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HistóriaTeólogos arminianos29 de 306

Paige Patterson: O líder da virada conservadora batista que preferia os anabatistas a Dort

Diego Gonçalves13 min de leitura2.627 palavras

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Neste texto

Numa noite de 1967, no Café du Monde, no French Quarter de Nova Orleans, dois casais conversaram até de madrugada sobre o rumo da Convenção Batista do Sul. De um lado da mesa estava Paul Pressler, advogado de Houston que depois seria juiz; do outro, Paige Patterson, estudante de doutorado do seminário batista da cidade. Os dois achavam que os seminários da convenção tinham se afastado da confiança na Bíblia que os batistas tinham nas igrejas. Doze anos depois, o plano que nasceu naquela mesa mudou a denominação. Em 12 de junho de 1990, depois de mais uma vitória dos conservadores, os dois voltaram ao mesmo café para comemorar.

Vida

Filho de pregador

Leighton Paige Patterson nasceu em 19 de outubro de 1942, em Fort Worth, no Texas. O pai, Thomas Armour Patterson, conhecido como T. A., terminava ali o doutorado no Southwestern Baptist Theological Seminary, sob a orientação do teólogo W. T. Conner, e chegou depois a dirigir a Convenção Geral Batista do Texas. A mãe era Roberta Turner Patterson.

Pregou o primeiro sermão aos quinze anos e, aos dezesseis, ainda no ensino médio, foi ordenado pela Primeira Igreja Batista de Beaumont, no Texas. Formou-se em 1965 na Hardin-Simmons University, em Abilene, e fez o mestrado (1968) e o doutorado em teologia (1973) no New Orleans Baptist Theological Seminary, com uma tese sobre a doutrina da salvação de John Leadley Dagg, teólogo batista calvinista do século XIX. Em Nova Orleans, com o evangelista de rua Leo Humphrey, manteve no French Quarter uma casa de café que recebia motoqueiros, prostitutas e adolescentes fugidos de casa. Casou-se com Dorothy Jean Kelley, também de Beaumont, que se tornaria autora e professora de teologia para mulheres; o casal tem dois filhos. Em 1970 assumiu a Primeira Igreja Batista de Fayetteville, no Arkansas, com um ministério voltado aos universitários.

Criswell College e a virada conservadora

Em 24 de fevereiro de 1975 tornou-se o terceiro presidente do Criswell Center for Biblical Studies, a escola bíblica fundada em Dallas por W. A. Criswell, pastor da Primeira Igreja Batista da cidade. Em dezessete anos o instituto sem credenciamento virou uma faculdade credenciada.

De Dallas, ele e Pressler conduziram a campanha. O plano era eleger presidentes conservadores da convenção por anos seguidos, porque o presidente nomeia as comissões que indicam os conselheiros dos seminários e das agências. Pressler cuidava da estratégia, e Patterson era o teólogo do movimento e o defensor da inerrância bíblica, a convicção de que a Escritura não erra em nada do que afirma. Em junho de 1979, em Houston, Adrian Rogers foi eleito presidente, e os conservadores não perderam mais nenhuma eleição. Os partidários chamaram o processo de Ressurgência Conservadora.

Em abril de 1980 o jornal Baptist Standard pediu a Patterson os nomes dos professores que, segundo ele, negavam a confiabilidade da Bíblia. Ele respondeu com o ensaio “A Reply of Concern”, com sete nomes e citações. Um deles era Fisher Humphreys, professor de New Orleans, e a disputa terminou num debate público sobre a expiação, em 19 de outubro de 1987, na capela daquele seminário.

Em 28 de outubro de 1991 os curadores do Criswell College votaram a demissão de Patterson, insatisfeitos com a sua administração e com o tempo que ele dava à política da convenção. Três ex-presidentes da convenção, Charles Stanley, Rogers e Jerry Vines, convenceram os curadores a voltar atrás.

Southeastern e a presidência da convenção

Em 13 de outubro de 1992 tomou posse como quinto presidente do Southeastern Baptist Theological Seminary, em Wake Forest, na Carolina do Norte, e o reorganizou em linhas conservadoras. Em onze anos o número de alunos passou de cerca de quinhentos para quase 2.300; ele abriu doutorados e criou parcerias de plantação de igrejas com a Junta de Missões Norte-Americana.

Em 1998 a convenção o elegeu presidente, e ele foi reeleito em 1999. Patterson nomeou a comissão, presidida por Rogers, que revisou a confissão de fé da denominação, a Baptist Faith and Message (Fé e Mensagem Batista), aprovada em Orlando em 14 de junho de 2000. O texto afirmou que toda a Escritura é verdadeira e limitou o ofício de pastor aos homens, posição que ele defendia.

