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Marvin R. Vincent: O filho de pastor metodista que abriu o grego do Novo Testamento a quem não lia grego
Neste texto
- Vida
- Um menino da casa de pastores metodistas
- Pastor em Troy durante a guerra
- A igreja do Covenant e os livros do pastor
- Os Word Studies e a cátedra no Union
- Revisão da Confissão e o caso Briggs
- Pensamento
- Romanos 9 trata de Israel e dos gentios
- Soberania e liberdade
- Presciência, eleição em Cristo e perseverança
- A distância do arminianismo clássico
- Obras principais
- Para aprofundar
No domingo de manhã, 23 de abril de 1865, nove dias depois do tiro no Teatro Ford, o pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de Troy, no estado de Nova York, subiu ao púlpito com um versículo de luto: “Não sabeis que hoje caiu em Israel um príncipe e um grande homem?” (2 Samuel 3:38). Marvin Richardson Vincent tinha trinta anos e chamou o assassinato de Abraham Lincoln de “expressão consumada do espírito da escravidão”. Disse que Lincoln havia assinado a sentença de morte da escravidão americana e pediu à nação que confiasse em Deus mais do que em qualquer líder. O sermão saiu impresso naquele mesmo ano. O homem que o pregou seria lembrado por outra coisa: quatro volumes que puseram o leitor da Bíblia em inglês, sem saber grego, diante da força das palavras do Novo Testamento.
Vida
Um menino da casa de pastores metodistas
Marvin R. Vincent nasceu em Poughkeepsie, Nova York, em 11 de setembro de 1834, filho de Leonard e Nancy Vincent. O pai e o avô eram pastores da Igreja Metodista Episcopal. Estudou no Columbia College, em Nova York, onde se formou em 1854, e ali teve como professor de grego Henry Drisler, a quem dedicaria décadas depois a sua obra mais conhecida, “em grata lembrança das instruções de anos anteriores”.
Depois da formatura, passou quatro anos ajudando a dirigir a escola preparatória do Columbia. Em 1858 foi para a Troy University, instituição metodista, como professor de língua e literatura latina. A aula inaugural, de 21 de julho de 1859, saiu impressa com o título The Classics in Education, uma defesa das línguas antigas na educação. Na mesma época, com Charlton T. Lewis, traduziu para o inglês o Gnomon do Novo Testamento, de Johann Albrecht Bengel, o comentário do século XVIII que lia cada palavra grega com atenção quase devocional. Anos depois, Vincent diria que a dívida de todos os que trabalham nesse campo com Bengel “não é fácil de exagerar”.
Estudou teologia por conta própria e foi ordenado no ministério metodista episcopal. Em 1862 e 1863 serviu como pastor interino da Igreja Metodista Episcopal da Pacific Street, no Brooklyn. Em 1863 passou para a Igreja Presbiteriana.
Pastor em Troy durante a guerra
A Primeira Igreja Presbiteriana de Troy o recebeu em 1863, e ele ficou dez anos. Eram os anos da Guerra Civil, e o pastor falou dela do púlpito nos sermões de Ação de Graças de 1863 e 1864. Depois veio o sermão sobre Lincoln, em que pediu a punição legal dos chefes da rebelião e disse que daí em diante só havia duas classes de homens: os leais e os traidores.
Em Troy, Vincent enfrentou também uma questão que dividia as igrejas do Norte: a diversão. Em 1867 publicou Amusement: A Force in Christian Training (“A diversão: uma força na formação cristã”), quatro discursos, o primeiro deles lido na convenção internacional das Associações Cristãs de Moços em Albany, em 1º de junho de 1866. A tese era que a diversão é uma necessidade humana, como o alimento e o sono, e que o erro da igreja tinha sido proibi-la em vez de regulá-la e purificá-la. Por isso defendia jogos e encontros sadios sob o cuidado da igreja. A frase que resume o livro é dele: “Os jovens terão diversões, e a questão é se o diabo ou a igreja as fornecerá”.
A igreja do Covenant e os livros do pastor
Em 1873 foi chamado para a Igreja Presbiteriana do Covenant, em Nova York, onde pastoreou até 1888. Desses anos são vários livros, como Faith and Character (1880) e God and Bread (1884), e o relato de viagem In the Shadow of the Pyrenees (1883).
Em 1884, falando aos alunos do Union Theological Seminary, deu a palestra The Expositor in the Pulpit (“O expositor no púlpito”). O pregador, disse, é antes de tudo intérprete da Escritura: o método da pregação pode ser original, mas a substância não. E acrescentou: “a expressão ‘pregação expositiva’ cobre, propriamente, toda pregação”.
Os Word Studies e a cátedra no Union
Em 1887 saiu o primeiro volume de Word Studies in the New Testament. Vincent quis ocupar um lugar entre o comentário e o léxico, para dar ao leitor da Bíblia em inglês um pouco da posição de quem lê o grego: o sentido de cada palavra, a etimologia, a história, as nuances de uso em cada evangelista e apóstolo. Ler um autor em tradução, comparou, é como ouvir pelo telefone: as palavras chegam, mas a qualidade da voz conhecida se perde. Os quatro volumes saíram até 1900, cobrindo do evangelho de Mateus ao Apocalipse, e continuam sendo reimpressos.
