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Michael A. Cox: O pastor batista de Oklahoma que escreveu uma crítica bíblica ao calvinismo
Neste texto
Em 20 de julho de 2015, o blog SBC Today, porta-voz dos batistas do Sul dos Estados Unidos que rejeitam o calvinismo, publicou um artigo curto com uma pergunta no título: “O calvinismo é racismo espiritual?”. O autor, Michael A. Cox, pastor da Primeira Igreja Batista de Pryor, uma cidade de Oklahoma, fechou o texto com uma tabela de três colunas, hinduísmo, racismo e calvinismo, e sete linhas em cada uma: determinismo, superioridade, eleição, casta, intolerância, preconceito e exclusividade. O artigo recebeu 473 comentários. Dez dias depois, o apologista reformado James White dedicou um programa inteiro a ele e pediu que fosse retirado do ar. No alto da página, uma nota do editor anunciava o livro em que Cox tinha desenvolvido a mesma crítica seis anos antes, Not One Little Child: A Biblical Critique of Calvinism (“Nem um só pequenino: uma crítica bíblica do calvinismo”).
Vida
Do orfanato de Atenas a Oklahoma
Michael A. Cox nasceu em 1959 num orfanato de Atenas, na Grécia, filho de uma mãe solteira de ascendência grega. Com três meses foi adotado por Thomas Cox, militar da Marinha dos Estados Unidos, e pela esposa dele, Faye, e mais tarde recebeu a cidadania americana. Cresceu sobretudo em Norfolk, na Virgínia, e em Tulsa e Muskogee, em Oklahoma. Ele mesmo conta que entregou a vida a Cristo em Tulsa, em janeiro de 1967, pouco antes de completar oito anos.
Terminou o ensino médio em Muskogee em 1977 e, em 16 de dezembro daquele ano, casou-se com Joyce McConnell, que serviria nos ministérios de mulheres e de crianças e no coral das igrejas que ele pastoreou. O casal tem dois filhos, Michael Jr. e Matthew.
Formação
Cox foi licenciado para pregar em 1983 e ordenado ao ministério em 1984, e fez quase toda a formação teológica depois da ordenação. Em 1986 concluiu dois cursos: um diploma em ministério pastoral no Seminário Teológico Batista de Nova Orleans e o bacharelado em Estudos da Religião na Universidade Estadual de Oklahoma, em Stillwater. Seguiu então para o Seminário Teológico Batista do Sudoeste (Southwestern), em Fort Worth, no Texas, onde fez o mestrado em divindade com ênfase em línguas bíblicas (1989) e o doutorado em ministério (2000).
O doutorado concentrou-se em hermenêutica bíblica, a disciplina que estuda os princípios de interpretação do texto, e teve a orientação de John P. Newport, professor de filosofia da religião em Southwestern. A tese tratou de um assunto pastoral concreto: A Pastoral Ministry Approach for Developing a Biblical Response to Channeling and Its Principal Tenets, uma proposta de resposta bíblica ao channeling, a prática da Nova Era em que um médium afirma transmitir mensagens de espíritos ou de seres superiores. Sobre o mesmo tema, Cox escreveu uma visão geral do channeling publicada no site de apologética da Junta de Missões Norte-Americana (NAMB) da Convenção Batista do Sul.
Pastorados
O ministério de Cox foi quase todo em igrejas locais. Em Oklahoma, pastoreou a Igreja Batista Trinity, em Keefeton, a Igreja Batista Oak Street, em Cushing, a Primeira Igreja Batista de Boynton, a Igreja Batista do Sul Lakeview, em Skiatook, e a Igreja Batista Calvary, em Inola, onde ficou de 1996 a 2003. Em março de 2003 mudou-se para a Virgínia, como pastor titular da Igreja Batista West Lynchburg, em Lynchburg. Em maio de 2008 voltou para Oklahoma, para assumir a Primeira Igreja Batista de Pryor, ligada à Associação Batista Craig-Mayes, aos Batistas de Oklahoma e à Convenção Batista do Sul.
Ao lado do pastorado, ensinou evangelismo na extensão de Tulsa do Seminário Teológico Batista do Meio-Oeste (Midwestern). Foi membro da Comissão de Comissões da Convenção Batista do Sul e moderador das associações Craig-Mayes e de Lynchburg. Escreveu para o Baptist Messenger, jornal dos batistas de Oklahoma, para o Religious Herald, da Virgínia, e para o Pryor Daily Times.
O livro e a controvérsia de 2015
Not One Little Child saiu em 2009 pela CrossBooks, um selo de autopublicação, e ganhou nova edição em 2016 pela WestBow Press, com 144 páginas. Na introdução, Cox diz que se cansou de procurar um livro sobre o calvinismo que não fosse acadêmico nem raso demais. O plano tem três partes: um panorama histórico e terminológico do calvinismo, uma discussão dos seus pontos fortes e, a parte que ele considera a mais importante, a exposição dos textos bíblicos decisivos. Dessa exposição ele tira o que chama de “vinte e cinco fraquezas fatais” do sistema. Não espera converter calvinistas e admite que o livro não vai “pôr pregos no caixão” do calvinismo; quer, isso sim, desviar quem busca a Deus com boa intenção do que chama de caminho calvinista “agourento”.
