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Leighton Flowers: o ex-calvinista que deu nome ao provisionismo

Diego Gonçalves13 min de leitura2.592 palavras

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Neste texto

Na noite de 7 de março de 2024, a First Lutheran Church de Houston, no Texas, estava lotada: os ingressos tinham se esgotado, e o debate seria transmitido ao vivo. A pergunta era uma só: Jesus ensinou a eleição incondicional em João 6:44? De um lado estava o apologista reformado James White. Do outro, Leighton Flowers, professor de teologia, apresentador do programa Soteriology 101 e, por mais de uma década, ele mesmo um calvinista convicto de cinco pontos. Os dois já tinham debatido Romanos 9 em 2015. Nove anos depois, Flowers voltava ao mesmo adversário como o principal divulgador de uma corrente que ficou conhecida, pelos livros e programas dele, como provisionismo.

Vida

Um calouro calvinista

Leighton Charles Flowers cresceu na Convenção Geral Batista do Texas, a convenção estadual das igrejas batistas do Texas, conhecida como Texas Baptists. O pai esteve na origem do See You at the Pole, o movimento nascido em 1990 no Texas em que estudantes se reúnem em volta do mastro da bandeira das escolas para orar.

Flowers estudou na Hardin-Simmons University, em Abilene, onde se formou em teologia aplicada em 1997. No primeiro ano da faculdade, depois de ler John MacArthur, R. C. Sproul, J. I. Packer e, mais tarde, John Piper, adotou os cinco pontos do calvinismo, resumidos na sigla TULIP: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. O primeiro cargo ministerial veio ainda em Abilene, no GRACE, um ministério universitário da Hardin-Simmons. Ali trabalhou ao lado de Matt Chandler, depois pastor conhecido do Novo Calvinismo, e os dois eram discipulados pelo mesmo mentor.

Flowers ajudou a fundar uma igreja batista “reformada” que nasceu de uma divisão na igreja em que tinha crescido, episódio que, segundo ele mesmo, deve ter magoado os pais. Em 2000 concluiu o mestrado em Divindade com línguas bíblicas no Southwestern Baptist Theological Seminary, em Fort Worth.

Pastor e evangelista dos jovens texanos

No ministério local, Flowers foi ministro de jovens da University Baptist Church, em Abilene, pastor titular da Primeira Igreja Batista de Era e ministro de jovens da Colonial Hills Baptist Church, em Cedar Hill.

Em 2003 entrou para a equipe da convenção estadual. Por treze anos dirigiu a evangelização de jovens, com acampamentos, conferências e o próprio See You at the Pole. Nos primeiros anos, ainda calvinista, levou John Piper e outros pregadores reformados para falar nos eventos que organizava.

A saída do calvinismo

A mudança começou com uma leitura. Lendo A. W. Tozer, Flowers se perguntou se Tozer não era calvinista e descobriu que nem Tozer nem C. S. Lewis, dois autores que ele admirava, aceitavam a TULIP. Foi então ler com seriedade os estudiosos não calvinistas. O caminho levou três anos de estudo, que ele chamou de “uma jornada penosa”. Ele conta que resistiu à mudança, sabendo o que poderia perder, e que o treino em debate, no qual aprendera a defender os dois lados de uma questão, o ajudou a reconhecer a própria parcialidade. Em dezembro de 2014 resumiu a história num texto chamado “The 5 Points that Lead me Out of Calvinism” (“Os 5 pontos que me tiraram do calvinismo”).

Soteriology 101

Como professor adjunto da Dallas Baptist University, Flowers dava aulas sobre a doutrina da salvação, que os teólogos chamam de soteriologia. Desse material nasceu o podcast semanal Soteriology 101, acompanhado de um blog e de um canal de vídeos. Em 2018 cada episódio já tinha em média 10 mil downloads. O programa ganhou espaço no debate sobre o calvinismo na Convenção Batista do Sul, ao lado de outros batistas que, como Eric Hankins, Adam Harwood e David L. Allen, defendiam a chamada soteriologia “tradicional”. A declaração de fé do ministério é a “Declaração tradicional” que Hankins redigiu em 2012.

Em maio de 2015, mês do primeiro debate com White, saiu em formato digital The Potter’s Promise (“A promessa do Oleiro”), uma leitura de Romanos 9 contra a interpretação calvinista. Em 2016 concluiu o doutorado em ministério no New Orleans Baptist Theological Seminary, com um projeto de currículo para ensinar uma perspectiva batista não calvinista aos estudantes batistas do Texas. Em 2017 a Trinity Academic Press publicou The Potter’s Promise em versão impressa, revista e com quase o dobro do conteúdo, com recomendações de Paige Patterson, David L. Allen e Steve Gaines, então presidente da Convenção Batista do Sul.

