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Nathaniel M. Van Cleave: O pregador quadrangular que ensinou a pregar e escreveu a história da sua igreja
Neste texto
- Vida
- Um jovem no avivamento de Los Angeles
- Missionário, pastor e supervisor
- Presidente do L.I.F.E. Bible College
- Os Fundamentos da Teologia Pentecostal
- O professor de pregação
- O historiador da Igreja Quadrangular
- Os últimos anos
- Pensamento
- Um pentecostal arminiano
- O arrependimento como dom
- Soberano, mas não arbitrário
- Deus chama, a Igreja separa
- Diferenças com a declaração de fé do site
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Nos anos em que Aimee Semple McPherson pregava no Angelus Temple, em Los Angeles, o templo fazia parte do roteiro dos ônibus de turismo, entre uma atração e outra da cidade. Muitos visitantes desciam só para ver de perto o espetáculo de que os jornais falavam. Num desses ônibus estavam Nathaniel Van Cleave e a esposa, Lois. Pararam no templo, sentaram-se no culto e, nas palavras do pastor quadrangular Coleman Phillips, que contou a história em 2013, foram tocados por um mover genuíno do Espírito Santo. Os dois receberam a Cristo naquele dia e se sentiram chamados ao ministério. O turista daquela tarde passou mais de cinquenta anos pregando e ensinando na Igreja do Evangelho Quadrangular. Foi pastor, missionário, supervisor de distrito e presidente do colégio bíblico fundado por Aimee, e deixou três livros que continuam em uso: um manual de pregação, uma teologia pentecostal escrita com Guy P. Duffield e a história da própria denominação.
Vida
Um jovem no avivamento de Los Angeles
Nathaniel Moore Van Cleave nasceu em 2 de novembro de 1907. Lois, com quem dividiu o ministério, nasceu em 1910. A conversão no Angelus Temple pôs o casal no centro do movimento de Aimee. Ela dedicou o templo em 1º de janeiro de 1923, com o lema de uma evangelização mundial e interdenominacional, abriu no mesmo ano um instituto para formar missionários e evangelistas e, em 1927, organizou as igrejas nascidas dali na Igreja do Evangelho Quadrangular. O nome resume a mensagem: Jesus Cristo como Salvador, como aquele que batiza no Espírito Santo, como Médico e como Rei que vai voltar.
A nota biográfica publicada pela igreja diz que, quando jovem, Van Cleave teve a vida “interceptada” por muitos pregadores da primeira geração do derramamento pentecostal na América do Norte. Ele aprendeu a doutrina com quem a tinha vivido no começo, e isso deu ao seu ensino um caráter prático. Além de pregador, era músico.
Missionário, pastor e supervisor
Van Cleave serviu a denominação em quase todas as funções que ela tinha. Foi missionário e pastor de igrejas locais e depois supervisor de dois distritos, o do Sudoeste e o do Sul da Califórnia, acompanhando os pastores e as congregações dessas regiões. Durante vinte e dois anos, fez parte também do Gabinete Missionário da denominação. Lois trabalhou ao lado dele, e em 1985 a revista Foursquare World Advance registrou que ela recebeu um certificado de homenagem como uma das líderes da fundação do United Foursquare Women, o ministério de mulheres da igreja.
Presidente do L.I.F.E. Bible College
O instituto de 1923 tornou-se o L.I.F.E. Bible College, sigla de Lighthouse of International Foursquare Evangelism. Aimee foi a primeira presidente e, depois da morte dela, em 1944, o filho Rolf K. McPherson presidiu o colégio por quase trinta anos, enquanto deões cuidavam do dia a dia. Em setembro de 1976, a Foursquare World Advance anunciou que Van Cleave tinha sido nomeado para dirigir o colégio, lembrando a sua folha de serviço como missionário, pastor, supervisor e membro do Gabinete Missionário. A história oficial da escola o conta como o terceiro presidente, empossado aos 68 anos, com Rolf continuando à frente do conselho. No ano seguinte, a presidência passou a Jack Hayford, ex-aluno do colégio, que a exerceu de 1977 a 1982. Van Cleave continuou como professor.
