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Luke L. Keefer Jr.: O teólogo dos Irmãos em Cristo que estudou o arminianismo de Wesley
Neste texto
Em novembro de 1995, o Messiah College, na Pensilvânia, reuniu líderes, pastores, professores e membros da Igreja dos Irmãos em Cristo (Brethren in Christ) para uma conferência de dois dias sobre a identidade da denominação. O conferencista principal foi Luke L. Keefer Jr., professor do Seminário Teológico de Ashland. Ele falou das três correntes que formaram a igreja, o anabatismo, o pietismo e o wesleyanismo, e disse aos ouvintes que os Irmãos em Cristo chegavam ao fim do século XX com “um senso de identidade muito desgastado”. E acrescentou que, se a denominação perdesse de repente os membros com mais de sessenta anos, “quase não haveria uma nota wesleyana” no modo como ela entendia a vida santa. Quem dizia isso tinha feito o doutorado sobre John Wesley.
Vida
A fazenda de Millersburg
Luke Lee Keefer Jr. nasceu em 22 de setembro de 1940, em Millersburg, no centro da Pensilvânia, filho de Luke L. Keefer e de Martha Melhorn Keefer. O pai foi bispo dos Irmãos em Cristo e, em 1947, passou a integrar a junta que examinava os candidatos ao ministério da denominação. A família vivia numa pequena fazenda perto da cidade, em boa parte do que a terra dava: plantava milho e trigo, tinha horta e pomar, abatia os próprios animais e fazia conservas. O menino caçava com o pai e, adolescente, trabalhava nas fazendas vizinhas.
Ele cresceu na congregação Free Grace. Os Irmãos em Cristo nasceram na Pensilvânia do século XVIII, entre descendentes de menonitas tocados por um avivamento, e juntavam a herança anabatista do batismo de crentes, da recusa da guerra e da vida simples à conversão pessoal do pietismo. Na virada para o século XX adotaram a doutrina wesleyana da santidade. Na juventude de Keefer, a igreja ainda pedia a roupa simples e pregava a santificação como experiência definida, buscada no altar.
Em 1956, ainda adolescente, Keefer teve essa experiência. A doutrina prometia libertação do desejo de pecar e consagração completa a Cristo. Mas ele continuou lutando com o pecado e com uma rebeldia contra as regras da denominação, entre elas a roupa simples. Voltou ao altar várias vezes, conversou muitas vezes com o pai e passou um longo período de dúvida sobre si mesmo antes de chegar ao que chamou de uma “trégua aceitável” entre a teologia que tinha aprendido e a vida que vivia. Anos depois resumiu: as explicações teológicas e as realidades da vida cristã “não raro são estranhas umas às outras”.
Formação e missão
No Messiah College, escola da denominação em Grantham, recebeu o bacharelado em artes em 1962 e o bacharelado em teologia em 1963. Seguiram-se anos de missão: foi professor e diretor da escola da Missão Navajo dos Irmãos em Cristo, no Novo México, e também em Millersburg. Nancy R. Heisey, depois professora de história da igreja, foi aluna dele na sétima e na oitava série, na missão navajo. Ele pastoreou ainda algumas igrejas.
Em 1971 concluiu o mestrado em divindade no Asbury Theological Seminary, no Kentucky, escola do movimento de santidade. Casou-se em 1974 com Doris Bowman, com quem teve três filhos. O doutorado em religião veio em 1982, na Temple University, em Filadélfia, onde trabalhou com Franklin Littell, especialista nos anabatistas do século XVI. A tese, John Wesley: Disciple of Early Christianity (“John Wesley, discípulo do cristianismo primitivo”), defendia que Wesley procurou na igreja dos primeiros séculos o modelo para a fé e para a vida da igreja. Em 1984, Keefer apresentou um resumo dela no Wesleyan Theological Journal, com respostas de Howard A. Snyder e de Clarence L. Bence. Em 1995, Randy L. Maddox chamou a tese de “a defesa mais vigorosa” de Wesley como restaurador do cristianismo antigo.
