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A. W. Tozer: do sótão em Akron ao púlpito de Chicago
A. W. Tozer: Um Profeta do Século XX
Aiden Wilson Tozer foi uma das vozes mais firmes e proféticas do cristianismo evangélico no século XX. Nos Estados Unidos, as igrejas começavam a adotar técnicas de entretenimento, números fáceis e campanhas de marketing pra atrair multidão. Tozer ia na direção contrária. Chamava o povo de volta à adoração profunda, à santidade de vida e ao espanto diante da majestade de Deus. Só que o homem que enfrentou o pragmatismo religioso do tempo dele começou a caminhada num sótão escuro em Ohio, depois de ouvir um pregador na esquina de uma fábrica.
A juventude na fazenda e o encontro em Akron
Tozer nasceu em 1897 numa pequena propriedade rural perto de La Jose, no interior da Pensilvânia. Cresceu na pobreza, no trabalho pesado da terra. Era o terceiro de seis irmãos, de uma família que só tinha religião no nome. Estudou pouco e fez só o ensino fundamental.
A grande virada começou quando a família se mudou pra Akron, uma cidade industrial de Ohio, e o rapaz, com uns quinze anos, foi trabalhar na linha de produção de uma fábrica de pneus.
Um dia, já com dezessete anos, voltando a pé do trabalho com a roupa suja de fuligem, Tozer parou numa esquina movimentada pra olhar um pregador de rua já idoso. O velho tinha a Bíblia aberta e disse uma frase simples, que pegou o jovem operário em cheio:
“Se você não sabe como ser salvo, basta clamar a Deus: ‘Senhor Jesus, tem misericórdia de mim, que sou um pecador’.”
Tozer não contou nada a ninguém. Foi direto pra casa, subiu a escada até o sótão apertado e trancou a porta. Ali, de joelhos no chão de tábuas, com uma agonia enorme por dentro, ele entregou a vida a Cristo:
“Senhor, sou Teu. Tu me chamaste e eu vim.”
Era 1915. Naquele momento começava uma vida de intimidade com Deus que durou até o fim.
A formação nas Escrituras e os primeiros passos pastorais
Logo depois da conversão, Tozer passou a ter uma fome enorme da Palavra de Deus. Ele não tinha dinheiro pra cursar um seminário, então usou os momentos livres pra estudar e orar com disciplina. Passava horas de joelhos no chão do quarto, com a Bíblia aberta e ao redor os escritos dos pais da igreja, dos reformadores puritanos e dos clássicos devocionais.
Em 1918, casou com Ada Cecelia Pfautz, e os dois tiveram sete filhos. No ano seguinte, aos vinte e dois anos, foi ordenado pastor pela Christian and Missionary Alliance (C&MA). Nos primeiros anos, pastoreou igrejas pequenas no interior da Virgínia Ocidental, em Ohio e em Indiana. Logo ficou conhecido como um pregador que não trocava a verdade por conveniência humana.
Três décadas na Southside de Chicago
Em 1928, Tozer assumiu o pastorado da Southside Alliance Church, em Chicago, e ficou lá por trinta e um anos. A igreja virou referência na cidade inteira e atraía gente de dezenas de denominações que procuravam um cristianismo sem concessões.
Tozer não suportava sentimentalismo barato nem estratégia de circo no culto. Pra ele, a adoração não era um espetáculo pra entreter o homem, mas o propósito maior da existência humana diante do Deus três vezes santo. As mensagens dele juntavam raciocínio teológico claro, linguagem acessível e um apelo urgente ao arrependimento.
Em 1950, assumiu também a edição da revista oficial da denominação, a Alliance Weekly, que mais tarde passou a se chamar The Alliance Witness. Na coluna editorial, criticava a mediocridade espiritual do evangelicalismo moderno e alertava a igreja contra o perigo do materialismo consumista.
Obras que marcaram gerações
Tozer foi um pregador extraordinário diante das congregações dele, mas o alcance só cresceu de verdade com os livros. Ao longo do ministério, ele escreveu mais de 40 livros, e muitos continuam sendo reeditados em dezenas de idiomas.
A obra mais célebre dele, Em Busca de Deus (The Pursuit of God), saiu em 1948 e nasceu de um jeito quase milagroso: Tozer escreveu o manuscrito inteiro à mão, segundo o relato mais conhecido, numa única noite, dentro de um vagão de trem, numa viagem pro Texas. O livro mostra a paixão do autor pela comunhão pessoal e real com o Deus vivo, bem longe do formalismo doutrinário.
Em 1961, publicou O Conhecimento do Santo, uma meditação profunda sobre os atributos de Deus, que virou a obra-prima teológica dele. Saíram outros livros clássicos, como A Raiz do Justo, Nascido Depois da Meia-Noite, A Conquista Divina e, depois da morte dele, Homem: O local onde Deus habita, em que Tozer examina o plano da redenção humana com uma sensibilidade profética rara.
Uma teologia centrada na glória de Deus
O pensamento de Tozer tinha fundamentos que ele não negociava. Ele insistia que o declínio espiritual da igreja começava quando ela perdia o senso da majestade do Todo-Poderoso. Pra ele, o cristianismo não podia se resumir a concordar com dogmas corretos. Exigia uma experiência contínua e transformadora com a pessoa do Espírito Santo, e uma renúncia decidida às modas e ambições do mundo presente.
Apesar da fama internacional, Tozer manteve até o fim um padrão de vida simples. Recusava regalias financeiras, andava de transporte público e doava a maior parte dos direitos autorais dos livros pra obras missionárias e pra ajudar quem precisava.
A partida em Toronto
Em 1959, depois de mais de três décadas de ministério em Chicago, Tozer sentiu que era hora de uma nova etapa e aceitou o pastorado da Avenue Road Church, em Toronto, no Canadá.
Ele tinha problemas crônicos no coração e crises de angina, mas manteve a disciplina de oração e pregação com a firmeza de sempre. Em 12 de maio de 1963, aos sessenta e seis anos, teve um ataque cardíaco fatal. Segundo quem estava ao lado dele nos últimos momentos, as últimas palavras foram: “Eu te vejo, Senhor. Eu te vejo”.
Foi sepultado primeiro em Chicago e, mais tarde, a família levou ele pro cemitério de Ellet, em Akron, Ohio, sob uma lápide simples, que traz só o nome dele e a frase: “A. W. Tozer – Um Homem de Deus”.
Em tempos de cristianismo superficial e de busca por soluções fáceis, o diagnóstico que Tozer deixou na abertura de O Conhecimento do Santo continua valendo pra qualquer geração: “O que vem à nossa mente quando pensamos em Deus é a coisa mais importante sobre nós”.
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