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Mack B. Stokes: O bispo nascido na Coreia que uniu os metodistas do Mississippi
Neste texto
- Vida
- Uma casa de missionários na Coreia
- Formação nos Estados Unidos
- Trinta e um anos em Candler
- Bispo no Mississippi
- Tulsa, Atlanta e os últimos anos
- Pensamento
- Um wesleyano na herança de Armínio
- O pecado e a graça que vem antes
- Eleitos em Cristo, livres para responder
- Certeza e perfeição cristã
- Os dons do Espírito
- Pontos de diferença
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Quando Mack B. Stokes chegou a Jackson como bispo, em 1972, fazia menos de dez anos que três jovens ativistas dos direitos civis tinham sido assassinados perto de Philadelphia, no Mississippi, e quatro anos que Martin Luther King fora morto. Os metodistas do estado ainda estavam divididos em quatro conferências anuais, duas brancas e duas negras. No primeiro ano de episcopado, aquele professor de teologia sistemática de sessenta anos levou as quatro a votar a fusão em duas conferências integradas, e as quatro aprovaram por larga maioria. Anos depois, o bispo que o sucedeu contou ter encontrado homens que, chorando, confessaram ter ficado nos degraus da igreja com cabos de machado para impedir a entrada de negros. Ele atribuiu a Stokes boa parte daquela mudança de coração.
Vida
Uma casa de missionários na Coreia
Marion Boyd Stokes Júnior, sempre chamado de Mack, nasceu em 21 de dezembro de 1911 em Wonsan, no norte da Coreia, então sob domínio japonês. Era o terceiro dos quatro filhos de Marion Boyd Stokes e Pauline David Stokes, missionários metodistas. O pai chegou à Coreia em 1907, trabalhou na campanha “Um milhão de almas para Cristo” (1909 a 1911), fundou revistas cristãs, uma delas dedicada à santificação, e ficou no país até ser expulso pelos japoneses em 1940.
Os quatro irmãos se tornaram pregadores metodistas. John Lem Stokes presidiu o Pfeiffer College, na Carolina do Norte; James foi editor do North Carolina Christian Advocate; Charles voltou à Coreia como missionário e fundou em 1954, em Daejeon, o seminário metodista que hoje é a Universidade Mokwon. Mack estudou na Seoul Foreign School e terminou o ensino médio aos dezesseis anos.
Formação nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, estudou no Asbury College, em Wilmore (Kentucky), escola ligada ao movimento de santidade, e na Escola de Teologia da Universidade Duke, onde se formou bacharel em divindade em 1935. Em Duke escreveu um trabalho sobre a religião nativa da Coreia, incluindo o xamanismo. Fez pós-graduação em Harvard e na Universidade de Boston, onde recebeu o doutorado em 1940. Boston era então o centro do personalismo, a filosofia de Borden Parker Bowne e Edgar Brightman, para a qual a pessoa, humana e divina, é a chave para entender a realidade. A conferência Holston, ao registrar a sua morte, lembrou-o como filósofo e personalista.
Entrou em experiência na Conferência Anual da Carolina do Norte em 1933, foi ordenado diácono em 1938 e presbítero em 1940. Em junho de 1941 casou-se com Ada Rose Yow, de Henderson, na Carolina do Norte. Ficaram juntos 67 anos. Quando lhe perguntaram se Rose tinha sido o seu primeiro amor, respondeu: “Oh, não, ela foi o meu único amor”. Tiveram dois filhos e uma filha, Elsie Pauline, que morreu antes dele.
Trinta e um anos em Candler
Em 1941 Stokes entrou para a Escola de Teologia Candler, da Universidade Emory, em Atlanta, como professor assistente de doutrina cristã. Foi professor associado de 1944 a 1947 e catedrático de 1947 a 1953. Em 1955 tornou-se o primeiro titular da cátedra Franklin N. Parker de Teologia Sistemática, que ocupou até 1972. Presidiu a Divisão de Religião da pós-graduação da Emory de 1956 a 1972 e ajudou a criar, em 1958, os programas de doutorado em estudos teológicos da universidade. Foi deão associado de Candler e, em 1968 e 1969, deão interino. Em 1951 transferiu-se para a Conferência Holston, no leste do Tennessee.
