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J. Kenneth Grider: O teólogo nazareno da teologia de macacão
Neste texto
- Vida
- Um menino católico entre St. Louis e os Ozarks
- Olivet, Kansas City, Drew e Glasgow
- Trinta e oito anos no seminário
- Os livros da maturidade e os últimos anos
- Pensamento
- Um arminiano wesleyano
- A graça vem toda a distância
- A expiação governamental
- A inteira santificação pelo batismo com o Espírito
- Teologia de macacão
- Obras principais
- Para aprofundar
Em março de 1999, na reunião anual da Wesleyan Theological Society, na Southern Nazarene University, em Oklahoma, o historiador Paul M. Bassett homenageou J. Kenneth Grider, que recebia o prêmio da sociedade pelo serviço de uma vida inteira à tradição wesleyana e de santidade. Bassett começou com uma brincadeira: o homenageado tinha passado por várias “cirurgias radicais”. Tinha extirpado o racionalismo, o personalismo de Boston, o platonismo e o pré-milenismo, e recebido uma ponte de safena barthiana para contornar o fundamentalismo e uma infusão de sola gratia e sola fide. Grider mudou de ideia muitas vezes em cinquenta anos de magistério, mas guardou do começo ao fim uma convicção, que repetia aos alunos: a teologia “usa macacão” e tem “pernas compridas o bastante para chegar ao chão”.
Vida
Um menino católico entre St. Louis e os Ozarks
Joseph Kenneth Grider nasceu em 22 de outubro de 1921, em Madison, Illinois, perto de St. Louis, filho de William Sanford Grider e Elizabeth Krone Grider. Cresceu como católico romano devoto nos subúrbios de St. Louis do lado de Illinois e nas colinas dos Ozarks, no Missouri, num catolicismo que pedia aos leigos que rezassem, fossem à missa, guardassem os jejuns e deixassem a teologia para os especialistas. Grider reagiu a esse modelo a vida inteira: para ele, a teologia é assunto de todo cristão, e a tarefa do teólogo é ajudar o povo da igreja a entender a própria fé e a dizê-la em palavras e em obras. Da formação católica guardou o gosto pela tradição da Igreja e pelos pais gregos e latinos.
Olivet, Kansas City, Drew e Glasgow
Quando chegou ao Olivet College, da Igreja do Nazareno, já era um protestante convicto. No primeiro ano, em 1940, ajudou a faculdade a se mudar do antigo campus, destruído por um incêndio, para o campus vazio do St. Viator College, uma escola católica em Bourbonnais, cerca de 130 quilômetros ao norte.
Em Olivet encontrou o professor que o marcou, Stephen S. White, doutor pela Universidade de Chicago, que ensinava os “rapazes pregadores” a amar a igreja e a teologia pensando sempre na vida real. Grider fez ali o bacharelado em teologia e o bacharelado em artes e seguiu White quando ele se tornou o primeiro professor de teologia do Seminário Teológico Nazareno, em Kansas City, onde se formou em 1947. Os três volumes da Christian Theology de H. Orton Wiley tinham acabado de sair e funcionavam como o cânon da teologia de santidade.
Casado com Virginia, Grider foi para a Drew University, em Nova Jersey, estudar com Edwin Lewis, que nos anos 1930 tinha passado do liberalismo para uma teologia próxima da de Karl Barth, e fez ali o mestrado (1950). Depois foi para a Universidade de Glasgow, onde se doutorou sob a orientação de J. G. Riddell com a tese The Problem of Natural Evil in the Light of the Christian Doctrine of the Incarnation (1952), propondo o que chamava de uma “solução de situação de vida” para o problema do mal natural. Na Escócia começou a ensinar, como instrutor no Hurlet Nazarene College, perto de Glasgow, a escola que deu origem ao atual Nazarene Theological College de Manchester.