Messiah e Ashland
Keefer ensinou Bíblia e religião no Messiah College durante quinze anos. Em 1983, quando a denominação convocou um colóquio sobre o Espírito Santo e a vida santa, ele foi um dos conferencistas principais. Depois foi para o Seminário Teológico de Ashland, em Ohio, escola da Igreja dos Irmãos (Brethren Church), onde foi professor de história da igreja e teologia por 21 anos, até se aposentar em 2008. Foi colega de David W. Baker e de Brenda B. Colijn. Presidiu a comissão que decidia as promoções dos professores e pregava na capela. Um colega o descreveu como “uma voz singular de razão, temperada com compaixão”.
Fora da sala de aula, Keefer servia na Igreja dos Irmãos em Cristo de Ashland como professor da escola dominical, dirigente ocasional de música e pregador substituto. Pregava em conferências bíblicas, retiros e reuniões campais, serviu em várias juntas da denominação e guiou grupos de viagem, quase sempre à Inglaterra de Wesley. Escreveu muito no Brethren in Christ History and Life, o periódico da Sociedade Histórica da denominação. Com E. Morris Sider organizou A Peace Reader (2002), uma coletânea sobre a paz e a não violência na tradição da igreja. Os colegas lembram a vida simples, a velha caminhonete com que ia ao trabalho e a casa sempre aberta a hóspedes.
O último projeto
Em 2002, Ashland convidou Clark Pinnock, que então defendia o teísmo aberto, para a série de palestras de outono. Uma rádio cristã chamou o convidado de herege e pôs em dúvida a ortodoxia do seminário. Keefer respondeu à acusação com calma, e o episódio despertou nele o interesse pelo tema da heresia. Em 2007 tirou a última licença de estudos e foi pesquisar o assunto na Inglaterra. O resultado seriam três palestras no outono de 2008, “Heresia: uma palavra problemática”, que a doença o impediu de concluir. Nas notas que deixou, comparou as palavras às pessoas, que às vezes precisam de redenção: “Rótulos podem virar difamações que mutilam e matam”, e heresia era uma dessas palavras.
Keefer morreu em 10 de dezembro de 2010, aos 70 anos, na Cleveland Clinic, depois de uma longa doença que se agravara nos últimos oito meses. Em dezembro de 2012 o Brethren in Christ History and Life dedicou-lhe um número inteiro. Em 2014, Devin C. Manzullo-Thomas, um dos jovens que tiveram Keefer como mentor, publicou uma biografia de Luke e Doris Keefer num volume organizado por E. Morris Sider. Em 2015, J. Robert Douglass e Wyndy Corbin Reuschling, colegas de Ashland, organizaram o livro de homenagem Celebrations and Convictions.
Pensamento
Onde ele fica no arminianismo
Keefer é um arminiano wesleyano dentro de uma igreja de raiz anabatista. Ele escreveu como defensor de Wesley e da redenção universal, e a sua descrição da conversão segue a ordem arminiana: os seres humanos “são pecadores por natureza” e precisam nascer de novo, e a convicção, o arrependimento e a fé, “produzidos pelo Espírito”, vêm antes do perdão e do novo nascimento. A graça vem primeiro e leva a pessoa a crer; a regeneração acompanha a fé.
O arminianismo de Wesley
Em 1987, Keefer estudava pela quarta vez o arminianismo de John Wesley. O artigo “Características do arminianismo de Wesley” (Wesleyan Theological Journal, 1987) começa confessando que agarrar Wesley “é um pouco como pegar um porco ensebado” e nasceu da leitura dos catorze volumes da Arminian Magazine, a revista que Wesley fundou em 1778 e editou até morrer.