O historiador Brooks Holifield, colega em Candler, descreveu-o como um teólogo apaixonado que gostava de debate rigoroso e respeitoso. Na Igreja Glenn Memorial, no campus, debateu em público com Thomas Altizer, colega da Emory e o nome mais conhecido da teologia da “morte de Deus” nos anos 1960, sem sombra de rancor, segundo quem assistiu.
Nesse período escreveu para o povo das igrejas. Major Methodist Beliefs (1956), resumo das crenças metodistas em linguagem simples, teve muitas edições e traduções, entre elas a brasileira, de 1962. Em 1960 publicou The Evangelism of Jesus, um estudo sobre o modo como Jesus lidava com as pessoas uma a uma, preparado para as comissões de evangelização das igrejas metodistas. No ano seguinte saiu The Epic of Revelation, ensaio de teologia bíblica.
Bispo no Mississippi
Em julho de 1972 a Conferência Jurisdicional do Sudeste o elegeu bispo da Igreja Metodista Unida e o designou para a área episcopal de Jackson, no Mississippi. A igreja tinha abolido em 1968 a Jurisdição Central, a estrutura que desde 1939 reunia à parte as conferências negras, e cabia aos bispos do Sul fundir as conferências que ainda existiam em separado. Stokes anunciou desde o começo que nomearia um superintendente distrital negro em cada uma das novas conferências. Assim nasceram, em 1973, a Conferência do Mississippi e a Conferência do Norte do Mississippi.
A fusão teve tropeços. As duas conferências adotaram um “sistema administrativo de dois distritos”, em que superintendentes vindos das antigas conferências trabalhavam em equipe, mas na prática as igrejas negras continuavam a responder a superintendentes negros e as brancas a superintendentes brancos. Stokes julgou o plano legal; o Conselho Judicial da igreja, na decisão 398, de 4 de abril de 1975, declarou-o inconstitucional, porque uma separação de fato não é mais aceitável que uma separação de direito. Na mesma decisão, o Conselho registrou o progresso feito rumo à inclusão racial sob a liderança do bispo Stokes. Kenneth Carder, bispo de Jackson de 2004 a 2008, disse que ele trouxe para a tarefa sensibilidade pastoral e uma base teológica profunda para a reconciliação. James Swanson, o primeiro bispo afro-americano designado para o Mississippi, falou de um modelo de “evangelização relacional”.
Stokes serviu dois mandatos de quatro anos e aposentou-se como bispo ativo em julho de 1980. Desde 1972 era também membro do conselho de curadores da Emory, onde ficou até quase o fim da vida.
Tulsa, Atlanta e os últimos anos
Depois do episcopado, aceitou o convite da Universidade Oral Roberts, em Tulsa (Oklahoma), para ensinar na sua escola de teologia. De 1980 a 1984 dirigiu os estudos de doutorado e presidiu a comissão do doutorado em ministério. Sob a sua direção o curso recebeu o credenciamento pleno da Associação de Escolas Teológicas (ATS). Em 1988 foi pastor titular da Igreja Metodista Unida de Peachtree Road, em Atlanta.
Continuou escrevendo para leigos, sobre a Bíblia, o Espírito Santo, a santidade e a oração, e revisou Major United Methodist Beliefs até 1998. Pregou pelo mundo por mais de setenta anos. Com Rose, criou em Candler um fundo de bolsas para estudantes estrangeiros e, em 2008, pouco antes da morte dela, a cátedra de teologia que leva o nome dos dois. Em novembro de 2011 a escola comemorou os seus cem anos. Morreu dormindo em 21 de novembro de 2012, em Perdido Key, na Flórida, a um mês de completar 101 anos.
