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Miner Raymond: Do banco de sapateiro à cátedra de teologia em Evanston

Diego Gonçalves12 min de leitura2.435 palavras

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Neste texto

No começo da década de 1830, no sótão do laboratório da Wesleyan Academy, em Wilbraham, Massachusetts, um aluno pobre instalou um banco de sapateiro e passou a fazer e consertar os sapatos dos colegas com o couro que um morador da vila lhe fornecia. Era assim que pagava parte dos estudos. O historiador da escola comentou mais tarde que naquele banco ele “martelou muito mais boa teologia do que sola de sapato”. O rapaz era Miner Raymond. Anos depois, como diretor, ele reconstruiu a academia depois de dois incêndios; em Evanston, perto de Chicago, formou uma geração de pregadores metodistas e escreveu uma das primeiras teologias sistemáticas completas do metodismo americano.

Retrato de Miner Raymond
Miner Raymond na velhice, retrato publicado em 1893 na história da Wesleyan Academy de David Sherman, autor desconhecido. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

O aprendiz de sapateiro

Miner Raymond nasceu em 29 de agosto de 1811, na cidade de Nova York. O pai, Nobles Benedict Raymond, era sapateiro; a mãe, Hannah Wood, era filha de um soldado da Guerra de Independência. Dois anos depois a família mudou-se para Rensselaerville, no condado de Albany, no interior do estado. O menino frequentou a escola da vila até os doze anos, quando já tinha aprendido tudo o que ela ensinava. O pai não tinha como mandá-lo estudar fora, e Raymond lembrava com humor que ele o pôs num banco de sapateiro, “puxando as cordas da aflição no banquinho do arrependimento”, durante seis anos, “e eu querendo ir à escola o tempo todo”.

A virada veio pela fé. Ainda moço, ele se converteu e entrou para a Igreja Metodista Episcopal. Em 1828, o relato de um grande avivamento na Wesleyan Academy, publicado no Christian Advocate, acendeu nele o desejo de estudar. Em 1830, aos dezenove anos, ele foi para Wilbraham e levou as ferramentas do ofício.

Wilbraham: aluno, professor e pregador

A academia, escola dos metodistas da Nova Inglaterra, tivera Wilbur Fisk como primeiro diretor em Wilbraham. Ali Raymond descobriu o gosto pela matemática. Em 1833 seu nome já aparecia no catálogo como monitor; em 1834 assumiu o departamento de inglês e, em 1838, a cadeira de matemática. Um advogado de Nova York, ex-aluno, diria muito tempo depois que ele era “o maior professor de matemática da terra de Deus”. Em 20 de agosto de 1837 casou-se, em Webster, Massachusetts, com Elizabeth Henderson, antiga aluna da escola.

Em 1838 Raymond foi admitido na Conferência da Nova Inglaterra da Igreja Metodista Episcopal. Em 1841 deixou a academia pelo pastorado e serviu em Worcester, em Boston, nas igrejas de Church Street e de Bennett Street, e em Westfield. Como pregador, lançava os princípios com calma, inflamava-se à medida que avançava, e o povo o ouvia com gosto porque “a sua lógica costumava chegar ao rubro”. A Universidade Wesleyana, de Middletown, deu-lhe o título de mestre em 1840 e o de doutor em teologia em 1854.

Diretor em tempo de incêndio

Em 1848, com a academia em crise, os curadores insistiram para que Raymond assumisse a direção. Ele relutou, porque via no pastorado a obra da sua vida, mas aceitou. Ficou dezesseis anos no cargo, a direção mais longa e mais fecunda da história da escola. Nos primeiros anos desenhou e conduziu a construção do Fisk Hall, concluído em 1851, e levantou subscrições bastantes para quitar a velha dívida da instituição.

Então vieram os incêndios. Em 4 de janeiro de 1856, a casa de pensão dos alunos, preparada para cento e cinquenta estudantes, queimou em uma hora. A um amigo que no dia seguinte duvidava que fosse possível reconstruir, Raymond respondeu que o fogo lhes permitiria erguer um prédio melhor. Em 29 de setembro de 1857, a nova pensão também virou cinzas, desta vez por obra de um incendiário. O prejuízo foi de 50 mil dólares, com apenas 20 mil de seguro.

Raymond contou com dois leigos metodistas de Boston, Isaac Rich e Lee Claflin, levou a causa às igrejas da Conferência da Nova Inglaterra e pediu ajuda ao Estado. Negado o primeiro pedido, fez circular petições populares, e em 1859 a legislatura concedeu 25 mil dólares à academia, tirados da venda das terras de Back Bay. No outono de 1861 abriu-se o Rich Hall, com lugar para duzentos alunos. Foi sobretudo pela influência de Raymond e de Joseph Cummings que Isaac Rich fez as grandes doações às escolas metodistas de Wilbraham, Middletown e Boston.