O título ecoa Mateus 18:14, versículo que ele cita no artigo de 2015: “não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos” (nas citações bíblicas deste texto, Almeida Revista e Atualizada). Cox comenta que todos começamos a vida como crianças, de modo que a frase de Jesus “inclui a todos nós”.
O artigo do SBC Today levou a controvérsia a um público maior. O blog, criado em 2007, pertencia desde 2015 à Connect 316, associação de batistas que se apoiam na Declaração Tradicional de 2012, redigida principalmente por Eric Hankins. James White, de Alpha and Omega Ministries, chamou o texto de “ultrajante” no programa de 30 de julho de 2015. O apologista Edward Dalcour respondeu no site Christian Defense: acusou Cox de não entender o calvinismo e de citar João 3:16, 1 Timóteo 2:4 e 2 Pedro 3:9 sem exegese. O SBC Today entrou em recesso por tempo indeterminado em outubro de 2018.
O pregador e o blog
Cox reuniu sermões, estudos e artigos num blog com o lema “Pregue a verdade, não importa o que aconteça”. Ali disponibilizou, livro por livro, as planilhas em que prepara as séries de sermões a partir do texto grego do Novo Testamento, Romanos (2020), Hebreus (2022), Marcos (2023) e 1 Tessalonicenses (2025), e há um vídeo dele sobre esse método de preparo. Para que os leitores conseguissem abrir as colunas em grego, passou a distribuir ali mesmo a fonte que encontrou em 1993, depois de semanas tentando contato com a empresa que a criara.
O blog também mostra o pastor que fala de assuntos públicos: em 2018 Cox escreveu contra a State Question 788, a consulta que legalizou a maconha medicinal em Oklahoma, e em 2023 publicou “Sete razões para não beber álcool”.
Pensamento
Onde ele fica
Classe: simpatizante. Cox é batista do Sul e nunca se apresentou como arminiano. Ele chama a própria doutrina da salvação de “não calvinista” (“a minha soteriologia não calvinista está aparecendo”, escreveu em 2022, num artigo sobre o aborto) e publicou a sua crítica mais conhecida no blog da corrente que se chama “tradicionalista” ou provisionista. Fica, assim, no mesmo campo de Eric Hankins, Adam Harwood, Leighton Flowers, Adrian Rogers e Jerry Vines: concorda com os arminianos que Deus quer salvar a todos e que Cristo morreu por todos, mas chega a essas conclusões por outro caminho e discorda deles em pontos importantes.
Deus ama o mundo inteiro
O argumento positivo de Cox parte da criação. Todo ser humano foi feito à imagem de Deus (Gênesis 1:27), e por isso cada pessoa tem um valor que nenhuma casta, cor de pele ou decreto apaga. Desse ponto ele passa à vontade salvadora de Deus: o Pai deu o Filho para que “todo o que nele crê não pereça” (João 3:16), “deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1 Timóteo 2:4) e não quer “que nenhum pereça” (2 Pedro 3:9).
Cox lê a história bíblica como uma sequência de provas desse amor. A promessa a Abraão era uma bênção para todas as famílias da terra (Gênesis 12:1-3). No dia de Pentecostes, gente de quinze povos ouviu as maravilhas de Deus na própria língua (Atos 2:1-13), o que, para ele, mostra o alcance universal do plano de redenção. Pedro ouviu numa visão que não devia chamar ninguém de impuro (Atos 10:28), e Cox lê esse versículo e Mateus 18:14 como afirmações gerais: Deus não quis a perdição de ninguém.
A consequência é missionária. Quem compartilha o evangelho, escreve, não está procurando alguém que seja “eleito”, porque “qualquer pessoa com pulso pode ser salva” (SBC Today, 2015).
A crítica ao determinismo
A objeção central de Cox é ao que ele chama de “determinismo espiritual”: a ideia de que Deus, por um decreto anterior a qualquer resposta humana, separou um grupo para a salvação e deixou o outro na condenação. A comparação com o hinduísmo e com o racismo quer mostrar a mesma estrutura nos três casos: alguém fica dentro ou fora pela casta, pela cor da pele ou pela eleição.
O passo seguinte do argumento é moral. Cox liga a ideia de superioridade espiritual ao orgulho, uma das três raízes do pecado que ele encontra em 1 João 2:15-16, ao lado da concupiscência dos olhos e da carne. O mesmo texto volta nos outros escritos dele: no ensaio sobre discernimento espiritual (2011), o segundo cuidado é desconfiar do que agrada o orgulho; no texto sobre as denominações (2020), o orgulho da vida é um dos motivos pelos quais a natureza caída atrapalha o entendimento da verdade. No artigo de 2015 ele faz uma ressalva expressa: não está dizendo que os calvinistas são racistas, e sim traçando paralelos. Os críticos responderam que a comparação deforma a doutrina reformada, que atribui a salvação inteiramente à graça e tira do eleito qualquer motivo de se gloriar.
