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HistóriaTeólogos arminianos17 de 276

Jonathan R. Wilson: o batista do livre-arbítrio que deu nome ao novo monasticismo

Diego Gonçalves12 min de leitura2.443 palavras

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Neste texto

Entre 1972 e 1976, enquanto cursava a faculdade em Nashville, no Tennessee, Jonathan Reford Wilson pilotava uma locomotiva a vapor no Opryland USA, o parque temático da cidade, e chegou a gerente de operações. O maquinista estudava no Free Will Baptist Bible College, a escola dos batistas do livre-arbítrio, e em 1975 trocou os trilhos pelo Pacífico: foi para Vancouver, no Canadá, estudar no Regent College. Dali saiu o pastor, o professor e o teólogo que, em 1998, cunhou a expressão “novo monasticismo”, adotada poucos anos depois por comunidades cristãs nos Estados Unidos.

Vida

Uma casa cheia de missionários

Wilson nasceu em 10 de agosto de 1951, em Oklahoma City, filho do pastor Jesse Reford Wilson e de Mildred Gene Lane Wilson. A irmã, Rebecca, nasceu três anos depois, em Pocahontas, no Arkansas. A família morou pouco tempo em Detroit e, no resto da infância de Jonathan, em cidades pequenas do Arkansas e de Oklahoma, até se mudar para Nashville, quando ele tinha dez anos. Ali o pai assumiu a direção das Missões Estrangeiras dos batistas do livre-arbítrio. Viajava muito para cuidar dos missionários, e os que voltavam do campo eram presença frequente à mesa da família.

Jonathan fez o ensino médio na Glencliff High School, em Nashville, e se formou em 1975 no Free Will Baptist Bible College, hoje Welch College, a escola em que F. Leroy Forlines e Robert Picirilli ensinavam a teologia da denominação.

Regent College e o pastorado em Burnaby

Em Vancouver, Wilson passou mais de uma década ligado ao Regent College, escola evangélica de pós-graduação para leigos e pastores. Concluiu ali o diploma em estudos cristãos (1977), o mestrado em estudos cristãos (1980) e o mestrado em divindade (1985). Viveu os primeiros anos da escola: foi o primeiro zelador do prédio próprio da escola e o primeiro assistente de ensino do professor de Antigo Testamento Bruce Waltke.

Fez estágio na Primeira Igreja Batista de Vancouver, foi ordenado pelos Batistas Canadenses do Oeste do Canadá e pastoreou a Igreja Batista de Edmonds, em Burnaby, de 1980 a 1986. Casou-se com Marti Crosby, e o casal teve uma filha, Leah.

Duke e o grupo de leitura

Em 1986, a família se mudou para Durham, na Carolina do Norte, para o doutorado na Universidade Duke. O orientador foi Thomas A. Langford, teólogo metodista, e a tese tratou de Julian Hartt, teólogo filosófico que ensinou em Yale. Em Duke, Wilson fez amizade para a vida toda com L. Gregory Jones e participou do seminário de pós-graduação sobre ética e narrativa. Os amigos lembram que ele costumava ficar calado durante as discussões e só falava quando o debate esfriava, para dizer com poucas palavras o que os outros tinham deixado passar. Greg Jones dizia, brincando, que Jonathan os “coagia com o seu silêncio”. Em Durham, a família congregou entre os menonitas, e Wilson foi professor e membro eleito do conselho da Igreja Menonita de Durham. Concluiu o doutorado em 1989.

Professor em três escolas

De 1989 a 2003, Wilson ensinou estudos religiosos no Westmont College, em Santa Bárbara, na Califórnia, onde também serviu como capelão interino. Nesses anos publicou a tese, Theology as Cultural Critique: The Achievement of Julian Hartt (1996), e os livros que o tornaram conhecido. De 2003 a 2006 foi professor de teologia no Acadia Divinity College, na Nova Escócia. Em 2006 voltou a Vancouver para ocupar a cátedra Pioneer McDonald de teologia no Carey Theological College, escola dos batistas canadenses, onde ficou até 2017. Em todas essas cidades ensinou em igrejas locais, e na Igreja Batista de West Point Grey, em Vancouver, foi pastor interino.

Marti morreu em 2010. Em 2011, o teólogo Loren Wilkinson, do Regent College, apresentou Wilson a Soohwan Park, coreana com mais de vinte anos de trabalho em agências missionárias. Casaram-se em 2013, no dia de São Francisco de Assis. Os dois apoiaram por muitos anos a A Rocha, organização cristã internacional de cuidado com a criação, cujo conselho Soohwan chegou a presidir.

