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HistóriaTeólogos arminianos8 de 306

Michael L. Brown: o baterista judeu que se tornou apologista de Jesus como Messias

Diego Gonçalves15 min de leitura2.900 palavras

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Neste texto

Em setembro de 1971, por volta de uma e meia da manhã, um rapaz judeu de dezesseis anos desceu de um ônibus a mais de um quilômetro e meio de casa, em Long Island, depois de tomar uma dose grande de mescalina. Perdeu-se a duas quadras da própria rua e começou a gritar que estava queimando no inferno. Minutos depois, o rapaz correu para o meio da rua, na frente de um carro que parou a centímetros dele. O carro era o dos pais. Três meses mais tarde, na noite de 17 de dezembro, ele se rendeu a Jesus numa pequena igreja pentecostal italiana e decidiu nunca mais pôr uma agulha no braço. O rapaz era Michael L. Brown, que se tornaria doutor em línguas semíticas e um dos defensores mais conhecidos de Jesus como o Messias de Israel.

Retrato de Michael L. Brown
Michael L. Brown em 2014. Foto: Michael L. Brown, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Vida

O baterista de Long Island

Michael L. Brown nasceu em 16 de março de 1955, na cidade de Nova York, numa família judaica do ramo conservador. O pai era advogado sênior na Suprema Corte do estado de Nova York, e a família mudou-se para Long Island. Aos oito anos começou a tocar bateria; aos quinze já tinha gravado um disco em estúdio.

Depois do bar mitzvá, em 1968, o sonho passou a ser o rock. Em 1969, aos catorze anos, começou com maconha e haxixe e logo chegou ao LSD. Passou às anfetaminas injetáveis e, aos quinze, à heroína. Os amigos o chamavam de “Drug Bear” e “Iron Man”. Roubava dinheiro do pai e, com um amigo, invadiu um consultório médico para levar drogas.

Na primavera de 1971, os dois melhores amigos da banda começaram a frequentar uma igrejinha pentecostal italiana em Queens, atraídos por duas moças cujo tio era o pastor. Em agosto, Brown apareceu para tirá-los dali. Foi recebido com carinho, ele de cabelo comprido e roupa de hippie. A igreja passou a orar por ele nas reuniões de oração e nas casas, e a convicção de pecado veio antes que ele soubesse o que era. Depois de semanas de luta, rendeu-se em 17 de dezembro de 1971, num culto da noite. Em 24 de janeiro de 1972, numa reunião de oração de segunda-feira, foi batizado no Espírito Santo e falou em línguas, sem que ninguém orasse por ele.

A escola da oração

A igreja, que depois mudou-se para Long Island, deu a ele um modelo de devoção simples e séria. Com um ano de convertido, Brown passava de seis a sete horas por dia com Deus: três horas em oração, duas lendo a Bíblia e uma decorando versículos, vinte por dia durante uns seis meses. Pregou pela primeira vez em 21 de agosto de 1973, aos dezoito anos, sem anotações, porque naquela igreja se dizia que o pregador ungido não usa papel. Em 1974 apareceu por lá Nancy Gurian, judia de dezenove anos e ateia convicta. Converteu-se pouco depois e tornou-se sua esposa; o casal tem duas filhas.

Do púlpito à universidade

Brown formou-se em hebraico no Queens College em 1977 e fez mestrado (1981) e doutorado (1985) em línguas e literaturas do Oriente Próximo na Universidade de Nova York. A tese, orientada por Baruch A. Levine, é um estudo filológico da raiz hebraica rapa’, “curar”, na Bíblia hebraica e no antigo Oriente Próximo, com o título “Eu sou o Senhor que te sara”, tirado de Êxodo 15:26. Nesses anos de pós-graduação ele passou a desconfiar das raízes pentecostais e frequentou outra igreja. No fim de 1982, porém, uma nova experiência do Espírito na sua congregação o trouxe de volta, convencido de que a Escritura ensina a continuidade dos dons.

Ensinou Antigo Testamento e hebraico no Christ for the Nations Institute of Biblical Studies (1983-1987) e foi deão do Messiah Biblical Institute and Graduate School of Theology, em Maryland (1987-1993), do qual foi presidente em 1993. Mais tarde foi professor visitante de Antigo Testamento na Trinity Evangelical Divinity School e de apologética judaica no Fuller Theological Seminary, entre outros seminários.