A primeira tese é que o arminianismo de Wesley foi “anglicizado e personalizado”. Keefer mostra que Wesley nunca publicou um extrato de Jacó Armínio, nem na revista que levava o nome dele, e que provavelmente o conheceu pouco em primeira mão. O que sabia veio dos remonstrantes, como Hugo Grócio, cujas notas ao Novo Testamento leu em 1725, e Simão Episcópio, cujas obras encontrou por acaso em 1741 na biblioteca do Lincoln College, abertas justamente na descrição do Sínodo de Dort. Mas a fonte principal foi a Igreja da Inglaterra do século XVII, que depois de Dort se afastou do calvinismo e quis fundar a sua doutrina nos primeiros séculos da igreja, quando a redenção universal era ensino comum. Por isso, escreveu Keefer, os metodistas eram “mais primos de Armínio do que seus descendentes diretos”. Ainda assim, o contexto só o “predispôs” ao arminianismo: “nunca devemos admitir que o predestinou”. A visão de Deus como santo e amoroso, e não primariamente como soberano, levou Wesley a ver a graça como ilimitada no alcance e no poder de vencer o pecado. A graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, lhe permitiu andar numa beirada estreita entre o calvinismo e o pelagianismo.
A segunda tese responde ao teólogo calvinista Paul K. Jewett, que acusava Wesley de rejeitar a predestinação mais pela emoção do que pela crítica. Keefer concorda que Wesley não tinha um princípio único, como a soberania em Calvino, mas lembra que a Bíblia também não é escrita assim. O arminianismo de Wesley é integrador, presente em sermões, hinos e cartas, e a Arminian Magazine forma um verdadeiro corpo de teologia sobre os pontos em disputa, escrito para gente simples.
A terceira tese é que esse arminianismo tem motivação pastoral. Keefer cita a carta de Wesley de 1773: o alvo dos calvinistas seria “fazer calvinistas”, e o dos metodistas, “fazer cristãos”. Keefer admite que a frase é injusta com os calvinistas, mas vê nela a marca de Wesley: tratar o calvinismo como opinião, e não como doutrina fundamental da Escritura, cuidar dos convertidos por medo de que não perseverassem e usar a perfeição cristã contra o antinomismo, a ideia de que a graça dispensa a obediência.
A santificação como crise dentro de um processo
No colóquio de 1983, Keefer afirmou que a santidade é bíblica, que Deus a providencia e que ela é necessária na vida do crente. Mas questionou a insistência num momento único e num número fixo de experiências: “Uma experiência do Espírito não torna ninguém, por si só, um cristão maduro”, disse, e não via as Escrituras definindo “o momento desses eventos nem o número exato deles”. Propôs olhar para os frutos: vitória sobre o pecado, entrega completa a Deus e consciência da presença do Espírito. Essa posição serviu de base para o artigo sobre santificação da nova declaração doutrinária dos Irmãos em Cristo no começo dos anos 1990: uma entrega plena da vontade a Cristo dentro de uma jornada contínua de crescimento na graça.
Aqui há uma diferença com a declaração de fé deste site, que afirma a inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração e recebida pela fé. Keefer mantinha a meta, um coração inteiramente entregue a Deus, e deixava aberta a questão do momento.
Conversão, comunidade, Escritura e Espírito
Em 1999, numa consulta sobre os valores centrais da denominação, Keefer organizou a teologia dos Irmãos em Cristo em quatro alicerces: a conversão, “a experiência transformadora da salvação”; a comunidade, “o povo de Deus que faz discípulos”; a Escritura, “a autoridade normativa da verdade”; e o Espírito, “a presença dinâmica de Deus”. Conversão e comunidade andam juntas: produzir convertidos que não estão ligados a uma comunidade espiritual é, nas palavras dele, “escandalosamente anticristão”. Rejeitava as teologias que aceitam o pecado como “a normalidade lamentável” da vida cristã e advertia contra a salvação vendida como “artigo em liquidação”: a grande comissão de Mateus 28:19-20 manda fazer discípulos, e não apenas colher profissões de fé.
