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Olin Alfred Curtis: O teólogo de Drew que leu a redenção como a criação de uma nova humanidade
Neste texto
Num dia de junho de 1895, um professor americano de 44 anos largou os livros em Marburgo, na Alemanha, atravessou o rio Lahn e subiu sem rumo um morro coberto de árvores. Olin Alfred Curtis tinha chegado à cidade em abril para ouvir o teólogo Wilhelm Herrmann e voltava de mãos vazias: Herrmann o comovia, mas não respondia à sua experiência cristã nem à leitura que ele fazia do Novo Testamento. Havia anos ele orava por uma coisa só, ver a fé cristã como um todo vivo. Num recanto fechado pelas árvores, conta ele, o esboço inteiro de um sistema de doutrina apareceu na sua mente “tão nítido quanto uma cadeia de montanhas num dia claro”. Ele ouvia os galhos rangerem com o vento e via as nuvens passarem; não houve transe nem sonho. Dez anos depois esse esboço virou The Christian Faith (A fé cristã, 1905), uma teologia sistemática que ele mesmo descreveu como “dada pessoalmente”.
Vida
Do Maine a Wisconsin
Olin Alfred Curtis nasceu em 10 de dezembro de 1850, em Frankfort, no Maine, filho do pregador metodista Reuben Curtis. Dedicou ao pai o seu livro principal, com versos de Richard Watson Gilder sobre um pregador “altruísta, heroico sem fama”. Estudou nas escolas comuns e depois na Lawrence University, em Appleton, Wisconsin, onde se formou bacharel em artes em 1877 e mestre em 1879. Em 1880 concluiu o bacharelado em teologia na Escola de Teologia da Universidade de Boston.
No mesmo ano entrou para a Conferência de Wisconsin da Igreja Metodista Episcopal e casou-se com Eva Farlin. Foi pastor da igreja da Court Street, em Janesville (1880-1883), e da igreja Summerfield, em Milwaukee (1883-1886). De 1886 a 1888 ficou sem nomeação, na condição que os metodistas chamavam de supranumerário, e passou esses dois anos estudando na Universidade de Leipzig. Em 1888 foi transferido para a Conferência de Rock River e assumiu a primeira igreja metodista de Englewood, em Chicago.
Curtis queria ser pregador de doutrina. No escritório, mantinha diante de si o retrato de Henry Liddon, o grande pregador da catedral de São Paulo, em Londres. Em Chicago, enquanto outros pregadores exploravam os assuntos do jornal, ele ensinava à congregação as grandes doutrinas da redenção.
Boston e o sistema descartado
Em 12 de fevereiro de 1889, aniversário de Abraham Lincoln, ele voltou das visitas pastorais e encontrou um telegrama de Boston: tinha sido eleito professor de teologia sistemática. Ficou confuso, porque não queria ser professor. Foi o bispo Merrill quem o convenceu, com o argumento de que o púlpito de Chicago seria preenchido com facilidade e a cátedra de Boston não. Curtis ensinou na Universidade de Boston de setembro de 1889 até a Páscoa de 1895 e, nesse tempo, estudou ainda em Erlangen, com Franz Frank, e em Edimburgo.
Nos primeiros quatro anos em Boston ele construiu um sistema completo de teologia. Depois o julgou um fracasso, uma obra escolástica de imitação, sem relação viva com as necessidades da igreja, e recusou-se a publicá-lo. Foi desse fracasso, e da oração que se seguiu a ele, que saiu a viagem a Marburgo.
Drew e The Christian Faith
Em 1896 Curtis sucedeu John Miley na cátedra de teologia sistemática do Seminário Teológico Drew, em Madison, Nova Jersey, e fez a aula inaugural em 15 de outubro. Tinha grande respeito pelo antecessor: considerava os dois volumes da teologia de Miley uma das exposições mais sólidas da teologia arminiana e exigia que os alunos os dominassem. Em 1898, apesar da saúde frágil, serviu como capelão voluntário da Marinha na guerra contra a Espanha.
O livro custou mais de oito anos. Curtis passou quatro anos em estudo pessoal, sobretudo relendo as cartas de Paulo à procura de cada passagem sobre a pessoa e a obra de Cristo. Depois testou quarenta preleções durante quatro anos com alunos, pastores e igrejas de várias denominações. Em 1901 imprimiu para os alunos uma edição de 160 exemplares dessas preleções.
Com um ano de licença do seminário, foi escrever na Alemanha. Evitou as cidades universitárias e alugou um quarto em Wiesbaden, de frente para o mercado, para não perder o contato com a vida comum. Ali uma paralisia parcial do braço direito quase o fez desistir, até que o pregador inglês Robert Forman Horton, que estava na cidade para tratar dos olhos, o visitou e orou com ele. Curtis se recuperou, mudou-se para os Alpes, perto de Lucerna, e escreveu a última palavra do livro em 27 de julho de 1904.