Em abril de 2018 a convenção do Texas o pôs à frente da equipe de evangelização, como diretor de evangelização e apologética. Flowers anunciou que queria trazer a evangelização de volta ao indivíduo, porque as igrejas tinham programas sobre o assunto, mas pouca gente falava de Cristo a alguém. Via a apologética como parte da evangelização, no modelo de Paulo, que argumentava e persuadia.

Em 2019 publicou God’s Provision for All (“A provisão de Deus para todos”) e lançou Tiptoeing Through TULIP, um estudo em vídeo para ensinar estudantes a discordar dos calvinistas com respeito. Em 2022 debateu João 6 com o pastor calvinista Gabriel Hughes e conversou publicamente com o arminiano Brian Abasciano. Em fevereiro de 2024 lançou Drawn by Jesus (“Atraídos por Jesus”), dedicado ao mesmo capítulo do debate de Houston, que aconteceu semanas depois.

Depois de mais de vinte anos na convenção do Texas, Flowers passou a ensinar teologia no Trinity College of the Bible and Theological Seminary, presidido por Braxton Hunter. Ele é casado com Laura e vive com a família perto de Dallas.

Pensamento

Provisionista, e não arminiano clássico

Classe: simpatizante. Flowers rejeita os pontos centrais do calvinismo, mas não se apresenta como arminiano. Ele se descreve como provisionista, e o nome vem da ideia que organiza todo o sistema: Deus fez provisão, em Cristo, para a salvação de cada pessoa. A mesma corrente é chamada entre os batistas do Sul de soteriologia “tradicional”, a de Adrian Rogers e de Harwood. O resumo popular do sistema, a sigla PROVIDE, responde à TULIP: todos pecaram, todos são responsáveis e podem responder a Deus, a expiação de Cristo serve para qualquer um, quem persiste na incredulidade se perde e todo crente verdadeiro tem segurança eterna.

Com o arminianismo clássico ele compartilha muito: Cristo morreu por todos, Deus deseja salvar todos, a graça pode ser resistida, a eleição não é um decreto que escolhe uns e abandona outros, e a fé não merece nada. Afasta-se dele na condição do ser humano caído e na segurança do crente, e lê a eleição de um modo próprio.

O evangelho no lugar da graça preveniente

O primeiro ponto é a condição do ser humano caído. Os arminianos ensinam, desde Armínio, a incapacidade total: depois da queda, ninguém pode, por si mesmo, querer ou fazer o bem diante de Deus, e só a graça preveniente, uma obra sobrenatural do Espírito Santo que vem antes de qualquer resposta, liberta a vontade para crer. Flowers nega essa incapacidade de nascença. Para ele, a cegueira e a surdez espirituais de que a Bíblia fala descrevem quem foi endurecido por Deus como juízo sobre a incredulidade persistente, como Israel no tempo de Jesus. Em 2014 escreveu que a cegueira para o evangelho é “a condição de um homem endurecido judicialmente, e não uma condição natural desde o nascimento”.

Ele também não nega a iniciativa de Deus. O ponto dele é que Deus age por meio do próprio evangelho. Respondendo a Roger Olson, que tinha apontado traços de semipelagianismo na declaração de 2012, Flowers argumentou que o evangelho já faz tudo o que Olson atribui à graça preveniente: vai adiante, prepara o caminho e torna possíveis o arrependimento e a fé (Romanos 10). “O evangelho é a graça capacitadora de Deus”, escreveu (“Redundancy of Arminianism’s Prevenient Grace”, 2014). Quatro anos depois, num texto chamado “Prevenient Grace: An Arminian Error”, completou: “o evangelho é suficiente PORQUE é a obra pessoal do Espírito Santo”. Por isso rejeita a acusação de semipelagianismo, a ideia de que o homem dá sozinho o primeiro passo: o primeiro passo, diz ele, é Deus revelar-se e enviar a mensagem.

A diferença com o arminianismo clássico fica clara aqui. Para Armínio e para Wesley, a pregação basta porque vem acompanhada de uma graça que liberta uma vontade que, sozinha, não responderia. A nossa declaração de fé afirma que nascemos pecadores, sob a justa condenação de Deus e incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar, e que o Espírito age em todas as pessoas pela graça preveniente, sem limitar essa ação aos que ouvem a pregação. Flowers liga a capacidade de crer à chegada do evangelho e não vê no homem caído uma vontade presa que precise ser libertada antes.

