da pesquisa sobre Armínio e, com o historiador reformado Richard Muller, uma bibliografia comentada de todas as obras dele. Em 2010 publicou The Missing Public Disputations of Jacobus Arminius (Brill), com o texto latino das disputas públicas que tinham ficado fora das obras reunidas de Armínio, e defendeu que ele foi o autor principal desses textos, que eram sustentados em público por alunos.
Austin, Oxford e o Brasil
Em 2012 Stanglin tornou-se professor associado de Escritura e teologia histórica na Austin Graduate School of Theology, no Texas, escola das Igrejas de Cristo, onde coordenou o mestrado e editou a revista Christian Studies. No mesmo ano a Oxford University Press publicou Jacob Arminius: Theologian of Grace, escrito com o teólogo metodista Thomas H. McCall como complemento à biografia de Carl Bangs (1971): Bangs contou a vida, e eles expõem a teologia. William Klein, do Denver Seminary, o achou revelador para quem só conhecia Armínio pelos críticos. Em 2014 Stanglin organizou com Mark Bilby e Mark Mann Reconsidering Arminius (Kingswood Books), com ensaios de Muller, McCall, W. Stephen Gunter, Oliver Crisp e Hicks, e publicou pela Fortress Press uma antologia de textos da teologia cristã, da Reforma ao século XX. Em 2015 respondeu a uma série de perguntas de Ben Witherington III sobre Armínio.
A viagem ao Brasil, em 2016, veio a convite de Carol Dias, fundadora da Editora Reflexão, que naquele ano lançou Jacó Armínio: teólogo da graça e Perseverança dos santos, um livro curto de Stanglin para a Coleção Arminianismo, reeditado em 2021 na fase coordenada por Vinicius Couto. Em 2022 a Editora Carisma publicou Jacó Armínio e o reexame de sua teologia, tradução de Reconsidering Arminius. A história dessa onda está em tradição arminiana de Armínio a Wesley.
Erudição para a igreja
Em 2018 saiu pela Baker Academic The Letter and Spirit of Biblical Interpretation, uma história da interpretação bíblica da Igreja antiga ao método histórico-crítico. Com McCall escreveu ainda After Arminius (Oxford, 2020-2021), que acompanha a teologia arminiana depois do fundador: os remonstrantes, como Simão Episcópio e Filipe van Limborch, o arminianismo inglês, John Wesley e os metodistas do século XIX, como Richard Watson, William Burt Pope e John Miley.
No outono de 2021, Stanglin e Todd Hall fundaram em Austin o Center for Christian Studies, organização sem fins lucrativos dirigida por membros das Igrejas de Cristo, que produz cursos, seminários e publicações para professores de escola bíblica, a partir de 2 Timóteo 2:2: formar quem vai ensinar outros. Stanglin é o diretor executivo e edita o Journal of Christian Studies. Vieram depois Ethics beyond Rules (Zondervan, 2021) e Super-Abundant Grace (Cascade, 2022), sobre Romanos. Ensinou teologia na Heritage Christian University, em Florence, no Alabama, e hoje é professor de teologia histórica na Harding School of Theology. Desde 2024 é o pregador da University Avenue Church of Christ, em Austin. É casado com Amanda e tem três filhos adultos.
Pensamento
Stanglin é um arminiano clássico: defende a soteriologia do próprio Armínio e da Remonstrância, como historiador e como pastor. Nos artigos que escreveu para o blog da Austin Graduate School of Theology, republicados em 2018 pela Society of Evangelical Arminians, ele rejeita a eleição incondicional e a graça irresistível, afirma o amor de Deus por todas as pessoas e sustenta que “os arminianos podem ter uma segurança da salvação maior” que os calvinistas (“Calvinism and the Assurance of Salvation”). Faz isso dentro de uma tradição que nunca adotou o nome: Alexander Campbell, um dos pais do Movimento de Restauração, recusou o rótulo de arminiano, e Stanglin estudou a crítica de Campbell ao arminianismo no Stone-Campbell Journal.
Armínio, teólogo da graça
A tese do livro com McCall está no título. Armínio foi acusado durante quatro séculos de pôr o livre-arbítrio no centro da salvação. Lendo os textos dele em latim e holandês, os autores concluem que “ele não era inimigo da graça” (p. 22): Armínio afirmou sempre que a graça é necessária e suficiente para a salvação. O ponto de partida é a criação. Deus ama a criatura e ama a justiça, e “livremente, e não por necessidade, obrigou-se à criação e pôs limites às próprias ações” (p. 93). A predestinação e a salvação saem desse duplo amor.