Brownsville

Em 1995 começou o avivamento da Brownsville Assembly of God, em Pensacola, na Flórida, com o evangelista Steve Hill e o pastor John Kilpatrick. Brown entrou na liderança em 1996 e, em janeiro de 1997, fundou a Brownsville Revival School of Ministry. Em 2000 a escola tinha mais de 1.100 alunos de 34 países. Ele descreve aquele movimento como um avivamento clássico, de arrependimento, com elementos pentecostais plenos.

O fim foi doloroso. As Assembleias de Deus tinham emprestado vários milhões de dólares para a compra do terreno da escola e pediram que o presidente tivesse credenciais da denominação. Brown orou e concluiu que não devia filiar-se; Kilpatrick lhe deu um ultimato, e em dezembro de 2000 a diretoria o demitiu. “Vocês podem me demitir como presidente, mas não podem me demitir como pai”, disse ele. Em janeiro de 2001 abriu em Pensacola a FIRE School of Ministry, acompanhado por boa parte dos professores e por cerca de metade dos estudantes. Em 2003 a escola mudou-se para Concord, na Carolina do Norte. Mais tarde, Brown e Kilpatrick escreveram juntos O fogo que nunca dorme.

Apologista, debatedor e radialista

A obra que mais o identifica é Answering Jewish Objections to Jesus, em cinco volumes (2000-2010), com respostas às objeções históricas, teológicas, proféticas e rabínicas. Moishe Rosen, fundador dos Judeus por Jesus, previu que Brown seria “aclamado como o novo especialista” em apologética judaico-cristã. Debateu com rabinos como Shmuley Boteach (2008) e Tovia Singer (2015) e com o agnóstico Bart Ehrman. No campo acadêmico, escreveu o comentário de Jeremias na edição revista do Expositor’s Bible Commentary (2010) e trabalhou na Tree of Life Version (2014), tradução da Bíblia feita por judeus messiânicos e cristãos.

Fundou a ICN Ministries (2005), dirige a Coalition of Conscience, na região de Charlotte, e apresenta The Line of Fire, programa diário de rádio transmitido em rede nacional, além de escrever colunas para o Christian Post e outros veículos. A oposição ao ativismo LGBT, em livros como A Queer Thing Happened to America (2011), levou o Southern Poverty Law Center a incluí-lo em 2012 numa lista de ativistas da direita radical.

A crise de 2024 e 2025

Em dezembro de 2024 vieram a público acusações de que, em 2001 e 2002, Brown mantivera uma relação imprópria com uma jovem funcionária da FIRE. Ele negou má conduta sexual, admitiu “uma clara falta de juízo” e, a pedido da diretoria do ministério, afastou-se do ministério público em 17 de dezembro. Em abril de 2025, a firma Firefly, contratada para a investigação, concluiu num relatório de 47 páginas que a conduta dele com aquela jovem e com uma mulher casada da sua igreja, já falecida, foi “inapropriada e inaceitável” para a posição de liderança, e que ele fugira das perguntas sobre o caso durante anos; não encontrou indícios de nova conduta sexual imprópria depois de 2002. Brown reconheceu um “laço de alma doentio e pecaminoso” com a mulher casada e negou relação física. Um grupo de anciãos formado a pedido da diretoria classificou os fatos como “má conduta de liderança” e o liberou para voltar, com aconselhamento. Brown voltou ao ar em maio de 2025, sob críticas de quem considerou a resposta insuficiente; os três outros membros da diretoria do ministério deixaram os cargos ao longo de 2025.

Pensamento

Onde ele fica no arminianismo

Brown é um pentecostal arminiano: judeu messiânico, carismático e, na soteriologia, do lado de Armínio. Ele mesmo conta que passou cerca de cinco anos no calvinismo antes de abandoná-lo, e é membro da Society of Evangelical Arminians. Debateu a predestinação com o calvinista James White no rádio, em janeiro de 2010, e no Southern Evangelical Seminary, em 14 de fevereiro de 2013, além de discutir com White e com Sonny Hernandez a pergunta “Por quem Cristo morreu?”, defendendo que Cristo morreu por todos. Também discutiu o tema com Leighton Flowers.

