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N. Lawrence Olson: O missionário do quadro das dispensações que formou obreiros das Assembleias de Deus
Neste texto
- Vida
- De Kenosha a Springfield
- Lavras e o sul de Minas
- Gráfica e rádio
- O escritor e o tradutor
- O Instituto Bíblico Pentecostal
- Os últimos anos
- Pensamento
- Um pentecostal arminiano
- O plano de Deus em sete dispensações
- O fim da história
- A ênfase pentecostal
- Diferenças com a declaração de fé do site
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Em muitas igrejas Assembleia de Deus do Brasil, um quadro comprido e colorido ficou pendurado na parede ou foi desenrolado diante da classe de novos convertidos. Da esquerda para a direita, ele conta a história inteira: a terra sem forma de Gênesis, a arca de Noé, a chamada de Abraão, as três cruzes do Calvário, as sete igrejas do Apocalipse, os quatro cavaleiros da Grande Tribulação, o trono de Cristo no milênio e, por fim, a eternidade. Num canto há uma nota: “Autor: N. Lawrence Olson, em Lavras, Minas Gerais, Brasil (25/03/1943)”. O autor era um missionário americano, filho de suecos, que chegara ao país cinco anos antes. Numa época em que mais da metade dos brasileiros não sabia ler, ele desenhou a doutrina para que se pudesse vê-la, e depois a levou ao rádio, às revistas da Escola Dominical, às traduções de Myer Pearlman e a um instituto bíblico no Rio de Janeiro.
Vida
De Kenosha a Springfield
Nels Lawrence Olson nasceu em 9 de fevereiro de 1910, em Kenosha, no Wisconsin, Estados Unidos. Os pais, John Victor e Viola Olson, eram suecos, luteranos de origem, convertidos numa igreja batista na América. Em 1917, quando os pentecostais abriram um trabalho em Kenosha, foram a primeira família da cidade a aceitar a mensagem.
Lawrence aceitou a Cristo aos 11 anos, foi batizado nas águas do lago Michigan aos 13 e recebeu o batismo no Espírito Santo aos 16. Pensava em ser engenheiro, mas uma enfermidade no ouvido o levou a reconhecer o chamado para o ministério. Estudou três anos no Central Bible Institute, depois Central Bible College, a escola das Assembleias de Deus americanas em Springfield, no Missouri, onde teve como professores Myer Pearlman, Ralph M. Riggs e Frank M. Boyd.
Em 1931 começou a evangelizar em Appleton, no Wisconsin, e reorganizou a igreja local. Em 28 de dezembro de 1932 casou-se com Alice Olson, colega do instituto e pianista, que tinha o mesmo sobrenome sem ser sua parente. Em 1934 fundou uma igreja em Portage e, em 1937, recebeu o chamado para o Brasil.
Lavras e o sul de Minas
O casal desembarcou no Rio de Janeiro em 7 de setembro de 1938, com os filhos Lawrence Jr. e Carolyn, e foi recebido no porto pelos missionários Gustavo e Alice Bergström, amigos do tempo de estudo. Olson passou um ano em Belo Horizonte aprendendo a língua, e os irmãos começaram a chamá-lo de “irmão Lourenço”.
Em 1939 assumiu a igreja de Lavras, no sul de Minas, aberta três anos antes por crentes militares vindos de Belo Horizonte. Com o obreiro Hilário José Ferreira, evangelizou por anos a cidade e a região, viajando de trem, de carro, de bicicleta ou a pé. O templo de Lavras foi inaugurado em 1942, e o casal abriu na cidade uma Escola Bíblica para Obreiros, que reunia pastores do sul de Minas, do Triângulo Mineiro e de outros estados. No Brasil nasceram mais quatro filhos: Beverly, Elizabeth, Paulo e Ester.
Em 1955, na revista The Pentecostal Evangel, das Assembleias de Deus americanas, contou a conversão de João Dionísio, ferroviário que aceitou a Cristo depois de receber um folheto de um condutor crente e passou a congregar em Ribeirão Vermelho.