A Witherington, Stanglin explicou por que Armínio foi chamado de semipelagiano: desde meados do século XVI, qualquer protestante que desse ao ser humano algum papel na salvação, mesmo atribuindo a iniciativa a Deus, recebia esse rótulo. O critério que separa Armínio do semipelagianismo, diz ele, é o initium fidei, o começo da fé, que para Armínio está em Deus. Foi o mesmo argumento que ele usou contra Richard Muller, quando este aproximou Armínio do nominalista Gabriel Biel (graça preveniente em Armínio): o ser humano só responde porque a graça veio antes. Graça preveniente é essa graça que precede qualquer resposta, liberta a vontade e torna possível crer, e Stanglin entende que em Armínio ela está ao alcance de todos.
Há uma diferença de leitura entre Stanglin e o guia doutrinário deste site. Stanglin e McCall sustentam que Armínio adotou a “ciência média” de Luis de Molina, o conhecimento que Deus tem do que cada criatura faria livremente em qualquer circunstância. A tese de Abner Hernández (2017), que o site segue, insiste que a graça preveniente em Armínio liberta uma vontade perdida, e não apenas auxilia uma vontade fraca, como no modelo de Molina. No essencial os dois lados concordam: a salvação começa em Deus, a vontade caída não se move sozinha para o bem e a graça pode ser recusada. Stanglin também está com a declaração de fé do site no teísmo clássico: Armínio afirmava a liberdade humana sem negar a presciência de Deus e considerava blasfema a negação da imutabilidade divina, que o teísmo aberto hoje propõe.
Entre o desespero e a presunção
Para Stanglin, a segurança da salvação é “o ponto de partida e o objetivo final” do sistema de Armínio (Arminius on the Assurance of Salvation, 2007). A origem está no pastorado em Amsterdã, entre 1588 e 1603, quando Armínio viu crentes piedosos morrerem de peste sem certeza de salvação e viu outros, que se diziam eleitos, viverem descuidados no pecado. A doutrina reformada da predestinação, segundo Stanglin, alimentava os dois males.
O desespero vinha de três ensinos. O primeiro fazia da certeza (fiducia) parte da própria fé, e quem duvidava concluía que não tinha fé; Armínio separou as duas coisas. O segundo era a “fé temporária” de Calvino, dada a réprobos e depois retirada, tão parecida com a verdadeira que ninguém podia ter certeza da sua. O terceiro era a reprovação incondicional, que Stanglin chama de “doutrina da graça indisponível”. A presunção vinha da leitura de Romanos 7 que faz do crente alguém dominado pelo pecado e da perseverança garantida, que geravam a “segurança carnal”, contrária ao temor de Filipenses 2:12. Stanglin descreve Armínio como “uma voz solitária” nessa luta (p. 152).
A saída arminiana é um caminho do meio. Saber que o pecado tem consequências e que a apostasia é possível protege do descuido; saber que Deus prometeu salvar todos os que se arrependem e creem protege do desespero. O fundamento é o amor de Deus por cada pessoa, conhecido em Cristo, e não um decreto oculto. Armínio julgava a apostasia possível, porque a graça resistível antes da justificação continua resistível depois. Os pecados de ignorância ou fraqueza não separam o regenerado da graça; o pecado por malícia contra a lei, como o de Davi ou de Pedro, admite volta; o pecado por malícia contra o próprio Cristo, como o de Judas, é o pecado imperdoável. Por isso o crente pode ter plena certeza hoje, como num casamento saudável, que não vive de ansiedade (perseverança e apostasia na teologia arminiana).
Diante do novo calvinismo
Stanglin reconhece o que atrai no novo calvinismo, que chegou às Assembleias de Deus e às Igrejas de Cristo: profundidade, tradição, uso sério da Bíblia. O evangelicalismo popular, escreveu, tem “um quilômetro de largura e um centímetro de profundidade”. Às suas igrejas advertiu que os “cinco passos” da conversão (ouvir, crer, arrepender-se, confessar e ser batizado) podem ser ensinados de modo que esquece a iniciativa de Deus. Mas “a graça não anula a liberdade humana”, e o objetivo dele é “construir pontes com outros crentes, e não levantar barreiras” (“The Resurgence of Calvinism”). Levado às últimas consequências, porém, o determinismo faz de Deus o autor do mal: “se Deus é o autor do pecado, ele é o verdadeiro pecador, e o único pecador desta história” (“Calvinism and Its Implications”).
