
HistóriaTeólogos arminianos15 de 276
Jonathan Weaver: O bispo dos Irmãos Unidos que preparava sermões atrás do arado
Neste texto
- Vida
- Infância e conversão
- Pregador de circuito
- Bispo
- A cisão de 1889
- Os últimos anos
- Pensamento
- Um arminiano da família wesleyana
- Depravação e graça preveniente
- Presciência, providência e o universalismo
- Expiação e santificação
- Onde ele se afasta da declaração de fé do site
- Legado
- Obras principais
- Para aprofundar
Em 1872, numa capela rural de Illinois, um bispo de 48 anos enfrentou durante quatro dias Josiah Davis, o debatedor universalista mais conhecido a oeste dos Apalaches. A questão era se as Escrituras ensinam a santidade e a felicidade final de todos os homens. Na véspera, quando um colega lembrou que Davis usaria o texto de Pedro sobre os “espíritos em prisão”, o bispo respondeu que conhecia todos os argumentos dos universalistas. No fim, deixou a argumentação de lado e fez um apelo: Deus é bom, mas também é justo, e quem crê em Cristo tem desde já a salvação do pecado. O bispo era Jonathan Weaver, filho de lavradores de Ohio, que frequentou a escola só alguns invernos e se tornou o pregador mais querido dos Irmãos Unidos em Cristo.
Vida
Infância e conversão
Jonathan Weaver nasceu em 23 de fevereiro de 1824, no condado de Carroll, no leste de Ohio, o caçula de doze filhos. Os pais, nascidos na Pensilvânia, mudaram-se para Ohio por volta de 1810 e só aprenderam o inglês depois de casados. O pai era lavrador honesto, mas não era cristão; a mãe lia a Bíblia sem parar. A escola era uma cabana de troncos aberta três meses no inverno, e o resto da instrução formal de Weaver foram quatro meses numa academia presbiteriana em Hagerstown, Ohio.
Até os quinze anos ele nunca tinha ido a um culto. Aos dezessete, em 1841, foi a um acampamento perto de Conotton, no condado de Harrison e na primeira vez que se armou o “banco dos penitentes” foi à frente sem que ninguém o chamasse. No dia seguinte entrou para a igreja dos Irmãos Unidos como “buscador”, o nome de quem procurava a salvação sem ter ainda a certeza dela. Em casa, com medo da reação, ouviu do pai, no celeiro: “Já que começou, quero que vá até o fim.” Meses depois, numa reunião na casa da família, os pais, já perto dos sessenta anos, ajoelharam-se ao lado dele e se converteram antes do filho. Weaver foi à frente dezessete vezes e levou seis meses até confessar que estava salvo, à meia-noite, numa reunião de oração numa cabana. Em menos de um ano os pais, dois irmãos e quatro irmãs eram membros da igreja.
Pregador de circuito
Aos dezenove anos foi escolhido líder de classe, o pequeno grupo semanal de membros, e aos vinte recebeu licença de exortador. Preparava as exortações entre os cabos do arado e às vezes as pregava antes para as árvores do bosque. Leu o que conseguiu emprestado: as Institutes de Richard Watson, o comentário de Adam Clarke, depois John Fletcher e Baxter. Ler era bom, dizia, “mas pensar era melhor”.
Teve o pedido de licença para pregar recusado em 1846, mas em fevereiro de 1847 entrou para a Conferência de Muskingum e foi mandado à Missão do Lago Erie: mais de trezentos quilômetros de volta, dezessete pontos de pregação, vinte e três membros. Recebeu oitenta dólares por oito meses. Quase um em cada três homens da região era universalista, e as perguntas deles o obrigaram a estudar o assunto a fundo. Foi ordenado em 1848 pelo bispo J. J. Glossbrenner. Casou-se em 1847 com Keziah L. Robb, que morreu quatro anos depois, deixando duas filhas. Num sermão, muito tempo depois, contou que tinha enterrado a jovem esposa de um membro da igreja certo de que entendia aquela dor; no domingo seguinte, ao amanhecer, a morte entrou pela janela da casa dele. Daí tirava que Jesus conhece por experiência a vida neste mundo. A segunda esposa o acompanhou por cerca de quarenta e cinco anos.
Em 1851 foi eleito presbítero presidente, o supervisor de um distrito, e em 1857 aceitou ser agente financeiro da Universidade de Otterbein, o colégio da denominação, em Westerville. Ficou oito anos no cargo, o mais duro da sua vida: as finanças estavam arruinadas, e a Guerra Civil levou para o exército turmas inteiras.
Bispo
Em 1861 a Conferência Geral o elegeu bispo para a Costa do Pacífico, mas, com família grande e pouco dinheiro, ele renunciou. Em 1865 foi eleito bispo e, depois, reeleito a cada quatro anos até 1889. Morou em Roanoke, Indiana, em Baltimore e, desde 1873, em Dayton, Ohio, a sede da igreja. Presidia conferências de Maryland ao Oregon. Quando o Seminário Bíblico União abriu em Dayton, em 1871, foi um dos quatro bispos escolhidos para supervisioná-lo, e presidiu por muitos anos a Junta de Missões.