Gráfica e rádio
Em 1947 Olson passou cerca de um ano no Rio de Janeiro, ajudando a reorganizar a Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), onde montou as impressoras chegadas dos Estados Unidos. No mesmo ano começou a transmitir cultos ao vivo pela Rádio Cultura de Lavras, apesar dos irmãos que diziam que ouvir rádio era pecado.
Em 2 de janeiro de 1955 estreou na Rádio Tamoio, no Rio de Janeiro, o programa A Voz das Assembleias de Deus, lançado com o conselho da CPAD, pastores como Paulo Leivas Macalão e o jornalista Emílio Conde, e depois transmitido por várias outras emissoras. Em 1961 Olson chamava o rádio de “braço aéreo” do trabalho evangelístico e contava, entre centenas de cartas, a de um rapaz de Volta Redonda que se ajoelhou junto ao aparelho e voltou para o Senhor ao ouvir uma mensagem sobre o filho pródigo. Em 1956 a família se mudou para o Rio.
O escritor e o tradutor
“Escrever foi uma das minhas preocupações quando cheguei ao Brasil”, disse Olson, porque a palavra falada se perde e a página impressa fica. Escreveu por muitos anos no Mensageiro da Paz e em A Seara e, a partir de 1953, comentou as Lições Bíblicas da Escola Dominical por cerca de trinta anos. Foi membro do Conselho de Doutrina da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) e fundador e membro vitalício do Conselho Administrativo da CPAD.
O trabalho de maior alcance foi a tradução dos livros do seu antigo professor. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia, de Pearlman, vendeu mais de cem mil exemplares e foi por muito tempo a teologia sistemática dos obreiros pentecostais brasileiros. Através da Bíblia livro por livro saiu em segunda edição em 1964, com a revisão de Antonio Gilberto e de Emílio Conde e uma nota biográfica em que Olson lembra o professor judeu convertido, “dotado de rara capacidade magisterial”. O historiador Daniel dos Santos Paixão põe Olson ao lado de Eurico Bergstén entre os grandes moldadores da teologia pentecostal no Brasil.
O Instituto Bíblico Pentecostal
Muitos na Assembleia de Deus desconfiavam dos institutos bíblicos, chamados de “fábricas de pastores”, e preferiam escolas bíblicas curtas. Olson manteve essas escolas: em 1961 contou que a de Lavras tinha reunido 69 alunos de vários estados, com o sul-africano David du Plessis como pregador principal. Mas queria também uma escola permanente. Depois do Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, aberto em Pindamonhangaba em 1959, fundou em 1961, no Rio de Janeiro, o Instituto Bíblico Pentecostal (IBP), com Antonio Gilberto e o pastor Gilberto Malafaia entre os fundadores. Dirigiu a escola por cerca de trinta anos. Em 1993 o instituto passou a fazer parte do ministério de Bernhard Johnson.
Em 25 de junho de 1961, Olson foi um dos oradores da festa dos cinquenta anos das Assembleias de Deus no Maracanãzinho, diante de quarenta mil pessoas, em que Daniel Berg recebeu uma medalha de ouro e Gunnar Vingren foi homenageado na pessoa do filho. Em 1966 apresentou o texto “Ênfase do Movimento Pentecostal” num simpósio sobre o Espírito Santo promovido em São Paulo pela Associação de Seminários Teológicos Evangélicos. Foi intérprete na 8ª Conferência Mundial Pentecostal, no Rio de Janeiro, em 1967, e em 1973 liderou uma delegação numa viagem por onze países, até a 10ª Conferência, em Seul.
Os últimos anos
Em 1989, depois de meio século no Brasil, Lawrence e Alice, ambos com cerca de oitenta anos, voltaram para Springfield a pedido dos filhos que moravam nos Estados Unidos. Olson morreu ali em 29 de março de 1993 e ali foi sepultado. Alice morreu em 1995.
