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Joseph Sutcliffe: O pregador de Wesley que levou o metodismo às ilhas Scilly

Diego Gonçalves14 min de leitura2.713 palavras

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Neste texto

No verão de 1790, numa capela de Bristol, cerca de cento e trinta pregadores metodistas se reuniram em volta de uma mesa comprida posta de través. Na cabeceira, numa cadeira, estava John Wesley, com 87 anos. No fim da conferência, onze ou doze rapazes sentados num mesmo banco contaram como tinham chegado à fé e ao chamado para pregar. Então Thomas Coke passou diante deles com as Atas da Conferência no braço esquerdo, entregou um exemplar a cada um e pôs a mão direita sobre a cabeça de cada rapaz, em silêncio, enquanto Wesley assistia da cadeira. Um daqueles jovens, Joseph Sutcliffe, escreveu anos depois que aquilo foi “ordenação em todos os sentidos”. Era a última conferência de Wesley. Sutcliffe viveria mais 66 anos e seria, para várias gerações de metodistas, a memória viva daquele dia.

Retrato de Joseph Sutcliffe aos 30 anos
Joseph Sutcliffe aos 30 anos, gravura de William Ridley para a Arminian Magazine, 1793. Biblioteca Nacional do País de Gales. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

De Baildon à Cornualha

Joseph Sutcliffe nasceu por volta de 1762 em Baildon, uma vila do Yorkshire, ao norte de Bradford. Converteu-se ainda moço, sob a influência dos metodistas. Em 1786, com cerca de 24 anos, entrou no ministério itinerante, e Wesley o nomeou para o circuito de Redruth, na Cornualha.

Na Cornualha ele trabalhou de 1786 a 1789. O superintendente era George Shadford, veterano da missão metodista na América. Em 1788, o jovem pregador atravessou o mar até as ilhas Scilly, um arquipélago a sudoeste da ponta da Cornualha, e introduziu ali o metodismo. É provável que tenha começado ali, entre minas e rochas expostas pelo mar, o interesse pela geologia que ele levaria para o resto da vida. Em 1790 ele estava no circuito de Oxfordshire.

A última conferência de Wesley

Sutcliffe deixou um manuscrito, guardado na Livraria Metodista de Londres, com o relato daquela conferência de Bristol, iniciada no fim de julho de 1790. O nome dele aparece nas Atas impressas como o quinto entre os pregadores recebidos em plena conexão depois do período de experiência. Wesley tinha preparado uma edição das chamadas Atas Grandes (o resumo de doutrina e disciplina das conferências de 1744 a 1789) e deu um exemplar a cada um dos novos pregadores, com uma dedicatória escrita de próprio punho. A de Sutcliffe dizia: “Enquanto você continuar andando por estas regras, teremos alegria em reconhecê-lo como companheiro de trabalho” (Bristol, 4 de agosto de 1790).

O relato guarda cenas que não estão em nenhum documento oficial. Sutcliffe anotou que ouvira dizer que Wesley era tirano na distribuição dos pregadores pelos circuitos, mas que nada viu disso: “tudo era paternal e justo”. No domingo, 1º de agosto, Wesley pregou para cerca de 1.400 pessoas, por quase quarenta minutos. Numa daquelas noites, Shadford levou Sutcliffe para dormir na mesma casa onde Wesley se hospedava, e o rapaz viu o velho pregador orar “em umas vinte frases” e recolher-se às nove em ponto. Para Sutcliffe, o gesto de Coke no fim da conferência, com Wesley presente, mostrava que o fundador tinha entendido que meio milhão de pessoas não podia ser mantido unido sem o pão consagrado pelo Senhor, isto é, sem a Ceia.

Jersey

Dois meses depois, em 12 de outubro de 1790, Wesley lhe escreveu de Colchester: “Tenho uma notícia pesada para lhe dar”. Nas ilhas do Canal da Mancha, o leigo Robert Carr Brackenbury, que pregava em francês aos moradores de Jersey, estava, nas palavras de Wesley, quase se matando de tanto pregar. Depois de pesar o caso, Wesley concluiu que o pregador mais adequado para socorrê-lo era Joseph Sutcliffe e pediu que ele partisse o quanto antes, por Southampton, para a ilha de Jersey, no lugar de John Bredin. “Será uma cruz”, escreveu, “mas creio que será uma cruz abençoada.” Wesley morreu cinco meses depois, em março de 1791. A amizade com Brackenbury durou: anos depois, Sutcliffe dedicou a ele o seu Introduction to Christianity, chamando-o de “modelo de cristianismo genuíno”.

O escritor

A partir dos anos 1790, Sutcliffe juntou ao circuito uma produção constante de livros. Em 1794 publicou, anonimamente, como “um pregador da conexão do falecido Sr. Wesley”, The Mutual Communion of Saints, uma defesa das reuniões semanais de classe, em que os metodistas contavam uns aos outros como ia a vida com Deus. Ele explicou que escrevia porque tinha achado as classes “de grande utilidade” para a própria alma e porque conhecia cristãos sérios que frequentavam o culto mas fugiam dessas reuniões. Em 1798 vieram A Check to Infidelity, uma defesa da fé contra a incredulidade, e um tratado sobre a expansão universal do Evangelho, o milênio e a segunda vinda de Cristo. O Introduction to Christianity, escrito para guardar os jovens “da irreligião e do vício”, chegou a uma segunda edição inglesa e a uma edição americana em 1814.

