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HistóriaTeólogos arminianos5 de 276

Kevin Kennedy: O teólogo batista que leu Calvino contra a expiação limitada

Diego Gonçalves13 min de leitura2.514 palavras

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Neste texto

No fim dos anos 1980, numa aula de introdução ao Novo Testamento no Southeastern Baptist Theological Seminary, em Wake Forest, na Carolina do Norte, um aluno ouvia o professor zombar de quem acreditava na inerrância da Bíblia. O professor era um dos “moderados” da Convenção Batista do Sul, a ala que naqueles anos perdia o controle dos seminários para os conservadores. Mais de duas décadas depois, já professor de teologia no Texas, Kevin Dixon Kennedy contou a cena num artigo para a Baptist Press, em março de 2012, e tirou dela um argumento: quem afirma que a Escritura erra precisa confiar muito na própria interpretação, e essa interpretação também é falível. O seu trabalho mais conhecido examina como João Calvino lia as passagens bíblicas sobre a morte de Cristo e conclui que ele as lia de outro modo que os calvinistas que vieram depois.

Vida

Carolina do Norte e Virgínia

Kennedy estudou no Guilford College e na Liberty University, em Lynchburg, na Virgínia, onde se formou bacharel em 1986. O interesse por política e economia veio de casa. O pai, Charles Darrell Kennedy, foi eleito para um cargo público em Durham, na Carolina do Norte, o primeiro republicano eleito no condado desde a Reconstrução, o período que se seguiu à Guerra Civil americana.

Da Liberty ele foi para o Southeastern, em Wake Forest, onde concluiu em 1990 o mestrado em Divindade com as línguas bíblicas. Enquanto estudava, trabalhou com adolescentes e jovens em duas igrejas batistas da região: a Somerset Baptist Church, em Roxboro, de 1987 a 1988, e a Westwood Baptist Church, em Durham, de 1988 a 1991. De 1991 a 1994 voltou à Liberty como instrutor de teologia.

Louisville e a tese sobre Calvino

O doutorado foi no Southern Baptist Theological Seminary, em Louisville, no Kentucky, nas áreas de teologia sistemática e filosofia da religião. Defendeu a tese em maio de 1999 com o título “A união com Cristo como chave para a compreensão de João Calvino sobre a extensão da expiação”. Em 2002 ela saiu em livro pela editora Peter Lang, de Nova York, como o volume 48 da série Studies in Biblical Literature: Union with Christ and the Extent of the Atonement in Calvin.

O livro entrou num debate antigo. Desde o século XVII, teólogos como John Davenant, Moisés Amyraut e Richard Baxter afirmavam que Calvino ensinara que Cristo morreu por todos, embora só os eleitos sejam salvos. Em 1979, R. T. Kendall reabriu a questão com Calvin and English Calvinism to 1649, e estudiosos reformados como Roger Nicole e Paul Helm responderam que Calvino já pensava na expiação limitada, ainda que não a tivesse formulado. Kennedy tomou o lado de Kendall, com um exame demorado dos textos do próprio Calvino. Jared L. Witt, na Renaissance Quarterly, chamou de “devastadora” a crítica do livro aos defensores da expiação limitada. Oliver Crisp, na Themelios, não se convenceu.

Fort Worth

Em agosto de 2002 Kennedy entrou para o corpo docente do Southwestern Baptist Theological Seminary, em Fort Worth, no Texas, onde ensinou teologia até maio de 2015. Chefiou o departamento de teologia em 2009-2010 e em 2013-2014 e, em 2014, a divisão de estudos teológicos e históricos. De 2013 a 2015 foi pesquisador do Richard Land Center for Cultural Engagement, o centro do seminário dedicado à ética pública. Em 2007 presidiu a seção sudoeste da Evangelical Theological Society.

Naqueles anos o Southwestern era um dos centros dos batistas do Sul que não aceitavam os cinco pontos do calvinismo. Em 2010 a B&H Academic publicou Whosoever Will (“Todo aquele que quiser”), organizado por David L. Allen e Steve Lemke, a partir da Conferência João 3:16, que Jerry Vines reuniu em 2008 na Primeira Igreja Batista de Woodstock, na Geórgia. Entre os autores estavam Paige Patterson e Kennedy, do Southwestern, e Kenneth Keathley, Bruce Little e Jeremy Evans, do Southeastern. Coube a Kennedy o capítulo 7, “Calvino era ‘calvinista’? João Calvino sobre a extensão da expiação”. No ano seguinte ele publicou no Scottish Journal of Theology o artigo “Descontinuidade hermenêutica entre Calvino e o calvinismo posterior”.