Pensamento
Um pentecostal arminiano
Olson é um pentecostal arminiano. Formou-se nas Assembleias de Deus americanas, que ensinam que Cristo morreu por todos e que o crente pode abandonar a fé, e serviu no Conselho de Doutrina da igreja brasileira, da mesma linha. O manual que traduziu para gerações de obreiros, o de Pearlman, expõe com respeito a posição de Calvino e defende a arminiana sobre a segurança do crente. No próprio livro, Olson descreve a história da salvação como a história de criaturas com escolha real: “Deus dotou Suas criaturas de livre arbítrio”, e por isso a vontade delas é provada, para se ver se estará de acordo com Deus ou em desobediência a ele (O Plano Divino através dos Séculos).
A frase fala da criatura como Deus a fez. Na tradição de Jacó Armínio, a vontade do ser humano caído não é livre por si mesma para o bem; ela é libertada pela graça preveniente, a ação do Espírito que vem antes de qualquer resposta, convence do pecado e torna a pessoa capaz de crer, sem forçá-la. Olson não punha a salvação na conta do esforço humano: em 1966 escreveu que “as obras não salvam” e que “a salvação é pela graça por meio da fé”. Sobre a perseverança, veja perseverança e apostasia na teologia arminiana.
O dispensacionalismo nasceu entre os Irmãos de Plymouth de John Nelson Darby e se espalhou pela Bíblia de Scofield, em ambientes de soteriologia calvinista. Olson o aprendeu com professores das Assembleias de Deus e o levou ao Brasil dentro de uma teologia arminiana.
O plano de Deus em sete dispensações
O Plano Divino através dos Séculos explica o quadro de 1943. Na apresentação, Olson cita as fontes: os estudos de Riggs e de Boyd sobre as dispensações, as Bíblias anotadas de Finis Dake e de Scofield e Dispensational Truth, de Clarence Larkin, cujos gráficos estão por trás do desenho. Com Scofield, ele define a dispensação como um período em que o homem é provado quanto à obediência a uma revelação da vontade de Deus. São sete: Inocência, Consciência, Governo humano, Patriarcal, Lei, Graça e Milênio. Olson adverte que elas não dividem a Bíblia em compartimentos fechados, porque se sobrepõem e algumas continuam de pé no trato de Deus com os homens.
A história começa antes de Adão. Olson segue a teoria do intervalo: entre Gênesis 1:1 e Gênesis 1:2 cabem “todas as eras geológicas” da geologia moderna, e os seis dias seriam uma reconstrução da terra. Depois vêm os períodos bíblicos, até a dispensação da Graça, que é o tempo da Igreja, representado no quadro pelas sete igrejas do Apocalipse lidas como sete épocas da história cristã.
O livro passou de cem mil exemplares e chegou à 25ª edição pela CPAD em 2013. O quadro, que no começo vinha encartado, passou a ser vendido à parte, e havia quem não tivesse o livro mas guardasse o desenho em casa. Para Paixão, o livro popularizou no Brasil o dispensacionalismo adotado pela maioria dos obreiros assembleianos.
O fim da história
A parte mais lida do livro é a escatologia, pré-milenista e pré-tribulacionista: a Igreja é arrebatada antes da Grande Tribulação, um período de sete anos de “juízo ou ira sobre um mundo ímpio, a ‘igreja’ apóstata e Israel em rebeldia”. Depois Cristo volta à terra onde viveu 33 anos, “reinará pessoalmente sobre a mesma por um espaço de 1000 anos” e traz consigo a Igreja arrebatada.
No meio disso está o Tribunal de Cristo (2 Coríntios 5:10), em que os crentes prestam contas das obras e recebem coroas. Olson usa o tema como exortação: muitos crentes ficarão “cabisbaixos perante esse tribunal”, lamentando ter sido preguiçosos e negligentes em obedecer às ordens do Mestre. Em 1966 ele escreveu que o estudo da profecia serve para a purificação do crente, e não para especular sobre datas.