Os contemporâneos o lembravam sobretudo no púlpito. O historiador Daniel Berger chamou o seu estilo de claro, luminoso e forte. Uma menina de oito anos, em Dayton, quis ficar no culto porque ele ia pregar: “Eu entendo tudo o que ele diz.” Weaver teve oito debates públicos, sempre desafiado: três com os Discípulos de Cristo sobre o batismo, quatro contra o universalismo e um sobre a escravidão. Mas não gostava de polêmica. Já velho, escreveu que os debates públicos eram de propriedade duvidosa e que era melhor pôr à frente as grandes verdades comuns do Credo Apostólico.
A cisão de 1889
A lei dos Irmãos Unidos excluía da igreja quem entrasse numa sociedade secreta, como a maçonaria. Weaver nunca defendeu as lojas, mas viu que a lei não deixava caminho de volta nem para quem se arrependia, ao contrário de todas as outras faltas da Disciplina. Em 1885 publicou no Religious Telescope, o jornal da igreja, o artigo “The Outlook”, pedindo uma regra “em perfeita harmonia” com o evangelho, que permitisse disciplinar e restaurar. A Conferência Geral daquele ano criou uma comissão para rever a Confissão de Fé e a Constituição, e Weaver, bispo mais antigo, abriu os trabalhos lendo João 15.
A revisão foi aprovada pelo voto dos membros. Na Conferência Geral de 1889, em York, Pensilvânia, presidida por Weaver, o relatório passou por 110 votos a 20. O bispo Milton Wright, pai dos irmãos Wright da aviação, liderou a saída de quinze delegados, que formaram a Igreja dos Irmãos Unidos em Cristo (Antiga Constituição). Vieram seis anos de processos pela posse de templos e da editora, e Weaver foi uma das testemunhas mais fortes da maioria: comparava as duas confissões artigo por artigo para mostrar que nenhuma doutrina tinha mudado. As cartas ofensivas que recebeu naqueles anos, queimou-as, para que ninguém soubesse quem as escrevera. A maioria a que ele pertencia formou em 1946, com a Igreja Evangélica, a Igreja Evangélica dos Irmãos Unidos, que em 1968 se uniu aos metodistas na Igreja Metodista Unida.
Os últimos anos
Em 1893 a Conferência Geral o fez bispo emérito. Weaver disse que, se a idade se medisse pela alegria de trabalhar para a igreja, ele estava velho, “mas pretendo morrer jovem”. Em 1900 terminou a Christian Theology. Perguntado no leito de morte se tinha um recado para a igreja, respondeu: “Eu cri no que preguei. Preguei o que cri.” Morreu em Dayton em 6 de fevereiro de 1901 e foi sepultado no cemitério de Woodland.
Pensamento
Um arminiano da família wesleyana
Weaver é um teólogo arminiano de tradição wesleyana. Os Irmãos Unidos nasceram do avivamento entre os alemães da Pensilvânia e de Maryland, com Philip William Otterbein e Martin Boehm, e cresceram ao lado dos metodistas; Otterbein ajudou a consagrar Francis Asbury em 1784. O prefácio do comentário de Weaver à Confissão de Fé (1892), escrito por William McKee, diz que os Irmãos Unidos “sempre foram arminianos”, em oposição ao calvinismo. Os autores que Weaver cita a cada página são Wesley, Fletcher, Watson, Clarke, William Burt Pope e John Miley, e ele define o pecado com as palavras de Armínio.
Depravação e graça preveniente
Ele começa pela ruína humana. A Confissão de 1889 afirma que o homem, “à parte da graça de nosso Senhor Jesus Cristo”, está inteiramente destituído de santidade e inclinado só ao mal. Weaver explica que a depravação é total porque todas as faculdades da alma estão corrompidas e não há no homem nenhum bem natural; todo o bem que aparece no caráter de alguém foi posto ali pela graça. Se Deus tivesse deixado o homem entregue a si mesmo depois da queda, a ruína seria completa e a recuperação, impossível (ver pecado original e depravação total).
Na Christian Theology (1900), a vontade é livre e ao mesmo tempo presa: com Pope, Weaver diz que o não regenerado ainda não tem poder para fazer o que quer. Sem a intervenção de Deus, a queda teria escravizado a vontade por completo; sob a aliança da graça, por meio do Mediador, o homem pode escolher entre a vida e a morte. “O homem não tem em si mesmo poder para obedecer”, escreve, e sem a graça que Deus concede a toda alma “nenhum homem seria salvo”. Essa é a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana. A pessoa responde recebendo ou recusando a graça que já lhe foi dada, e por isso as promessas do evangelho são condicionais (Apocalipse 22:17). A fé salvadora, com Pope, é exercida sob a influência dessa graça; a graça capacita a pessoa a crer, mas não crê no lugar dela.