Southwestern

Em 24 de junho de 2003 o Southwestern, o seminário em que o pai tinha estudado, o elegeu por unanimidade seu oitavo presidente. Criou ali uma faculdade de graduação, com uma criticada concentração em vida doméstica para mulheres, e fez do seminário um centro dos batistas do Sul que não aceitavam os cinco pontos do calvinismo.

Em 12 de junho de 2006, em Greensboro, na Carolina do Norte, ele e Albert Mohler, presidente do Southern Seminary e calvinista, expuseram as suas visões da eleição e insistiram que a diferença não devia dividir a convenção. Em 2008 Patterson falou sobre a depravação na Conferência João 3:16, e a palestra virou o segundo capítulo de Whosoever Will (2010), organizado por David L. Allen e Steve Lemke. Em novembro de 2016, depois de um sermão contra o calvinismo na capela, disse aos alunos que existia uma denominação para quem pensava assim, a presbiteriana, e que, se ele pensasse assim, deixaria de ser batista.

Em janeiro de 2012 o seminário recebeu uma conferência sobre os anabatistas e os batistas de hoje. As palestras viraram em 2013 um livro em homenagem a Patterson, The Anabaptists and Contemporary Baptists, organizado por Malcolm Yarnell, com uma parte inteira sobre Balthasar Hubmaier, o anabatista preferido do homenageado. Em 2012 saiu também o seu comentário do Apocalipse na série New American Commentary.

A demissão de 2018

Na primavera de 2018 circulou o áudio de um sermão antigo em que Patterson contava ter aconselhado uma mulher agredida pelo marido a voltar para casa e orar por ele, e milhares de mulheres assinaram uma carta aberta contra a sua visão da autoridade e da condição feminina. Em 22 e 23 de maio o conselho do Southwestern o tirou da presidência e o fez presidente emérito; ele disse que estava magoado, mas que não tinha transigido. Em 30 de maio a comissão executiva o demitiu e retirou o título e os benefícios, por causa do modo como ele tratou uma denúncia de estupro feita por uma aluna do Southeastern em 2003 e de um e-mail de 2015 em que falava de se encontrar a sós com uma aluna que fizera outra denúncia para “quebrá-la”. Em 2019 o Southwestern tirou da capela os vitrais dos líderes da virada conservadora, entre eles o de Patterson.

Patterson preside hoje a Sandy Creek Foundation, a fundação da família que apoia pastores. Com a mulher já pregou em mais de 135 países, e em 2025 lançou a segunda edição do comentário do Apocalipse, The Lion Is a Lamb.

Pensamento

Nem calvinista nem arminiano

Classe: simpatizante. Patterson rejeita os pontos centrais do calvinismo, mas recusa o nome de arminiano. Em setembro de 2010 assinou, com Allen, Keathley, Lemke, Vines, Richard Land e Yarnell, o documento “Nem calvinistas nem arminianos, mas batistas”, resposta a Roger Olson, que tinha chamado os autores de Whosoever Will de arminianos. “Somos calvinistas? Não. Somos arminianos? Não”, diz o texto. Os signatários se apresentam como “batistas majoritários na tradição de Sandy Creek”, a igreja da Carolina do Norte onde, em 1755, começou o avivamento dos batistas separados, e acham anacrônico medir a teologia batista pelos cânones do Sínodo de Dort (1618-1619).

Cristo morreu por todos, e a graça pode ser recusada

Em Greensboro, em 2006, Patterson disse que o chamado de Deus “é feito a todos os homens”, e cada um precisa decidir se responde. Ele lê a eleição pela presciência de Deus e diz que Deus “pode fazer um homem totalmente livre, se quiser”. Não vê na Bíblia a graça irresistível: se a pessoa não pode resistir ao Espírito Santo, a salvação se torna “coercitiva”. Contra a expiação limitada, citou 1 Timóteo 2:3-6, 2 Pedro 3:9, Hebreus 2:9 e 1 João 2:2 e concluiu que as passagens sobre a universalidade da expiação são “absolutamente esmagadoras” no Novo Testamento.

Nesses pontos ele está perto do arminianismo clássico. A eleição segundo a presciência de quem creria é o quarto decreto da Declaração de Sentimentos de Jacó Armínio (1608), e a nossa declaração de fé ensina a mesma eleição condicional em Cristo, a expiação universal e a graça resistível.