Sutcliffe lia francês com facilidade. Traduziu um volume inteiro dos sermões de Jacques Saurin, o pregador huguenote da Haia, que incluía os três discursos sobre o adiamento da conversão, que ele considerava “um modelo de eloquência de púlpito”. Traduziu também, com notas, o Essay on the Composition and Delivery of a Sermon, de Jean-Frédéric Ostervald, pastor de Neuchâtel, um manual para candidatos ao ministério que põe a piedade antes da retórica.

Em Bristol publicou The Geology of the Avon (1822), um estudo pioneiro da geologia econômica da bacia do rio Avon. Ali ele discute as teorias de então sobre a formação das rochas e procura ler os estratos à luz do relato bíblico do dilúvio, sem aceitar sem crítica as interpretações tradicionais do texto de Gênesis. Em 1824, em Londres, saiu Matthew Henry at Hackney, uma defesa da divindade de Cristo contra os escritos unitarianos de Lant Carpenter.

O comentário e os últimos anos

A obra maior foi o comentário da Bíblia inteira. Uma primeira forma, em fólio, circulou vendida em fascículos e teve grande saída. A versão definitiva, A Commentary on the Old and New Testaments, saiu em Londres em 1834, em dois volumes, como fruto de décadas de anotações. O historiador George Smith a contou entre os quatro grandes comentários metodistas do período, ao lado dos de Coke, de Joseph Benson e de Adam Clarke. As notas são curtas e seletivas, e cada capítulo termina com “Reflexões” práticas.

Em 1840, um retratista anônimo dos pregadores wesleyanos o descreveu como um homem de estatura média, pele morena e nariz aquilino, que andava pela rua “como se não notasse ninguém nem fosse notado”, mas observava tudo. Achava a voz dele fraca, mas o estilo “fácil, casto e um tanto elegante”, e o considerava excelente gramático, comentador piedoso e geólogo respeitável.

Sutcliffe passou os últimos anos em Londres. Em 15 de setembro de 1843, quando se inaugurou em Richmond o ramo sul do Instituto Teológico Wesleyano, a escola de formação de pregadores dos metodistas britânicos, foi “o venerável Joseph Sutcliffe” quem fez a oração de abertura, antes do discurso de Jabez Bunting. Esteve setenta anos no ministério e nunca foi presidente da Conferência. Deixou inédita uma História do Metodismo em quatro volumes manuscritos, hoje nos Arquivos Metodistas de Manchester. Morreu em Londres em 14 de maio de 1856, com cerca de 94 anos. Foi lembrado como homem de uma vida de “pureza cristã sem mancha e de excelência progressiva”.

Pensamento

Sutcliffe é wesleyano: pregador nomeado por Wesley, recebido em plena conexão na conferência de 1790, retratado na Arminian Magazine, e autor de um comentário que defende, versículo a versículo, a leitura arminiana de Romanos e de Hebreus.

O pecado e a graça

O ponto de partida dele é a ruína do ser humano. Em A Check to Infidelity (1798), escreve que o homem é “totalmente incapaz” de renovar em si a imagem de Deus e que seria inútil tentar se livrar sozinho das correntes do pecado e da morte. No comentário de Romanos 6, chama o pecado original de “falta de nascimento”, pela qual o homem é por si mesmo inclinado ao mal, e fala da “inteira depravação da natureza humana pela queda”. A resposta de Deus, no mesmo livro de 1798, cabe numa frase: “Se a nossa depravação original veio sem culpa nossa, a nossa redenção veio sem ajuda nossa”. É a primazia da graça, como a afirmaram Jacó Armínio e Wesley: a salvação começa em Deus, e não numa força natural da vontade.

A justificação, para Sutcliffe, é pela fé somente, “a única condição” (comentário de Romanos 3). Ele define a fé justificadora com a homilia anglicana do bispo Jewel, como “uma confiança segura em Deus de que os meus pecados estão perdoados pelos méritos de Cristo”, e observa que Wesley adotou a mesma definição. A fé não paga nada: o pecador é pobre e recebe “sem dinheiro e sem preço”.

Eleição sem reprovação

O centro da sua teologia polêmica está no comentário de Romanos 8 e 9. Sutcliffe lê Romanos 9 como um texto sobre a história da salvação, e não sobre o destino eterno de cada pessoa. Quando Deus diz a Rebeca que o mais velho servirá ao mais novo (Romanos 9:12), trata-se da precedência de Jacó sobre Esaú, como a de Judá sobre Rúben e a de Davi sobre os irmãos. “O que isso tem a ver”, pergunta, “com a noção da eleição pessoal e eterna dos homens, ou da reprovação, para a vida e para a morte?” Faraó foi endurecido depois de endurecer o próprio coração diante de seis juízos, “como o sol endurece o barro”, na imagem que ele toma de Teofilacto, enquanto a graça amolece outros corações. E a queda de Israel “não foi efeito de uma reprovação eterna” por simples vontade de Deus, “mas da incredulidade deles”.