Eleição para uma tarefa

A segunda marca é a leitura da eleição. Flowers trocou a eleição baseada na presciência da fé, que como calvinista julgava a única alternativa, pela eleição corporativa: Deus elege um povo em Cristo, e os indivíduos fazem parte dele pela fé. É a mesma linha de eleição condicional em Cristo que Abasciano defende entre os arminianos, mas Flowers a combina com outra ideia: quando a Bíblia fala de pessoas escolhidas, muitas vezes trata de uma escolha para um serviço. Israel foi escolhido para levar a Lei ao mundo, e os Doze foram escolhidos para ser apóstolos.

É assim que ele lê Romanos 9. Jacó foi escolhido, antes de fazer bem ou mal, para carregar a promessa, e o “ódio” a Esaú significa ser preterido para essa tarefa, e não a condenação eterna; Esaú também recebeu bênçãos. O faraó é exemplo de uma vontade rebelde que Deus endureceu para cumprir os seus propósitos. Os israelitas que se endureceram foram cortados por incredulidade, e esse endurecimento serviu para que o evangelho chegasse aos gentios, mas Paulo espera que eles sejam enxertados de novo (Romanos 11:11-32). No esboço do capítulo que publicou em 2017, Flowers concluiu que a questão de Paulo é “fé versus obras, e não escolhidos ou não escolhidos”. O título The Potter’s Promise vem daí: a promessa do Oleiro de levar a sua Palavra a todas as famílias da terra.

A mesma chave abre João 6:44, “ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, o não trouxer”. Flowers lembra que a plateia de Jesus eram líderes e multidões judaicas já endurecidas pela incredulidade. Os que o Pai traz ao Filho são os que ouviram e aprenderam do Pai (João 6:45), os israelitas fiéis que reconheceram em Jesus o Messias. Depois da cruz, a atração se torna universal: “E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim” (João 12:32). “O evangelho é o meio pelo qual todos são atraídos a Cristo”, escreveu (“John 6:44”, 2017).

A bondade de Deus e a soberania

Em God’s Provision for All (2019), Flowers parte de uma pergunta simples: o que significa chamar Deus de bom? A resposta dele é que a bondade de Deus precisa ser reconhecível pelos padrões que o próprio Deus revelou na Escritura, e um traço reconhecível da bondade é “a disposição de prover para os necessitados”. Um Deus bom não faz favoritismo arbitrário e demonstra o seu amor providenciando os meios de salvação para cada pessoa.

No texto de 2014 aparecem outras duas ideias que ele repete. A primeira é que o arrependimento não é mérito. Usando a parábola do filho pródigo, escreveu que “pedir perdão não merece o perdão”: o filho que volta é recebido pela graça do pai, e não porque a sua humildade comprou a acolhida. A segunda é que um presente não precisa ser imposto para que quem o deu receba todo o crédito. Flowers defende ainda que a soberania, como governo sobre criaturas, depende de haver criaturas, e que Deus escolheu não controlar cada detalhe das escolhas humanas.

A segurança eterna

O último ponto de distância é a perseverança. A declaração que o ministério adota afirma que Deus completará a salvação de quem começou e nega até a possibilidade da apostasia. Os arminianos, desde a Remonstrância, ensinam a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé (João 15:4-6). Aqui Flowers fica mais perto dos calvinistas do que dos arminianos.

Críticas e influência

O provisionismo atraiu críticas dos dois lados. Os reformados o acusam de semipelagianismo, e em 2024 Matthew Cserhati publicou pela Wipf & Stock um livro inteiro de resposta, A Critique of Provisionism. Entre os arminianos, a objeção é a de Olson e Abasciano: sem uma graça que liberte a vontade, falta explicar como o evangelho alcança alguém que, sozinho, não responderia.

Ainda assim, o nome “provisionismo”, hoje usado até pelos críticos, saiu dos livros e dos programas dele.

Obras principais

  • The Potter’s Promise: A Biblical Defense of Traditional Soteriology (edição digital, 2015; edição impressa revista e ampliada, Trinity Academic Press, 2017).
  • Researching the Major Contemporary Perspectives of Soteriology Among Southern Baptists in Order to Develop a Curriculum for Texas Baptist Students (projeto de doutorado em ministério, New Orleans Baptist Theological Seminary, 2016).
  • God’s Provision for All: A Defense of God’s Goodness (Trinity Academic Press, 2019).
  • Tiptoeing Through TULIP (estudo em vídeo em seis sessões, com guia do aluno, 2019).
  • Drawn by Jesus (2024).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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