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Lee Strobel: O jornalista ateu que investigou Jesus e virou apologista

Diego Gonçalves13 min de leitura2.654 palavras

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Neste texto

Era domingo, 8 de novembro de 1981. Lee Strobel, editor de assuntos jurídicos do Chicago Tribune, trancou-se no escritório de casa com um bloco de papel amarelo, do tipo que os advogados usam. Escreveu as perguntas que vinha fazendo havia vinte e um meses sobre Jesus de Nazaré e, ao lado de cada uma, o que tinha descoberto. No fim da tarde, o homem que se dizia ateu desde a adolescência chegou a uma conclusão que depois escreveria assim: diante das evidências, “seria preciso muito mais fé para eu manter o meu ateísmo do que para confiar em Jesus de Nazaré” (The Case for Christ, 1998). Naquele mesmo dia, ele orou. Dezessete anos depois, a tarde do bloco amarelo virou o livro que o tornou um dos apologistas evangélicos mais lidos do mundo.

Retrato de Lee Strobel
Lee Strobel em 21 de outubro de 2007. Foto de Lindy Hopper Phoenix, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Infância e o caminho para o ateísmo

Lee Patrick Strobel nasceu em 25 de janeiro de 1952, em Arlington Heights, nos subúrbios a noroeste de Chicago. Os pais frequentavam uma igreja luterana e levaram o filho à escola dominical e às aulas de confirmação, mas tinham, nas palavras dele, uma fé muito reservada. Strobel lembra que as suas perguntas não eram bem recebidas: pediam-lhe que decorasse versículos e trechos de Lutero, quando ele queria razões.

Em 1966, aos quatorze anos, numa aula de biologia da Prospect High School, ouviu a explicação darwinista da origem da vida e a recebeu como uma libertação: se a evolução explicava tudo, Deus era dispensável. Ele resumiria assim o processo: o ateísmo foi semeado pelas perguntas sem resposta da infância, floresceu com Darwin e chegou ao auge na faculdade, quando ouviu, ao estudar Jesus, que nenhuma pessoa de mentalidade científica podia crer no que o Novo Testamento diz dele.

Havia outra ferida. Strobel sentia que tinha sido uma surpresa indesejada para o pai e passou a juventude tentando conquistar a aprovação dele. Na véspera da formatura do ensino médio, os dois brigaram, e o pai lhe disse que não tinha amor por ele nem para encher o dedo mínimo. Strobel saiu de casa. Pai e filho nunca falaram do episódio e não se reconciliaram antes da morte do pai. Anos depois, Strobel diria que essa relação contribuiu para o seu ateísmo.

O repórter

Strobel trabalhava em pequenos jornais desde os quatorze anos. Formou-se em jornalismo pela Universidade do Missouri e, em 1974, três meses depois de formado, entrou no Chicago Tribune. No mesmo ano cobriu na Virgínia Ocidental a revolta de pais evangélicos contra livros escolares que consideravam hostis à fé, e olhou para eles com desprezo, como gente presa a mitos.

Casou-se cedo com Leslie, ele com 20 anos e ela com 19, numa época em que a fé não era assunto entre eles. Fez também o mestrado em Estudos Jurídicos (Master of Studies in Law) na Faculdade de Direito de Yale e tornou-se editor de assuntos jurídicos do Tribune. Ainda jovem, cobriu o caso de James Dixon, que se declarara culpado num acordo por atirar num sargento da polícia de Chicago. Investigando, Strobel mostrou que o próprio sargento tinha se ferido com uma arma disfarçada de caneta e incriminado Dixon, que acabou inocentado. A lição ficou: as provas podem ser arranjadas para apontar em mais de uma direção, e o preconceito de quem as examina pesa na conclusão. Em 1980 cobriu em Winamac, no estado de Indiana, o julgamento da Ford pelas mortes num acidente com o modelo Pinto, trabalho premiado que virou o livro Reckless Homicide? Ford’s Pinto Trial (1980).

A conversão de Leslie e a investigação

No outono de 1979, Leslie anunciou que tinha se tornado cristã, depois de fazer amizade com uma vizinha, uma enfermeira cristã. Strobel pensou em divórcio. O que viu, porém, foi o caráter, a integridade e a segurança dela mudarem para melhor. A pergunta que primeiro lhe fizera com raiva, “o que deu em você?”, passou a ser feita com curiosidade.

Ele decidiu investigar o cristianismo como investigava um processo, lendo história e pesquisa sobre o Novo Testamento durante vinte e um meses, até aquela tarde de novembro de 1981. Mais tarde descreveu sem rodeios o homem que era: bebia muito, levava uma vida egoísta e imoral, passava por cima de colegas e violava normas legais e éticas para obter reportagens. Poucos meses depois da conversão, a filha Alison, de cinco anos, disse à mãe que queria que Deus fizesse por ela o que tinha feito pelo pai.