Em Romanos 8:29, os que Deus “de antemão conheceu” são, para ele, os povos do mundo chamados pelo Evangelho, e não um número fixo de indivíduos. Por isso Sutcliffe transcreve e rejeita os Artigos de Lambeth (1595), que afirmavam uma predestinação de alguns para a vida e de outros para a reprovação, sem consideração da fé, e lembra com satisfação que a Igreja da Inglaterra não os adotou. Se fossem verdadeiros, diz ele em Romanos 9:19, a objeção do ímpio seria justa: “Por que ele ainda acusa? Vivemos como fomos feitos”. Paulo, que chorava pela salvação de Israel, teria “abominado” essa ideia. Sutcliffe cita ainda, a seu favor, o artigo 31 dos Trinta e Nove Artigos, que estende a expiação ao mundo inteiro, e põe o bispo George Pretyman Tomline entre os que reuniram testemunhos dos pais da igreja contra a predestinação à reprovação. Aí estão a eleição condicional (Deus elege em Cristo os que creem, conhecendo de antemão a fé deles) e a expiação universal (Cristo morreu por todos), os pontos que separam o arminianismo do calvinismo.

O tom é pastoral, e não de guerra. Nas “Reflexões” de Romanos 9, ele lamenta que as disputas sobre a predestinação façam tantas almas perguntar: “Sou um dos escolhidos do Senhor, ou fui deixado de lado?”. Mesmo de Agostinho ele lembra que, ao lado do povo eleito, sustentou que todos podiam ser salvos. Sobre os textos da eleição no site, veja Presciência, eleição e predestinação.

Segurança, apostasia e santidade

No comentário de Romanos 8:16, Sutcliffe transcreve o sermão de Wesley sobre o testemunho do Espírito: uma impressão interior pela qual o Espírito de Deus testemunha “imediata e diretamente” ao espírito do crente que ele é filho de Deus. Sem essa certeza do perdão, diz ele, ninguém pode ser feliz.

A certeza, porém, não dispensa a vigilância. Em Hebreus 6:4-6, ele descreve os que caem como pessoas que tinham chegado a um estado “muito alto e avançado de regeneração”: iluminados, participantes do Espírito Santo, nutridos pela palavra. Cair desse estado numa apostasia grave tornava “moralmente impossível” renovar o apóstata para o arrependimento, “mas, graças a Deus, não absolutamente”. É a perseverança condicional que a declaração de fé deste site também afirma: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo, e a apostasia é uma possibilidade real. Veja também Arminianismo: a segurança da salvação.

O remédio contra a queda, diz o mesmo comentário, é avançar até a “plena certeza da esperança”, que ele identifica com “o mais alto estado de santificação”. É a linguagem wesleyana da perfeição cristã, ou inteira santificação: uma obra da graça que enche o coração de amor a Deus e ao próximo.

Onde ele se afasta de nós

Em dois pontos Sutcliffe fica longe da declaração de fé do site. No primeiro, a escatologia: no Introduction to Christianity, ele espera para os últimos tempos uma expansão universal do Evangelho e uma era futura de justiça e paz para a igreja, o “milênio sabático” de que falavam os antigos. A nossa declaração é amilenista: os mil anos de Apocalipse 20 representam o tempo presente, entre as duas vindas de Cristo. No segundo, a igreja: Sutcliffe falava da Igreja da Inglaterra como a “nossa” igreja e citava os seus artigos como autoridade, enquanto a nossa declaração pede que cada igreja local se governe segundo as Escrituras. Na doutrina da salvação, porém, ele está inteiro na tradição de Wesley e de John Fletcher.

Obras principais

  • The Mutual Communion of Saints (1794).
  • A Check to Infidelity (1798).
  • A Treatise on the Universal Spread of the Gospel, the Glorious Millennium, and the Second Coming of Christ (1798).
  • An Introduction to Christianity, Designed to Preserve Young People from Irreligion and Vice (2ª edição inglesa; edição americana de 1814).
  • Tradução do volume VII dos Sermons de Jacques Saurin (edição americana de 1808).
  • The Experience of the Late Mrs. Frances Pawson (1813), como editor.
  • The Geology of the Avon (1822).
  • Matthew Henry at Hackney, with Strictures on the Unitarian Writings of the Rev. Lant Carpenter (1824).
  • A Commentary on the Old and New Testaments (dois volumes, 1834).
  • Tradução, com notas, do Essay on the Composition and Delivery of a Sermon de J. F. Ostervald (edição americana de 1840).
  • The Paternal Catechism of the Christian Religion (1847).
  • History of Methodism, manuscrito inédito em quatro volumes (Arquivos Metodistas, Manchester).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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