O resumo mais claro da sua posição está no vídeo “Por que não sou calvinista” (20 de maio de 2016): “Deus, em sua soberania, escolheu nos dar a possibilidade de responder: um ‘sim’ ou um ‘não’”. E acrescenta: “A sua graça age em nossa vida, e podemos recusá-la ou abraçá-la”. A ordem da frase importa. A graça vem primeiro e age; a pessoa não começa nada, mas pode resistir. É a graça resistível que Jacó Armínio defendeu na Declaração de Sentimentos. Os textos de que parte são Ezequiel 18:23 e Mateus 23:37. Para ele, o chamado bíblico a escolher é sincero do começo ao fim, e Deus se entristece de fato quando a graça é rejeitada. Brown argumenta como exegeta e debatedor, e o seu vocabulário fala mais de “escolha” do que de graça preveniente. Lido à luz da frase de 2016, porém, o que ele defende cabe no arminianismo clássico: a vontade responde porque a graça já está agindo nela.

A dor de Deus e o livre-arbítrio

Depois do massacre da escola de Newtown, em dezembro de 2012, Brown perguntou se Deus também sofria. Afirmou que foi bom Deus dar liberdade às criaturas, mas que esse dom tem consequências, porque “o amor não pode ser coagido; precisa ser escolhido livremente”. A cruz mostra que essa decisão custou caro ao próprio Deus, e Isaías 63:9 diz que em toda a angústia de Israel ele foi angustiado. O argumento se apoia em duas convicções que os arminianos compartilham: Deus não é autor do mal, e o seu amor por todos é real a ponto de sofrer com a criação.

Graça sem licença

Na década de 2010, Brown dedicou dois livros à chamada mensagem da hipergraça: Hyper-Grace (2014) e The Grace Controversy (2016). Ele admite que essa pregação liberta crentes esmagados pelo legalismo e enumera as verdades que ela tem: a salvação é presente que nunca poderíamos merecer, um pecado não faz o crente perder a salvação, e a confissão do crente serve ao relacionamento com Deus, e não para ser salvo de novo. Rejeita, porém, a ideia de que nada do que o crente faça possa afetar sua relação com Deus, de que o Espírito não convence o crente de pecado e de que o “uma vez salvo, salvo para sempre” seja incondicional. No apêndice de Hyper-Grace resume: “embora estejamos seguros em Jesus, se no fim o rejeitarmos, perdemos essa posição segura”. É a perseverança condicional dos arminianos (ver o nosso estudo sobre a apostasia na Bíblia), com a garantia de que quem entregou de verdade a vida ao Senhor não precisa viver com medo de perder a salvação.

Israel, os judeus e a igreja

Em Our Hands Are Stained with Blood (1992, revisto em 2019) e em Christian Antisemitism (2021), Brown contou a história do antijudaísmo cristão e chamou a igreja ao arrependimento. Em 2017, nos quinhentos anos da Reforma, respondeu a teólogos reformados que suavizavam o tratado de Lutero contra os judeus, de 1543: para um líder cristão, escreveu, aqueles textos devem ser renunciados “nos termos mais fortes possíveis”. Ver também judaísmo, cristianismo e o perigo de uma má teologia. Como David H. Stern, Brown defende que um judeu que crê em Jesus não deixa de ser judeu.

O Espírito e os dons

Brown é continuísta. Contra o livro Strange Fire (2013), de John MacArthur, escreveu Authentic Fire (2015); contra os abusos do próprio movimento, Playing with Holy Fire (2018). A imagem que usa é a de Paulo diante de Corinto: o apóstolo não negou os dons por causa dos abusos, mas corrigiu os erros e mandou buscar os dons com zelo.

Diferenças com a nossa declaração de fé

Brown converge com a nossa declaração de fé na graça resistível, na expiação por todos, na perseverança condicional e na Bíblia como autoridade final. Há diferenças. Na escatologia, ele e Craig S. Keener defendem em Not Afraid of the Antichrist (2019) que a igreja passará pela grande tribulação, sem arrebatamento antes dela, e Brown defende a eleição permanente do povo judeu e um lugar para Israel no plano de Deus para o fim, na linha do sionismo cristão. A nossa declaração é amilenista e lê esses textos de outro modo.

Obras principais

  • How Saved Are We? (1990)
  • Our Hands Are Stained with Blood (1992; edição revista, 2019)
  • Israel’s Divine Healer (1995)
  • Revolution! (2000; edição revista, 2020)
  • Answering Jewish Objections to Jesus, 5 volumes (2000-2010)
  • Comentário de Jeremias em The Expositor’s Bible Commentary (2010)
  • Hyper-Grace (2014)
  • Authentic Fire (2015)
  • The Grace Controversy (2016)
  • Playing with Holy Fire (2018)
  • Not Afraid of the Antichrist, com Craig S. Keener (2019)
  • Christian Antisemitism (2021)
  • Revival or We Die (2021)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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