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John Newton: do tráfico de escravos a Amazing Grace
Um negociante de escravos e poeta: A transformação de John Newton
Se existe uma canção cristã que atravessou fronteiras, religiões e séculos e virou patrimônio da humanidade, essa canção é Amazing Grace. A doçura da melodia, porém, esconde uma história de brutalidade, cinismo e uma redenção quase inacreditável. O homem que escreveu os versos sobre a graça que “salvou um miserável como eu” tinha sido, literalmente, um traficante de escravos.
O fundo do poço no Atlântico
John Newton era filho de um capitão da marinha mercante inglesa e conheceu a vida no mar ainda menino. Teve uma juventude rebelde, cheia de indisciplina, com deserção da Marinha Real e castigo público a chibatadas, e acabou na costa da África Ocidental. Lá trabalhou diretamente para um comerciante de escravos e chegou a ser escravizado por uma princesa nativa, passando fome e humilhação na lama das praias africanas.
Amigos do pai dele mandaram um navio resgatar o rapaz, e Newton foi trabalhar no convés do Greyhound, um navio mercante. Estava longe de qualquer arrependimento. Orgulhava-se de inventar blasfêmias novas e de ridicularizar a fé cristã diante da tripulação.
Na viagem de volta para a Inglaterra, em 1748, tirou da biblioteca do navio, quase sem pensar, um exemplar de O Padrão do Cristão, uma adaptação de Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis. A leitura deixou nele uma inquietação passageira: “E se essas coisas forem verdadeiras?” Ele logo afastou a ideia. A resposta, porém, não demorou.
O dia 10 de março de 1748
Nas primeiras horas de 10 de março de 1748, uma tempestade violenta pegou o navio no meio do Atlântico Norte. As ondas gigantescas arrebentaram o costado e arrancaram parte do convés. Um marinheiro que estava no posto de Newton foi levado para o oceano escuro segundos depois de trocar de lugar com ele.
A água começou a entrar pelos porões, e todos a bordo foram chamados às bombas manuais, numa tentativa desesperada de evitar o naufrágio. Exausto, encharcado e amarrado ao leme para não ser levado pelo mar, Newton olhou a morte de frente. Sem pensar, soltou uma frase que nunca tinha saído da boca dele com sinceridade:
“Se isso não adiantar, que o Senhor tenha misericórdia de nós!”
A própria frase o assustou. Se havia um Deus justo no céu, que misericórdia Ele teria de alguém que passou anos zombando do Seu nome?
A luz através das Escrituras
O navio resistiu, mas ficou à deriva por semanas, com pouca comida e água racionada. Nos dias intermináveis que vieram depois, Newton começou a folhear o Novo Testamento em busca de esperança.
Dois textos falaram diretamente à angústia dele:
“Pois se vós, sendo maus, sabeis dar bons presentes para vossos filhos, quanto mais dará vosso Pai celestial, o Espírito Santo, a aqueles que lhe pedirem?”
(Lucas 11:13, Bíblia Livre)
“Se alguém quiser fazer sua vontade, da doutrina conhecerá, se é de Deus, ou se eu falo de mim mesmo.”
(João 7:17, Bíblia Livre)
Newton percebeu que a razão orgulhosa dele não conseguia decifrar a fé sozinha. Precisava da ajuda do Espírito Santo. Pela primeira vez na vida adulta, dobrou os joelhos e clamou por luz, perdão e quebrantamento. O clamor já era fruto da graça que o alcançou antes de ele saber pedir.
Entendeu que a cruz de Cristo não era uma fábula religiosa, mas a resposta definitiva para o pecado, mesmo o passado mais sombrio: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). A salvação é pela graça, mediante a fé, somente em Cristo (Efésios 2:8).
Anos depois, ele registrou no diário:
“O dia 10 de março é um dia para ser sempre lembrado por mim; e nunca deixei de marcar essa data desde o ano de 1748.”
Do convés negreiro ao púlpito em Londres
A transformação de Newton não aconteceu num passe de mágica, de um dia para o outro. Ele ainda levou alguns anos para deixar de vez a vida no mar e romper com as amarras de uma sociedade que tolerava a escravidão. Mas a raiz da vida nova já estava fincada.
Com o tempo, virou pastor anglicano na paróquia de Olney e, mais tarde, em Londres, onde o púlpito dele atraía intelectuais, líderes políticos e gente humilde do povo. Foi ele quem orientou o jovem deputado William Wilberforce na longa campanha contra o tráfico de seres humanos. Newton prestou depoimento diante do Conselho Privado e publicou, em 1788, Pensamentos sobre o tráfico africano de escravos, contando os horrores dos navios negreiros que ele mesmo tinha comandado.
Em 1772, escreveu o hino que ficou como marca do testemunho dele:
“Graça maravilhosa! Quão doce é o som!
Que salvou um miserável como eu;
Eu estava perdido, mas agora fui encontrado;
Estava cego, mas agora vejo.”
John Newton morreu em 1807, aos 82 anos, poucos meses depois de o Parlamento britânico aprovar a abolição do tráfico negreiro. Pouco antes de partir, resumiu a vida em duas certezas simples: “Minha memória já está quase se apagando; mas eu ainda me lembro de duas coisas: que eu sou um grande pecador, e que Cristo é um grande Salvador”.
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