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HistóriaTeólogos arminianos12 de 276

Joseph R. Dongell: o biblista de Asbury que encontrou o amor no centro de Wesley

Diego Gonçalves13 min de leitura2.638 palavras

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Neste texto

Numa noite dos anos 1970, um estudante trabalhava no laboratório de química do Central Wesleyan College, na Carolina do Sul. Pensava em seguir carreira na química. Naquela noite, sem ouvir voz nenhuma, sentiu uma frase se impor à mente com tanta clareza que a guardou por mais de quarenta e cinco anos: “A química é maravilhosa, mas há algo muito mais maravilhoso do que a química”. Entendeu que era obra do Senhor e trocou o curso pelo grego e pela Bíblia. O estudante era Joseph R. Dongell, que ensinaria o Novo Testamento por mais de três décadas no Asbury Theological Seminary e escreveria com Jerry L. Walls o livro que no Brasil se chama Por que não sou calvinista.

Vida

Uma casa de Bíblias gastas

Joe Dongell, como é conhecido, é filho de Herbert e Virginia (Swauger) Dongell, dois ex-alunos do Houghton College, no estado de Nova York. As Bíblias dos pais estavam cheias de anotações e de datas que marcavam o dia em que um texto tinha falado à alma, e da leitura eles passavam à oração, de porta fechada, mas em voz alta o bastante para os filhos ouvirem. O pai foi professor de estudos bíblicos em duas faculdades cristãs e pregava em acampamentos lendo direto do Novo Testamento grego, sem chamar atenção para isso. Por isso, diz Dongell, ele nunca precisou descobrir como unir a busca espiritual e a busca intelectual.

O ambiente era o do movimento de santidade norte-americano, herdeiro do metodismo. Ele se lembra do cheiro da palha de aveia espalhada em volta dos altares dos acampamentos para proteger os joelhos de quem orava. Ali se ensinava que todo cristão devia buscar o seu próprio Pentecostes, uma “segunda obra definida da graça” que traria pureza de coração e poder para o serviço.

O chamado e o professor que dizia “não sei”

Depois do chamado no laboratório, Dongell encontrou no Central Wesleyan College, hoje Southern Wesleyan University, o professor que lhe abriu os olhos para a Escritura, Marling Elliott. Elliott dizia com frequência “não sei”, e com ele o aluno aprendeu que poucas descobertas acontecem antes de admitirmos a nossa ignorância. Aprendeu também a observar o texto com paciência: ler, ler de novo e ler mais uma vez. Formou-se em 1978.

Asbury e Robert Traina

No outono de 1978 chegou ao Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, e descobriu, contrariado, que teria de cursar disciplinas de “Bíblia em inglês”. Foi “de muito má vontade”, brincando com a frase de John Wesley sobre Aldersgate, a uma aula sobre Marcos com Robert Traina, autor de um livro sobre método de estudo bíblico.

Na terceira ou quarta semana percebeu que um mundo novo se abria. O estudo bíblico indutivo de Traina abrangia todo o caminho, da observação do texto às questões teológicas e à aplicação. Ensinava a ler cada livro da Bíblia como um todo e apresentava as “leis estruturais”, relações como a repetição e o contraste, que ligam frases, parágrafos e seções. Dongell fez três cursos com ele e, no dia da formatura, foi dizer ao professor que ele estava entre os três mentores mais importantes da sua formação. Concluiu o mestrado em Divindade em 1981.

O aluno desconfiava, porém, do nome “leis”. Na livraria do seminário achou The Thread of Discourse, do linguista Robert Longacre, que trazia a lista de Traina com outro nome, e chegou à análise do discurso, o ramo da linguística que estuda como os textos se organizam além da frase.

Nos anos 1980 ensinou grego, hebraico e latim no próprio seminário, no Asbury College e no Union Theological Seminary, e em 1986 concluiu um mestrado na Universidade do Kentucky. No mesmo ano entrou no doutorado do Union Theological Seminary, na Virgínia, seguindo os passos de David Bauer, que ali tinha escrito uma tese sobre a estrutura de Mateus com as leis de Traina. O orientador foi Jack Dean Kingsbury, especialista nos Evangelhos sinóticos e na crítica narrativa, e a tese tratou da estrutura literária do Evangelho de Lucas. Recebeu o doutorado em 1991.