O pastor de Willow Creek

Strobel ainda foi editor-executivo adjunto do Daily Herald, jornal dos subúrbios de Chicago, e deu aulas sobre a Primeira Emenda da Constituição americana na Universidade Roosevelt. Em 1987 deixou o jornalismo e entrou para a equipe da Willow Creek Community Church, em South Barrington, que Bill Hybels liderava com cultos pensados para quem não frequentava igreja. Foi pastor de ensino ali até 2000.

Desse período saíram Inside the Mind of Unchurched Harry and Mary (1993) e o curso Becoming a Contagious Christian (1995), escrito com Mark Mittelberg e Hybels para treinar membros de igreja na evangelização pessoal. Em 1998 saiu The Case for Christ, nascido de uma série de mensagens em Willow Creek, por ideia de Leslie. Strobel refez a investigação com entrevistas a treze estudiosos, entre eles Craig Blomberg sobre os Evangelhos como testemunho ocular, Ben Witherington III sobre a consciência que Jesus tinha de si, William Lane Craig sobre o túmulo vazio, Gary Habermas sobre as aparições e J. P. Moreland sobre as evidências indiretas da ressurreição. O livro ganhou o Gold Medallion, o prêmio da associação das editoras cristãs americanas, e chegou ao Brasil em 2001 como Em defesa de Cristo.

Saddleback, televisão e a série “Em defesa”

Em 2000 Strobel passou a ser pastor de ensino na Saddleback Church, de Rick Warren, na Califórnia, e publicou The Case for Faith, que abre com Charles Templeton, evangelista que pregou ao lado de Billy Graham e depois abandonou a fé, e responde a oito objeções, do sofrimento ao inferno. Em 2004 deixou o pastorado para apresentar Faith Under Fire, programa semanal de debates na rede de televisão PAX, e publicou The Case for a Creator, em que reexamina com defensores do design inteligente as razões que o tinham levado ao ateísmo na escola.

Em agosto de 2011, uma reação alérgica ao contraste usado num exame do coração desencadeou complicações em série, entre elas uma queda grave do sódio no sangue, e os médicos lhe disseram que estava a um passo de um coma fatal. No hospital, sentiu-se abandonado por todos, inclusive por Deus. O filho Kyle, hoje professor de teologia espiritual na Talbot School of Theology, foi até ele e o conduziu numa longa oração.

Texas e Colorado

Em 2014 Strobel mudou-se para o Texas, como pastor de ensino da Woodlands Church e professor de pensamento cristão na Houston Baptist University. Em 2017 a sua conversão virou filme, The Case for Christ, dirigido por Jon Gunn. Em agosto de 2018, quando ex-colaboradoras acusaram Bill Hybels de conduta imprópria, Strobel declarou publicamente que conhecia aquelas mulheres e que eram “piedosas e dignas de crédito”.

Em agosto de 2019, a Colorado Christian University anunciou o Lee Strobel Center for Evangelism and Applied Apologetics, dirigido por ele, com Mittelberg como diretor executivo. “Quem é o próximo Billy Graham?”, perguntou no lançamento. “São milhões de cristãos contagiantes, treinados, equipados e enviados.” Strobel continuou escrevendo: The Case for Miracles (2018), que começa por uma entrevista com o cético Michael Shermer e segue com Craig Keener; The Case for Heaven (2021), sobre experiências de quase morte; Is God Real? (2023); e Seeing the Supernatural (2025), sobre anjos, sonhos e visões. Os seus mais de quarenta livros e currículos venderam cerca de dezoito milhões de exemplares, em quarenta línguas.

Pensamento

O método do jornalista

Strobel não é teólogo acadêmico. A sua contribuição é de método e de linguagem: ele leva para a apologética as ferramentas do repórter e do tribunal. Faz ao especialista as perguntas que o cético faria e deixa o leitor no papel de jurado: “o veredito é seu, e só seu” (The Case for Christ, 1998). É a lição do caso Dixon: olhar todas as provas, sem as lentes do preconceito. A sua apologética é sobretudo histórica, centrada na confiabilidade dos Evangelhos e na ressurreição.

Crer, receber, tornar-se

O centro da mensagem de Strobel é evangelístico. Ao contar a própria conversão, ele parte de João 1:12, “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” (ARC), e tira dali uma fórmula: crer + receber = tornar-se. Crer é aceitar o que as evidências mostram: que Jesus é o Filho de Deus e morreu como substituto, pagando a pena que o pecador merecia. Receber é confessar o pecado, afastar-se dele e aceitar o perdão como presente. O resultado é tornar-se filho de Deus, adotado na família dele.

Strobel insiste que o cristianismo se distingue das religiões do “fazer”, em que a pessoa tenta merecer o caminho de volta a Deus, por ser a religião do “feito”: Jesus fez na cruz o que não podemos fazer por nós mesmos. Cita Romanos 6:23, Efésios 2:8-9 e Tito 3:5 e chama isso de graça, “favor imerecido”. Em 2015, ao lançar The Case for Grace, ligou o tema à própria história: depois de anos tentando conquistar o amor do pai, descobriu que não precisava conquistar o amor de Cristo. “O cristianismo é a única religião do mundo construída sobre a graça, e não sobre um sistema em que as pessoas tentam chegar a Deus pelo próprio esforço”, disse. Ao descrever a decisão de 1981, reconhece que não foi só raciocínio: era também o que sentia o Espírito de Deus o impelir a fazer.

