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Joseph Agar Beet: O exegeta wesleyano que a Conferência quase tirou da cátedra
Neste texto
- Vida
- De Sheffield a Richmond
- Vinte e um anos de circuito
- Professor em Richmond
- A crise das últimas coisas
- Os últimos anos
- Pensamento
- Um wesleyano que se dizia herdeiro de Armínio
- Eleição, graça e perseverança em Romanos
- Santidade como entrega sem reservas
- Teologia como ciência das evidências
- O destino dos perdidos
- Obras principais
- Para aprofundar
Em julho de 1902, a Conferência Metodista Wesleyana, reunida em Manchester, votou duas vezes sobre o mesmo homem. Na sessão representativa, de ministros e leigos, Joseph Agar Beet recebeu 228 votos para continuar na cátedra de teologia do Richmond College, contra 238 dados a outro nome. Em seguida, a sessão pastoral, só de ministros, discutiu o caso a portas fechadas e o reconduziu por 329 votos a 235. Contra ele pesava um livro sobre o destino dos perdidos. A favor, uma vida dedicada a ler o Novo Testamento em grego e uma carta de 116 ex-alunos, todos pastores em atividade: sem endossar as ideias do professor, lembravam que nenhum aluno dele tinha caído no agnosticismo nem deixado o ministério por causa das suas aulas.
Vida
De Sheffield a Richmond
Joseph Agar Beet nasceu em Sheffield, no norte da Inglaterra, em 27 de setembro de 1840, filho de W. J. Beet, industrial de destaque, e de Ann Agar, numa família metodista; um tio, Joseph Agar, tinha sido ministro wesleyano de 1810 a 1830. Estudou no Wesley College de Sheffield de 1851 a 1856 e teve as primeiras aulas de latim com William Fiddian Moulton, depois um dos maiores conhecedores do grego bíblico no metodismo e pai de James Hope Moulton.
Ao sair da escola, foi estudar engenharia de minas. Na juventude, foi marcado por The Higher Christian Life (1860), do americano William Boardman, livro muito lido no movimento de santidade, e dali vem a doutrina da “santificação pela fé” que desenvolveria a vida inteira. Antes do seminário, já tinha lido com atenção os três volumes das Theological Institutes de Richard Watson.
Em 1862 entrou no Richmond College, o seminário wesleyano perto de Londres. O primeiro ano foi todo ocupado por um estudo gramatical da Epístola aos Efésios com o professor Benjamin Hellier, e Beet contou, meio século depois, que ali aprendeu que “as únicas fontes seguras da teologia cristã são os livros do Novo Testamento”, lidos com a ajuda da gramática moderna (A Theologian’s Workshop, 1914, prefácio). Nas férias, viajando pela Alemanha e pela Itália, decidiu o trabalho da sua vida: pôr a erudição bíblica, então quase toda alemã, ao alcance de quem lia a Bíblia em inglês.
Vinte e um anos de circuito
Beet entrou no ministério em 1864 e passou vinte e um anos nos “circuitos”, os grupos de igrejas pelos quais os pastores metodistas eram mudados a cada poucos anos. Nos dez primeiros, entre visitas e sermões, leu com todos os recursos que tinha o Novo Testamento inteiro e boa parte do Antigo.
Em 1876 pediu à Conferência um ano de afastamento para escrever, e em 1877 publicou o Comentário sobre a Epístola de São Paulo aos Romanos, que chegou à nona edição, reescrita em 1901, e seria elogiado por Arthur S. Peake e pelo jesuíta Joseph Fitzmyer. Seguiram-se comentários sobre Coríntios (1882), Gálatas (1885) e Efésios, Filipenses, Colossenses e Filemom (1890).
Professor em Richmond
Em 1885 a Conferência o nomeou professor de teologia sistemática no Richmond College, onde sucedeu a George Osborn. Nehemiah Curnock, futuro editor do diário de John Wesley, votou contra por achá-lo especulativo e independente demais para formar pastores. As aulas viraram livros: Through Christ to God (1892) e The New Life in Christ (1895). Em 1889 pronunciou a Fernley Lecture, a conferência anual de prestígio do metodismo britânico; em 1896 deu palestras nos Estados Unidos; de 1901 a 1905 integrou a faculdade de teologia da Universidade de Londres.
Os alunos admiravam a clareza das aulas. Um deles, Sheldon Knapp, observou que o professor falava sempre em “santificação”, e não em “amor perfeito”, e que ele próprio saíra de Richmond estranho ao lado místico do metodismo.
A crise das últimas coisas
O metodismo wesleyano do fim do século XIX se orgulhava de não ter mudado a doutrina, sobretudo a do castigo eterno. Em 1897 Beet publicou The Last Things, que dizia que a Bíblia não obriga a crer num sofrimento consciente sem fim dos perdidos e, ao mesmo tempo, rejeitava o universalismo e o aniquilacionismo. O presidente da Conferência, W. L. Watkinson, reuniu os ex-presidentes e a comissão do seminário, e Beet aceitou modificar o texto. O veterano Marshall Randles respondeu com Doctrines Old and New (1898), acusando-o de pôr a consciência moral acima da Escritura. O presidente seguinte, Hugh Price Hughes, temia uma divisão e pediu que ele retirasse o livro. Beet cedeu por lealdade ao amigo, mas deixou registrado que a ambiguidade lhe era inteiramente estranha. Na Conferência de Hull, em 1898, prometeu não reeditar o livro nem ensinar aquelas ideias na sala de aula ou no púlpito.