O câncer e os últimos anos

Em 2017, Wilson recebeu o diagnóstico de câncer de próstata metastático, em estágio 4, e deixou a cátedra no Carey. O trabalho continuou: de 2017 a 2024 foi consultor sênior de integração teológica dos Ministérios Batistas Canadenses, viajando entre um tratamento e outro para apoiar igrejas e ministérios de missão integral em vários continentes. Foi também professor associado do Regent College e pesquisador sênior do Centro de Liderança Missional do St. Andrew’s Hall, na Universidade da Colúmbia Britânica, e do Seminário Teológico Batista Internacional, em Amsterdã. Para os seus setenta anos, colegas e ex-alunos prepararam em sua homenagem Kingdom Come: Reflections in Honor of Jonathan R. Wilson (Cascade, 2022), com textos de Stanley Hauerwas, Willie Jennings, Greg Jones e dezenas de outros.

As opções de tratamento se esgotaram em junho de 2026. Nos últimos meses, Wilson passou o tempo orando pelos outros e recitando as passagens bíblicas de que mais gostava. Morreu em 12 de setembro de 2026, na unidade de cuidados paliativos do Hospital Regional de Nanaimo, na Colúmbia Britânica, aos 75 anos. O culto memorial foi celebrado em 3 de outubro na Igreja Batista de West Point Grey, e a família pediu que as ofertas em sua memória fossem para a A Rocha. Jeff Greenman, ex-presidente do Regent College, o chamou de “um teólogo evangélico verdadeiramente exemplar”; Greg Jones resumiu: “ele encarnava as coisas sobre as quais escrevia”.

Pensamento

Um batista do livre-arbítrio

Wilson pertence à tradição dos batistas do livre-arbítrio (Free Will Baptists), a ala batista que, desde os batistas gerais ingleses do século XVII, ensina que Cristo morreu por todos e que a graça de Deus pode ser recusada. Cresceu na casa do diretor de missões da denominação e se formou na escola dela; um amigo dos tempos de Duke o descreveu como batista do livre-arbítrio, mesmo depois de anos entre os batistas do Canadá. Por isso nós o colocamos entre os batistas arminianos.

A melhor prova está num texto dele. Quando Forlines publicou Classical Arminianism (2011), Wilson escreveu, na recomendação do livro, que ali estava “uma reformulação viva, relevante e bíblica da teologia arminiana clássica”, e acrescentou: “num tempo em que a escolha parece ser entre o calvinismo e o ‘teísmo do livre-arbítrio’, o seu arminianismo clássico é muito bem-vindo”. A frase mostra onde ele se colocava. “Teísmo do livre-arbítrio” era o rótulo usado por defensores do teísmo aberto, como David Basinger, que negam que Deus conheça de antemão as decisões livres. Wilson não queria nem o calvinismo nem essa saída: queria o arminianismo clássico, que afirma a depravação total, a incapacidade humana e a primazia da graça, e diz que a graça que vem antes da fé, a graça preveniente, pode ser resistida. Elogiou em Forlines justamente uma teologia “para a vida”, que põe diante do leitor “uma poderosa visão da santidade de Deus” e o chama a viver em santidade.

Ao mesmo tempo, Wilson não escreveu tratados sobre eleição e predestinação. A obra dele está na ética teológica, na eclesiologia e na doutrina da criação, e conversa mais com Alasdair MacIntyre, Stanley Hauerwas e Dietrich Bonhoeffer do que com os debates entre arminianos e calvinistas. O que ligava esses temas era o evangelho do reino de Deus, e é por aí que se entende o lugar dele.

Realismo do evangelho

A tese de doutorado sobre Julian Hartt deu a Wilson uma expressão que ele levou pela vida toda. Hartt falava em “realismo do evangelho”: o evangelho anuncia o que de fato é real, e por isso a teologia tem a tarefa de julgar a cultura à luz dele. Wilson descreveu o método de Hartt em quatro movimentos: uma imaginação evangelizada, a transformação da história, a substituição da metafísica e a afirmação da verdade. O livro de homenagem descreve a imaginação que Wilson cultivou em quatro décadas de pastorado e ensino como “realismo do reino”.