Escritura, razão e discernimento
Num texto de 1997 sobre a inspiração da Bíblia, ele a define como obra “soprada por Deus” e supervisionada por ele (2 Timóteo 3:16), e compara a escrita das Escrituras à encarnação: um empreendimento “plenamente humano e inteiramente divino”. Cox afirma a inerrância, a ausência de erro no que a Bíblia afirma, e acrescenta que o propósito dela é redentor, e não científico.
No ensaio de 2011 sobre discernimento espiritual, explica que o Espírito Santo fala de modo verificável, por meio da Escritura, da ortodoxia histórica, da razão, da consciência e do conselho de pessoas piedosas, e que essa mediação protege o crente da tendência de confundir a voz do Espírito com as próprias impressões. Por isso adverte contra a subjetividade e contra os curandeiros que cobram pelo dom. É o mesmo pastor que escreveu a tese sobre o channeling: a preocupação dele é distinguir o genuíno do falsificado.
Onde ele se afasta do arminianismo clássico
A proximidade com a teologia arminiana é real no ponto de partida: Armínio e John Wesley também recusaram a reprovação incondicional por causa do caráter amoroso de Deus e dos mesmos textos de 1 Timóteo 2:4 e 2 Pedro 3:9 (ver por que Wesley rejeitou o calvinismo). A distância aparece em três lugares.
Em primeiro lugar, a condição do pecador. No texto de 2020 sobre as denominações, Cox escreve que a percepção espiritual de todos nós foi “danificada, mas não destruída” pelo pecado de Adão. Armínio foi mais longe: na décima primeira das suas Disputas públicas, sobre o livre-arbítrio, ensinou que, sem a graça, a vontade humana para o verdadeiro bem está “aprisionada, destruída e perdida”, e que só a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, a liberta para crer. A nossa declaração de fé segue Armínio: nascemos sob condenação e incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar, e o Espírito capacita cada pessoa a responder ao evangelho (ver o pecado original e a depravação total e a graça preveniente). Cox fundamenta a possibilidade da salvação no amor de Deus e na imagem de Deus em cada pessoa, sem construir a doutrina da graça preveniente, que é a peça que, no arminianismo clássico, garante que a iniciativa da salvação seja inteiramente de Deus.
Em segundo lugar, a eleição. Cox trata a palavra “eleito” quase só como marca do sistema que ele combate. Os arminianos clássicos mantêm a doutrina: Deus decretou salvar em Cristo todos os que creem e perseveram, e elege os indivíduos em Cristo, pela fé (ver a eleição condicional em Cristo).
Em terceiro lugar, a perseverança. A Fé e Mensagem Batista (2000), confissão da convenção a que pertencem as igrejas que Cox pastoreou, afirma que os verdadeiros crentes “nunca cairão do estado de graça”. Desde os remonstrantes do Sínodo de Dort (1618-1619), os arminianos ensinam a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a fé pode ser abandonada (ver a perseverança dos santos).
Obras principais
- A Pastoral Ministry Approach for Developing a Biblical Response to Channeling and Its Principal Tenets (tese de doutorado em ministério, Southwestern Baptist Theological Seminary, 2000).
- “My View of the Inspiration and Authority of the Bible” (1997).
- Not One Little Child: A Biblical Critique of Calvinism (CrossBooks, 2009; WestBow Press, 2016).
- “Developing Spiritual Discernment: Knowing the Difference between the Genuine and the Counterfeit” (2011).
- “Is Calvinism Spiritual Racism?” (SBC Today, 2015).
- “Why Are There So Many Different Denominations?” (2020).
Para aprofundar
- Michael A. Cox, “About”, página autobiográfica no blog do autor.
- Michael A. Cox, “Is Calvinism Spiritual Racism?”, SBC Today, 20 de julho de 2015 (cópia arquivada).
- Michael A. Cox, “Why Are There So Many Different Denominations?”, 2020.
- Michael A. Cox, “My View of the Inspiration and Authority of the Bible”, 1997.
- Michael A. Cox, “Developing Spiritual Discernment”, 2011.
- Michael A. Cox, “Publications”, lista de publicações do autor.
- Edward Dalcour, “A Response to Dr. Michael A Cox’s Article: Is Calvinism Spiritual Racism?”, Christian Defense.
- James White, “Radio Free Geneva: Hinduism, Racism, and Calvinism”, Alpha and Omega Ministries, 30 de julho de 2015.
- Bob Allen, “‘Traditionalist’ blog SBC Today says goodbye”, Baptist News Global, 31 de outubro de 2018.
- Open Library, registros das edições de 2009 e de 2016 de Not One Little Child.
- Church Finder, “First Baptist Church, Pryor, OK”.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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