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Justo L. González: O historiador cubano que contou a história da Igreja aos pastores da América Latina
Neste texto
- Vida
- Havana
- Yale, Basileia e Porto Rico
- Atlanta
- A história para quem não tinha livros
- Os programas para os latinos
- As Obras de Wesley
- Pensamento
- Um historiador wesleyano
- Wesley entre Lutero e Calvino
- O evangelho inteiro
- Três tipos de teologia
- Escrever para ensinar
- Diferenças com a declaração de fé do site
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em 1961, um cubano de 23 anos recebeu na Universidade Yale o doutorado em teologia histórica, com uma tese sobre a cristologia de São Boaventura. Era o mais jovem a obter aquele título em Yale. A Igreja Metodista de Cuba o tinha mandado estudar fora, e ele esperava voltar para ensinar no seminário de Matanzas, onde havia se formado. Nunca voltou. A situação política da ilha e a invasão fracassada da baía dos Porcos, patrocinada pela CIA naquele mesmo ano, fecharam o caminho de casa. Justo Luis González foi para Porto Rico com uma bolsa metodista de um ano. Dali sairia o historiador que milhões de estudantes conhecem pela História Ilustrada do Cristianismo.
Vida
Havana
Justo L. González nasceu em Havana em 9 de agosto de 1937, numa família metodista, parte da pequena minoria protestante de um país católico. O pai, Justo B. González, era pastor, romancista e editor de jornal. A mãe, Luisa García Acosta (1908-1977), doutora em educação, dirigiu a Phillips School, que sob o seu comando passou de 60 para mais de mil alunos, ensinou literatura espanhola no Candler College, colégio metodista de Havana, e foi presbítera leiga da igreja. Com o marido e com Eulalia Cook, fundou a Alfalit, programa cristão de alfabetização que chegou a doze países latino-americanos e ensinou mais de um milhão de pessoas a ler.
O chamado para o ministério veio cedo. O jovem pensava em ser evangelista e chamar à fé os milhares de moradores das favelas de Havana. Concluiu em 1957 o bacharelado em teologia no Seminário Evangélico de Teologia de Matanzas e foi ordenado ministro metodista no mesmo ano.
Yale, Basileia e Porto Rico
Em Yale teve como professores Roland H. Bainton, o biógrafo de Lutero, e H. Richard Niebuhr, e estudou também com Karl Barth, em Basileia. Quando o aluno começou a ensinar no Seminário Evangélico de Porto Rico, Bainton escreveu ao presidente da escola, Thomas J. Liggett, com medo de que as muitas tarefas impedissem o jovem professor de escrever. Com a carta na mão, Liggett conseguiu da Fundação Lilly uma bolsa que deu a González metade do tempo para escrever e uma secretária para datilografar.
A bolsa de um ano virou oito (1961-1969). González ensinou teologia histórica e foi deão do seminário de 1967 a 1969. Escreveu ali o primeiro livro, Revolución y encarnación, sobre o peso da encarnação no compromisso social do cristão, e começou os três volumes da História do pensamento cristão. Em meados dos anos 1960 a política porto-riquenha se polarizou, e a divisão entrou no seminário. Ele achava que a ordem social da ilha precisava de uma transformação profunda, mas o que tinha visto em Cuba o deixava sem entusiasmo pelas propostas radicais. Estrangeiro, concluiu que o seu ministério ali tinha terminado.
Atlanta
De 1969 a 1977 ensinou na Candler School of Theology, da Universidade Emory, em Atlanta. Ali viveu uma crise de vocação: ocupava um posto que muitos outros poderiam ocupar. Três coisas, conta ele, resolveram a crise. As igrejas hispânicas cresceram de repente em todas as denominações americanas, das católicas às pentecostais, e os líderes delas passaram a procurá-lo. As teologias da libertação latino-americana, negra e feminista o fizeram olhar de outro modo a história que ensinava. E Catherine Gunsalus, professora de história da Igreja no Columbia Theological Seminary, entrou na sua vida, tornou-se sua esposa e coautora de vários livros. De todos os mestres que teve, diz ele, nenhum se compara a ela na arte de olhar a vida inteira com olhos teológicos.
A história para quem não tinha livros
Em 1977 González deixou o ensino em tempo integral. Era então o único professor latino de um seminário protestante nos Estados Unidos. Continuou como professor visitante em dois seminários de Atlanta, mas dedicou-se sobretudo a escrever.
O primeiro projeto foram dez livros pequenos de história da Igreja para os pastores da América Latina e das igrejas latinas dos Estados Unidos, gente com pouca formação teológica que não abriria um volume grosso. No Brasil a coleção saiu pela Vida Nova como Uma história ilustrada do cristianismo (o site tem uma resenha do primeiro volume). Reunidos em espanhol e traduzidos para o inglês como The Story of Christianity (1984-1985), os dez livros viraram manual de seminários no mundo de língua inglesa.