A ênfase pentecostal
O texto de 1966 resume o que Olson ensinava como pentecostal. O movimento é “fundamentalista quanto às doutrinas” e tem uma régua: “para os pentecostais a pedra de toque é a Bíblia”. A marca própria é o batismo no Espírito Santo como experiência pessoal distinta da conversão, com o falar em outras línguas como evidência inicial (Atos 2:4). A santidade se apoia em Mateus 5:48 e em Gálatas 5 e pede distância da “aparência do mal”. Olson via o seu tempo como a época do Espírito, num mundo em que “a luta se dá entre Karl Marx e Jesus Cristo”, e defendia que todo crente fosse ganhador de almas, com o rádio e a televisão como meios. Diante da crítica de que o pentecostalismo atraía sobretudo operários e trabalhadores rurais, respondia com Lucas 4:18 e 1 Coríntios 1:26-28: o evangelho é anunciado aos pobres, e pobres e ricos têm o mesmo valor diante de Deus.
Diferenças com a declaração de fé do site
Na salvação pela graça mediante a fé, na expiação por todos e na perseverança condicional, a convergência com a declaração de fé do site é grande. A maior diferença está nas últimas coisas: a declaração é amilenista e lê os mil anos de Apocalipse 20 como o tempo atual do reinado de Cristo, enquanto Olson ensinava o arrebatamento antes da tribulação e um reino terreno de mil anos (veja A segunda vinda de Cristo e o milênio). A outra está na experiência posterior à conversão: Olson ensinava o batismo no Espírito com línguas, e a declaração, na linha de John Wesley, afirma a inteira santificação, obra da graça recebida pela fé, que purifica o coração e o enche de amor perfeito.
Obras principais
- O Plano Divino através dos Séculos, quadro (Lavras, 1943) e livro (CPAD; 25ª edição, 2013).
- O Servo de Jeová (1951); O Batismo Bíblico e a Trindade (1956); O Alinhamento dos Planetas (1980).
- A Bomba Atômica: precursora do Armagedom; Enoque: o arauto da vinda de Cristo; Profecias Bíblicas; Mil Anos de Paz.
- Comentários das Lições Bíblicas da Escola Dominical (CPAD, a partir de 1953).
- “Ênfase do Movimento Pentecostal” (São Paulo, 1966).
- Traduções de Myer Pearlman: Conhecendo as Doutrinas da Bíblia e Através da Bíblia livro por livro (2ª edição, Rio de Janeiro, 1964).
Livros em português
- O Plano Divino através dos Séculos (CPAD). Ver na Amazon
Para aprofundar
- Marcos Teixeira, “Nels Lawrence Olson”, Poder da Ressurreição, com base na revista Obreiro (CPAD, junho-julho de 1993 e encarte especial de 2001), no Mensageiro da Paz e em A Seara.
- Jacó Rodrigues Santiago, “Missionário Nels Lawrence Olson”, 8 de fevereiro de 2014.
- Eric de Oliveira Martins, Cultura visual pentecostal: presença e uso do quadro “O Plano Divino através dos Séculos” numa igreja Assembleia de Deus, dissertação de mestrado em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo, 2019.
- Daniel dos Santos Paixão, “A missão sueca na construção da identidade assembleiana no Brasil”, Azusa: Revista de Estudos Pentecostais, v. 2, n. 1, 2011.
- Assembleia de Deus em Lavras, “Nossa história”.
- N. Lawrence Olson, “Saved Through a Tract”, The Pentecostal Evangel, 12 de junho de 1955.
- Lawrence Olson, “Evangelizing Brazil”, The Pentecostal Evangel, 29 de janeiro de 1961.
- N. Lawrence Olson, relato dos cinquenta anos do pentecostalismo no Brasil, The Pentecostal Evangel, 24 de setembro de 1961, p. 6-7.
- N. Lawrence Olson, “Traços biográficos do autor” e “Uma palavra”, em Myer Pearlman, Através da Bíblia livro por livro, 2ª ed., Rio de Janeiro, 1964.
- Lawrence Olson, “Ênfase do Movimento Pentecostal” (1966), transcrito no grupo Agência Pés Formosos, 2011.
- N. Lawrence Olson, O Plano Divino através dos Séculos, 25ª ed. (Rio de Janeiro: CPAD, 2013).
- Lista das edições das Lições Bíblicas, com os comentaristas de cada trimestre.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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