Pensamento
Um wesleyano na herança de Armínio
Stokes é um teólogo wesleyano, da linha metodista. Ele mesmo situou essa herança: em Major United Methodist Beliefs (edição de 1998) descreve a redenção universal (Cristo morreu por todos), a “graça livre”, a capacidade de dizer sim ou não a Deus e a possibilidade de cair da graça como os temas do arminianismo contra o predestinacionismo, e mostra o apreço de Wesley por Jacó Armínio como homem e pensador. Em outro ponto, apresenta a teologia metodista como herdeira de Lutero e Calvino, modificada pelo arminianismo.
O pecado e a graça que vem antes
O ponto de partida dele é o pecado. Em As crenças fundamentais dos metodistas, cita o artigo VII dos Artigos de Religião metodistas: o ser humano é por natureza inclinado ao mal, e isso continuamente. Em O Espírito Santo na herança wesleyana, expõe a doutrina de John Wesley com mais força: a natureza humana não remida está infectada por um mal radical, incurável sem a graça divina. Daí a pergunta que organiza o capítulo: se as pessoas estão inclinadas ao mal sem cessar, como podem sequer se voltar para Deus? Calvino respondeu com a eleição de alguns; Wesley, diz Stokes, respondeu que o Espírito Santo age em todos os seres humanos para ajudá-los a abrir a alma para Deus. “A salvação não é para uns poucos escolhidos, mas para todas as pessoas”, conclui.
Essa ação é a graça preveniente, a graça que vem antes da fé. Stokes a descreve como o primeiro nível da obra do Espírito, presente em toda pessoa antes da conversão, e a liga a João 1:9, “a luz verdadeira, que alumia a todo o homem”. Depois vêm a justificação, em que o Espírito nos ajuda a nos arrepender e a crer no perdão que Deus já providenciou em Cristo, o novo nascimento e a santificação. “Somos salvos unicamente pela graça de Deus”, resume ele em As crenças fundamentais dos metodistas.
Eleitos em Cristo, livres para responder
Stokes define a predestinação como a doutrina de que Deus sozinho decide quem será salvo e quem se perderá, e a rejeita: só Deus salva, mas essa doutrina contraria a mensagem total da Bíblia, em que Deus “deseja que todos os homens sejam salvos” (1 Timóteo 2:4). Em The Evangelism of Jesus (1960) a eleição aparece em chave universal e cristocêntrica: o evangelista deve ver cada ser humano como alguém em perigo mortal de se perder e, ao mesmo tempo, como alguém eleito para receber o dom da salvação por meio de Cristo Jesus. O mesmo livro critica o cristianismo sentimental que esqueceu que almas podem se perder.
A liberdade humana, para ele, não diminui a soberania de Deus. “É preciso um Deus maior para fazer pessoas livres do que para fazer fantoches”, escreveu em Major United Methodist Beliefs; a nossa liberdade, longe de roubar o poder de Deus, é sinal dele. Por isso rejeita o fatalismo do “o que tem de ser, será” e também o “uma vez na graça, sempre na graça”. O crente continua livre para abandonar Cristo, como Saul e Demas (2 Timóteo 4:10), embora, observa ele, quem experimentou de fato a vida cristã dificilmente a deixe de vez. É a perseverança condicional do arminianismo.
Certeza e perfeição cristã
Stokes dá peso ao testemunho do Espírito (Romanos 8:15-16): o crente não precisa flutuar num mar de incertezas, porque pode saber que pertence a Deus, mas, como Wesley advertiu, nenhum testemunho do Espírito vale separado dos seus frutos (ver regeneração, adoção e certeza da salvação). Sobre a perfeição cristã, define-a como uma direção sustentada de vida com Deus, mais do que um estado alcançado. Ninguém é perfeito, mas todos são chamados a buscar a perfeição no amor, e a graça de Deus basta para purificar o coração. Quem entende a santificação como uma segunda obra definida da graça, diz ele, se sente em casa no metodismo. E acrescenta uma frase que resume o tom de todo o livro: “Não é necessária a graça de Deus para ser uma pessoa medíocre”.