A letra, o espírito e o amor
Fora do debate sobre Armínio, Stanglin pratica uma “teologia de recuperação”, que traz o melhor do passado para a leitura de hoje sem “simplesmente replicar ou repristinar a teologia antiga” (The Letter and Spirit of Biblical Interpretation, 2018, p. 11). Ele quer “uma interação equilibrada e fecunda entre a letra e o espírito” (p. 11): o sentido literal é a base e o controle, mas a leitura antiga, guiada pela regra de fé e pelos sentidos moral, alegórico e escatológico, devolve à Bíblia a função de alimentar a fé, a conduta e a esperança da igreja. Ethics beyond Rules organiza a vida moral em torno de uma pergunta, “o que o amor verdadeiro exige?”, contra a ética do gosto pessoal e a da maioria.
Obras principais
- Arminius on the Assurance of Salvation: The Context, Roots, and Shape of the Leiden Debate, 1603-1609 (Brill, 2007).
- Arminius, Arminianism, and Europe, org. com Th. Marius van Leeuwen e Marijke Tolsma (Brill, 2009).
- The Missing Public Disputations of Jacobus Arminius (Brill, 2010).
- Jacob Arminius: Theologian of Grace, com Thomas H. McCall (Oxford University Press, 2012).
- Reconsidering Arminius: Beyond the Reformed and Wesleyan Divide, org. com Mark G. Bilby e Mark H. Mann (Kingswood Books, 2014).
- The Reformation to the Modern Church (Fortress Press, 2014), antologia.
- The Letter and Spirit of Biblical Interpretation (Baker Academic, 2018).
- After Arminius: A Historical Introduction to Arminian Theology, com Thomas H. McCall (Oxford University Press, 2020-2021).
- Ethics beyond Rules (Zondervan, 2021).
- Super-Abundant Grace: Reflections on Romans (Cascade Books, 2022).
Livros em português
- Jacó Armínio: teólogo da graça, com Thomas H. McCall (Reflexão, 2016). Ver na Amazon
- Perseverança dos santos (Reflexão, Coleção Arminianismo, 2016; nova edição em 2021). Ver na Amazon
- Jacó Armínio e o reexame de sua teologia, org. com Mark Bilby e Mark Mann (Carisma, 2022). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Harding School of Theology, “Faculty” (perfil de Keith Stanglin).
- Center for Christian Studies, “About” e “Center for Christian Studies: Five Years Growing!”.
- University Avenue Church of Christ, “Staff”, Austin.
- John Mark Hicks, “Arminius: Review of a Recent Book” e “Calvinists, Arminians and Assurance”, 2009.
- John Mark Hicks, “Jacob Arminius: Theologian of Grace” (resenha publicada antes na Restoration Quarterly 56, 2014), e “Keith Stanglin’s Letter and the Spirit of Biblical Interpretation: Some Reflections”, 2019.
- William W. Klein, resenha de Jacob Arminius: Theologian of Grace, Denver Journal, Denver Seminary.
- Dan Chapa, “Book Review: Arminius on the Assurance of Salvation”, Society of Evangelical Arminians, 2008.
- Ben Witherington III e Keith Stanglin, série sobre Jacob Arminius, Theologian of Grace (parte 7, parte 11 e parte 14), 2015-2016.
- Keith Stanglin, “The Resurgence of Calvinism”, “Calvinism and the Assurance of Salvation” e “Calvinism and Its Implications”, Christian Studies Blog, republicados pela Society of Evangelical Arminians em 2018.
- Keith Stanglin, “Arminianism in Brazil”, blog da Austin Graduate School of Theology, 2016.
- Reformed Forum, “A New Perspective on Arminius”, Christ the Center, episódio 446, 2016.
- Credo Magazine, “New Review: Arminius, Arminianism, and Europe”, 2012.
- Taylor Brown, “Book Review of Reconsidering Arminius”, Society of Evangelical Arminians, 2015.
- Emily Buck, resenha de The Letter and Spirit of Biblical Interpretation, Evangelical Review of Theology and Politics, 2019.
- Robert Cornwall, “The Letter and Spirit of Biblical Interpretation: A Review”, 2018.
- Oxford Academic, After Arminius: A Historical Introduction to Arminian Theology.
- Zondervan Academic, Ethics beyond Rules.
- Editora Reflexão, Perseverança dos santos.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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