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Laurence M. Vance: O batista de Pensacola que escreveu contra o calvinismo e contra a guerra

Diego Gonçalves13 min de leitura2.523 palavras

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Neste texto

Em 1991, uma pequena editora de Pensacola, na Flórida, cidade que se apresenta como o “berço da aviação naval” dos Estados Unidos, lançou The Other Side of Calvinism (“O outro lado do calvinismo”). A editora era do próprio autor, Laurence M. Vance, um batista independente formado em história e contabilidade, que documentou o livro com citações de autoridades calvinistas. Na edição revista de 1999, a obra chegou a 788 páginas, com as cinco doutrinas do calvinismo examinadas uma a uma e as confissões de Dort, de Westminster e de Londres nos apêndices. Robert N. Wilkin, editor do Journal of the Grace Evangelical Society, a chamou de um recurso excelente sobre o assunto. Anos depois, o mesmo autor ficaria conhecido por outra causa que irritou muitos irmãos de fé: a crítica cristã à guerra e ao militarismo das igrejas evangélicas americanas.

Vida

Da igreja católica à igreja batista independente

Vance se descreve como um “semi-nativo” da Flórida. Cresceu no centro do estado, na costa leste, perto da Base Aérea de Patrick, e morou depois 24 anos em Pensacola, cidade da Marinha. Mais tarde voltou a morar no centro da Flórida.

Foi criado na Igreja Católica Romana. Numa entrevista à revista Quaker Theology, em 2012, resumiu o caminho religioso numa frase: depois de um breve período como evangélico e depois como batista do Sul, tornou-se batista independente e assim permaneceu por toda a vida adulta. Os batistas independentes formam igrejas autônomas, sem ligação com convenções denominacionais, muitas delas fundamentalistas, dispensacionalistas e fiéis à Bíblia King James.

Estudou história, economia e contabilidade na Universidade do Oeste da Flórida (University of West Florida), onde fez também o mestrado em contabilidade. Os graus em teologia vieram de pequenas escolas batistas independentes, e as instituições em que escreve o apresentam como doutor (Ph.D.). Ele mesmo diz que a maior parte da sua formação veio de anos de leitura, escrita e estudo por conta própria.

Contador, editor e estudioso da Bíblia inglesa

Durante anos, Vance foi professor adjunto de contabilidade no Pensacola Junior College. Também fundou a Vance Publications, que publicou quase todos os seus livros. Depois do livro sobre o calvinismo, vieram obras sobre a Bíblia e as línguas bíblicas: uma breve história das traduções inglesas da Bíblia (1993), um estudo sobre o anjo do Senhor (1994), uma gramática do hebraico bíblico (1997) e dois manuais de grego do Novo Testamento, sobre os verbos (2006) e as preposições (2007). O manual dos verbos classifica todos os verbos do Novo Testamento grego e lista as formas principais que de fato aparecem no texto.

A outra linha de trabalho foi a história da Bíblia King James, a tradução inglesa de 1611. Em King James, His Bible, and Its Translators (“O rei Tiago, a sua Bíblia e os seus tradutores”, 2006; segunda edição, 2016), Vance conta quem foi o rei Tiago I, por que a Inglaterra precisava de uma nova tradução e quem foram os tradutores. Em 2015, a Edwin Mellen Press, editora acadêmica, publicou o seu estudo mais técnico, que confronta o Novo Testamento da King James com o da Bíblia dos Bispos (edição de 1602), a tradução oficial da Igreja da Inglaterra que serviu de base aos tradutores de 1611. Vance é membro da Society of Biblical Literature, da Grace Evangelical Society e da International Society of Bible Collectors.

O encontro com o libertarianismo

Na política, Vance começou como republicano conservador, com simpatias libertárias e o respeito costumeiro pelos militares. No fim dos anos 1980, descobriu que os Estados Unidos mantinham tropas em mais de cem países e achou isso desnecessário; em 1991, as críticas do jornalista Pat Buchanan à Guerra do Golfo o impressionaram. Por volta de 1993, escreveu a Lew Rockwell, do Instituto Ludwig von Mises, e pediu o boletim The Free Market, para o qual começou a escrever em 1996. Pelo instituto conheceu a obra de Murray Rothbard, economista da escola austríaca, e concluiu que era mais libertário que conservador.