Em 2004 escreveu sobre a substituição penal no Journal for Baptist Theology and Ministry e sobre Ário e as Testemunhas de Jeová no Southwestern Journal of Theology. Deu palestras sobre a imputação do pecado de Adão em Calvino e Lutero e sobre Romanos 9. Na Baptist Press escreveu em 2016 sobre a criação, perguntando se Deus usaria a morte como o seu principal instrumento criador, já que a evolução não acontece sem ela.

Depois do Southwestern

Em 2014 saiu o seu capítulo sobre a “graça radical” na doutrina da queda em Martinho Lutero, no volume Reformation Faith, organizado por Michael Parsons. Em 2016 escreveu “Os batistas e a doutrina do futuro” para Eschatology, coletânea da Kregel Academic em homenagem ao teólogo Craig Blaising. De 2018 a 2020 foi editor do Ethics and Political Economy Center. Em 2023 e 2024 serviu como presbítero docente da Franklin Street Baptist Church, e hoje leciona como professor adjunto nos cursos de pós-graduação do Clear Creek Baptist Bible College, em Pineville, no Kentucky.

Pensamento

Onde ele fica

Classe: simpatizante. Kennedy pertence aos batistas do Sul que se identificam como não calvinistas, hoje chamados também de tradicionalistas. Rejeita a expiação limitada, um dos cinco pontos do calvinismo, e escreveu num livro que critica o sistema inteiro. William Klein, que resenhou Whosoever Will em 2010, observou que os autores defendem posições que a maioria poria na categoria arminiana, mas evitam todos esse nome. Ele toca o arminianismo na extensão universal da expiação.

A união com Cristo e a extensão da expiação

A pergunta do livro de 2002 é por quem Cristo morreu. A expiação limitada, ou definida, responde que ele morreu só pelos eleitos; a expiação universal, que morreu por todos, embora só os que creem sejam salvos. Os defensores da primeira objetam: se Cristo tomou o lugar de todos e pagou a pena de todos, como alguém ainda pode ser condenado?

Kennedy responde com Calvino. No começo do terceiro livro das Institutas, Calvino ensina que, enquanto Cristo está fora de nós, tudo o que ele sofreu fica sem proveito para nós; é o Espírito que nos une a ele pela fé. Para Kennedy, a união com Cristo é, em Calvino, “o evento eficaz na aplicação concreta da nossa salvação”. Por isso os eleitos e os réprobos não se separam no momento da cruz, que foi pelo mundo inteiro, mas no momento da união com Cristo. A eleição continua no sistema de Calvino, mas, nessa leitura, ela opera na aplicação da obra de Cristo, e não na extensão da cruz.

Crisp respondeu que Kennedy não explica como a expiação pode ser ao mesmo tempo universal e substitutiva, e que o resultado é uma expiação que vale por todos mas só é apropriada pelos que creem. Helm, em 2013, objetou que Calvino funda a própria união com Cristo na eleição eterna. As duas críticas mostram o alcance exato da tese: ela põe Calvino ao lado de Davenant e de Amyraut, que juntavam uma expiação universal a uma eleição incondicional.

O “muitos” e o “todos”

O artigo de 2011 desce ao modo de ler a Bíblia. Kennedy examina duas “regras” de interpretação. A primeira trata dos textos em que Cristo dá a vida “por muitos” (Mateus 20:28; Marcos 10:45). Os intérpretes reformados posteriores leram esse “muitos” como um grupo restrito, os eleitos. Calvino, no comentário à harmonia dos Evangelhos, entende que “muitos” se opõe ao único que morre, e lembra que Paulo, em Romanos 5:15, usa a mesma palavra para todo o gênero humano. A segunda regra, que Calvino às vezes usa, diz que “todos” nem sempre quer dizer cada pessoa, e daí teólogos reformados de hoje concluem que ele pensava como os calvinistas posteriores. Kennedy mostra que, nesses casos, Calvino restringe a apropriação da salvação pela fé, e não a extensão da morte de Cristo. A conclusão é que os teólogos posteriores impuseram a Calvino uma hermenêutica particularista que ele não tinha.

Calvino diante de Georgius e de 1 João 2:2

Em Whosoever Will, Kennedy enfrenta os textos que mais parecem favorecer a expiação limitada. No comentário a 1 João 2:2, Calvino lê “o mundo inteiro” como os crentes espalhados pelo mundo e, embora aceite como verdadeira a fórmula das escolas, de que Cristo sofreu de modo suficiente por todos e eficaz só pelos eleitos, diz que ela não se aplica a esse versículo. Kennedy admite que o comentário soa limitado. Mas aponta o adversário que Calvino tinha diante de si: os “fanáticos” que estendiam a salvação a todos os réprobos e, portanto, ao próprio Satanás. O maior medo de Calvino, escreve Kennedy, era a leitura que punha na vida eterna “o mundo inteiro, incluindo Satanás e os seus demônios” (Whosoever Will, 2010, p. 211).