Professor em Asbury

Convidado em dezembro de 1988, começou a ensinar em Asbury em 1989. Quase todos os seus cursos ficaram no departamento de Estudo Bíblico Indutivo, ao lado de Bauer, de David Thompson e, mais tarde, de Michael Matlock: Marcos, João, Romanos, as cartas menores de Paulo e o Pentateuco. Dirigiu os estudos de grego e tornou-se professor titular de estudos bíblicos. É presbítero ordenado da Igreja Wesleyana, denominação de santidade nascida do metodismo, onde foi pastor auxiliar, professor da escola dominical de adultos e instrutor na formação de ministros, e dirigiu a Wesleyan Seminary Foundation no campus de Asbury. É casado com Regina e tem dois filhos.

Em 1997 publicou um comentário ao Evangelho de João pela editora da Igreja Wesleyana. Em 2007 escreveu sobre Samuel Logan Brengle, do Exército de Salvação, na coletânea The Way Forward. Em 2014 gravou para a editora Seedbed o primeiro volume da série OneBook, um estudo de 32 semanas sobre Marcos. Em 2015 lançou o livreto Sola Sancta Caritas (“somente o amor santo”) e publicou em quatro partes a palestra “Três ondas de Wesley”, dada num fórum do Upper Room e na sede da sua igreja. Em 2024 publicou The Most Excellent Way, sobre a teologia do amor em Wesley.

Por que não sou calvinista

Em março de 2004 a InterVarsity Press lançou dois livros gêmeos: Why I Am Not an Arminian, dos calvinistas Robert Peterson e Michael Williams, e Why I Am Not a Calvinist, de Walls e Dongell. Dongell escreveu a primeira parte, sobre a Bíblia, e Walls a parte filosófica. O teólogo Myk Habets chamou o capítulo de Dongell sobre método de “leitura obrigatória” para quem quer entrar no debate, embora achasse poucas as passagens bíblicas examinadas no capítulo seguinte. William Klein, do Denver Seminary, viu no livro “um desafio devastador” às formas escorregadias de calvinismo, e Roger Olson escreveu que o caso contra o calvinismo nunca tinha sido exposto com tanta clareza e cortesia.

A Editora Reflexão publicou o livro no Brasil, numa tradução de que participou Wellington Mariano, e autores brasileiros como Walter Brunelli e Altair Germano passaram a citá-lo na leitura de Romanos 9.

Pensamento

Um wesleyano da santidade

Dongell é um arminiano wesleyano. Numa lista de doze convicções de Wesley que ele e os colegas de Asbury consideram essenciais, a terceira diz que Wesley “era arminiano”, convicto de que Deus, soberanamente, criou o ser humano com uma medida de liberdade real e planejou a salvação de modo a exigir a cooperação verdadeira da vontade. As convicções seguintes dizem de onde vem essa resposta: a salvação é um desdobramento da graça em etapas, que começa pela graça preveniente muito antes da conversão, e Deus age sem cessar, por essa graça, para atrair todas as pessoas.

Graça preveniente é a graça que vem antes de qualquer resposta humana. No arminianismo clássico e na declaração de fé deste site, é ela que convence do pecado e liberta a vontade caída para que a pessoa possa crer. A liberdade de que Dongell fala não é, portanto, uma capacidade natural de escolher Deus, mas a liberdade que a graça devolve, e a fé não acrescenta mérito ao que Deus faz.

A Bíblia como tecido

A análise do discurso deu a Dongell três convicções. As relações estruturais aparecem em textos de todas as culturas, épocas e gêneros; são poucas, porque nascem dos movimentos limitados do pensamento humano; e usá-las para ler a Bíblia é tão legítimo quanto usar a gramática. Os textos, escreve, são como “tecidos”, panos inteiros unidos por fios de tipos específicos. É o modo de ler, do todo para as partes, dos estudos indutivos em 2 Timóteo publicados neste site.

Romanos 9 e a eleição do povo

Why I Am Not a Calvinist pergunta qual sistema dá conta melhor do Deus bíblico, “cuja natureza é amor santo”. Dongell apresenta as três linhas bíblicas mais fortes do calvinismo, a soberania de Deus, a gratuidade da salvação e a predestinação, e responde a cada uma. Em Romanos 9 a 11 defende a eleição corporativa, a escolha de um povo, no lugar da eleição de indivíduos, leitura que Brian Abasciano desenvolveu depois em detalhe.

O argumento é de coerência. Em Romanos 1 e 2, Paulo acusa os gentios e os judeus como grupos e, por meio do grupo, alcança cada pessoa. Se aceitamos essa estratégia para o pecado, diz Dongell, “a coerência exige que admitamos a mesma extensão no caso da misericórdia de Deus” (p. 51), como diz Romanos 11:32: “Deus encerrou a todos debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia”.