Em 1888 Vincent deixou o pastorado e assumiu no Union Theological Seminary a cátedra Baldwin de Literatura Sagrada, dedicada à exegese e à crítica do Novo Testamento. Ensinou ali até 1916. Desse período são The Age of Hildebrand (1896), sobre o papa Gregório VII e a luta das investiduras, o comentário a Filipenses e Filemom na série International Critical Commentary (1897), uma história da crítica textual do Novo Testamento (1899) e uma tradução do Inferno de Dante (1904). Já aposentado, ainda traduzia os gregos: o manuscrito da sua tradução do Filoctetes de Sófocles, de 1912, está na biblioteca do Columbia.
Revisão da Confissão e o caso Briggs
Em 1890 a maioria dos presbitérios já tinha votado a favor de rever a Confissão de Westminster, e a discussão passou a ser como revê-la. Naquele ano Charles A. Briggs, colega de Vincent no seminário, reuniu num volume os textos dos revisionistas, How Shall We Revise the Westminster Confession of Faith?, e Vincent escreveu para ele o estudo “O argumento de Paulo em Romanos 9, 10 e 11”, de que falaremos adiante.
Em 1891 a Assembleia Geral vetou a nomeação de Briggs para a cátedra de teologia bíblica, e em 1893 o suspendeu do ministério por causa das suas posições sobre a crítica bíblica e a inerrância. Vincent tomou o lado do colega. No discurso de abertura do semestre de 1891, Exegesis, defendeu que o intérprete deixe o texto dizer o que diz. Em 1894 publicou dois opúsculos: That Monster, the Higher Critic (“Aquele monstro, o crítico da alta crítica”) e Biblical Inspiration and Christ. No primeiro, protestou contra o julgamento de um erudito por uma assembleia de quinhentos ou seiscentos homens, em grande parte leigos sem preparo para as questões em causa. No segundo, escreveu que “a Bíblia é um meio, e não um fim”, porque o propósito da revelação “não culmina num livro, mas em Cristo”.
Professor emérito a partir de 1916, Marvin R. Vincent morreu em Forest Hills, Nova York, em 18 de agosto de 1922, aos 87 anos.
Pensamento
Vincent pertence ao grupo dos simpatizantes do arminianismo. Criado numa casa metodista e ministro presbiteriano durante quase sessenta anos, nunca se apresentou como arminiano e recusou entrar em partido: no discurso de 1891 disse que “um calvinista não tem razão para se assustar com um texto arminiano, nem um arminiano com um texto calvinista”, e que é “muito mais provável que Calvino e Armínio precisem de revisão do que a Escritura”. Mas, quando chegou aos textos centrais do debate, rejeitou a predestinação incondicional de indivíduos, leu a presciência como base da predestinação e tratou a apostasia como possibilidade real. Nesses pontos, a exegese dele caminha com Jacó Armínio e não com Westminster.
Romanos 9 trata de Israel e dos gentios
O estudo de 1890 abre com uma tese clara: a perversão mais perigosa de Romanos 9 a 11 é tirar desses capítulos “a doutrina da predestinação arbitrária de indivíduos à vida eterna ou à perdição eterna”. Para Vincent, Paulo responde a outra pergunta, a do judeu que se dizia eleito por nascimento: se Jesus é o Messias e Israel o rejeitou, a promessa de Deus falhou? A resposta do apóstolo é que a bênção messiânica nunca dependeu da descendência física, que Deus tem liberdade para rejeitar o incrédulo e chamar os gentios, e que o seu propósito de eleição era mais largo do que Israel pensava. Jacó e Esaú representam dois povos, como em Malaquias 1:2-3, e “a salvação eterna e individual não está em vista no argumento”. Vincent segue aqui de perto Frédéric Godet, que cita várias vezes.
A imagem do oleiro, em Romanos 9:21, ele a lê a partir de Jeremias 18, onde o vaso se estraga por defeito do barro e o oleiro faz dele outro vaso, e onde Deus promete mudar a sentença se a nação se converter. Desse exame saiu uma das frases mais fortes que escreveu: “O oleiro não faz vasos para despedaçá-los. Deus não faz homens para destruí-los. Deus não destina homem algum à morte eterna”. Nos Word Studies, a nota sobre Romanos 9:22 vai no mesmo sentido: os “vasos de ira, preparados para perdição” não foram preparados por Deus para isso, mas estavam maduros para a destruição, enquanto dos vasos de misericórdia Paulo diz expressamente que Deus os preparou de antemão.