Em 1901 publicou The Immortality of the Soul: A Protest, reunião de artigos da revista The Expositor. Um ministro, Wilson, o acusou de quebrar a promessa e de ensinar contra os padrões da Igreja, e a comissão do seminário propôs que ele não fosse reconduzido. Beet recebeu apoio do batista John Clifford, da reformadora Josephine Butler e do deão Frederic Farrar. Na Conferência de 1902, Hughes conduziu a defesa. A comissão concluiu que Beet não cumprira a promessa como todos a entenderam, por “grave erro de julgamento” e não por má-fé, e que o seu ensino ficava aquém da doutrina da Igreja. Ele ficou na cátedra com três condições: não pregar a doutrina do livro, não publicar sobre o assunto sem o consentimento da Conferência e não ensiná-la nas aulas.
Em 1904 Beet quis reeditar The Last Things. Diante da oposição, avisou que deixaria a cátedra, e em 1905 a Conferência o liberou das promessas. A nova edição saiu no mesmo ano, com um prefácio em que ele dizia ser “inteiramente inútil, nestes dias de pesquisa inteligente, tentar defender a fé suprimindo a opinião contrária”.
Os últimos anos
Fora da cátedra, Beet escreveu o que chamou de culminação de todo o trabalho, A Manual of Theology (1906), a primeira teologia sistemática wesleyana completa desde o Compendium de William Burt Pope. Vieram depois The Church, the Churches, and the Sacraments (1907), Holiness, Symbolic and Real (1910) e A Theologian’s Workshop, Tools, and Methods (1914), em que mostrou aos estudantes como chegara aos resultados do Manual.
Foi membro do Legal Hundred, os cem ministros que formavam legalmente a Conferência, mas nunca foi eleito presidente. Morreu em 25 de maio de 1924. Naquele ano, George Jackson escreveu que os livros dele só apareciam nas estantes dos antigos alunos e nos sebos. O Dictionary of Methodism in Britain and Ireland o chama de talvez o maior teólogo “esquecido” do metodismo britânico.
Pensamento
Um wesleyano que se dizia herdeiro de Armínio
Beet pertence à linha wesleyana do arminianismo clássico, e ele mesmo o disse no Manual of Theology (1906, §§ 356-361). Ali concede a Calvino o ponto principal: o reformador “ensinou corretamente que a salvação, do primeiro bom desejo até a vitória sobre a morte, é inteiramente obra de Deus”. O erro de Calvino estava na conclusão de que Deus exerce sobre alguns, e não sobre outros, uma influência que leva sempre à fé, sem a qual ninguém se salva. Isso contradiz o amor universal de Deus e a afirmação do Novo Testamento de que Cristo morreu por todos.
Em seguida Beet cita os quatro decretos da Declaração de Sentimentos de Armínio e os artigos da Remonstrância, que considera “em estreita concordância com o Novo Testamento”. Reserva o nome “arminiano” para o ensino do próprio Armínio, distinto do racionalismo dos remonstrantes posteriores, e diz que foi pela pregação de Wesley que esse ensino se espalhou pela Inglaterra e pela América. A síntese dele: Agostinho e Calvino mantiveram a verdade principal, a de que todo bem no ser humano é obra de Deus; Armínio e Wesley a mantiveram com a mesma firmeza e acrescentaram que o resultado dessa ação divina depende da livre entrega da pessoa a ela.
Eleição, graça e perseverança em Romanos
No comentário sobre Romanos (edição de 1901), Beet resume a doutrina da eleição: desde a eternidade, movido só pela compaixão diante da nossa perdição, e não por algum bem previsto em nós, Deus decidiu salvar “não todos indiscriminadamente, mas só os que cressem no Evangelho”. É a eleição condicional: Deus escolheu, por livre decisão, a fé como condição da salvação. Ele exerce sobre todas as pessoas influências que levam ao arrependimento, “sem as quais ninguém pode vir a Cristo” (Romanos 2:4; João 6:44), e permite que elas cedam a essas influências ou as resistam. É a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e torna a fé possível. Para Beet, a própria fé é “obra de Deus em nós e dom para nós”.
Daí as conclusões contra a graça irresistível e a perseverança incondicional. Romanos 10:21, em que Deus estende as mãos o dia todo a um povo desobediente, perderia o sentido se ele tivesse negado a esse povo a graça sem a qual ninguém se converte. Em Romanos 11:20-22, Paulo adverte cristãos justificados de que serão cortados se não permanecerem na bondade de Deus, e a advertência só tem força se o perigo for real, porque “um homem inteligente não pode temer aquilo que sabe que não vai acontecer”. Beet também lê Romanos 7:14-25 como a experiência de Paulo antes da justificação, a leitura dos pais gregos e a mesma que Armínio defendeu.