Paulo, a Nova Perspectiva e Wesley

Num artigo de 2008 para a John Wesley Fellowship, Dongell apresentou aos wesleyanos a Nova Perspectiva sobre Paulo. E. P. Sanders concluiu em 1977 que, para o judaísmo do tempo de Paulo, entrava-se na aliança pela graça e a obediência era condição para permanecer nela, sem ser mérito. James D. G. Dunn e N. T. Wright leram as “obras da lei” como marcos da identidade judaica: circuncisão, sábado e leis alimentares.

Dongell lembra que a Nova Perspectiva não é uma escola unificada, mas vê nela questões que Wesley já enfrentava. Wesley pregava a justificação pela fé como obra instantânea de Deus e falava também de uma “justificação final”, baseada em grande parte nas obras. Daí a distinção entre causa e condição: as boas obras não causam a salvação, mas são condição dela, sem mérito nenhum. A obediência, resume, é “necessária, mas não suficiente”. Nos meios de graça, que Deus dá, ordena e capacita, fé e obediência se misturam, e é isso que Paulo chama de “obediência da fé” (Romanos 1:5).

A declaração de fé deste site fica perto dele na perseverança, porque a fé salvadora se manifesta em arrependimento, vida nova e obediência. Mas o site não adota a linguagem de uma justificação final pelas obras: afirma a justificação somente pela fé, pela justiça de Cristo, e trata a obediência como fruto e sinal dessa fé.

O amor santo no centro

A contribuição mais pessoal de Dongell é a leitura de Wesley a partir do amor. Na palestra “Três ondas de Wesley”, a primeira onda é o movimento de santidade em que cresceu. Ele acha que o declínio desse movimento teve causa teológica: ao pôr a pureza e o poder no topo da vida cristã, ele “mirava um pouco baixo demais”. A segunda onda é a pesquisa acadêmica sobre os Wesley, que questionou a leitura de Atos 2, 10 e 19 como modelo da segunda obra da graça. Dongell aceita essa crítica, mas lamenta que muitos estudiosos tenham passado a ver a santificação só como progresso gradual.

A terceira onda o surpreendeu. Lendo os catorze volumes das obras de Wesley, viu o amor atravessar tudo “como um tsunami”. Antes desconfiava do tema, que lhe parecia subjetivo, e nem o trabalho de Mildred Bangs Wynkoop o tinha conquistado; foi a leitura das fontes que o convenceu. Num dos catorze textos que reuniu, tirado de Uma explicação clara da perfeição cristã, Wesley diz que “o céu dos céus é o amor” e que não há nada mais alto na religião.

Daí saem cinco propostas. O amor cristão se define pela história de Cristo: amar “como eu vos amei” (João 13:34). Vem antes da ação, tanto que é possível dar todos os bens aos pobres sem ter amor (1 Coríntios 13:3). Vem de Deus (1 João 4:7), e o que damos aos outros é sempre amor recebido. Por isso o crente deve buscá-lo, como na oração de Efésios 3:19. E esse amor, derramado pelo Espírito, expulsa o pecado do coração.

O modelo é 2 Coríntios 1:3-4, em que Paulo consola os outros com a consolação que recebeu de Deus. Diante de um adesivo de carro com as palavras “Ame a Deus, ame o próximo”, Dongell propôs, brincando, outro adesivo para pôr antes: “Primeiro, a infusão do amor de Deus”. Encerrou a palestra com o hino de Charles Wesley sobre Jacó lutando com o anjo, que termina descobrindo que o nome de Deus é Amor.

A ênfase combina com a declaração de fé deste site, que vê na inteira santificação uma obra da graça, recebida pela fé, que enche o coração de amor perfeito a Deus e ao próximo. Dongell mantém a esperança dessa obra profunda, buscada nos meios de graça. Em relação ao movimento de santidade em que cresceu, a diferença está na exegese: ele deixa de ler os derramamentos do Espírito em Atos como o padrão dessa obra.

Obras principais

  • John (Wesleyan Bible Study Commentary, 1997)
  • Why I Am Not a Calvinist (com Jerry L. Walls, 2004)
  • “Samuel Logan Brengle”, em The Way Forward: Discovering the Classic Message of Holiness (2007)
  • “The Pauline ‘New Perspective’ and Wesleyan Theology” (2008)
  • The Gospel of Mark (OneBook: A Biblical Journey, 2014)
  • Sola Sancta Caritas (2015)
  • “Three Waves from Wesley” (2015)
  • “My Journey with Inductive Bible Study”, Journal of Inductive Biblical Studies 7, n. 2 (2020)
  • The Most Excellent Way: John Wesley’s Theology of Love (2024)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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