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Miner Raymond: Do banco de sapateiro à cátedra de teologia em Evanston
Neste texto
- Vida
- O aprendiz de sapateiro
- Wilbraham: aluno, professor e pregador
- Diretor em tempo de incêndio
- O sermão contra a lei dos escravos fugitivos
- Evanston e o Garrett Biblical Institute
- Pensamento
- Onde ele fica
- Incapacidade e graça
- A fé que recebe
- A cruz
- A inteira santificação
- Onde ele difere da nossa declaração de fé
- Obras principais
- Para aprofundar
No começo da década de 1830, no sótão do laboratório da Wesleyan Academy, em Wilbraham, Massachusetts, um aluno pobre instalou um banco de sapateiro e passou a fazer e consertar os sapatos dos colegas com o couro que um morador da vila lhe fornecia. Era assim que pagava parte dos estudos. O historiador da escola comentou mais tarde que naquele banco ele “martelou muito mais boa teologia do que sola de sapato”. O rapaz era Miner Raymond. Anos depois, como diretor, ele reconstruiu a academia depois de dois incêndios; em Evanston, perto de Chicago, formou uma geração de pregadores metodistas e escreveu uma das primeiras teologias sistemáticas completas do metodismo americano.
Vida
O aprendiz de sapateiro
Miner Raymond nasceu em 29 de agosto de 1811, na cidade de Nova York. O pai, Nobles Benedict Raymond, era sapateiro; a mãe, Hannah Wood, era filha de um soldado da Guerra de Independência. Dois anos depois a família mudou-se para Rensselaerville, no condado de Albany, no interior do estado. O menino frequentou a escola da vila até os doze anos, quando já tinha aprendido tudo o que ela ensinava. O pai não tinha como mandá-lo estudar fora, e Raymond lembrava com humor que ele o pôs num banco de sapateiro, “puxando as cordas da aflição no banquinho do arrependimento”, durante seis anos, “e eu querendo ir à escola o tempo todo”.
A virada veio pela fé. Ainda moço, ele se converteu e entrou para a Igreja Metodista Episcopal. Em 1828, o relato de um grande avivamento na Wesleyan Academy, publicado no Christian Advocate, acendeu nele o desejo de estudar. Em 1830, aos dezenove anos, ele foi para Wilbraham e levou as ferramentas do ofício.
Wilbraham: aluno, professor e pregador
A academia, escola dos metodistas da Nova Inglaterra, tivera Wilbur Fisk como primeiro diretor em Wilbraham. Ali Raymond descobriu o gosto pela matemática. Em 1833 seu nome já aparecia no catálogo como monitor; em 1834 assumiu o departamento de inglês e, em 1838, a cadeira de matemática. Um advogado de Nova York, ex-aluno, diria muito tempo depois que ele era “o maior professor de matemática da terra de Deus”. Em 20 de agosto de 1837 casou-se, em Webster, Massachusetts, com Elizabeth Henderson, antiga aluna da escola.
Em 1838 Raymond foi admitido na Conferência da Nova Inglaterra da Igreja Metodista Episcopal. Em 1841 deixou a academia pelo pastorado e serviu em Worcester, em Boston, nas igrejas de Church Street e de Bennett Street, e em Westfield. Como pregador, lançava os princípios com calma, inflamava-se à medida que avançava, e o povo o ouvia com gosto porque “a sua lógica costumava chegar ao rubro”. A Universidade Wesleyana, de Middletown, deu-lhe o título de mestre em 1840 e o de doutor em teologia em 1854.
Diretor em tempo de incêndio
Em 1848, com a academia em crise, os curadores insistiram para que Raymond assumisse a direção. Ele relutou, porque via no pastorado a obra da sua vida, mas aceitou. Ficou dezesseis anos no cargo, a direção mais longa e mais fecunda da história da escola. Nos primeiros anos desenhou e conduziu a construção do Fisk Hall, concluído em 1851, e levantou subscrições bastantes para quitar a velha dívida da instituição.
Então vieram os incêndios. Em 4 de janeiro de 1856, a casa de pensão dos alunos, preparada para cento e cinquenta estudantes, queimou em uma hora. A um amigo que no dia seguinte duvidava que fosse possível reconstruir, Raymond respondeu que o fogo lhes permitiria erguer um prédio melhor. Em 29 de setembro de 1857, a nova pensão também virou cinzas, desta vez por obra de um incendiário. O prejuízo foi de 50 mil dólares, com apenas 20 mil de seguro.
Raymond contou com dois leigos metodistas de Boston, Isaac Rich e Lee Claflin, levou a causa às igrejas da Conferência da Nova Inglaterra e pediu ajuda ao Estado. Negado o primeiro pedido, fez circular petições populares, e em 1859 a legislatura concedeu 25 mil dólares à academia, tirados da venda das terras de Back Bay. No outono de 1861 abriu-se o Rich Hall, com lugar para duzentos alunos. Foi sobretudo pela influência de Raymond e de Joseph Cummings que Isaac Rich fez as grandes doações às escolas metodistas de Wilbraham, Middletown e Boston.