Os dons do Espírito
O livro sobre o Espírito Santo, escrito depois dos anos na Oral Roberts, trata longamente do movimento carismático. Stokes distingue o movimento de santidade, o pentecostalismo, com as línguas como sinal necessário do batismo no Espírito, e o neopentecostalismo dentro das igrejas históricas, no qual reconhece a centralidade de Cristo, o primado do amor e a paixão pela evangelização, e conclui que “não há teologia carismática”: há uma só teologia bíblica, que pode dar mais ou menos ênfase aos dons. Para ele, como para Wesley, línguas, curas e milagres podem acontecer, mas nenhum desses dons é essencial à salvação (ver metodistas e pentecostais).
Pontos de diferença
Duas diferenças com a declaração de fé deste site merecem nota. Stokes defende o batismo de crianças, comum na Igreja Metodista Unida, enquanto a declaração põe o batismo depois da conversão. E nos livros para leigos, marcados pelo personalismo de Boston, ele às vezes fala da liberdade como dom da criação e associa a graça preveniente à consciência que Deus nos dá “por natureza”; o arminianismo clássico prefere falar de uma vontade libertada pela graça, porque a vontade caída, por si, está presa ao mal. O próprio Stokes, quando expõe Wesley, afirma o mal radical e a necessidade da graça antes de qualquer passo em direção a Deus.
Obras principais
- Major Methodist Beliefs (Methodist Publishing House, 1956); edição revista e ampliada como Major United Methodist Beliefs (Abingdon, 1971; nova edição em 1989; revista em 1998).
- The Evangelism of Jesus (Methodist Evangelistic Materials, 1960).
- The Epic of Revelation: An Essay in Biblical Theology (McGraw-Hill, 1961).
- Our Methodist Heritage (Graded Press, 1963).
- The Holy Spirit and Christian Experience (Graded Press, 1975).
- The Bible in the Wesleyan Heritage (Abingdon, 1981).
- The Holy Spirit in the Wesleyan Heritage (Graded Press, 1985).
- Scriptural Holiness for the United Methodist Christian (Discipleship Resources, 1987).
- Talking with God: A Guide to Prayer (Abingdon, 1989).
- Theology for Preaching (Bristol House, 1994).
- Questions and Answers about Life and Faith (2000).
Livros em português
- As crenças fundamentais dos metodistas, tradução de Charles W. Clay e Duncan Alexander Reily (Imprensa Metodista, 1962; 2ª ed., 1992). Ver na Amazon · Ler a edição digital da Igreja Metodista
- O Espírito Santo na herança wesleyana (Imprensa Metodista, 1995). Ver na Amazon · Ler a edição digital da Igreja Metodista
Para aprofundar
- Heather Hahn, “Bishop Stokes, scholar and reconciler, dies”, United Methodist News Service, novembro de 2012.
- “Campus service for theologian Mack Stokes, 100, set for Jan. 13”, Emory News Center, 6 de dezembro de 2012.
- “Stokes, Mack B. Scrapbook. MSS 337”, nota biográfica, Pitts Theology Library, Universidade Emory.
- “Bishop Mack B. Stokes, 1911-2012”, Journal of the Holston Annual Conference, 2013, memoriais.
- “Former ORU professor and noted Methodist bishop Marion B. Stokes dies”, Oral Roberts University, 3 de dezembro de 2012.
- Decisão 398 do Conselho Judicial da Igreja Metodista Unida, 4 de abril de 1975.
- “Stories of American Methodist Missionaries from Duke’s Korean Studies Collection, Part 2”, Duke University Libraries, abril de 2025.
- Página sobre o fundador Charles D. Stokes, Universidade Mokwon (Daejeon, Coreia do Sul).
- “Mack B. Stokes”, Wikipédia em inglês.
- Mack B. Stokes, The Evangelism of Jesus (1960), Internet Archive.
- Mack B. Stokes, Major United Methodist Beliefs (1998), Internet Archive.
- Mack B. Stokes, As crenças fundamentais dos metodistas e O Espírito Santo na herança wesleyana, edições digitais da Igreja Metodista.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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