Os Fundamentos da Teologia Pentecostal
Hayford pediu a dois professores veteranos, Van Cleave e Guy P. Duffield, um livro-texto que servisse de introdução à fé cristã a partir de uma perspectiva pentecostal. Ao apresentar o livro, em 10 de agosto de 1983, disse que ali estava reunida a riqueza de “duas vidas inteiras de estudo”, de homens fiéis à Palavra no ministério público por mais de meio século.
O prefácio, assinado pelos autores seis dias depois, começa com números: em 1980 havia mais de 51 milhões de cristãos em denominações pentecostais, contra cerca de 10 milhões em 1956. Para eles, esse crescimento pedia doutrina, porque o movimento não se apoiava só numa experiência, mas na Bíblia inteira. “Somos um povo que crê na Bíblia”, escreveram. Foundations of Pentecostal Theology saiu em 1983 pelo colégio, com mais de seiscentas páginas e dez capítulos, das Escrituras às últimas coisas. Foi traduzido para o espanhol, o chinês e o português, como Fundamentos da Teologia Pentecostal, e a Igreja Quadrangular lançou uma edição revista em 2016 e outra em volume único em 2023.
O professor de pregação
Antes da teologia, Van Cleave era conhecido pelo ensino da pregação. O seu Handbook of Preaching, lançado pela primeira vez em 1943 e reeditado pelo L.I.F.E. Bible College em 1983, leva o pregador passo a passo da preparação do sermão bíblico até a entrega no púlpito. Foi reimpresso muitas vezes e traduzido para centros de formação de vários países. Em 1994, perto dos noventa anos, ele ainda publicou Studies in Sermon Preparation and Delivery. Escreveu também folhetos para a formação de líderes: The Practice of the Christian Ministry, sobre as qualificações e as responsabilidades do pastor, distribuído em inglês, francês e suaíli pela Foursquare Missions Press para a plantação de igrejas; um sobre o dízimo no Novo Testamento; e The Meaning and Challenge of Ordination, que a igreja oferece às congregações que preparam novos ministros.
Ele falava espanhol com fluência. Em 1986, ao apresentar o programa de formação teológica em espanhol que existia desde 1978, com mais de quinhentos ex-alunos, a Foursquare World Advance destacou que o doutor Van Cleave, aos 78 anos, dava os cursos de doutrina “em espanhol perfeito”.
O historiador da Igreja Quadrangular
A obra que a igreja chama de magnum opus dele saiu em 1992: The Vine and the Branches: A History of the International Church of the Foursquare Gospel, com 268 páginas e um caderno de fotografias. O título vem de João 15:5, “eu sou a videira, vós, as varas”. O livro começa na dedicação do Angelus Temple e acompanha o crescimento da denominação, a sua doutrina, a sua organização, a missão no mundo e também as dificuldades que ela atravessou, escrito por alguém que tinha participado de boa parte daquela história. Foi reeditado em 2014 pela Creation House.
Os últimos anos
Lois morreu em 2000, o mesmo ano em que morreu Guy Duffield. Nathaniel Van Cleave morreu em 24 de dezembro de 2002, aos 95 anos, e foi sepultado no Rose Hills Memorial Park, em Whittier, na Califórnia. A igreja resumiu a vida dele numa lista de oito palavras: pastor, missionário, teólogo, professor, autor, músico, supervisor e presidente de colégio bíblico.
Pensamento
Um pentecostal arminiano
Van Cleave é um pentecostal arminiano. Os Fundamentos chamam a eleição incondicional e a expiação limitada de visão “extrema e equivocada”, fundam a eleição em Cristo e na presciência de Deus, afirmam que Cristo morreu por todos e ensinam que o crente pode abandonar a salvação. É o lugar de Myer Pearlman e de Stanley Horton nas Assembleias de Deus, com uma dívida declarada a Henry Thiessen na eleição. Essas três doutrinas estão expostas na biografia de Guy Duffield; aqui ficam outras ideias do livro e do ensino de Van Cleave. As citações seguem a edição revista de 2016, e os versículos, a Almeida Revista e Corrigida.