Um mundo fragmentado e o novo monasticismo

Em Living Faithfully in a Fragmented World (1998), Wilson partiu de Depois da virtude, de MacIntyre. A cultura ocidental, dizia ele, é fragmentada, e não apenas plural: perdeu o sentido de para onde a vida humana se dirige, e a igreja está presa a essa fragmentação. MacIntyre terminava o livro dizendo que esperava “outro São Bento”, alguém que, como o fundador do monasticismo ocidental, formasse comunidades capazes de guardar a vida moral num tempo de ruína. Wilson acolheu esse anseio e, seguindo também Bonhoeffer, que em 1935 escreveu que a restauração da igreja viria de um novo tipo de monasticismo, propôs um “novo monasticismo” protestante com quatro marcas. Ele seria marcado pela recuperação do telos, isto é, do fim e propósito do mundo revelado em Jesus, para que toda a vida ficasse sob o senhorio de Cristo; seria para “todo o povo de Deus”, sem separar vocações sagradas e seculares; teria a disciplina alegre de pequenos grupos de discípulos que se exortam, se corrigem e se reconciliam, e não a volta às regras antigas; e seria sustentado por “profunda reflexão e compromisso teológico”.

A ideia saiu do papel na casa da filha. Leah e o marido, Jonathan Wilson-Hartgrove, estavam entre os fundadores da Rutba House, comunidade cristã no bairro de Walltown, em Durham, e em junho de 2004 ali se reuniram comunidades e professores que tomaram emprestado o termo de Wilson e redigiram as “doze marcas do novo monasticismo”. Na segunda edição, muito ampliada (2010), Wilson respondeu a críticos como D. A. Carson e acrescentou um capítulo sobre a tentação de Nietzsche, a tentação do poder, que ele via como risco para a igreja.

Virtudes, igreja e práticas

Gospel Virtues (1998) entrou no debate sobre a ética das virtudes para dar a ela um conteúdo cristão. Wilson tratou a fé como o modo cristão de conhecer, a esperança como o modo cristão de ser e o amor como o modo cristão de agir, e ligou cada virtude a uma prática da igreja: a fé se forma no ensino, a esperança se sustenta no culto, o amor se aprende na hospitalidade. Why Church Matters (2006) seguiu a mesma linha. O culto aparece ali como trabalho, combate e testemunho; o testemunho, como palavras e obras do reino; e o batismo, a Ceia e o lava-pés, como participação em Cristo. O lava-pés não está ali por acaso: os batistas do livre-arbítrio o guardam como ordenança, ao lado do batismo e da Ceia.

A criação e o reino

O livro mais maduro de Wilson, God’s Good World (2013), defende que a igreja perdeu a doutrina da criação e que essa perda deforma o modo como pensamos o corpo, a vida espiritual e a própria salvação. A resposta dele é o que chama de dialética do reino: o reino de Deus é “a realidade da redenção da criação por Deus”. Numa entrevista sobre o livro, resumiu: “a criação sem a redenção não tem propósito nem sentido”, e “a redenção sem a criação não tem realidade”. Quando a criação vira “natureza”, um sistema que se governa sozinho, até os crentes passam a viver como naturalistas práticos, que confessam Deus e a vida eterna mas vivem como se este mundo fosse tudo. Para Wilson, a criação é dom, a vida vem de Deus e consiste em dar e receber, num mundo escravizado ao tomar e guardar, e o consumismo deforma o desejo a ponto de, no fim, “nós estarmos sendo consumidos”. Daí vinham o cuidado com a criação, que ele praticou com a A Rocha, e a missão integral que defendeu nos Ministérios Batistas Canadenses.

Diferenças com a declaração de fé do site

Wilson e a declaração de fé deste site concordam no centro: Cristo morreu por todos, a graça vem antes de qualquer resposta humana e pode ser recusada, e a vida cristã é caminho de santidade dentro da igreja. A diferença mais visível está na Ceia. A declaração a entende como memorial da morte de Cristo; Wilson falava do batismo, da Ceia e do lava-pés como participação em Cristo, numa linguagem mais próxima da tradição sacramental.

Obras principais

  • Theology as Cultural Critique: The Achievement of Julian Hartt (Mercer University Press, 1996).
  • Living Faithfully in a Fragmented World: Lessons for the Church from MacIntyre’s After Virtue (Trinity Press International, 1998); segunda edição ampliada, Living Faithfully in a Fragmented World: From After Virtue to a New Monasticism (Cascade, 2010).
  • Gospel Virtues: Practicing Faith, Hope, and Love in Uncertain Times (InterVarsity, 1998; reedição Wipf & Stock, 2004).
  • God So Loved the World: A Christology for Disciples (Baker Academic, 2001).
  • A Primer for Christian Doctrine (Eerdmans, 2005).
  • Why Church Matters: Worship, Ministry, and Mission in Practice (Brazos, 2006).
  • Thomas A. Langford, Reflections on Grace, edição de Philip A. Rolnick e Jonathan R. Wilson (Cascade, 2007).
  • God’s Good World: Reclaiming the Doctrine of Creation (Baker Academic, 2013).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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