No fim dos anos 1990, encontrou dois artigos batistas do século XIX publicados na Christian Review, entre eles “Wickedness of War” (“A maldade da guerra”, 1838), e descobriu ali uma tradição batista conservadora que desconfiava da guerra. Em 2001 começou a série Classic Reprints, que reedita obras antigas sobre cristianismo e liberalismo clássico. Em 2005 lançou o site do Francis Wayland Institute, que dirige. O nome homenageia Francis Wayland (1796-1865), pastor batista e autor de The Elements of Political Economy, manual de economia de livre mercado, e o instituto se propõe a defender o cristianismo, a liberdade, a propriedade e a paz.

O cristão contra a guerra

O primeiro artigo dele no LewRockwell.com saiu em 29 de outubro de 2003, com o título “Christianity and War” (“Cristianismo e guerra”). Os Estados Unidos tinham invadido o Iraque naquele ano, com apoio entusiasmado de muitos pastores evangélicos. Vance lamentou “o grau atual de entusiasmo cristão pela guerra” e lembrou que os cristãos de gerações passadas, inclusive os batistas do século XIX, não tinham entusiasmo nenhum por ela. O artigo virou livro, Christianity and War and Other Essays Against the Warfare State (“Cristianismo e guerra e outros ensaios contra o Estado guerreiro”, 2005), que mais tarde ganhou segunda edição e serviu de base para palestras. O preço foi alto: por causa desses textos, Vance perdeu o cargo de professor numa faculdade bíblica. Na entrevista de 2012, contou que já tinha sido chamado de “quaker”, com desprezo, por causa das suas posições, e também de comunista, liberal, pacifista e traidor.

Desde então, escreveu centenas de artigos. É colunista e conselheiro da Future of Freedom Foundation, colunista do LewRockwell.com e pesquisador associado do Instituto Mises. Os artigos sobre o tema foram reunidos em War, Christianity, and the State (“Guerra, cristianismo e Estado”), com 76 ensaios em quatro partes: cristianismo e guerra, cristianismo e os militares, cristianismo e o Estado guerreiro e cristianismo e tortura. Os livros mais recentes tratam de economia e liberdade civil, como The Free Society (“A sociedade livre”, 2018), e da política externa americana.

Pensamento

Onde ele fica

Classe: simpatizante. Vance rejeita o calvinismo em todos os pontos centrais, mas recusa o nome de arminiano e critica também a posição arminiana. Na resenha de Beyond Calvinism and Arminianism, de C. Gordon Olson, chamou o ponto de vista arminiano de “igualmente objetável”, e na crítica a James White listou, entre os truques do debate calvinista, o de dividir todos os cristãos entre calvinistas e arminianos para que o calvinismo vença por exclusão. A sua posição fica perto da de Dave Hunt, cujo livro What Love Is This? ele resenhou com simpatia, e da de Olson: críticos do calvinismo que também não se dizem arminianos.

The Other Side of Calvinism

O livro tem dez partes. A primeira metade trata da história: as origens do calvinismo, João Calvino, Jacó Armínio e os cinco pontos, que resumem os cânones do Sínodo de Dort (1618-1619), a resposta dos calvinistas holandeses à Remonstrância de 1610. A segunda metade examina cada ponto: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. O método é deixar os próprios calvinistas falarem para depois confrontá-los com a Escritura, porque, como Vance escreveu contra James White, ninguém precisa inventar caricaturas de quem escreveu tanto. O texto do site sobre a pergunta se é bíblico dizer que Deus preordena o pecado usa citações de Francisco Gomaro e de J. Gresham Machen tiradas desse livro.

Três argumentos voltam em toda a sua obra sobre o tema. O primeiro é histórico: com Hunt, ele remonta o calvinismo a Agostinho, e não à Bíblia, e chamou o sistema de “aberração teológica”. O segundo trata dos decretos de Deus. Para Vance, os decretos que a Bíblia menciona não se referem à salvação, e nenhum deles é chamado de eterno; quando James White afirma que Deus conhece o futuro porque o decretou, isso é, para ele, um ataque à onisciência, porque não exige poder nenhum conhecer o que você mesmo determinou. O terceiro é exegético. O oleiro e o barro de Romanos 9:21-24 vêm do Antigo Testamento (Isaías 64:8; Jeremias 18:1-6), onde o barro é Israel e a imagem nunca trata da salvação de alguém. O barro é formado, e não criado, e, embora os “vasos de misericórdia” tenham sido preparados por Deus, o texto não diz quem preparou os “vasos de ira” para a perdição.

Vance também distingue eleição de predestinação, que para ele não são termos intercambiáveis na Escritura, e corrigiu Hunt por tratar a presciência como a razão da eleição, quando, para ele, ela apenas está em harmonia com a eleição. Aqui ele se afasta da formulação de Armínio, que fundava a eleição dos indivíduos na presciência de quem creria e perseveraria.

