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Kevin Timpe: o filósofo do livre-arbítrio que levou a deficiência para a teologia
Em julho de 2018, o Centro de Filosofia da Religião da Universidade de Notre Dame divulgou um documentário de um minuto com um filósofo de Grand Rapids. A frase central era direta: “a Igreja tem uma longa história de sugerir que a deficiência não tem lugar no reino vindouro de Deus”. O homem diante da câmera tinha passado quinze anos escrevendo sobre livre-arbítrio, pecado, graça, céu e inferno, e agora perguntava se ao menos algumas deficiências poderiam ter lugar no céu, para que a igreja aprendesse a acolher já, nos bancos de domingo, as pessoas que costuma deixar de fora. Esse filósofo é Kevin Timpe, titular da cátedra William H. Jellema de Filosofia Cristã na Calvin University e, nas palavras dele mesmo, alguém que está “dentro das tradições wesleyana e arminiana”.
Vida
Formação
Kevin Timpe nasceu em 1975, nos Estados Unidos. Fez o doutorado em filosofia na Saint Louis University, universidade jesuíta onde ensinava desde 1992 Eleonore Stump, a grande intérprete contemporânea de Tomás de Aquino, e concluiu o curso em 2004. A marca dela aparece em toda a obra de Timpe: em 2009 ele organizou o volume de homenagem Metaphysics and God: Essays in Honor of Eleonore Stump, e o modelo de graça que ele defende parte do modelo dela.
No último ano do doutorado, entre 2003 e 2004, foi pesquisador do Centro de Filosofia da Religião da Universidade de Notre Dame. Os primeiros artigos, quase todos sobre o que torna uma escolha livre, saíram nessa fase. Um deles, publicado na Philosophia Christi em 2004, tem o título “Why Christians Might be Libertarians” (“Por que os cristãos podem ser libertários”), resposta à filósofa Lynne Rudder Baker, que defendia que o cristão deveria aceitar uma liberdade compatível com o determinismo.
San Diego e Nampa
De 2004 a 2009, Timpe foi professor assistente na Universidade de San Diego, instituição católica. Em 2006 escreveu o verbete “Free Will” da Internet Encyclopedia of Philosophy e em 2008 publicou o primeiro livro, Free Will: Sourcehood and Its Alternatives, sobre os casos de Frankfurt, experimentos mentais que tentam mostrar que alguém pode ser responsável por um ato mesmo sem poder ter agido de outro modo.
Em 2009 mudou-se para Nampa, no Idaho, como professor associado da Northwest Nazarene University, a escola da Igreja do Nazareno que H. Orton Wiley tinha transformado em faculdade nos anos 1910 e 1920. Em 2012 tornou-se professor titular e ficou ali até 2016. Nesse tempo foi pesquisador da Fundação Templeton no St. Peter’s College, em Oxford (2010-2011), e professor visitante em Pequim e em Innsbruck.
O ambiente nazareno deixou marcas na obra. Timpe escreveu os verbetes “Iluminismo” e “Design inteligente” do Global Wesleyan Dictionary of Theology (Beacon Hill, 2013) e fez em 2018 a conferência principal da Wesleyan Philosophical Society. Em 2013, ao resenhar Purgatory, de Jerry L. Walls, declarou o próprio lugar teológico ao falar dos que, “como eu, estão dentro das tradições wesleyana e arminiana”. Nesse período saíram Free Will in Philosophical Theology (2013) e dois volumes que organizou para a Oxford, sobre as virtudes e sobre livre-arbítrio e teísmo.
Calvin
No outono de 2016, Timpe assumiu em Grand Rapids, no Michigan, a cátedra William Harry Jellema de Filosofia Cristã da Calvin College, hoje Calvin University. Foi o primeiro titular em tempo integral da cadeira, criada com doações de Bruce B. Dice, Alvin e Kathleen Plantinga e outros amigos da escola em honra de W. H. Jellema, o primeiro professor de filosofia de Calvin. Ao chegar, anunciou dois alvos: ampliar o que se entende por filosofia cristã, tratando de questões aplicadas e de justiça sem abandonar a metafísica, e tornar a pesquisa acessível a quem não é especialista.
Lecionou como professor visitante no Seminário Teológico Calvin em 2018, 2019 e 2021 e passou a chefiar o departamento de filosofia em 2021. Em Grand Rapids frequenta a Church of the Servant, onde em 2022 conduziu a oração intercessória do culto num momento de tensão na Igreja Cristã Reformada e no país, e pediu a Deus: “faze-nos um; faze-nos o teu corpo”. No Reformed Journal, em julho de 2026, depois de um ano de cortes em Calvin, criticou as instituições cristãs que invocam a vocação para pedir mais trabalho: “o nosso amor é correspondido, até que cortes de orçamento sejam necessários”.