O sermão contra a lei dos escravos fugitivos

Em 4 de janeiro de 1854, Raymond pregou o sermão anual da eleição diante do governador John H. Clifford e da legislatura de Massachusetts, sobre Salmo 33:12: “Feliz a nação cujo Deus é o Senhor”. O sermão chega à questão que dividia o país: a lei federal de 1850 que obrigava os cidadãos do Norte a ajudar na captura dos escravos fugidos. Para Raymond, a escravidão viola os direitos naturais e a vontade de Deus; logo, a lei é opressiva e obedecer a ela é pecado. Ele lembra Deuteronômio 23:15-16, que proíbe entregar ao senhor o servo que dele fugiu. E conclui: “Que a pobre África não seja obrigada, pela sua servidão, a pagar o preço da liberdade americana”.

Raymond foi seis vezes delegado à Conferência Geral da Igreja Metodista Episcopal e, numa delas, presidiu a comissão sobre a escravidão.

Evanston e o Garrett Biblical Institute

Em dezembro de 1863 morreu John Dempster, fundador do Garrett Biblical Institute, o seminário metodista de Evanston, à beira do lago Michigan. Raymond foi eleito para a cadeira de teologia sistemática e, em 28 de junho de 1864, mandou aos curadores de Wilbraham um bilhete de duas linhas com a renúncia. Anos depois contou que, caminhando à margem do lago, sentiu “que tinha chegado ao meu reino”: o lugar que não procurara era aquele para o qual a Providência o preparara.

Ensinou em Garrett por mais de trinta anos, até passar dos oitenta. Nos primeiros tempos foi também, durante três anos, pastor da Primeira Igreja Metodista Episcopal de Evanston e presidente da junta escolar da vila. Foi ele quem trouxe para a Universidade Northwestern o professor de oratória Robert Cumnock, seu antigo aluno, e a universidade deu-lhe o título de doutor em leis em 1884.

Charles J. Little, presidente de Garrett, escreveu que outros professores podiam ser mais eruditos e mais sutis, mas “nenhum podia ser mais luminoso nem mais razoável”.

Elizabeth morreu em 1877. Em 1879 Raymond casou-se com Isabella Hill Binney, que fora preceptora e professora em Wilbraham; ela morreu em fevereiro de 1897. Ele morreu em Evanston em 25 de novembro de 1897, aos oitenta e seis anos. No funeral, o colega Milton S. Terry lembrou que ele era o último sobrevivente da primeira geração de professores do seminário, a de Dempster, Kidder, Bannister e Hemenway.

Pensamento

Onde ele fica

Raymond é um wesleyano. Pastor e professor da Igreja Metodista Episcopal, ele chama a própria posição de “arminianismo wesleyano” e constrói a sua Systematic Theology sobre o contraste entre o sistema agostiniano e o arminiano. No prefácio de 1877 promete mostrar “a grande diferença entre as soteriologias anselmiana e arminiana”. São três volumes, que vão da apologética à ética e ao governo da igreja. Raymond a escreveu como manual para os alunos, mas também para os pastores que estudavam sozinhos e para os leigos que precisavam defender “o nosso sistema de teologia”. Quinze anos depois, John Miley publicaria em Drew a sua própria Systematic Theology.

Incapacidade e graça

Raymond resume as posições sobre o pecado e a vontade em um quadro. Para o pelagianismo, o pecado não afeta o poder de fazer o bem; para o semipelagianismo, enfraquece esse poder, mas não o destrói; para o agostinianismo, destrói-o, e ele nunca é restaurado. O arminianismo responde: “o pecado destrói o poder para o bem, mas a graça o restaura” (vol. 2, p. 130). A frase o põe ao lado de Jacó Armínio e de John Wesley: a pessoa caída é incapaz, e toda capacidade de voltar-se para Deus vem da graça. Pela mesma razão ele recusa o semipelagianismo, em que o Espírito apenas “ajuda a vontade natural”, completando uma fraqueza.