Perseverança e segurança

O ponto em que Vance mais se distancia do arminianismo clássico é a perseverança. No livro, ele afirma que o Novo Testamento é “abundantemente claro” ao declarar que cristãos podem não perseverar (p. 574), e acrescenta que isso não os dispensa de lutar para perseverar (p. 575). Para ele, a doutrina reformada da certeza da salvação acaba igual à arminiana, porque as duas olham para as obras e para a perseverança para decidir quem entra no Reino (p. 595-596). Na mesma seção, refuta a chamada “salvação pelo senhorio”, a ideia de que só é salvo quem submete toda a vida a Cristo como Senhor (p. 577-586). É a linha da Grace Evangelical Society, da qual é membro: a salvação se recebe só pela fé e a segurança do crente não depende da sua perseverança. O arminianismo clássico ensina outra coisa, a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé (João 15:4-6), e pode abandonar a fé.

A Reforma, a Bíblia e as últimas coisas

Vance não é um defensor da Reforma por inteiro. Para ele, a Reforma foi uma reforma, e não uma volta completa ao cristianismo do Novo Testamento: os reformadores conservaram “ressacas” católicas, como o batismo de crianças, o batismo por aspersão, a união entre Igreja e Estado, o amilenismo e uma ideia errada da igreja local. Ele se declara dispensacionalista e pré-milenista: lê a história bíblica como uma sucessão de etapas, com promessas próprias para Israel e para a igreja, e espera um reino de mil anos depois da volta de Cristo.

Na questão da Bíblia, a tese de Archaic Words and the Authorized Version é que a King James não é mais arcaica que os jornais, as revistas e as versões modernas da Bíblia. Mark Ward, crítico do movimento King James Only, dedicou em 2020 uma resenha longa ao livro, que trata como uma das obras mais fortes desse campo, e argumentou que Vance mistura palavras arcaicas com palavras e sentidos obsoletos, que o leitor de hoje já não entende.

O cristão e a guerra

A ética de Vance sobre a guerra parte da Escritura e da tradição batista. Ele não é pacifista: aceita a pena de morte, a legítima defesa e a teoria da guerra justa, que Hugo Grócio sistematizou. Mas, com Rothbard, julga que os Estados Unidos lutaram só duas guerras justas, e retoma a frase de Randolph Bourne de que “a guerra é a saúde do Estado”. O alvo principal é a igreja: os cristãos deveriam “desmilitarizar” as suas igrejas, porque “as Forças Armadas dos Estados Unidos não são o exército do Senhor” e “a espada do cristão é a palavra de Deus” (entrevista à Quaker Theology, 2012). O economista Timothy Terrell viu no livro uma correção necessária para cristãos que combatem o Estado de bem-estar e apoiam as guerras do mesmo Estado.

Diferenças com a declaração de fé do site

Vance concorda com a declaração de fé do site na rejeição da eleição incondicional e da expiação limitada. Mas a declaração afirma a perseverança condicional e a possibilidade de apostasia, e Vance defende a segurança do crente independente da perseverança. A declaração é amilenista, e Vance, dispensacionalista e pré-milenista. A declaração aceita o batismo por aspersão, que Vance conta entre as heranças católicas da Reforma. E a declaração afirma a inerrância dos autógrafos, sem ligar a autoridade da Escritura a uma tradução, enquanto Vance defende a King James como a Bíblia de referência em inglês.

Obras principais

  • The Other Side of Calvinism (1991; edição revista, 1999)
  • A Brief History of English Bible Translations (1993)
  • The Angel of the Lord (1994)
  • Archaic Words and the Authorized Version (1996; edição revista, 1999)
  • A Practical Grammar of Basic Biblical Hebrew (1997)
  • “A Critique of The Potter’s Freedom by James White”, Journal of the Grace Evangelical Society (2003)
  • Christianity and War and Other Essays Against the Warfare State (2005)
  • King James, His Bible, and Its Translators (2006; segunda edição, 2016)
  • Greek Verbs in the New Testament and Their Principal Parts (2006)
  • Guide to Prepositions in the Greek New Testament (2007)
  • New Testament Textual Variations between the King James Bible and Its Basis, the Bishops’ Bible (1568-1602) (Edwin Mellen Press, 2015)
  • The Free Society (2018)
  • Origin of the Chapters and Verses in the Bible (2021)

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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