Os programas para os latinos
Com Roy Barton, González fundou Apuntes, a primeira revista acadêmica de teologia latina, ligada à Perkins School of Theology. Em 1987 recebeu a encomenda de um estudo sobre a formação teológica dos hispânicos, publicado em 1988. Dele nasceram três organizações irmãs, com dinheiro inicial da fundação Pew: a Hispanic Theological Initiative, que dá bolsas e mentoria a doutorandos latinos em religião; o Hispanic Summer Program, curso de verão para seminaristas latinos, que ele dirigiu; e a Associação para a Educação Teológica Hispana (AETH), aberta a todas as denominações.
As Obras de Wesley
González foi o editor-geral das Obras de Wesley, catorze tomos de John Wesley em espanhol, preparados com a Wesley Heritage Foundation a partir de 1990. Lançou os primeiros volumes em outubro de 1997. Em 2016, numa universidade metodista, deu seis conferências sobre “Wesley em diálogo com a Reforma”, publicadas em 2019 como Juan Wesley y la Reforma Protestante: entre Lutero y Calvino.
Em 2011 a AETH criou o Centro Justo González para Ministérios Latinos, no campus de Orlando do Asbury Theological Seminary. Recebeu quatro doutorados honorários e o prêmio de ecumenismo do Washington Theological Consortium. É presbítero aposentado da Conferência Rio Grande da Igreja Metodista Unida e tem mais de 150 livros publicados. Em fevereiro de 2026 a Candler e a AETH celebraram os 35 anos de Mañana, com palavras finais do próprio autor.
Pensamento
Um historiador wesleyano
Classe: wesleyano. González é ministro metodista desde 1957 e se diz formado por “uma piedade profundamente wesleyana” (The Christian Century, 2020). A sua obra é sobretudo de historiador, mas nas conferências de 2016 ele chama os cinco pontos do Sínodo de Dort (1619) de “pontos de desacordo entre o calvinismo ortodoxo e o arminianismo que Wesley defendia” e conclui que Wesley está “firmemente no campo arminiano”. É a tradição arminiana de Armínio a Wesley que ele propõe como modelo à igreja latino-americana.
O que mais o atrai em John Wesley nesse debate é o modo de discordar. Ele cita o fim de O que é um arminiano? (1770): para Wesley, Jacó Armínio e João Calvino foram homens estudiosos, piedosos e sensatos, a diferença entre os dois partidos está na predestinação absoluta de um e na predestinação condicional do outro, e nenhum pregador arminiano deve usar a palavra “calvinista” como insulto. Para González, a disputa do século 18 empobreceu os dois lados, porque reduziu a fé à pergunta sobre como alguém é salvo, quando o próprio Calvino dizia que a fé cristã não se reduz a um modo de alcançar a salvação.
Wesley entre Lutero e Calvino
O livro de 2019 sustenta que Wesley recebeu da Reforma duas heranças e corrigiu uma pela outra. De Lutero, lido pelos morávios, veio a justificação pela fé: o morávio Peter Böhler, de tradição luterana, ajudou Wesley a sair de um legalismo opressivo, e era o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos que se lia na rua Aldersgate quando Wesley sentiu o coração “estranhamente aquecido”. De Calvino veio a insistência na lei de Deus e na santificação como parte da salvação, que livrou Wesley do antinomianismo, a ideia de que o justificado já não precisa obedecer.
Recusados os cinco pontos, diz González, Wesley seguiu Calvino em quase tudo e ficou mais perto do espírito do reformador que muitos calvinistas do seu tempo. A diferença maior está na perfeição cristã. Calvino, os calvinistas e muitos arminianos negavam que o crente pudesse ser inteiramente santificado nesta vida; Wesley afirmava essa possibilidade e mandava pregá-la. González explica a doutrina com cuidado: ela não significa saber tudo, nem ficar livre de erros e de tentações, nem chegar a um estado que já não se perde, mas uma “perfeição no amor”, comunhão constante com Deus que faz a pessoa agir por amor e que ainda pode crescer. E fecha com uma frase que ficou famosa: assim como Calvino não era calvinista, “tampouco Wesley era wesleyano”.
O evangelho inteiro
A última conferência aplica Wesley à América Latina. González vê no protestantismo do continente o perigo que Wesley via em certa leitura de Lutero, o de reduzir o evangelho à justificação, como se para ser cristão bastasse “levantar a mão e ir à frente” num culto de evangelização. Deus quer que creiamos nele e também que cresçamos à sua semelhança. A santificação é pessoal e é social, a busca do amor e da justiça com espírito de reconciliação. A santidade da Igreja vem da sua cabeça, Cristo, e não dos membros; por isso ele lamenta as divisões feitas em nome da santidade.
Três tipos de teologia
Em Christian Thought Revisited (1989), González distingue três tipos de teologia na Igreja antiga. O primeiro põe no centro a obediência à vontade de Deus e desemboca, com o tempo, no fundamentalismo. O segundo busca verdades eternas e universais e desemboca no liberalismo. O terceiro se concentra na história: o que Deus fez, o que está fazendo e o que prometeu fazer. É o tipo do seu teólogo preferido, Irineu de Lyon, que “abre vistas” da fé cristã que a história posterior obscureceu (EerdWord, 2019).