A deficiência
A mudança mais visível na obra de Timpe nos anos de Calvin foi a entrada da filosofia da deficiência, que ele trata a partir da experiência de pai de uma criança com deficiência. Em 2016 publicou na Res Philosophica um estudo sobre como certas deficiências afetam a capacidade de agir sobretudo pelas funções executivas, isto é, a capacidade de planejar, iniciar e controlar as próprias ações. Em 2018 lançou Disability and Inclusive Communities, livro curto para leitores comuns sobre como práticas corriqueiras excluem as pessoas com deficiência e enfraquecem igrejas, escolas e locais de trabalho. A tese é que boas intenções não bastam: comunidades inclusivas exigem práticas deliberadas.
Em 2019 organizou com Blake Hereth The Lost Sheep in Philosophy of Religion, sobre deficiência, gênero, raça e animais na filosofia da religião, e em 2020 falou no Simpósio de Culto de Calvin sobre o autismo e a missão da igreja. Atua na defesa de direitos pela 22 Advocacy, e em 2024 comparou, numa conferência no Muskegon Community College, o movimento pelos direitos civis com a luta por justiça para as pessoas com deficiência.
Pensamento
Onde ele fica no arminianismo
Timpe é um arminiano wesleyano por declaração própria e pela substância da sua soteriologia, a doutrina da salvação. Ele rejeita o determinismo teológico, a tese de que Deus quer ativamente tudo o que acontece, e sustenta que a graça de Deus é necessária, mas não suficiente, para a fé salvadora: a pessoa pode resistir. As ferramentas dele, porém, vêm menos de Jacó Armínio e de John Wesley do que de Agostinho, Anselmo, Tomás de Aquino, Dante e de Eleonore Stump. Ele chega pela via tomista ao lugar dos arminianos.
Também não é molinista, o que o separa de William Lane Craig. O molinismo explica a providência pelo “conhecimento médio”, o conhecimento que Deus teria do que cada pessoa faria livremente em qualquer circunstância. Num artigo de 2018, Timpe deu a uma seção o título “O molinismo seria ótimo, se funcionasse” e escreveu: “penso que o molinismo é falso”. Os motivos são dois. Primeiro, nada torna verdadeiras essas afirmações sobre o que alguém faria. Segundo, se essas verdades não dependem da pessoa, e as circunstâncias em que ela está também não, então o que ela faz nessas circunstâncias deixa de depender dela, e a liberdade se perde.
A liberdade como fonte
O centro filosófico da obra é o que Timpe chama de incompatibilismo da fonte. No verbete da Internet Encyclopedia of Philosophy (2006) ele define o livre-arbítrio como “a capacidade, exclusiva das pessoas, que lhes permite controlar as suas ações”. Esse controle exige que a pessoa seja a fonte última da escolha: se algo fora dela, seja a cadeia de causas naturais, seja um decreto divino, é causa suficiente do que ela faz, a escolha deixa de ser livre. Poder fazer outra coisa é consequência disso, e não o essencial.
A essa tese ele junta duas outras. A primeira é a “restrição das razões”: se num dado momento alguém não tem nenhuma razão para fazer algo, não pode escolher livremente fazê-lo. A segunda é o que os resenhistas chamaram de libertarianismo da virtude: o caráter limita o que podemos escolher, mas somos responsáveis pelo caráter que formamos com escolhas anteriores. Por isso ele escreve, em Free Will in Philosophical Theology, que “um aumento de virtude fortalece a ligação entre as paixões do agente e o bem”. O livro quer contar “uma história teológica de modo filosófico”: o primeiro pecado, a conversão, o inferno, o céu e a liberdade de Deus.
A graça que pode ser resistida
O texto mais importante de Timpe para os arminianos é “Grace and Controlling What We Do Not Cause” (“A graça e o controle sobre o que não causamos”), publicado na Faith and Philosophy em 2007 e desenvolvido no capítulo sobre a conversão do livro de 2013. O problema é antigo: como afirmar que a graça é a causa da fé salvadora e que a pessoa controla se vem ou não à fé, sem cair no pelagianismo, que faz da salvação obra humana, nem no determinismo?
Timpe parte da tese de que a pessoa caída é livre, mas incapaz de querer ou causar qualquer bem por si mesma. A graça é a única causa eficiente da fé. O que resta à pessoa é deixar de resistir: Stump chamou esse estado de quiescência, a vontade que nem aceita nem recusa e apenas cessa a resistência. Deixar de resistir não é causar a fé, como quem não fecha a janela não produz o vento que entra por ela. Para descrever esse controle sem causalidade, Timpe usou a noção de quase-causação do filósofo Phil Dowe, criada para explicar como uma omissão pode ter efeitos. Assim a fé é inteiramente obra da graça e, ao mesmo tempo, a pessoa decide se a recusa.
O modelo atraiu críticas. Em 2015, Simon Kittle argumentou no Journal of Analytic Theology que a quase-causação não resolve o problema e que o modelo, apesar da intenção, não escapa do semipelagianismo, a ideia de que o primeiro passo cabe ao ser humano. Derk Pereboom e Leigh Vicens concordaram em boa parte com ele. Timpe voltou ao tema em “Cooperative Grace, Cooperative Agency” (2015), sobre as ações em que a vontade humana e a divina operam juntas.