O pecado e a capacidade de responder

Na Conferência João 3:16, Patterson chamou a sua posição de depravação total. Com Romanos 1 e 3, mostrou que antes da regeneração ninguém é justo diante de Deus nem o busca, e que nenhuma obra conquista a justiça. Todos caíram em Adão (Romanos 5:15-18), mas, para ele, a Escritura não demonstra que nascemos culpados: nascemos com uma “doença do pecado” e somos culpados pelo nosso próprio pecado. Leu a morte espiritual de Efésios 2:1 como metáfora e ilustrou com um marinheiro ferido no mar, que mal ouve o helicóptero enviado pelo almirante, mas acena e é resgatado. O som das hélices é a pregação do evangelho, que o pecador mal ouve por causa da sua condição, mas a que pode responder. O documento de 2010 diz que a Escritura não ensina que o ser humano é “totalmente incapaz” de responder ao chamado de Deus para crer.

Aqui está a maior distância em relação ao arminianismo clássico. Armínio ensinou que, depois da queda, o livre-arbítrio para o bem verdadeiro está “aprisionado, destruído e perdido”, e que só a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta, liberta a vontade para crer. A nossa declaração de fé também afirma que nascemos sob a justa condenação de Deus, incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar. Patterson não põe o pecador dando o primeiro passo sem Deus, pois é o chamado do evangelho que o alcança, mas atribui a capacidade de responder à própria condição do pecador, sem a libertação da vontade de que falam Armínio e John Wesley. É a linha que a Declaração Tradicional de 2012, redigida por Eric Hankins, daria aos batistas do Sul não calvinistas.

A segurança do crente

O segundo ponto de distância é a perseverança. O documento de 2010 diz que os signatários, ao contrário dos arminianos clássicos, estão “absolutamente certos” de que o crente nascido de novo será salvo, e cita a Baptist Faith and Message: “todos os verdadeiros crentes perseveram até o fim”. Desde a Remonstrância, os arminianos ensinam a perseverança condicional, e a nossa declaração de fé diz que a fé salvadora pode ser abandonada (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14).

A cruz como substituição

Na expiação Patterson está com a nossa declaração de fé. Para ele, a substituição penal, Cristo levando no lugar do pecador a pena do pecado, é o tema que dá substância a todos os outros modelos bíblicos da cruz. No debate de 1987 defendeu que a cruz era necessária para cumprir a Escritura (Mateus 26:54; 1 Coríntios 15:3) e para que Deus tratasse o pecado com seriedade (Romanos 3:25-26). Já em A Pilgrim Priesthood (1982), o comentário de 1 Pedro, achava um mistério que alguém negasse a substituição “à luz da clara afirmação de Pedro de que somos remidos pelo precioso sangue de Cristo” (1 Pedro 1:19).

Herdeiro dos anabatistas

A marca própria de Patterson é o apreço pelos anabatistas, os cristãos da Reforma Radical do século XVI que batizavam só quem confessava a fé, separavam a igreja do Estado e foram perseguidos por católicos e protestantes. No ensaio que abre o livro de 2013, “O que os batistas de hoje podem aprender com os anabatistas”, ele compara a Baptist Faith and Message com as confissões anabatistas e admite que os laços históricos entre os dois grupos não são estreitos. Mesmo assim, propõe que os batistas imitem os reformadores radicais, e não os reformadores que batizavam crianças, e chama a aproximação dos batistas do Sul com a fé reformada de “um grande passo atrás”. Sobre as duas histórias, ver batistas e anabatistas e Menno Simons.

Pregação e últimas coisas

Patterson defende a pregação expositiva, verso a verso. O comentário do Apocalipse é futurista, pré-milenista e pré-tribulacionista: a igreja será arrebatada antes da grande tribulação, e o reino de mil anos de Apocalipse 20:4-6 é literal. Ele descreve a Babilônia de Apocalipse 17 e 18 como “um sistema religioso” que diz representar o Deus verdadeiro enquanto faz a obra de Satanás.

Obras principais

  • Living in Hope of Eternal Life: An Exposition of the Book of Titus (Zondervan, 1968).
  • A Pilgrim Priesthood: An Exposition of the Epistle of First Peter (Thomas Nelson, 1982; Wipf and Stock, 2004).
  • The Troubled Triumphant Church: An Exposition of First Corinthians (Thomas Nelson, 1983).
  • Song of Solomon (Moody Press, 1986), na série Everyman’s Bible Commentary.
  • Great Doctrines of the Bible (Zondervan, 1982-1989), série organizada com W. A. Criswell.
  • Anatomy of a Reformation: The Southern Baptist Convention, 1978-2004 (Southeastern Baptist Theological Seminary, 2004).
  • “Total Depravity”, em David L. Allen e Steve W. Lemke (orgs.), Whosoever Will (B&H Academic, 2010).
  • Revelation, The New American Commentary 39 (B&H, 2012); 2ª ed. como The Lion Is a Lamb (Northeastern Baptist Press, 2025).
  • “What Contemporary Baptists Can Learn from the Anabaptists”, em Malcolm B. Yarnell III (org.), The Anabaptists and Contemporary Baptists (B&H Academic, 2013).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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