Essa graça que vem antes de qualquer resposta é a graça preveniente. Raymond a coloca entre os benefícios da cruz que todos recebem sem condição. Como a depravação natural tira do ser humano toda capacidade de voltar-se para a fé, uma influência da graça foi garantida a toda a raça como “herança comum”. Ele cita João 1:9 e Tito 2:11 e escreve que “o mesmo sangue que comprou para a humanidade uma existência consciente obteve para todos a graça necessária às responsabilidades dessa existência” (vol. 2, p. 316). Essa graça ilumina o entendimento, desperta a consciência e fortalece a vontade, o bastante para que a pessoa possa escolher a vida ou recusá-la. A obra do Espírito, por isso, é resistível: quem persiste em resistir se perde.

Os frutos da cruz formam dois grupos. Sem condição alguma, todos recebem a existência e as condições de uma prova justa, e os que morrem na infância são salvos pelo sangue de Cristo. Mediante a fé vêm a justificação, a regeneração e a santificação.

A fé que recebe

Raymond conhecia a objeção de que, se a fé é ato da vontade humana, a salvação passa a ser por obras. Ele responde que a graça supõe alguém que a receba de vontade, porque uma máquina não é objeto de misericórdia, e que não há mérito em nada do que a pessoa é ou faz. E distingue: “a fé, como poder de crer, é dom de Deus; crer, o exercício da fé, é ato do homem” (vol. 2, p. 335). Deus não crê pela pessoa, assim como não respira por ela.

Ele usa sem receio a palavra sinergismo, que para ele quer dizer que a vontade, vivificada pela graça, coopera com o Espírito. Mas delimita: regenerar é obra só de Deus, e a parte da pessoa está em ouvir a Palavra, arrepender-se e confiar na misericórdia de Deus em Cristo, com a vontade que a graça restaurou. Fórmulas como a de que a salvação resulta de “duas eficiências que cooperam” soam mais fortes que as de Armínio, mas, lidas com o quadro da página 130, não dão à vontade natural o primeiro passo.

Em um ponto Raymond vai além de Armínio e de Wesley. Ele argumenta que, como Deus permitiu que o primeiro casal gerasse uma raça corrompida, uma compensação era, em certo sentido, devida a cada pessoa, porque a capacidade deve sempre igualar a obrigação. Ele mesmo acrescenta que isso não faz desses benefícios algo menos que graça. Armínio e Wesley falam da graça preveniente só como dom imerecido, e a declaração de fé do site segue essa linha.

A cruz

Na doutrina da expiação, Raymond recusa duas leituras. Rejeita a ideia de que a morte de Cristo valeria só porque Deus decidiu aceitá-la, como se o sangue de um bode pudesse servir no lugar do sangue do Filho eterno, e rejeita a teoria que vê na cruz “somente” uma medida de governo. Para ele, a morte de Cristo é substitutiva (“se Cristo não tivesse morrido, eu teria de morrer”) e propiciatória, segundo Romanos 3:25-26: cumpre todos os fins que a pena cumpriria e, além de mostrar que o governo de Deus é justo, declara a justiça essencial do próprio Deus. Raymond prefere dizer que o sofrimento de Cristo é um substituto da pena, e não a própria pena transferida.

A inteira santificação

Raymond defende a doutrina metodista da inteira santificação, a obra da graça que purifica o coração do pecado interior e o enche de amor perfeito. Ela quase nunca acontece junto com a regeneração: o novo convertido é uma criança, às vezes doente. A obra é ao mesmo tempo progressiva e instantânea: progressiva no crescimento do entendimento, instantânea quando a pessoa se apropria pela fé daquilo que compreendeu. “O Espírito pode levar tempo para preparar o templo”, escreve, mas toma posse dele “num único instante” (vol. 2, p. 393). Ele aceita o testemunho dos que a receberam de repente em resposta à oração, mas adverte que a experiência de um não pode ser a base da fé de outro, que se apoia na Palavra e na obra do Espírito no próprio coração.

Onde ele difere da nossa declaração de fé

A convergência com a declaração de fé do site é grande: depravação total, graça preveniente e resistível, expiação por todos, justificação pela fé e inteira santificação. Há três diferenças. Na cruz, a declaração afirma a substituição penal, em que Cristo levou a própria pena, enquanto Raymond fala de um substituto da pena. Na graça preveniente, o site não a chama de compensação devida. E no batismo Raymond defende, como a Igreja Metodista Episcopal, o batismo de crianças, enquanto o site batiza depois da conversão.

Obras principais

  • A Sermon Delivered before His Excellency John H. Clifford, Governor… at the Annual Election, January 4, 1854 (Boston, 1854)
  • Systematic Theology, volumes 1 e 2 (Cincinnati: Hitchcock & Walden, 1877)
  • Systematic Theology, volume 3: ética cristã, sacramentos e governo da igreja (Cincinnati: Hitchcock & Walden, 1879)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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