O sermão contra a lei dos escravos fugitivos
Em 4 de janeiro de 1854, Raymond pregou o sermão anual da eleição diante do governador John H. Clifford e da legislatura de Massachusetts, sobre Salmo 33:12: “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”. O sermão chega à questão que dividia o país: a lei federal de 1850 que obrigava os cidadãos do Norte a ajudar na captura dos escravos fugidos. Para Raymond, a escravidão viola os direitos naturais e a vontade de Deus; logo, a lei é opressiva e obedecer a ela é pecado. Ele lembra Deuteronômio 23:15-16, que proíbe entregar ao senhor o servo que dele fugiu. E conclui: “Que a pobre África não seja obrigada, pela sua servidão, a pagar o preço da liberdade americana”.
Raymond foi seis vezes delegado à Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal e, numa delas, presidiu a comissão sobre a escravidão.
Evanston e o Garrett Biblical Institute
Em dezembro de 1863 morreu John Dempster, fundador do Garrett Biblical Institute, o seminário metodista de Evanston, à beira do lago Michigan. Raymond foi eleito para a cadeira de teologia sistemática e, em 28 de junho de 1864, mandou aos curadores de Wilbraham um bilhete de duas linhas com a renúncia. Anos depois contou que, caminhando à margem do lago, sentiu “que tinha chegado ao meu reino”: o lugar que não procurara era aquele para o qual a Providência o preparara.
Ensinou em Garrett por mais de trinta anos, até passar dos oitenta. Nos primeiros tempos foi também, durante três anos, pastor da Primeira Igreja Metodista Episcopal de Evanston e presidente da junta escolar da vila. Foi ele quem trouxe para a Universidade Northwestern o professor de oratória Robert Cumnock, seu antigo aluno, e a universidade deu-lhe o título de doutor em leis em 1884.
Charles J. Little, presidente de Garrett, escreveu que outros professores podiam ser mais eruditos e mais sutis, mas “nenhum podia ser mais luminoso nem mais razoável”.
Elizabeth morreu em 1877. Em 1879 Raymond casou-se com Isabella Hill Binney, que fora preceptora e professora em Wilbraham; ela morreu em fevereiro de 1897. Ele morreu em Evanston em 25 de novembro de 1897, aos oitenta e seis anos. No funeral, o colega Milton S. Terry lembrou que ele era o último sobrevivente da primeira geração de professores do seminário, a de Dempster, Kidder, Bannister e Hemenway.
Pensamento
Onde ele fica
Raymond é um wesleyano. Pastor e professor da Igreja Metodista Episcopal, ele chama a própria posição de “arminianismo wesleyano” e constrói a sua Systematic Theology sobre o contraste entre o sistema agostiniano e o arminiano. No prefácio de 1877 promete mostrar “a grande diferença entre as soteriologias anselmiana e arminiana”. São três volumes, que vão da apologética à ética e ao governo da igreja. Raymond a escreveu como manual para os alunos, mas também para os pastores que estudavam sozinhos e para os leigos que precisavam defender “o nosso sistema de teologia”. Quinze anos depois, John Miley publicaria em Drew a sua própria Systematic Theology.
Incapacidade e graça
Raymond resume as posições sobre o pecado e a vontade em um quadro. Para o pelagianismo, o pecado não afeta o poder de fazer o bem; para o semipelagianismo, enfraquece esse poder, mas não o destrói; para o agostinianismo, destrói-o, e ele nunca é restaurado. O arminianismo responde: “o pecado destrói o poder para o bem, mas a graça o restaura” (vol. 2, p. 130). A frase o põe ao lado de Jacó Armínio e de John Wesley: a pessoa caída é incapaz, e toda capacidade de voltar-se para Deus vem da graça. Pela mesma razão ele recusa o semipelagianismo, em que o Espírito apenas “ajuda a vontade natural”, completando uma fraqueza.
Essa graça que vem antes de qualquer resposta é a graça preveniente. Raymond a coloca entre os benefícios da cruz que todos recebem sem condição. Como a depravação natural tira do ser humano toda capacidade de voltar-se para a fé, uma influência da graça foi garantida a toda a raça como “herança comum”. Ele cita João 1:9 e Tito 2:11 e escreve que “o mesmo sangue que comprou para a humanidade uma existência consciente obteve para todos a graça necessária às responsabilidades dessa existência” (vol. 2, p. 316). Essa graça ilumina o entendimento, desperta a consciência e fortalece a vontade, o bastante para que a pessoa possa escolher a vida ou recusá-la. A obra do Espírito, por isso, é resistível: quem persiste em resistir se perde.
Os frutos da cruz formam dois grupos. Sem condição alguma, todos recebem a existência e as condições de uma prova justa, e os que morrem na infância são salvos pelo sangue de Cristo. Mediante a fé vêm a justificação, a regeneração e a santificação.