Soberania e liberdade
Vincent não negava a soberania de Deus. Pelo contrário, dizia que Paulo a afirma em Romanos 9 do modo mais absoluto, para calar o homem que quer ditar a Deus como cumprir as suas promessas. Mas a mesma Escritura apela à escolha humana, atribui a condenação à obstinação do incrédulo e adverte contra a queda. Se o destino de cada pessoa estivesse fixado por um decreto arbitrário, escreveu, as exortações a operar a própria salvação, a perseverar e a não cair seriam “uma farsa estupenda, uma sátira colossal e cruel”. As duas verdades estão na Bíblia lado a lado; o modo como se ajustam no governo de Deus nos leva para onde não damos pé, e o cristão fica com as duas pela fé, e não pela explicação.
Presciência, eleição em Cristo e perseverança
Nos Word Studies, o comentário a Romanos 8:29 diz que “conhecer de antemão” significa “presciência, não pré-eleição”, e que a predestinação de que Paulo fala é “fundamentada na presciência”, com o alvo de nos conformar à imagem do Filho. Em Efésios 1:4, “a eleição divina é em Cristo, o Redentor”, que é cabeça e representante da “nossa humanidade espiritual”. Em 1 Timóteo 2:4, Deus “quer” a salvação de todos com propósito determinado, e por isso a oração por todos lhe agrada.
Sobre Hebreus 6:4-6, Vincent escreveu que o caso descrito é o de pessoas que “conheceram, amaram e creram” a verdade cristã e experimentaram “a energia salvadora” do Espírito Santo, e que depois caíram na indiferença e na incredulidade: “a possibilidade de uma queda é claramente pressuposta”. É a perseverança condicional que os remonstrantes e John Wesley ensinaram: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé.
Quanto à graça, o comentário a Filipenses 2:12-13 mostra que ele não punha o ser humano no lugar de Deus. Há, disse, “uma obra salvadora que só Deus pode fazer por vocês”, e há também uma obra que os crentes precisam fazer, mas na obra da graça “Deus comunica um novo poder moral para agir”; o querer e o fazer vêm de Deus, e ele fecha a nota com Agostinho: “nós queremos, mas Deus opera em nós o querer”.
A distância do arminianismo clássico
Vincent foi exegeta, e não teólogo sistemático, e o seu vocabulário mostra isso. Nos textos em que trata da eleição, ele não recorre à graça preveniente, que para Armínio é o centro de tudo: a graça que vem antes, liberta a vontade caída e a torna capaz de crer. Ele punha o problema como tensão entre soberania divina e liberdade humana e, no estudo de 1890, citou com aprovação o comentarista alemão Heinrich Meyer, que chamava o homem de “autor da sua salvação ou perdição”. Essa fórmula o arminianismo clássico não aceita, porque para Armínio a vontade caída só se move para o bem quando a graça a liberta, e a fé apenas recebe. Também diverge da declaração de fé deste site em dois pontos: Vincent recusava a inerrância dos autógrafos como teste de ortodoxia, que a declaração afirma, e em 1 Timóteo 2:6 achava que forçar a palavra “resgate” para encontrar nela uma expiação substitutiva era ir longe demais, enquanto o site afirma a satisfação penal substitutiva de Cristo.
O que ficou dele é a convicção de que a Bíblia deve ser lida palavra por palavra antes de ser posta a serviço de um sistema. Foi com essa convicção que ele concluiu, contra a teologia da sua própria confissão, que Deus quer a salvação de todos e não destina ninguém à perdição.
Obras principais
- Amusement: A Force in Christian Training (1867)
- Faith and Character (1880)
- Gates into the Psalm-Country (1883)
- The Expositor in the Pulpit (1884)
- Word Studies in the New Testament, 4 volumes (1887-1900)
- “Paul’s Argument in Romans IX., X., and XI.” (1890)
- That Monster, the Higher Critic (1894)
- Biblical Inspiration and Christ (1894)
- The Age of Hildebrand (1896)
- Commentary on the Epistles to the Philippians and to Philemon (1897)
- A History of the Textual Criticism of the New Testament (1899)
Para aprofundar
- “Vincent, Marvin Richardson”, em The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 12, Christian Classics Ethereal Library.
- “Marvin Richardson Vincent”, em The Reader’s Biographical Encyclopaedia (1922), a partir da Encyclopaedia Britannica.
- Columbia University Libraries, Marvin Richardson Vincent papers, 1912, nota biográfica.
- “Marvin Vincent”, Wikipedia (em inglês).
- David L. Allen, “The Expositor in the Pulpit, Part 1”.
- Marvin R. Vincent, A Sermon on the Assassination of Abraham Lincoln (1865), edição digital da Emory University.
- Marvin R. Vincent, “Paul’s Argument in Romans IX., X., and XI.”, em C. A. Briggs (org.), How Shall We Revise the Westminster Confession of Faith? (Scribner, 1890).
- Marvin R. Vincent, Exegesis (Scribner, 1891).
- Marvin R. Vincent, That Monster, the Higher Critic e Biblical Inspiration and Christ (Randolph, 1894).
- Marvin R. Vincent, Word Studies in the New Testament, vol. 1 (Scribner, 1887), e o texto completo no Bible Hub.
- Marvin R. Vincent, Amusement: A Force in Christian Training (1867), Projeto Gutenberg.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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