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Kenneth Eagleton: O médico missionário que ensinou a teologia batista livre no Brasil
Neste texto
- Vida
- Filho de pioneiros
- Médico em Doropo
- De volta ao Brasil
- Diretor de parcerias
- Pensamento
- Um batista arminiano
- Pecado e incapacidade
- A graça que vem antes
- Predestinação e fé
- Perseverança condicional
- Sã doutrina e ordenanças
- Missão e interdependência
- Diante da nossa declaração de fé
- Obras principais
- Para aprofundar
Em 25 de janeiro de 2020, numa igreja de Abidjan, a maior cidade da Costa do Marfim, os batistas do livre-arbítrio (Free Will Baptists) abriram oficialmente uma faculdade bíblica de nível superior. Dois dias antes, em Tanda, no interior, doze alunos tinham terminado a primeira semana intensiva de aulas. O professor era Kenneth Eagleton, que trinta e seis anos antes chegara ao país como médico. “Quando começamos a planejar, estimávamos uns trinta alunos. Dobramos esse número”, comentou ele diante dos sessenta candidatos. Criado no Brasil por pais missionários, Eagleton passou quase quatro décadas entre a África e a América Latina formando pastores, e deixou em apostilas de seminário uma exposição clara da teologia arminiana dos batistas livres.
Vida
Filho de pioneiros
Kenneth Eagleton é filho de Kenneth Paul Eagleton (1928-1999) e de Marvis Eagleton, pioneiros da missão batista do livre-arbítrio no Brasil. Dave Franks, o primeiro missionário da denominação no país, chegou em 1957, e no ano seguinte os Eagleton se juntaram a ele. O trabalho começou por Campinas e depois chegou a Minas Gerais. Kenneth cresceu nesse lar missionário, no Brasil, e se formou em medicina na Faculdade de Ciências Médicas de Santos, no litoral paulista. Casou-se com Rejane, e o casal teve quatro filhos.
Depois de muitos anos no Brasil, Ken e Marvis voltaram aos Estados Unidos, e o pai foi trabalhar na sede da missão. Em junho de 1992, os dois levaram ao Brasil o primeiro grupo de um programa para adolescentes do ensino médio, o TEAM. Depois da morte de Ken, o programa ganhou um E inicial em sua homenagem, ETEAM, e em três décadas levou perto de dois mil jovens ao campo missionário.
Médico em Doropo
Em 1984, Kenneth e Rejane foram nomeados missionários associados da junta de missões estrangeiras dos batistas do livre-arbítrio, hoje IM, Inc. (International Missions), e seguiram para a Costa do Marfim, onde a denominação trabalhava desde 1958. Instalaram-se em Doropo, no nordeste do país. Eagleton trabalhou na clínica médica da missão e viu a clínica se tornar um hospital com capacidade cirúrgica, dirigido por cristãos africanos. Enquanto atendia no hospital, ensinava e pregava em Doropo e nas aldeias em volta.
Em 1998, o casal passou a se dedicar à formação de líderes e se mudou para Bouna, sede do instituto bíblico da missão. Em setembro de 2002, uma tentativa de golpe de Estado abriu a guerra civil marfinense, e em outubro os Eagleton foram retirados do país com os outros missionários. Desde então a missão trabalha no país em parceria com a associação marfinense de igrejas batistas livres.
De volta ao Brasil
Em abril de 2003, os Eagleton foram transferidos para o Brasil. Rejane passou a trabalhar com tradução de literatura cristã; uma das obras que verteu para o português foi Os Batistas Livres e o Lavar dos Pés dos Santos, de William F. Davidson e Robert E. Picirilli (Missão Batista Livre do Brasil, 2008).
O primeiro posto de Kenneth foi Belo Horizonte, onde dirigia a igreja batista livre. Num domingo à noite de 2004, entrou no culto um casal arruinado pela falência da sua empresa imobiliária, com o casamento por um fio. Eagleton começou com eles um estudo bíblico semanal, e na terceira ou quarta semana os dois entregaram a vida a Cristo; ele os discipulou e batizou, e anos depois o casal conduzia cursos para casais em crise. Em dezembro de 2005, os Eagleton se mudaram para Campinas.