O arrependimento como dom
O livro define o arrependimento como uma mudança sincera da mente e do propósito em relação a Deus, a si mesmo e ao pecado. No intelecto, o pecador passa a ver o pecado como culpa diante de Deus (Salmo 51:4). Na emoção, sente a tristeza segundo Deus, que é diferente do remorso de quem só lamenta ter sido apanhado (2 Coríntios 7:10). Na vontade, volta-se para Cristo, como o filho pródigo que se levantou e foi para o pai (Lucas 15:18-21).
De onde vem esse arrependimento? Do próprio Deus. O arrependimento “não é algo que as pessoas possam produzir por si mesmas”, e nem grandes milagres nem bom ensino o produzem sozinhos (Lucas 16:31). É Deus quem dá “o arrependimento para a vida” (Atos 11:18), pela pregação feita no poder do Espírito e pela sua bondade, que conduz ao arrependimento (Romanos 2:4). Por isso, quem pensa que pode viver para si e se arrepender quando quiser está “tristemente enganado”; quem sente o impulso de se arrepender deve voltar-se para Deus naquele momento.
O livro acrescenta a frase que o põe no campo arminiano: “como dom de Deus, o arrependimento pode ser recebido ou rejeitado”. Os Fundamentos não usam a expressão graça preveniente, mas o desenho é esse: a obra começa em Deus, que dá ao pecador o que ele não pode produzir, e essa graça pode ser recusada. É a graça que vem antes, na linha de Jacó Armínio e de John Wesley. A fé vem junto, tão entrelaçada com o arrependimento que é difícil dizer qual vem primeiro, e também ela é dom (Efésios 2:8).
Soberano, mas não arbitrário
A edição revista resume numa frase a relação entre a soberania divina e a liberdade humana: Deus “é soberano, mas não arbitrário”, e não viola a liberdade essencial da criatura que fez. Efésios 1:5 é lido como a predestinação do plano da salvação em Cristo, que se recebe ou se rejeita pela fé, e não como a escolha prévia de quem seria salvo. O convite vale para todos: “quem quiser, tome de graça da água da vida” (Apocalipse 22:17). Pela mesma lógica, seria blasfêmia fazer de Deus o autor do pecado (Tiago 1:13); para haver culpa, o pecado precisa ser o ato de um “agente moral livre”.
Os Fundamentos falam do livre-arbítrio mais do que da libertação da vontade pela graça, que Armínio punha no centro, e um leitor apressado poderia tirar daí uma liberdade natural do pecador diante de Deus. O próprio livro fecha essa porta ao afirmar que o arrependimento e a fé são dons e que ninguém salva a si mesmo. A liberdade que ele defende é a de receber ou recusar a graça que Deus dá.
Deus chama, a Igreja separa
No folheto sobre a ordenação, Van Cleave escreve sozinho, e ali aparece o professor de ministros. A pergunta é se a ordenação é ato de Deus ou da Igreja. Alguns textos põem tudo nas mãos de Deus: Paulo agradece a Cristo por tê-lo considerado fiel, “pondo-me no ministério” (1 Timóteo 1:12). Outros põem a responsabilidade na Igreja, que estabelece presbíteros (Tito 1:5; Atos 14:23). A solução está em Antioquia: a igreja jejuava e orava, o Espírito disse “apartai-me a Barnabé e a Saulo”, e só então os irmãos impuseram as mãos e os enviaram (Atos 13:2-3). “Deus chama, e a Igreja separa para o ministério.” Daí duas advertências: comissionar quem Deus não chamou é presunção, e lançar um ministério sem a oração e a imposição de mãos da Igreja é “um exercício de futilidade”.