O livro forma, segundo ele, uma trilogia com Mañana: Christian Theology from a Hispanic Perspective (1990) e Faith and Wealth (1990). Mañana relê as doutrinas da criação, da Trindade e de Cristo a partir da experiência dos latinos nos Estados Unidos, numa “teologia de Fuenteovejuna”, nome tirado da peça de Lope de Vega em que um povoado inteiro responde junto pelo que fez: teologia feita em solidariedade, e não por alguém que fala de lugar nenhum. Faith and Wealth estuda o que os cristãos dos primeiros séculos ensinaram sobre o dinheiro. Revendo a obra em 2020, ele disse que a sua maior mudança foi na escatologia, a doutrina das últimas coisas: hoje a vê não só como algo que se espera, mas como “o futuro a partir do qual vivemos”, que molda o modo de o cristão agir no presente.
Escrever para ensinar
“Talvez a maior descoberta teológica do século 20 é que toda teologia é contextual”, diz González (podcast Where Ya From?, 2023). Isso não o leva a desprezar as doutrinas: elas são a cerca à beira do precipício, que deixa a pessoa andar livre sem cair, e só fazem mal quando viram curral. Aos escritores, aconselha: “Escreva para comunicar, não para impressionar” (EerdWord, 2019).
A mesma ideia mudou a sua visão do ensino teológico. Nos anos 1980 e 1990 falava-se de um “duto” que levaria o estudante latino até o doutorado, e cada gota que não chegasse ao fim era perda. González prefere hoje a mangueira de irrigação, em que cada gota molha a terra por onde passa. O ensino teológico começa na aula de catecismo e na escola dominical e dura a vida inteira, sustentado pelo culto, e quem rega a terra ao redor vale tanto quanto o professor de seminário. A história da Igreja faz parte desse ensino, porque conhecer os erros e as lutas dos que vieram antes ajuda o crente a evitar os mesmos erros, o contrário da amnésia evangélica.
Diferenças com a declaração de fé do site
O site compartilha com González a herança wesleyana que ele traduziu e ensinou. A distância está no método. González leu a história também pelas lentes das teologias da libertação e defende que algumas teses delas têm apoio na Igreja antiga. O site parte da autoridade final e da inerrância das Escrituras e não adota as categorias das teologias da libertação, embora reconheça, com Wesley, que a santidade tem uma dimensão social.
Obras principais
- The Christology of Saint Bonaventure (tese de doutorado, Yale, 1961).
- The Development of Christianity in the Latin Caribbean (1969).
- A History of Christian Thought, 3 volumes (1970-1979; edição revista, 1987).
- The Story of Christianity, 2 volumes (1984-1985; 2ª edição, 2010).
- Christian Thought Revisited: Three Types of Theology (1989).
- Mañana: Christian Theology from a Hispanic Perspective (1990).
- Faith and Wealth (1990).
- Santa Biblia: The Bible through Hispanic Eyes (1996).
- Obras de Wesley, 14 tomos (editor-geral, a partir de 1997).
- Acts: The Gospel of the Spirit (2001).
- A Concise History of Christian Doctrine (2006).
- The Mestizo Augustine (2016; original em espanhol, 2013).
- The History of Theological Education (2015).
- A Brief History of Sunday (2017).
- Knowing Our Faith (2019).
- Juan Wesley y la Reforma Protestante: entre Lutero y Calvino (2019).
Livros em português
- História ilustrada do cristianismo, 2 volumes (Vida Nova). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Uma história do pensamento cristão, 3 volumes. Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Uma breve história das doutrinas cristãs (Hagnos, 2015). Ver na Amazon
- Breve dicionário de teologia (Hagnos). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Atos: o evangelho do Espírito Santo (Hagnos). Ver na Amazon
- Economia e fé no início da era cristã (Hagnos). Ver na Amazon · Ver na Shopee
- Uma breve história do domingo (CPAD). Ver na Amazon · Ver na Shopee
Para aprofundar
- Justo L. González, There’s no theological education pipeline anymore, série “How my mind has changed”, The Christian Century, dezembro de 2020.
- Justo L. González, conferências “Wesley en diálogo con la Reforma” (2016), no acervo do Centro Justo González da AETH: Wesley e Lutero, Wesley e Calvino, Wesley e a tradição anglicana e Wesley em nossa América.
- Benjamin D. Wayman, Justo González: Seminaries Need More Latinos, Christianity Today, 12 de outubro de 2020.
- 5 Questions with Justo González, EerdWord, Eerdmans, 16 de abril de 2019.
- Rasool Berry, Doing Theology in Context with Dr. Justo González, podcast Where Ya From?, episódio 46, 18 de abril de 2023.
- Justo González on the Mestizo Character of the Christian Life, Calvin Institute of Christian Worship.
- Justo L. González, perfil na Hispanic Theological Initiative, Princeton Theological Seminary.
- Luisa Garcia Acosta (1908-1977), Igreja Metodista Unida.
- González, Justo L(uis), Contemporary Authors, Encyclopedia.com.
- Theology community to honor 35th anniversary of Justo González’s “Mañana”, Emory News Center, janeiro de 2026.
- Stan Perea (org.), A Legacy of Fifty Years: The Life and Work of Justo González (Abingdon, 2014).
- Justo L. González, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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