Trinta e oito anos no seminário
A tese ficou pronta em 1952, já nos Estados Unidos, onde Grider era professor assistente de teologia no Pasadena College, na Califórnia. No ano seguinte, a junta do Seminário Teológico Nazareno o elegeu professor de teologia, e no segundo semestre de 1953 ele estava em Kansas City. Ficou 38 anos, até 1991, o período mais longo de qualquer professor na história da escola até então, e editou por 36 anos The Seminary Tower, publicação do seminário.
Nos primeiros anos, citava uma autoridade escrita para quase tudo o que dizia; no começo da década de 1960 passou a falar com voz própria. Em outubro de 1960, no quarto centenário de Jacó Armínio, deu palestras numa conferência em Olivet ao lado de Carl Bangs e William M. Greathouse. Vieram os primeiros livros, Repentance unto Life e Taller My Soul, e o comentário de Ezequiel no Beacon Bible Commentary (1966). Presbítero da Igreja do Nazareno, trabalhou como tradutor da New International Version em dois níveis de comissão, em seis livros do Novo Testamento.
Não fugia do confronto: certa vez levantou-se no culto da capela para contestar um pregador convidado que ensinava a “fé semente”, o dízimo calculado sobre o dinheiro que a pessoa queria ganhar. Com Richard S. Taylor e Willard H. Taylor, foi editor associado do Beacon Dictionary of Theology (1983), para o qual escreveu dezenas de verbetes.
Os livros da maturidade e os últimos anos
Em 1980 saiu Entire Sanctification: The Distinctive Doctrine of Wesleyanism, depois traduzido para o espanhol; em 1982, Born Again and Growing. Em 1994, a Beacon Hill Press publicou a obra da vida dele, A Wesleyan-Holiness Theology, uma teologia sistemática de 589 páginas, nascida das aulas e com prefácio de Thomas C. Oden. Gerard Reed a resenhou junto com Grace, Faith and Holiness (1988), de H. Ray Dunning, achou a de Grider mais clara e mais presa ao texto bíblico e viu nela a voz do movimento de santidade americano dos séculos XIX e XX.
Ao longo de cinquenta anos de sala de aula, Grider ensinou também na Point Loma Nazarene University, na Southern Nazarene University, no Seminário Teológico Nazareno Ásia-Pacífico, nas Filipinas, em cursos de extensão no México e, depois de aposentado, em Olivet, como professor visitante. Olivet lhe deu o doutorado honorário em divindade em 1991 e criou em 1999 uma série anual de palestras com o nome dele.
Nos últimos anos, Grider defendeu o acolhimento pleno dos cristãos homossexuais na Igreja do Nazareno, num texto preparado para a reunião de 1999 da Wesleyan Theological Society, “Wesleyans and Homosexuality”. Dirigentes de Olivet lhe pediram que não o publicasse. Viúvo de Virginia, casou-se com Marilyn Willis. Morreu em Chandler, Arizona, em 6 de dezembro de 2006, aos 85 anos, e foi velado na capela do Seminário Teológico Nazareno.
Pensamento
Um arminiano wesleyano
Grider pertence à linha wesleyana do arminianismo, e o disse com todas as letras em “The Nature of Wesleyan Theology” (Wesleyan Theological Journal, 1982): as raízes dele estavam no “arminianismo-wesleyanismo, ou simplesmente wesleyanismo, já que Wesley era tão declaradamente arminiano”, resumido nos quinze Artigos de Fé da Igreja do Nazareno. Acrescentava que Armínio, John Wesley e Wiley sabiam estar ensinando, sobre a liberdade humana, o mesmo que os pais gregos e latinos anteriores a Agostinho.
No verbete “Arminianismo” do Beacon Dictionary (1983), definiu o sistema por contrastes: ele destaca a liberdade humana, “mas não num sentido pelagiano”; enfatiza a graça, mas rejeita que ela seja irresistível; e rejeita a segurança eterna incondicional, porque o crente perde a regeneração se deixa de crer e desobedece a Deus deliberadamente. No mesmo verbete expôs os quatro decretos da Declaração de Sentimentos e defendeu, contra alguns arminianos do seu tempo, que Deus conhece de antemão os atos livres das pessoas (Romanos 8:29).