Aqui está a principal diferença em relação ao arminianismo clássico que este site segue. Em Armínio e em Wesley, a graça preveniente age primeiro e sozinha: o Espírito liberta a vontade morta e só então a graça opera de modo resistível, como explica o texto Livre-arbítrio e graça. Timpe também afirma a incapacidade humana e a graça como única causa da fé, mas no seu modelo deixar de resistir é algo que a própria pessoa faz, e é isso que os críticos leem como primeiro passo humano. Para o arminianismo clássico, até essa não resistência já é fruto da graça que liberta a vontade.
Céu, inferno e purgatório
Com Timothy Pawl, Timpe formulou em 2009 o “problema da liberdade celeste”: se o mal moral nasce do mau uso da liberdade e os redimidos não podem mais pecar, eles ainda são livres? A resposta, desenvolvida num artigo de 2018 a partir de Dante, é que o caráter aperfeiçoado torna o pecado tão repugnante que a pessoa simplesmente não encontra razão para escolhê-lo. Os redimidos continuam livres, e em certo sentido mais livres, porque a liberdade perfeita é a de Deus, que não pode pecar e nem por isso é menos livre.
Sobre o inferno, defende uma versão mínima da doutrina tradicional: quem se condena forma, pelas próprias escolhas, um caráter que não quer sair, e Deus não força ninguém, porque o amor não pode ser imposto. Nisso concorda com a declaração de fé deste site; em outros pontos se afasta dela. Na resenha de Walls, Timpe escreveu que o purgatório pode ser verdadeiro, entendido como continuação da santificação depois da morte e não como pagamento de pena, e chamou o purgatório de “doutrina bela”. Em 2014 falou na Wesleyan Philosophical Society sobre “deficiência corporal e a necessidade do limbo”, e em 2015 publicou “An Argument for Limbo”. O site não adota nem o purgatório nem o limbo.
O primeiro pecado e a deficiência
Ao tratar do primeiro pecado, Timpe pergunta como uma criatura boa, sem nenhuma inclinação ao mal, pôde escolher o mal, e conclui que “uma explicação cristã do pecado primordial não pode evitar toda arbitrariedade”. Sobre Deus, sustenta que a impossibilidade de pecar é expressão da liberdade divina e não um limite a ela.
Na escatologia, Timpe argumenta que ao menos algumas deficiências podem ter lugar no céu, tema de palestras como “God’s Kingdom without Autism” (2019) e do capítulo “Defiant Afterlife” (2020). A razão é pastoral: quando a igreja imagina um reino de onde a deficiência foi apagada, tende a não valorizar agora as pessoas com deficiência, e Timpe liga essa imagem à menor frequência delas nas igrejas americanas.
Obras principais
- Free Will: Sourcehood and Its Alternatives (Continuum, 2008; edição ampliada, Bloomsbury, 2012)
- “Grace and Controlling What We Do Not Cause”, Faith and Philosophy 24, n. 3 (2007)
- Free Will in Philosophical Theology (Bloomsbury, 2013)
- Virtues and Their Vices, organizador com Craig Boyd (Oxford University Press, 2014)
- “Cooperative Grace, Cooperative Agency”, European Journal for Philosophy of Religion 7, n. 3 (2015)
- Free Will and Theism: Connections, Contingencies, and Concerns, organizador com Daniel Speak (Oxford University Press, 2016)
- Routledge Companion to Free Will, organizador com Meghan Griffith e Neil Levy (Routledge, 2017)
- Disability and Inclusive Communities (Calvin Press, 2018)
- The Lost Sheep in Philosophy of Religion, organizador com Blake Hereth (Routledge, 2019)
- The Virtues: A Very Short Introduction, com Craig Boyd (Oxford University Press, 2021)
Para aprofundar
- Kevin Timpe, Curriculum vitae, Calvin University, 2021.
- Kevin Timpe, About, página pessoal.
- Kevin Timpe Begins Jellema Chair, Calvin University, 2016.
- Kevin Timpe, Free Will, Internet Encyclopedia of Philosophy.
- Kevin Timpe, “Upright, Whole, and Free”: Eschatological Union with God, TheoLogica 2, n. 2 (2018).
- Kevin Timpe, Purgatory Is Hope, Books & Culture, 2013.
- Kevin Timpe, Grace and Controlling What We Do Not Cause, Faith and Philosophy 24, n. 3 (2007).
- Kevin Timpe, God So Faithful e Unrequited Love, Reformed Journal, 2022 e 2026.
- Disability in Heaven, Calvin Institute of Christian Worship, 2018.
- Disability and Inclusive Communities, Calvin Press, 2018.
- Derk Pereboom e Leigh Vicens, resenha de Free Will in Philosophical Theology, Notre Dame Philosophical Reviews, 2015.
- Thomas Jay Oord, resenha de Free Will in Philosophical Theology, 2014.
- Simon Kittle, Grace and Free Will: Quiescence and Control, Journal of Analytic Theology 3 (2015).
- Kevin Timpe, The Information Philosopher.
- Kevin Timpe, 1975-, registro de autoridade VIAF.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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