A fé que recebe
Raymond conhecia a objeção de que, se a fé é ato da vontade humana, a salvação passa a ser por obras. Ele responde que a graça supõe alguém que a receba de vontade, porque uma máquina não é objeto de misericórdia, e que não há mérito em nada do que a pessoa é ou faz. E distingue: “a fé, como poder de crer, é dom de Deus; crer, o exercício da fé, é ato do homem” (vol. 2, p. 335). Deus não crê pela pessoa, assim como não respira por ela.
Ele usa sem receio a palavra sinergismo, que para ele quer dizer que a vontade, vivificada pela graça, coopera com o Espírito. Mas delimita: regenerar é obra só de Deus, e a parte da pessoa está em ouvir a Palavra, arrepender-se e confiar na misericórdia de Deus em Cristo, com a vontade que a graça restaurou. Fórmulas como a de que a salvação resulta de “duas eficiências que cooperam” soam mais fortes que as de Armínio, mas, lidas com o quadro da página 130, não dão à vontade natural o primeiro passo.
Em um ponto Raymond vai além de Armínio e de Wesley. Ele argumenta que, como Deus permitiu que o primeiro casal gerasse uma raça corrompida, uma compensação era, em certo sentido, devida a cada pessoa, porque a capacidade deve sempre igualar a obrigação. Ele mesmo acrescenta que isso não faz desses benefícios algo menos que graça. Armínio e Wesley falam da graça preveniente só como dom imerecido, e a declaração de fé do site segue essa linha.
A cruz
Na doutrina da expiação, Raymond recusa duas leituras. Rejeita a ideia de que a morte de Cristo valeria só porque Deus decidiu aceitá-la, como se o sangue de um bode pudesse servir no lugar do sangue do Filho eterno, e rejeita a teoria que vê na cruz “somente” uma medida de governo. Para ele, a morte de Cristo é substitutiva (“se Cristo não tivesse morrido, eu teria de morrer”) e propiciatória, segundo Romanos 3:25-26: cumpre todos os fins que a pena cumpriria e, além de mostrar que o governo de Deus é justo, declara a justiça essencial do próprio Deus. Raymond prefere dizer que o sofrimento de Cristo é um substituto da pena, e não a própria pena transferida.
A inteira santificação
Raymond defende a doutrina metodista da inteira santificação, a obra da graça que purifica o coração do pecado interior e o enche de amor perfeito. Ela quase nunca acontece junto com a regeneração: o novo convertido é uma criança, às vezes doente. A obra é ao mesmo tempo progressiva e instantânea: progressiva no crescimento do entendimento, instantânea quando a pessoa se apropria pela fé daquilo que compreendeu. “O Espírito pode levar tempo para preparar o templo”, escreve, mas toma posse dele “num único instante” (vol. 2, p. 393). Ele aceita o testemunho dos que a receberam de repente em resposta à oração, mas adverte que a experiência de um não pode ser a base da fé de outro, que se apoia na Palavra e na obra do Espírito no próprio coração.
Onde ele difere da nossa declaração de fé
A convergência com a declaração de fé do site é grande: depravação total, graça preveniente e resistível, expiação por todos, justificação pela fé e inteira santificação. Há três diferenças. Na cruz, a declaração afirma a substituição penal, em que Cristo levou a própria pena, enquanto Raymond fala de um substituto da pena. Na graça preveniente, o site não a chama de compensação devida. E no batismo Raymond defende, como a Igreja Metodista Episcopal, o batismo de crianças, enquanto o site batiza depois da conversão.
Obras principais
- A Sermon Delivered before His Excellency John H. Clifford, Governor… at the Annual Election, January 4, 1854 (Boston, 1854)
- Systematic Theology, volumes 1 e 2 (Cincinnati: Hitchcock & Walden, 1877)
- Systematic Theology, volume 3: ética cristã, sacramentos e governo da igreja (Cincinnati: Hitchcock & Walden, 1879)
Para aprofundar
- Miner Raymond, Systematic Theology, vol. 1, vol. 2 e vol. 3 (1877-1879), Internet Archive.
- Miner Raymond, A Sermon Delivered before His Excellency John H. Clifford (Boston, 1854), Internet Archive.
- David Sherman, History of the Wesleyan Academy, at Wilbraham, Mass., 1817-1890 (Boston, 1893), capítulos XXIX a XXXVIII.
- Robert D. Sheppard e Harvey B. Hurd (orgs.), History of Northwestern University and Evanston (Chicago, 1906), verbete biográfico “Rev. Miner Raymond, D.D., LL.D.”.
- Arthur Herbert Wilde (org.), Northwestern University: A History, 1855-1905, vol. 1, e vol. 4 (Nova York, 1905).
- Semi-centennial Celebration, Garrett Biblical Institute (Evanston, 1906), saudações dos ex-alunos.
- Matthew Simpson (org.), Cyclopaedia of Methodism (Filadélfia, 1880), verbetes “Raymond, Miner”, “Garrett Biblical Institute” e “Wesleyan Academy”.
- New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 9, verbete “Raymond, Miner”, Christian Classics Ethereal Library.
- Society of Evangelical Arminians, “Systematic Theology by Miner Raymond”.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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