Ali, Eagleton passou a coordenar e a ensinar no instituto bíblico da denominação, a Escola Teológica Batista Livre, depois Centro Teológico Batista Livre. Entre outras matérias, deu uma que juntava as suas duas formações, “Ciência e a Bíblia”, sobre a teoria da evolução e a bioética. Em março de 2008, coordenou em Campinas a festa dos cinquenta anos do trabalho batista livre no Brasil, que reuniu mais de quatrocentas pessoas de dezenove igrejas. No ano letivo de 2008-2009, ele e Rejane estiveram entre os missionários residentes do Free Will Baptist Bible College, hoje Welch College. Eagleton também foi professor adjunto no Welch College, no Tennessee, e na Randall University, em Moore, Oklahoma.
Diretor de parcerias
Além do trabalho de campo, Eagleton foi diretor regional da missão para a América Latina e a África até 2017. Naquele ano passou a diretor de parcerias, ainda morando no Brasil, com a tarefa de cuidar da relação com as igrejas de países onde a missão já não tem missionários residentes. Ele expôs a estratégia no artigo “Unfinished” (2020): a IM tinha se retirado de forma planejada de seis países, entre eles o Brasil, Cuba e a Costa do Marfim, cujas igrejas somavam quase oitocentas congregações e cerca de 33.500 crentes. A tarefa, porém, continuava inacabada, e as próprias igrejas parceiras já enviavam missionários: os batistas livres do Brasil, por exemplo, à Irlanda, à Bolívia, ao Uruguai e à Turquia.
Em 26 de setembro de 2023, Kenneth e Rejane chegaram a Nashville. “Trabalhei até ficar sem emprego como missionário no Brasil”, disse ele: já havia pastores suficientes para continuar a formação de líderes, e o seminário de Campinas tinha um diretor em tempo integral. Supervisionava então doze parcerias em nove países. Desde 2024 trabalha em tempo integral na sede da IM, no Tennessee, como diretor de parcerias globais. Em 2025 foi o tradutor da entrevista em que J. Matthew Pinson e o pastor Thiago Titillo falaram do ressurgimento do arminianismo entre batistas brasileiros. Em julho de 2026, foi escalado para pregar no culto de encerramento da convenção nacional dos batistas do livre-arbítrio, em Columbus, Ohio, com o tema “Foco na missão”.
Pensamento
Um batista arminiano
Eagleton pertence à tradição dos batistas do livre-arbítrio, a mesma de F. Leroy Forlines, de Picirilli e de Pinson, que a chamam de arminianismo reformado (veja O arminianismo é reformado?). A classificação vem dele mesmo. Na apostila de soteriologia que preparou para a escola de Campinas em 2012, depois de expor a perseverança condicional, ele escreve que essa doutrina “é conhecida como a posição arminiana” e que “a posição arminiana é mais fiel ao ensino bíblico”. A apostila segue a Introdução à Teologia Sistemática do batista Millard Erickson, mas Eagleton a reescreve onde os batistas livres se separam do calvinismo.
Pecado e incapacidade
O ponto de partida é a queda. Na apostila sobre o pecado (2012), Eagleton afirma, com Romanos 5:12-19, que por causa de Adão todos recebem a natureza corrompida e também a culpa: a condenação de Adão nos é imputada, como a justiça de Cristo é imputada ao crente. Depravação total, explica, quer dizer que o pecado atinge a pessoa inteira, corpo, mente, emoções e vontade, e que o pecador é incapaz de sair por si da sua condição. “Sem a atuação do Espírito Santo agindo para convencê-lo, o homem é incapaz de se voltar para Deus”, escreve.
