
Anglicanos: a igreja que não é nem protestante, nem católica?
Da Reforma inglesa à via media: como os anglicanos se entendem entre Roma e Genebra, e as tensões da comunhão hoje
Quem são os anglicanos? Protestantes, católicos ou meio-termo? Para Roma, eles eram rebeldes que romperam com a única Igreja verdadeira. Para os protestantes mais radicais, eram o oposto, gente que parou a Reforma pela metade e manteve padres, bispos e altares que deveria ter derrubado. E, no meio desse fogo cruzado, os próprios anglicanos afirmavam algo que parecia impossível. Que eram, ao mesmo tempo, católicos e reformados. Como uma igreja pode ser as duas coisas de uma vez? Seria isso apenas uma forma elegante de não escolher lado nenhum? Ou existe aí uma ideia teológica de verdade, sólida o bastante para sustentar uma comunhão de milhões de pessoas?
A resposta começa com uma história que quase todo mundo pensa conhecer, e quase sempre conta pela metade.
Mais que um divórcio
Muita gente aprendeu que a Igreja Anglicana nasceu de um divórcio. O rei Henrique VIII queria anular seu casamento, o papa recusou, e o rei, furioso, teria criado a própria igreja só para fazer o que bem entendesse. Essa versão não é mentira. Mas é apenas o começo, e talvez a parte menos importante de tudo. Em 1534, o Ato de Supremacia declarou o rei, e não o papa, como cabeça da Igreja na Inglaterra. Só que, naquele momento, quase nada mudou na fé ou no culto. As missas continuavam em latim, os bispos seguiam em seus lugares, e a teologia permanecia profundamente católica.
Henrique rompeu com Roma, mas não quis se tornar protestante. A verdadeira transformação veio depois dele. Sob o reinado do jovem Eduardo VI, a Reforma entrou de fato na Inglaterra. Foi então que Thomas Cranmer, o arcebispo de Cantuária, compôs, em 1549, o primeiro Livro de Oração Comum. Ele trouxe o culto para o idioma do povo e abriu as portas para a doutrina reformada. Mas o pêndulo voltaria a balançar. Com a rainha Maria, a Inglaterra retornou de forma violenta ao catolicismo romano, e reformadores foram queimados na fogueira, entre eles o próprio Cranmer.
Quando Elizabeth I assumiu o trono, encontrou um país rasgado entre dois extremos que se odiavam.
A via media
E aqui aparece a decisão que definiria tudo o que viria depois. Em vez de escolher um lado e esmagar o outro, Elizabeth procurou um caminho do meio. Os historiadores dão a isso um nome em latim, via media, que significa exatamente isso, o caminho do meio. O acordo firmado em 1559 tentou construir uma igreja larga o suficiente para abrigar tanto os que sentiam saudade de Roma quanto os que sonhavam com Genebra. Poucos anos depois, em 1563, os Trinta e Nove Artigos (que receberam a forma final em 1571) colocaram essa identidade no papel.
Eles afirmavam bandeiras claramente protestantes, como a autoridade suprema das Escrituras e a justificação pela fé. E, ao mesmo tempo, preservavam a antiga estrutura de bispos, sacerdotes e diáconos, junto de uma liturgia rica e cerimonial.
Escritura, tradição e razão
Foi um pensador chamado Richard Hooker quem deu a essa síntese a sua espinha dorsal. A imagem com que se costuma resumir o seu pensamento, embora seja posterior a ele, é a de um banco de três pernas. A primeira perna, e a mais importante, é a Escritura. A segunda é a tradição da Igreja antiga. E a terceira é a razão, a capacidade humana de refletir e discernir. Tire uma das pernas, e o banco inteiro desaba. Repare na diferença sutil, porque é aqui que mora a alma do anglicanismo. O protestante clássico costuma dizer somente a Escritura.
O católico coloca a tradição e o magistério lado a lado com a Bíblia. O anglicano fica no meio dos dois. Para ele, a Escritura tem sempre a palavra final, mas é lida à luz da Igreja antiga e da razão. Essa posição intermediária reaparece em quase tudo o que os anglicanos creem. Eles aceitam os credos antigos, o Apostólico e o Niceno, exatamente como os católicos e a maioria dos protestantes. Tratam a Bíblia como a regra final da fé, como os protestantes. Mas conservam os bispos e aquilo que chamam de sucessão apostólica, a ideia de uma linha contínua que remontaria aos apóstolos, algo que dividem com católicos e ortodoxos.
Nos sacramentos, o mesmo equilíbrio delicado. Oficialmente, os anglicanos reconhecem dois sacramentos principais, o batismo e a eucaristia, como os protestantes. Creem que Cristo está verdadeiramente presente na ceia, mas recusam a explicação católica da transubstanciação. Não estão totalmente de um lado nem totalmente do outro. E essa diversidade não existe apenas entre o anglicanismo e as outras tradições. Ela pulsa dentro do próprio anglicanismo. De um lado estão os chamados de Igreja Alta, mais próximos de Roma, com incenso, vestes elaboradas e forte ênfase nos sacramentos. De outro, os da Igreja Baixa, mais próximos dos evangélicos, com um culto simples e o foco na pregação e na Bíblia.