Quanto à Escritura, Keefer queria uma igreja que tratasse a Bíblia como a única autoridade normativa sobre a salvação e sobre a igreja, e que se aproximasse dela “de modo funcional, e não dogmático”, pressupondo a sua veracidade em vez de tentar prová-la. Por isso achava dispensáveis termos como “inerrância” e “infalibilidade”. A declaração de fé deste site, por sua vez, afirma expressamente que os autógrafos foram preservados de erro.
As três correntes
No ensaio de 1995, os Irmãos em Cristo aparecem como síntese entre “uma compreensão anabatista da igreja e uma compreensão pietista da salvação”, à qual se somou a santidade wesleyana. A aculturação e a adesão ao evangelicalismo vinham apagando essas marcas: a paz e a vida simples recuavam, e muitos pastores preferiam uma santificação gradual, completada só na glória, à inteira santificação de Wesley. Revisto, o ensaio saiu em 1998 com o título “Irmãos em Cristo: a síntese inquieta das correntes da herança”. A síntese podia ser inquieta, mas Keefer não abria mão dela: em 1999 escreveu que nenhuma teologia é bíblica se não mantém em equilíbrio a conversão pessoal e a vida em comunidade.
Obras principais
- John Wesley: Disciple of Early Christianity (tese de doutorado, Temple University, 1982)
- “Getting at Essential Issues in Sanctification” (Brethren in Christ History and Life, 1983)
- “John Wesley: Disciple of Early Christianity” (Wesleyan Theological Journal, 1984)
- “John Wesley and English Arminianism” (Evangelical Journal, 1986)
- “Characteristics of Wesley’s Arminianism” (Wesleyan Theological Journal, 1987)
- “The Three Streams in Our Heritage: Separate or Parts of a Whole?” (Brethren in Christ History and Life, 1996)
- “Brethren in Christ: Uneasy Synthesis of Heritage Streams” (Wesleyan Theological Journal, 1998)
- “Holiness: A Brethren in Christ Case Study” (Brethren in Christ History and Life, 1999)
- “Theological Foundations for Brethren in Christ Core Values” (Evangelical Visitor, 1999)
- “Experiencing God’s Love and Grace”, em Focusing Our Faith: Brethren in Christ Core Values (2000)
- A Peace Reader (com E. Morris Sider, 2002)
- “Principles of Interpretation at Work in the Brethren in Christ Church” (Brethren in Christ History and Life, 2012)
Para aprofundar
- Luke L. Keefer Jr., Characteristics of Wesley’s Arminianism, Wesleyan Theological Journal 22, n. 1 (1987), reproduzido pela Society of Evangelical Arminians.
- Luke L. Keefer Jr., Theological Foundations for Brethren in Christ Core Values, Evangelical Visitor, julho/agosto de 1999 (Sider Institute, Messiah University).
- Devin C. Manzullo-Thomas, From Second Work to Secondary Status: The Shifting Role of Holiness Theology in the Brethren in Christ Church, Brethren in Christ History and Life.
- J. Robert Douglass, Heresy: A Troublesome Word, Brethren in Christ History and Life 40, n. 2 (agosto de 2017).
- Obituary information for Luke Keefer, Jr., Minnich Funeral Home.
- Harriet Sider Bicksler, Celebrating Luke Keefer, Jr.’s Life and Legacy, Brethren in Christ Historical Society, 2015.
- Nancy R. Heisey, resenha de Celebrations and Convictions, Brethren in Christ History and Life.
- Two New Books Published, Brethren in Christ Historical Society.
- Photo Friday: “The Daily Toil of Farm Life” on the Keefer Family Homestead, Brethren in Christ Historical Society.
- December 2012 Issue of Brethren in Christ History and Life, Brethren in Christ Historical Society.
- Randy L. Maddox, Reading Wesley as a Theologian, Wesleyan Theological Journal 30, n. 1 (1995).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
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