A graça que vem antes
O que torna a resposta possível é uma obra do Espírito anterior à fé, que a tradição arminiana chama de graça preveniente, a graça que vem antes. Para Eagleton, o Espírito Santo convence do pecado (João 16:8) e atrai a Cristo (João 6:44), por meio da sua Palavra. Essa influência “capacita o indivíduo” a exercer a fé salvadora, e a escolha é “livre e resistível”. Na apostila sobre o pecado, ele chama essa ação de “graça comum”, mas o conteúdo é o da graça preveniente. No quadro que fecha a soteriologia, a coluna arminiana resume a depravação assim: o homem pode responder a Deus “por causa da Sua graça e não da capacidade do homem”.
Predestinação e fé
Eagleton lê a predestinação como um decreto sobre as consequências: Deus predestinou à salvação todos os que creem em Jesus Cristo e à condenação todos os que não creem (João 3:16, 18, 36). Deus deseja a salvação de todos (1 Timóteo 2:3-4), convida a todos (Mateus 11:28) e conhece de antemão quem vai aceitar e quem vai rejeitar, mas “esta presciência não determina o resultado da decisão do ser livre”. É a eleição condicional, que ele apresenta como o entendimento dos batistas livres (veja Presciência, eleição e predestinação).
Fé e arrependimento são, para ele, uma só condição da salvação, “duas faces da mesma moeda”: o arrependimento enfatiza a mudança, e a fé, o ponto de chegada, que é a confiança inteira em Cristo. A fé é dom de Deus no sentido de que, sem a ação do Espírito, não haveria fé, mas “a fé é a fé do homem, não de Deus”, exercida em resposta à convicção que o Espírito traz. A justificação é um ato forense: pela união com Cristo, Deus imputa ao crente a justiça de Cristo e o declara justo.
Perseverança condicional
A fé que dá início à relação com Deus é a mesma que a mantém (“o justo viverá pela fé”), e por isso a perseverança é condicional, como mostram as advertências de Jesus (João 15:6), de Paulo (Colossenses 1:21-23; Gálatas 5:4) e de Hebreus. Ao mesmo tempo, recusa a ideia de que o crente perde a salvação a cada pecado: o pecado do crente pode ser perdoado, e Cristo morreu pelos pecados passados e futuros. A apostasia é “renunciar a fé salvadora em Jesus Cristo”. O crente pode ter certeza da salvação (1 João 5:13), apoiada na obra de Cristo e na presença do Espírito, e não nas emoções.
Eagleton responde aos argumentos calvinistas um a um. As promessas de João 10:27-29 são para as ovelhas, isto é, para os que creem. Romanos 8:31-39 garante que nenhuma força externa separa o crente de Deus, e a apostasia é uma negação interna da fé. À objeção de que quem nasceu de novo não pode “des-nascer”, responde: “É verdade; mas pode morrer espiritualmente.” Como Forlines e Picirilli, entende Hebreus 6:4-6 como apostasia sem volta: quem renuncia à fé não pode se converter de novo, pois seria crucificar Cristo outra vez (veja Capítulo 37: A perseverança dos santos e Arminianismo: a segurança da salvação).
Sã doutrina e ordenanças
Na palestra “Os desafios de se manter na sã doutrina”, dada em Uberlândia em agosto de 2014, Eagleton usou a “triagem teológica” do batista calvinista Albert Mohler. No primeiro nível estão as doutrinas sem as quais não há fé cristã, como a Trindade e a justificação pela fé; no segundo, os temas que separam denominações sem negar o evangelho, e entre os exemplos ele põe “arminianismo e calvinismo”. O perigo, alertou, é tratar como herege quem diverge nas questões secundárias. As ameaças de primeiro nível vinham do evangelho da prosperidade, que despreza a teologia do sofrimento e faz do fiel um cliente do pastor, e da experiência que toma o lugar da autoridade da Bíblia.
Como batista livre, Eagleton entende as ordenanças como ritos simbólicos, pratica o batismo de crentes por imersão e defende três ordenanças: o batismo, a Ceia e o lava-pés. O argumento para o lava-pés está em João 13. Jesus lavou os pés dos discípulos depois da refeição, e não na chegada, como mandava o costume; disse “vós deveis lavar os pés uns dos outros” logo depois de instituir a Ceia; e, se a Ceia se pratica literalmente, o lava-pés também. O gesto lembra o esvaziamento de Cristo (Filipenses 2:7-8).