E, entre eles, os da Igreja Ampla, mais abertos e liberais nas questões de doutrina e de conduta. O mais impressionante é que essas três correntes convivem sob o mesmo teto, dentro da mesma comunhão.
Sem papa: uma família de igrejas
E quem manda, afinal, nessa igreja? Aqui a distância em relação a Roma é enorme. Não existe um papa anglicano. A Comunhão Anglicana é formada por dezenas de igrejas nacionais autônomas, cada uma com os seus próprios sínodos e líderes. O arcebispo de Cantuária é respeitado como primus inter pares, uma expressão latina que significa primeiro entre iguais. Ele é um símbolo de unidade, mas não governa as outras igrejas nem dá ordens a elas. O que mantém tudo unido não é um poder central, e sim aquilo que eles mesmos chamam de laços de afeto.
É uma família de igrejas, não um império.
O centro de gravidade passou para a África
E agora vem a virada que desmonta a imagem que quase todo mundo carrega dos anglicanos. Quando pensamos em anglicanismo, imaginamos igrejas de pedra na Inglaterra, corais, neblina e sotaque britânico. Mas essa fotografia está profundamente desatualizada. Hoje, o coração numérico da Comunhão Anglicana não bate mais em Londres. Ele bate na África. Mais da metade de todos os anglicanos do mundo vive no continente africano, em países como Nigéria, Uganda e Quênia. Só a Igreja Anglicana da Nigéria tem mais fiéis praticantes do que a Igreja da Inglaterra. Enquanto as igrejas históricas do Ocidente encolhem e esvaziam os seus bancos, as igrejas do Sul global crescem com uma força impressionante.
No total, o anglicanismo reúne cerca de 85 milhões de fiéis, o que o coloca entre as maiores famílias cristãs do planeta. E isso vai muito além de uma simples estatística.
Mulheres e sexualidade: as tensões atuais
Essa mudança de peso alterou também quem tem voz dentro da comunhão, e acendeu uma das maiores tensões da sua história. Porque as igrejas do Sul global tendem a ser teologicamente mais conservadoras. E, nas últimas décadas, dois temas rasgaram a unidade anglicana quase ao meio. O primeiro foi a ordenação de mulheres. A partir dos anos 1970, uma província após a outra passou a ordenar mulheres, primeiro como diáconas, depois como sacerdotes, e por fim como bispas. Para muitos, foi um passo coerente com o evangelho. Para os mais tradicionais, foi uma ruptura com quase 2.000 anos de prática, e alguns grupos chegaram a se separar em protesto.
Essa disputa alcançou o seu ponto mais simbólico bem recentemente. Em 2026, Sarah Mullally se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo de arcebispo de Cantuária em mais de 1400 anos de história. Ou seja, a figura que serve de símbolo de unidade para toda a Comunhão Anglicana passou a ser uma mulher. Para uns, um sinal de esperança e renovação. Para outros, mais um motivo de ruptura. O segundo tema, ainda mais explosivo, foi a sexualidade. Algumas igrejas, sobretudo nos Estados Unidos, no Canadá e na Escócia, passaram a abençoar uniões entre pessoas do mesmo sexo e a ordenar clérigos assumidamente homossexuais.
Outras, especialmente na África e na Ásia, enxergaram nisso um abandono da autoridade das Escrituras. O resultado foi uma fratura profunda. Boa parte da comunhão passou a se declarar em comunhão prejudicada com as igrejas ocidentais mais liberais. A mesma via media que um dia manteve católicos e protestantes debaixo do mesmo teto agora era testada por dentro, por perguntas que ninguém, no século XVI, poderia sequer imaginar.
Um catolicismo reformado
Então, voltemos à pergunta do início. Os anglicanos são protestantes, católicos, ou algo no meio do caminho? A resposta honesta é que eles se recusam a ser apenas uma coisa. Rejeitam a autoridade do papa, como os protestantes. Mas conservam bispos, liturgia e uma beleza cerimonial que lembra Roma. Tiveram reformadores como Cranmer, e ao mesmo tempo reivindicam uma continuidade antiga, quase católica. Talvez a descrição mais precisa seja esta, um catolicismo reformado. Nessa imagem, o substantivo é catolicismo, a substância antiga e universal da Igreja, enquanto reformado é apenas o adjetivo, a correção trazida pela Reforma.
E é justamente por isso que os anglicanos são tão difíceis de rotular. Não porque sejam confusos, nem porque sejam indecisos. Mas porque escolheram, desde o começo, viver na tensão entre dois mundos. E, no fim, foi dessa mesma tensão que fizeram a sua própria identidade.
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