Outro texto é o tratado Da predestinação eterna de Deus (1552), em que Calvino responde a Jorge da Sicília. Georgius argumentava que, se Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro, ninguém pode ser excluído da participação nele. Kennedy nota que Calvino não negou a primeira premissa e atacou só a segunda; se ensinasse a expiação limitada, teria corrigido o adversário logo ali. E recorda a cronologia: a expiação limitada só foi formulada com clareza no Sínodo de Dort (1618-1619), 55 anos depois da morte de Calvino.

A substituição penal

Kennedy defende com a mesma firmeza a natureza da cruz. Em “Revisitando a substituição penal” (2004), ele responde a Recovering the Scandal of the Cross (2000), de Joel B. Green e Mark Baker, que viam na substituição penal a imagem de um Deus irado que precisa ser aplacado. Kennedy aceita que nenhuma teoria esgota a cruz, mas sustenta que os críticos atacam uma caricatura.

O primeiro argumento vem de Calvino: a causa da cruz é o amor de Deus, e não a ira (1 João 4:10). A linguagem da ira é uma acomodação de Deus à nossa capacidade, sem deixar de ser verdadeira, porque Deus não pode amar a injustiça que vê em nós (Institutas II.16.2-3). O segundo argumento é que “o pecado é um problema para a humanidade justamente, e somente, porque antes é um problema para Deus”. Toda linguagem de sacrifício supõe uma exigência de Deus que precisa ser satisfeita; sem ela, pergunta Kennedy, por que a cruz? O terceiro argumento é trinitário. A acusação de “abuso divino” supõe um Pai irado e um Filho que o torna amoroso, como se trabalhassem um contra o outro, quando o envio do Filho foi um ato de amor do Pai, aceito livremente pelo Filho. Por fim, a substituição penal não tira o motivo para a vida santa, porque quem está unido a Cristo pela fé recebe dele a justificação e a santificação juntas (Institutas III.16.1).

Perto e longe do arminianismo clássico

Nos seus dois temas centrais Kennedy concorda com a nossa declaração de fé: Cristo morreu por todos, em substituição penal, como ensinaram Armínio e Wesley. A combinação que ele defende mostra que a expiação universal não precisa trocar a substituição pela teoria governamental de Hugo Grócio. A resposta dele à objeção do pagamento duplo, pela união com Cristo, é a mesma que os arminianos dão quando dizem que a salvação é para os que estão unidos a Cristo pela fé.

A distância está no que a tese deixa em aberto. Ler Calvino como defensor da expiação universal não faz dele um arminiano: o Calvino que Kennedy descreve continua a distinguir eleitos e réprobos por uma eleição particular, que não depende da fé prevista. O arminianismo clássico acrescenta a eleição condicional em Cristo e a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, alcança todas as pessoas, liberta a vontade para crer e pode ser recusada. Kennedy é um aliado dos arminianos no ponto da cruz, ao lado de outros tradicionalistas batistas como Adam Harwood e Eric Hankins.

Obras principais

  • Union with Christ and the Extent of the Atonement in Calvin (Nova York: Peter Lang, 2002), Studies in Biblical Literature 48.
  • “Revisiting Penal Substitution”, Journal for Baptist Theology and Ministry 2, n. 2 (2004), p. 38-54.
  • “Making Man the Measure of God: Arius and the Jehovah’s Witnesses”, Southwestern Journal of Theology 46, n. 2 (2004).
  • “Was Calvin a ‘Calvinist’? John Calvin on the Extent of the Atonement”, em David L. Allen e Steve W. Lemke (orgs.), Whosoever Will: A Biblical-Theological Critique of Five-Point Calvinism (Nashville: B&H Academic, 2010), p. 191-212.
  • “Hermeneutical Discontinuity between Calvin and Later Calvinism”, Scottish Journal of Theology 64, n. 3 (2011), p. 299-312.
  • “Radical Grace Displayed in Martin Luther’s Doctrine of the Fall”, em Michael Parsons (org.), Reformation Faith: Exegesis and Theology in the Protestant Reformations (Milton Keynes: Paternoster, 2014).
  • “Baptists and the Doctrine of the Future”, em D. Jeffrey Bingham e Glenn R. Kreider (orgs.), Eschatology: Biblical, Historical, and Practical Approaches (Grand Rapids: Kregel Academic, 2016).
  • Artigos na Baptist Press: “Lessons from the Lemur” (2010), “One Reason I Believe the Scriptures Are Inerrant” (2012) e “Did God Employ Death in Creation?” (2016).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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