Weaver insiste que o Espírito age também diretamente no coração, além da palavra pregada: o Senhor abriu o coração de Lídia para que ela atendesse ao que Paulo dizia (Atos 16:14). Se o Espírito só agisse pela palavra escrita, as crianças que morrem cedo e os pagãos que nunca ouviram o evangelho não poderiam ser purificados.
Presciência, providência e o universalismo
Em Divine Providence (1873), ele responde à objeção de que a presciência de Deus tornaria as escolhas humanas necessárias. Saber de um fato não o causa, como saber hoje de um crime de ontem não influiu em quem o cometeu. Deus determinou que todos fossem agentes livres e viu o uso exato que fariam dessa liberdade: “Ele não predeterminou o ato; apenas o previu.” No livro contra o universalismo (1878), mostra que os autores universalistas que cita negavam o livre-arbítrio e punham tudo sob um decreto inalterável. Contra eles, sustenta que a vida presente é tempo de prova e que o destino eterno depende de condições cumpridas aqui (ver os decretos de Deus e a predestinação).
Expiação e santificação
Cristo “deu-se a si mesmo em resgate por todos” (1 Timóteo 2:6), e a expiação tornou a salvação possível a todos. Weaver a chama de satisfação à lei, pela qual Deus é justo ao justificar quem crê (Romanos 3:25-26), mas explica essa satisfação com John Miley: os sofrimentos de Cristo substituem a pena sem serem a punição do pecado aplicada judicialmente a ele. É a teoria governamental, de Grócio, comum no metodismo americano do fim do século XIX.
O capítulo mais caloroso da Christian Theology é o da santificação. Ela começa na regeneração, e a inteira santificação é uma obra distinta e posterior, recebida de forma instantânea, sem excluir um caminho gradual até ela nem o crescimento depois. A imagem é a de João 15:2: o ramo já está na videira e dá fruto, mas o Pai o limpa para que dê mais. A perfeição é relativa, porque só Deus é absolutamente santo, e o privilégio “não é para uns poucos escolhidos, mas para todos” (ver a santificação).
Onde ele se afasta da declaração de fé do site
No essencial, Weaver está com a declaração de fé deste site: depravação total, graça preveniente para todos, expiação universal, salvação condicional e inteira santificação posterior à regeneração. Há duas diferenças. Na expiação, ele usa a linguagem governamental de Miley, e o site afirma a satisfação penal substitutiva. No batismo, ele defende o batismo dos filhos de pais crentes, a partir da circuncisão como sinal da aliança com Abraão, e o site entende que o batismo segue a conversão. Quanto ao modo, concordam: Weaver combateu a ideia de que só a imersão é batismo, e o site aceita a imersão e a aspersão (ver aspersão ou imersão).
Legado
Quando Weaver entrou para os Irmãos Unidos, a igreja tinha cerca de vinte mil membros; quando ele morreu, tinha colégios, seminário, editora e juntas de missões. Deixou também a prova de que um pregador quase sem escola podia escrever uma teologia sistemática inteira, em linguagem clara, para pastores de circuito. Sobre a tradição dele, ver a tradição arminiana de Armínio a Wesley e a biografia de John Wesley.
Obras principais
- Discourses on the Resurrection (1871).
- Ministerial Salary (1873).
- Divine Providence (1873).
- The Doctrine of Universal Restoration Carefully Examined (1878).
- A Consideration of the Acts of the General Conference of the United Brethren in Christ of 1885, com William J. Shuey (1888).
- Christian Doctrine: A Comprehensive View of Doctrinal and Practical Theology, organizado por Weaver, com textos de trinta e sete autores (1889).
- A Practical Comment on the Confession of Faith of the Church of the United Brethren in Christ (1892).
- Heaven, or That Better Country (1899).
- Christian Theology: A Concise and Practical View of the Cardinal Doctrines and Institutions of Christianity (1900).
Para aprofundar
- Jonathan Weaver, Christian Theology (Dayton: United Brethren Publishing House, 1900), Internet Archive.
- Jonathan Weaver, A Practical Comment on the Confession of Faith of the Church of the United Brethren in Christ (Dayton: United Brethren Publishing House, 1892), Internet Archive.
- Jonathan Weaver, The Doctrine of Universal Restoration Carefully Examined (1878), Internet Archive.
- Jonathan Weaver, Divine Providence, Internet Archive.
- Jonathan Weaver, Discourses on the Resurrection (1871), Internet Archive.
- H. A. Thompson, Biography of Jonathan Weaver, D.D., a Bishop in the Church of the United Brethren in Christ for Thirty-Five Years (Dayton: United Brethren Publishing House, 1901), Internet Archive.
- Daniel Berger, History of the Church of the United Brethren in Christ (Dayton: United Brethren Publishing House), sobre Weaver, a comissão de 1885 e a cisão de 1889, Internet Archive.
- Weaver, Jonathan, The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 12, Christian Classics Ethereal Library.
- On This Day in UB History: February 23, UB Central, Igreja dos Irmãos Unidos em Cristo.
- Milton Wright, National Park Service, Dayton Aviation Heritage, sobre a cisão de 1889.
- Jonathan Weaver (bishop), Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
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