A graça vem toda a distância
O centro da soteriologia de Grider é a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. No verbete que escreveu sobre ela, explica que, por causa do pecado original, nascemos inclinados ao pecado e incapazes de fazer o que sabemos que devemos fazer (Mateus 7:18; João 15:5). Deus toma a iniciativa: atrai a pessoa e derruba as barreiras ao arrependimento e à fé (João 6:44; 1 João 4:19). Por isso Atos 11:18 diz que Deus “concedeu” o arrependimento aos gentios. Grider resume: Deus “não nos encontra no meio do caminho”, mas “vem toda a distância até onde estamos” e desperta em nós os primeiros desejos de salvação. Daí, concluía, a importância da oração pelos que ainda não creem.
Grider levava a sério a incapacidade humana. Em “Carnality and Humanity” (Wesleyan Theological Journal, 1976), acusou de pelagianismo o nazareno A. M. Hills, para quem o homem caído pode escolher os motivos bons sem a graça, e criticou o próprio mestre, S. S. White, por admitir que o homem natural às vezes faz o bem por si. Contra os dois citou Armínio, para quem a vontade caída está “perdida” para o verdadeiro bem, e Wesley, para quem a vontade do homem caído é “livre por natureza só para o mal”. Por isso aconselhava os evangelistas a nunca dizer “você faz a sua parte e Deus faz a dele”: é Deus quem desperta o primeiro desejo de voltar-se para Cristo.
Na eleição, Grider seguiu a leitura de Clark Pinnock em Grace Unlimited, que cita no Beacon Dictionary: na Bíblia a predestinação não é para o céu nem para o inferno, mas diz respeito aos privilégios reservados aos que já são filhos de Deus. É uma leitura diferente do quarto decreto de Armínio, que ele mesmo expusera. Na perseverança, ensinava que a fé salvadora precisa ser “durativa”, contínua, e que quem deixa de crer perde a graça salvadora.
A expiação governamental
Na doutrina da cruz, Grider defendeu a teoria governamental, formulada por Hugo Grócio e desenvolvida por John Miley. Segundo ela, a morte de Cristo permite que Deus perdoe quem se arrepende e crê sem perder o governo moral do mundo, porque, vendo o que custou o perdão, entendemos a gravidade do pecado (Romanos 3:23-26). Grider afirmava que a expiação é universal e substitutiva, mas negava que Cristo tenha pago a pena: ele “não pagou a pena dos nossos pecados; em vez disso, sofreu por nós”. Se tivesse pago a pena de todos, argumentava, não haveria perdão nem condenação.
Aqui Grider se afasta deste site, que entende a cruz como satisfação penal substitutiva, a posição de Armínio e de Wesley (ver o capítulo 29 da Teologia Sistemática); a teoria governamental é uma leitura arminiana posterior. Também se afasta na doutrina das Escrituras: Grider as tinha por plenamente inspiradas e “inerrantes em matéria de doutrina e prática”, enquanto a declaração de fé do site afirma que os autógrafos foram preservados de erro.
A inteira santificação pelo batismo com o Espírito
A doutrina a que Grider dedicou mais páginas foi a inteira santificação, a segunda obra da graça, posterior à regeneração e recebida pela fé, em que Deus purifica o coração do pecado original. Na teologia de 1994 ela ocupa mais de cem páginas. A razão de haver duas obras, explicou no Beacon Dictionary, é que há dois tipos de pecado: os atos de pecado, perdoados na conversão, e o estado de pecado herdado de Adão, purificado na segunda obra (Romanos 8:1-2; 1 Tessalonicenses 5:23).