The Christian Faith saiu em 15 de setembro de 1905, pela Eaton & Mains, com 568 páginas, e vendeu 5.571 exemplares nos oito primeiros anos. Kyugoro Obata, ex-aluno de Drew, traduziu-o para o japonês. A Igreja Metodista Episcopal pôs o livro no currículo de estudos obrigatório dos seus pastores até 1916; a Igreja Metodista Protestante o manteve até 1936 e a Igreja Metodista Episcopal do Sul, até 1939.
O professor
Os alunos de Drew guardaram a lembrança de aulas intensas, que às vezes terminavam com a sala em silêncio. O seu seminário levava o nome do bispo dinamarquês Hans Lassen Martensen, cuja Dogmática cristã o ensinara a esperar por uma visão da fé inteira. As orações dele na capela eram lembradas como acontecimentos. Fora da sala, gostava de beisebol, de pássaros e de árvores, e voltou mais de vinte vezes às White Mountains, em New Hampshire.
Em 1910 fez em Drew o discurso de abertura do ano, Personal Submission to Jesus Christ (A submissão pessoal a Jesus Cristo), que considerava a mensagem mais vital da sua vida de teólogo. Em 1914, no 25º ano de ensino, leu diante do seu seminário um Personal Paper, com as memórias aqui contadas e um credo pessoal em 21 artigos, e tornou-se professor emérito. Casou-se ainda com Ellen Hunt, em 1889, e com Ida Gorham, em 1906. Morreu em 8 de janeiro de 1918. Em 1920 a viúva publicou The Mountains and Other Nature Sketches (As montanhas e outros esboços da natureza), os textos dele sobre a natureza.
Pensamento
Um wesleyano que procurava uma mediação
Curtis foi um teólogo wesleyano, metodista da Igreja Metodista Episcopal. No prefácio de The Christian Faith ele diz que a chave do livro está na junção de duas ideias, a responsabilidade pessoal e a solidariedade da raça humana: “todo homem é uma pessoa moral responsável; mas nenhum homem é completo em si mesmo”. Nessa junção ele esperava encontrar “uma justa mediação entre o arminianismo e o calvinismo”. A soteriologia, porém, é arminiana do começo ao fim, e ele mesmo raciocina a partir do “ponto de vista arminiano”. Entre os quatro mestres que cita no prefácio, o primeiro é Daniel Whedon, que o convenceu de que o determinismo não tem defesa na ética; os outros são Thomas Carlyle, o filósofo metodista Borden Parker Bowne e Martensen.
Graça para todos, nunca coação
O nono artigo do credo de 1914 resume a soteriologia de Curtis: Deus “deseja ardentemente salvar todos os homens” e concede a todos tal graça que “quem quiser” pode ter a vida eterna. O décimo afirma a justificação “somente pela fé”. Ele não admite que a graça salve alguém por força: “nunca devemos admitir que algum ser humano possa ser salvo pela onipotência” (The Christian Faith, p. 403). Por isso critica os arminianos que defendem com vigor a graça resistível e depois, ao tratar das crianças que morrem, falam numa “regeneração incondicional”. Para ele, se uma única pessoa moral pudesse ser forçada à justiça, a equidade exigiria que Deus forçasse todas.
A preparação para a conversão é, em Curtis, obra do Espírito Santo do começo ao fim. “Todo movimento na consciência é obra do Espírito Santo”, escreve ele, e esses movimentos vêm “em consequência da expiação” (p. 350). É a forma dele de falar da graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e que Wesley já tinha visto na consciência. Acima dessa obra comum, o Espírito ilumina o pecador com uma visão da justiça, desperta-o com uma visão do Deus santo, convence-o do pecado e, por fim, o convida, dizendo que Jesus Cristo quer salvá-lo. Os cristãos podem cooperar com o Espírito, mas nenhuma influência humana obriga alguém a aceitar Cristo.
A redenção de uma raça
A ideia mais original de Curtis é a que ele chamou de teoria “racial” da obra de Cristo. A palavra se refere à raça humana inteira, sem relação com etnias. Durante doze anos ele achou que as três teorias clássicas da expiação (a da satisfação, de Anselmo; a governamental, de Hugo Grócio e Miley; e a da influência moral, de Abelardo e Horace Bushnell) eram todas insuficientes, e que cada uma guardava algo que não podia se perder. Em Marburgo ele viu o que as unia: o propósito de Deus na redenção é o mesmo da criação, “obter uma raça de pessoas santas”. Deus não queria juntar indivíduos avulsos prontos para a glória, mas uma humanidade ligada como um organismo, em que cada pessoa completa as outras.
Nessa leitura, Cristo é o “homem da raça”. Ele morreu como representante da humanidade, levou a pena que pesava sobre a raça de Adão, a morte, e ao mesmo tempo se tornou o centro de uma nova raça. A expiação, para Curtis, era uma necessidade absoluta, com raiz na própria natureza de Deus, tão rígida quanto na teoria da satisfação; ele só troca a justiça pela santidade como o atributo satisfeito. Ela exprime ao mesmo tempo o ódio moral de Deus ao pecado e o seu amor moral ao pecador, e é o meio para fundar “uma Nova Raça no Novo Adão, Jesus Cristo”, uma irmandade eterna da redenção. Toda a teologia dele se organiza por aí: a obra de Cristo, a redenção realizada no novo homem e a redenção realizada na nova raça, que é a igreja, até a igreja triunfante.