Missão e interdependência
Eagleton pedia às igrejas que orassem pelos missionários de modo específico, por portas abertas, mais obreiros e a unidade entre crentes de povos que antes eram inimigos; “a oração faz diferença”, escreveu em 2009. O alvo do missionário era se tornar dispensável, e a relação com as igrejas nacionais, uma parceria: “A interdependência é o princípio bíblico que devemos seguir, e não a independência” (“Unfinished”, 2020).
Diante da nossa declaração de fé
Nos pontos centrais da salvação, Eagleton coincide com a nossa declaração de fé: incapacidade humana, graça que vem antes da fé e pode ser resistida, eleição condicional, justificação pela fé e perseverança condicional. As diferenças são de tradição. Ele descreve a santificação como progressiva, completada só na glorificação, e não ensina a inteira santificação, que a nossa declaração, de tendência wesleyana, afirma como obra da graça recebida pela fé. Entende as ordenanças como símbolos, enquanto a nossa declaração conta a Ceia entre os meios de graça e aceita o batismo por aspersão. E afirma que a apostasia não tem remédio, e a nossa declaração não diz que o retorno é impossível (veja Apostasia na Bíblia).
Obras principais
Apostilas e palestras preparadas para a Escola Teológica Batista Livre, em Campinas:
- Cartas Pastorais (2009).
- Teologia Sistemática: Cristologia, Eclesiologia e Pneumatologia (2010).
- Teologia Sistemática: Harmatiologia (2012).
- Teologia Sistemática: Soteriologia (2012).
- Teologia: Deus Pai (2014).
- “Os Desafios de se Manter na Sã Doutrina”, palestra em Uberlândia (2014).
- Temas das cartas aos Coríntios (2019).
- Aconselhamento Cristão (2019).
- Missões Transculturais, Ciência e a Bíblia e O Lavar dos Pés dos Santos (sem data).
Artigos na revista ONE, dos batistas do livre-arbítrio:
- “Prescription for Powerful Prayer” (junho-julho de 2009).
- “Transformational Faith” (junho-julho de 2011).
- “Changing Lives, One Family at a Time” (fevereiro-março de 2014).
- “Unfinished” (abril-maio de 2020).
Para aprofundar
- IM, Inc., Kenneth Eagleton, perfil oficial; Brazil e Côte d’Ivoire, histórico dos campos.
- ONE Magazine, “Eagletons Transition to the States” (dezembro de 2023-janeiro de 2024).
- ONE Magazine, “Eagleton Serves in Panama, Ivory Coast, and Cuba” (2020).
- ONE Magazine, “Celebrating 50 Years in Brazil” (2008) e a cobertura da festa na edição de junho-julho de 2008.
- ONE Magazine, “Eagletons, McDonalds, McVays to Share M.I.R. Duties at FWBBC”, edição de agosto-setembro de 2008.
- Neil Gilliland, “Great Commission Dream”, ONE Magazine, agosto-setembro de 2021, sobre Ken e Marvis Eagleton e a origem do ETEAM.
- Find a Grave, Rev Kenneth Paul Eagleton Sr. (1928-1999).
- Kenneth Eagleton, “Prescription for Powerful Prayer”, ONE (2009); “Transformational Faith”, ONE, junho-julho de 2011; “Changing Lives, One Family at a Time”, ONE, fevereiro-março de 2014; “Unfinished”, ONE (2020).
- Kenneth Eagleton, Teologia Sistemática: Soteriologia (2012), Harmatiologia (2012) e Eclesiologia (2010).
- Kenneth Eagleton, “Os Desafios de se Manter na Sã Doutrina” (2014), “O Lavar dos Pés dos Santos”, “Ciência e a Bíblia” e “Missões Transculturais”; lista completa no perfil do autor.
- Society of Evangelical Arminians, Arminianism Is Experiencing a Resurgence among Brazilian Baptists (2025).
- National Association of Free Will Baptists, programa da convenção nacional de 2026, Columbus, Ohio.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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