Amor, liberdade e o problema do mal

Diante do problema do mal, Strobel adota a defesa do livre-arbítrio, que em The Case for Faith aparece na entrevista com o filósofo católico Peter Kreeft. Deus quis criar seres capazes de amar, e o amor exige escolha. Numa conferência de apologética no Colorado, em março de 2012, resumiu: “a única maneira de experimentarmos e expressarmos amor é termos o livre-arbítrio para amar ou não amar”. Deus não criou o mal, mas a possibilidade dele, porque era a única forma de criar a possibilidade do amor verdadeiro, e foram os seres humanos que, usando mal a liberdade, trouxeram o mal ao mundo.

Onde ele fica no arminianismo

Classe: simpatizante. Strobel não se apresenta como arminiano, mas a sua teologia supõe, do começo ao fim, o que os calvinistas negam: a oferta da graça a todos, a fé como resposta real e a possibilidade de recusar. Leitores reformados perceberam isso cedo. Alderi Souza de Matos, que traduziu Em defesa da fé para o português, apontou na revista Fides Reformata (2004) como “o maior senão do livro” a sua “ênfase arminiana na fé como simplesmente ‘vontade de crer’”. Em 2017, a revista canadense Reformed Perspective advertiu que Strobel “não é reformado” e que The Case for Faith rejeita repetidamente a compreensão reformada, oferecendo respostas especificamente arminianas.

A comparação com o arminianismo clássico mostra também uma distância. Armínio e Wesley começam pela incapacidade do ser humano caído e pela graça preveniente, a graça que vem antes e liberta a vontade para que a pessoa possa crer. Na Declaração de Sentimentos (1608), Armínio afirma que o homem caído não é capaz, por si mesmo, de pensar, querer ou fazer o que é verdadeiramente bom. Strobel, como apologista popular, quase não fala dessa obra anterior da graça, e é aí que a crítica de Alderi Matos acerta: lida isoladamente, a fórmula “crer + receber” pode dar a impressão de que a fé nasce da vontade natural. O próprio relato de 1981, com o Espírito impelindo o investigador, aponta na direção certa, e a declaração de fé deste site completa o quadro: é a graça preveniente que convence, chama e capacita a responder. Com Strobel, o site afirma a expiação por todos, a graça imerecida e a fé que apenas recebe.

Obras principais

  • Reckless Homicide? Ford’s Pinto Trial (1980)
  • Inside the Mind of Unchurched Harry and Mary (1993)
  • Becoming a Contagious Christian, com Mark Mittelberg e Bill Hybels (1995)
  • The Case for Christ (1998; edição revista, 2016)
  • The Case for Faith (2000)
  • The Case for a Creator (2004)
  • The Case for the Real Jesus (2007)
  • The Ambition, romance (2011)
  • The Case for Grace (2015)
  • The Case for Miracles (2018)
  • The Case for Heaven (2021)
  • Is God Real? (2023)
  • Seeing the Supernatural (2025)

Livros em português

Para aprofundar

  • Lee Strobel, The Case for Christ (Zondervan, 1998), introdução e conclusão, “The Verdict of History”.
  • Lee Strobel, The Case for a Creator (Zondervan, 2004), capítulo 1, “White-Coated Scientists Versus Black-Robed Preachers”. Archive.org
  • “About Lee”, página oficial do autor. leestrobel.com
  • Alderi Souza de Matos, resenha de Em defesa da fé, Fides Reformata IX, n. 1 (2004), p. 165-168. CPAJ Mackenzie
  • Alwyn Terpstra, “Review: The Case for Christ”, Reformed Perspective, 5 jun. 2017. reformedperspective.ca
  • Lindsay Williams, “The Case for Grace: Lee Strobel’s Story”, Lifeway. lifeway.com
  • Kevin Porter, “Ex-Atheist Lee Strobel: My Wife’s Conversion to Christianity Nearly Led to Divorce”, The Christian Post, 12 out. 2016. christianpost.com
  • Alex Murashko, “Lee Strobel: Why Does God Allow Pain, Suffering?”, The Christian Post, 11 mar. 2012. christianpost.com
  • Stoyan Zaimov, “Lee Strobel, Former Willow Creek Pastor, Says Women Accusing Bill Hybels Are ‘Godly and Credible’”, The Christian Post, 8 ago. 2018. christianpost.com
  • Francisca Jones, “In Little Rock talk, author shares path from atheism to strong faith”, Arkansas Democrat-Gazette, 24 fev. 2018. arkansasonline.com
  • “Lee Strobel Center”, Colorado Christian University, 27 ago. 2019. ccu.edu
  • “Lee Strobel”, Wikipédia em inglês. en.wikipedia.org

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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