O chamado vem primeiro. Ninguém deve escolher o ministério porque se comunica bem ou porque terminou um curso teológico; homens e mulheres precisam da convicção sincera de terem sido designados por Deus. A imposição de mãos é o ato que lança a pessoa no ministério e, quando há fé, um ato de capacitação pelo qual Deus concede dons, como a Timóteo (2 Timóteo 1:6-7). O folheto termina num desafio: a ordenação é consagração a Deus, à Igreja e à humanidade. Van Cleave pede que todo culto de ordenação ecoe Paulo em Romanos 1:14-16, “Sou devedor! Estou pronto! Não me envergonho!”, e responda com Isaías: “eis-me aqui, envia-me a mim” (Isaías 6:8).
Diferenças com a declaração de fé do site
Na eleição, na expiação universal e na perseverança condicional, o acordo com a declaração de fé do site é completo. Há três diferenças. Os Fundamentos chamam o batismo e a Ceia de ordenanças e ensinam o batismo por imersão, enquanto o site, com os Artigos de Religião de Wesley, fala de sacramentos e aceita a imersão e a aspersão (ver Batismo e Ceia do Senhor: sacramentos ou ordenanças?). Na santificação, o livro ensina uma santificação instantânea, que é a posição do crente em Cristo, e uma santificação progressiva, para a qual o batismo no Espírito dá poder, sem a inteira santificação que o site afirma. Nas últimas coisas, defende o arrebatamento da Igreja antes da grande tribulação, e o site é amilenista.
Obras principais
- Handbook of Preaching (1943; Los Angeles: L.I.F.E. Bible College, 1983).
- Foundations of Pentecostal Theology, com Guy P. Duffield (Los Angeles: L.I.F.E. Bible College, 1983; edição revista pela Foursquare Media, 2016; edição de 2023).
- The Vine and the Branches: A History of the International Church of the Foursquare Gospel (Los Angeles: International Church of the Foursquare Gospel, 1992; Creation House, 2014).
- Studies in Sermon Preparation and Delivery (International Bible Institute, 1994).
- Folhetos: The Meaning and Challenge of Ordination; The Practice of the Christian Ministry; The Importance of New Testament Tithing.
Livros em português
- Guy P. Duffield e Nathaniel M. Van Cleave, Fundamentos da Teologia Pentecostal, 2 volumes (Publicadora Quadrangular). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Guy P. Duffield e Nathaniel M. Van Cleave, Foundations of Pentecostal Theology, edição revista (Foursquare Media), com a introdução de Jack W. Hayford (1983), o prefácio dos autores (1983) e a nota “About the Authors”.
- N. M. Van Cleave, The Meaning and Challenge of Ordination, folheto (International Church of the Foursquare Gospel, edição revista); página do folheto em Foursquare News + Resources.
- Life Pacific University, Life Pacific University’s Heritage, seção “History of Our Leaders”.
- Foursquare World Advance, edições de setembro de 1976 (nomeação para o L.I.F.E. Bible College), maio de 1985 (homenagem a Lois Van Cleave) e março de 1986 (o programa em espanhol), no Consortium of Pentecostal Archives: setembro de 1976, maio de 1985 e março de 1986.
- Coleman Phillips, “The Legacy of a Miracle”, Charisma (5 de dezembro de 2013).
- Nathaniel M. Van Cleave, The Vine and the Branches, descrição da obra e nota sobre o autor (Creation House, 2014); exemplar de 1992 no Internet Archive.
- Nathaniel M. Van Cleave, Handbook of Preaching (L.I.F.E. Bible College, 1983), no Internet Archive; Tim Molter, “Book: Handbook of Preaching by Dr. Nathaniel Van Cleave”, Calvary Chapel Fergus Falls (2017).
- Foursquare Missions Press, The Practice of the Christian Ministry.
- Dr. Nathaniel Moore Van Cleave (1907-2002), Find a Grave.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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