Para Grider, o meio dessa purificação é o batismo com o Espírito Santo, o mesmo de Pentecostes. Defendeu isso em 1979, contra Robert Lyon e James Dunn, que ligavam o batismo com o Espírito à conversão. Os samaritanos de Atos 8 já tinham crido e sido batizados quando Pedro e João chegaram, porque o Espírito “ainda não tinha descido sobre nenhum deles”; Paulo foi convertido na estrada de Damasco, e Ananias o chamou de “irmão Saulo” antes de ele ser cheio do Espírito. Grider admitia que nesse ponto Wesley estava mais perto de Lyon e não tomava Wesley como a última palavra.
O artigo de 1976 trouxe outra distinção: a diferença entre a carnalidade e a humanidade. Na inteira santificação, Deus purifica a depravação herdada de Adão, e não o temperamento, o impulso sexual ou as deficiências adquiridas ao longo da vida. O preconceito racial, por exemplo, se aprende no ambiente e se corrige pelo crescimento na graça. Pedro, cheio do Espírito em Pentecostes, continuou com preconceito contra os gentios até a casa de Cornélio (Atos 10:28). Grider também lembrava que ninguém se perde só pelo pecado de Adão, porque a culpa dele foi cancelada pelo “dom gratuito” de Romanos 5:15-17, e por isso pregar “santidade ou inferno” é um erro: é a justificação que muda o destino eterno.
Teologia de macacão
Em “The Nature of Wesleyan Theology”, Grider apontou seis marcas da teologia wesleyana: o interesse pela experiência, pela existência concreta das pessoas, uma leitura bíblica de horizonte amplo, um caráter dinâmico, a catolicidade e o instinto moral. A leitura de horizonte amplo, que interpreta cada texto à luz do todo da Escritura, explicava para ele por que o movimento de santidade combateu a escravidão e foi o primeiro a ordenar mulheres.
Obras principais
- The Problem of Natural Evil in the Light of the Christian Doctrine of the Incarnation (tese de doutorado, Universidade de Glasgow, 1952)
- Repentance unto Life e Taller My Soul: or, The Means of Christian Growth (Beacon Hill Press, 1964 e 1965)
- “Ezequiel”, em Beacon Bible Commentary, vol. 4 (1966)
- “Carnality and Humanity: Exploratory Observations”, Wesleyan Theological Journal 11 (1976)
- “Spirit-Baptism the Means of Sanctification: A Response to the Lyon View”, Wesleyan Theological Journal 14, n. 2 (1979)
- Entire Sanctification: The Distinctive Doctrine of Wesleyanism (1980)
- Born Again and Growing (1982)
- “The Nature of Wesleyan Theology”, Wesleyan Theological Journal 17, n. 2 (1982)
- Beacon Dictionary of Theology (1983), editor associado, com Richard S. Taylor e Willard H. Taylor
- A Wesleyan-Holiness Theology (1994)
Para aprofundar
- Paul M. Bassett, “Tribute to J. Kenneth Grider”, Wesleyan Theological Journal 34, n. 2 (1999), p. 281-286.
- “Joseph Grider Obituary”, The Kansas City Star, dezembro de 2006.
- Herald of Holiness, vol. 41, n. 47 (1953), com a eleição de Grider para o Seminário Teológico Nazareno. Wesleyan-Holiness Digital Library.
- Gerard Reed, “Dunning and Grider: Holiness Theologians”, Reedings, novembro de 1994.
- Vic Reasoner, “Gliding With Grider”, The Arminian Magazine 14, n. 1 (1996), na Society of Evangelical Arminians.
- “Grider’s Gridlock: Shall We Honor His Life and Legacy?”, Loving Nazarenes, julho de 2023.
- “J. Kenneth Grider”, Wikipédia em inglês.
- Textos de Grider: “Carnality and Humanity” (1976), “Spirit-Baptism the Means of Sanctification” (1979) e “The Nature of Wesleyan Theology” (1982), no arquivo do Wesleyan Theological Journal; verbetes “Arminianism”, “Governmental Theory of the Atonement”, “Prevenient Grace”, “Second Work of Grace” e “Carnality and Humanity” no Beacon Dictionary of Theology (1983), na Wesleyan-Holiness Digital Library.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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