Santidade pessoal
Curtis trata a santidade como o acabamento da regeneração e, para evitar as brigas do seu tempo, volta a John Wesley. Para ele, o que Lutero foi para a justificação pela fé, Wesley foi para a santidade: um mestre em distinguir a experiência cristã verdadeira da imitação, ainda que com uma psicologia confusa. Em 1909 confessou, depois de vinte anos ensinando teologia sistemática, que só recentemente tinha lido os catorze volumes das obras de Wesley e que se espantara com o peso doutrinário deles.
A leitura que ele faz da perfeição cristã é clara. O pecador tem três males: é culpado, é moralmente impotente e tem uma disposição interior errada. Na justificação a culpa é cancelada; na regeneração ele recebe força para combater a disposição errada até imobilizá-la. Na perfeição cristã, recebida pela fé e de uma vez, essa guerra civil acaba, porque a consciência fica cheia até a borda do amor a Deus e ao próximo. O exemplo dele é o de um pregador ciumento que, depois dessa obra, passa a se alegrar com o sucesso do colega. O credo de 1914 diz o mesmo: ainda nesta vida podemos amar o Senhor tão perfeitamente que a vontade dele seja suprema em tudo. É a doutrina que o site chama de inteira santificação.
A Bíblia e as diferenças com a declaração de fé do site
Para explicar a inspiração, Curtis propôs a teoria do “endosso”: o decisivo não é como Deus ajudou cada autor, mas o fato de o Espírito Santo ter assumido cada palavra, usado na história da redenção, reunido no cânon e continuar a usá-la na igreja. Por isso ele dizia que a Bíblia é a Palavra de Deus, e não apenas que a contém, e que deve ser lida a partir do centro, a morte expiatória de Cristo. Mas ele não aceitava a inerrância, e nisso se afasta da declaração de fé do site, que afirma os autógrafos preservados de erro.
Há duas outras diferenças. Curtis, como Whedon e Miley, só chama de pecado o pecado pessoal; a raça herda de Adão uma desordem, mas não uma culpa, enquanto a declaração de fé afirma que todos nascemos sob a justa condenação de Deus. E a teoria racial, embora conserve a necessidade absoluta da expiação, põe a santidade no lugar da justiça e se distingue da satisfação penal substitutiva que o site adota.
Obras principais
- An Elective Course of Lectures in Systematic Theology (edição do seminário, 160 exemplares, 1901)
- “The Christian Valuation of Men”, sermão de 1903, em Modern Sermons by World Scholars, vol. 3 (Funk & Wagnalls, 1909)
- The Christian Faith Personally Given in a System of Doctrine (Eaton & Mains, 1905; reimpressão da Kregel, 1971)
- “Professor Denney’s Irenic Attempt”, Methodist Review (1909)
- Personal Submission to Jesus Christ: Its Supreme Importance in the Christian Life and Theology (Eaton & Mains, 1910)
- “A New Estimate of the Theological Situation”, Methodist Review (Nashville, 1911)
- A Personal Paper Commemorative of Twenty-Five Years of Theological Service in the Department of Systematic Theology (edição particular, 1914)
- The Mountains and Other Nature Sketches (Abingdon Press, 1920, póstumo)
Para aprofundar
- Olin Alfred Curtis, The Christian Faith Personally Given in a System of Doctrine (1905), Internet Archive.
- Olin Alfred Curtis, A Personal Paper Commemorative of Twenty-Five Years of Theological Service (1914), Internet Archive (o chamado a Boston, a visão de Marburgo, a escrita do livro e o credo pessoal).
- Olin Alfred Curtis, Personal Submission to Jesus Christ (1910), Internet Archive.
- Olin Alfred Curtis, The Mountains and Other Nature Sketches (1920), Internet Archive (com o prefácio de Ida Gorham Curtis).
- “Olin Alfred Curtis”, perfil reproduzido de The Teachers of Drew, 1867-1942, ed. James Richard Joy (1942), Drew University History.
- Edwin Lewis, “John Miley”, em The Teachers of Drew, 1867-1942, Drew University History (Curtis como sucessor de Miley).
- Nota biográfica de Olin Alfred Curtis em Modern Sermons by World Scholars, vol. 3 (Funk & Wagnalls, 1909), Internet Archive.
- Randy L. Maddox, “Respected Founder/Neglected Guide: The Role of Wesley in American Methodist Theology”, Methodist History 37 (1999), p. 71-88.
- Randy L. Maddox, “An Untapped Inheritance: American Methodism and Wesley’s Practical Theology”, em Doctrines and Disciplines: Methodist Theology and Practice (Abingdon, 1999), p. 19-52 (Curtis no currículo dos pastores metodistas).
- J. A. Witmer, resenha de The Christian Faith (reimpressão da Kregel), Bibliotheca Sacra 130 (1973), p. 357.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
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