Santidade como entrega sem reservas
Em Holiness, Symbolic and Real (1910), Beet estuda a palavra “santo” do Pentateuco ao Novo Testamento e conclui que ela indica sempre uma relação com Deus: santo é o que pertence a Deus, entregue a ele sem reservas. A santificação se recebe pela fé, aqui e agora, como a justificação. Por isso dizia que A Plain Account of Christian Perfection (1766), de Wesley, precisa ser lido junto com o sermão 43, O caminho bíblico da salvação, em que Wesley afirma que somos santificados pela fé exatamente como somos justificados pela fé.
Ele preferia falar em “maturidade cristã” a “perfeição cristã”, porque a palavra grega traduzida por “perfeito” indica crescimento pleno, e o português “perfeito” sugere um estágio que não admite mais progresso. Mantinha a doutrina wesleyana da inteira santificação, a obra da graça que purifica o coração e o enche de amor a Deus, mas fugia do termo que, separado das explicações, se presta a mal-entendidos.
Teologia como ciência das evidências
Beet chamou Through Christ to God de “estudo de teologia científica” e propôs mostrar que, por um método “estritamente histórico, científico e filosófico”, é possível chegar a resultados seguros sobre os fundamentos da religião. O Manual segue a mesma ordem: começa pelo senso moral e pelo mundo natural, que apontam para um Criador e Juiz, e chega ao Novo Testamento. Numa carta de 1906, explicou que o senso moral “não é infalível” e “não é rival da Bíblia”, mas exige ser ouvido.
O destino dos perdidos
Em The Last Things, Beet argumentou que o grego aiónios, traduzido por “eterno”, significa literalmente “que dura pelas eras”, e que a “destruição” dos ímpios é a perda de “tudo o que faz a existência valer a pena”. Não duvidava de que a condenação fosse definitiva e terrível, mas dizia que a Escritura não afirma de modo claro que o sofrimento deles será sem fim; Cristo e os apóstolos quiseram alertar contra a impenitência, não satisfazer a curiosidade. Para ele, a escatologia era doutrina de segunda ordem, abaixo da Trindade e da divindade de Cristo. Em The Immortality of the Soul negou que a imortalidade natural da alma seja ensino da Bíblia, o que o aproximou dos condicionalistas. O mesmo livro sobre as últimas coisas fala com esperança da volta de Cristo: a encarnação deu à matéria uma dignidade nova, e a ressurreição levou ao céu “um punhado de pó” da terra, primícias da nova criação.
Nesse ponto Beet se afasta da declaração de fé deste site, que afirma o castigo eterno dos ímpios (o tema é tratado no capítulo A doutrina das últimas coisas), como se afastou da Conferência de 1902. O debate voltou em 2020 num artigo do teólogo nazareno Gregory Crofford. Na doutrina da salvação, porém, Beet é um arminiano clássico de linha wesleyana: a salvação inteira vem da graça de Deus, a graça alcança todos e pode ser resistida, a eleição é para os que creem, e quem crê é chamado a permanecer na fé.
Obras principais
- A Commentary on St. Paul’s Epistle to the Romans (1877; nona edição, reescrita, 1901)
- A Commentary on St. Paul’s Epistles to the Corinthians (1882)
- A Commentary on St. Paul’s Epistle to the Galatians (1885)
- The Credentials of the Gospel (1889)
- A Commentary on St. Paul’s Epistles to the Ephesians, Philippians, Colossians, and to Philemon (1890)
- Through Christ to God: A Study in Scientific Theology (1892)
- The New Life in Christ: A Study in Personal Religion (1895)
- The Last Things (1897; nova edição, 1905)
- The Immortality of the Soul: A Protest (1901)
- A Manual of Theology (1906)
- The Church, the Churches, and the Sacraments (1907)
- Holiness, Symbolic and Real (1910)
- A Theologian’s Workshop, Tools, and Methods (1914)
Para aprofundar
- David Carter, “Joseph Agar Beet and the Eschatological Crisis”, Proceedings of the Wesley Historical Society 51 (1998), p. 197-216.
- “Beet, Joseph Agar”, A Dictionary of Methodism in Britain and Ireland.
- “Beet, Joseph Agar”, The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 2 (1908).
- Dorothea Price Hughes, The Life of Hugh Price Hughes (1904), p. 600-603, com o relatório da comissão e as condições da Conferência de 1902.
- LeRoy Edwin Froom, The Conditionalist Faith of Our Fathers, vol. 2, sobre The Immortality of the Soul e a reação da imprensa.
- J. Gregory Crofford, “Immortal Soul, Eternal Punishment? The Dissent of Joseph Agar Beet and Edward William Fudge”, Wesleyan Theological Journal 55, n. 1 (2020), p. 81-92.
- Obras de Beet no Internet Archive: Romans (1901), Through Christ to God, The Last Things, A Manual of Theology, Holiness, Symbolic and Real e A Theologian’s Workshop.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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