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Leonard Ravenhill: O alfaiate de Leeds que chamou a igreja de volta à oração

Diego Gonçalves13 min de leitura2.694 palavras

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Neste texto

Em 1989, numa casa perto de Lindale, no leste do Texas, um grupo de pastores e evangelistas se reunia para orar em torno de um inglês de 82 anos, de cabelo branco, que andava devagar e às vezes precisava de ajuda para se levantar da cadeira. Alguns faziam quatro horas de estrada, ida e volta, para estar ali. Quando ele falava, a fragilidade sumia. David Bercot, que frequentou o encontro desde aquele ano até o último, no verão de 1994, contava que nunca saiu de lá sem ter sido confrontado. O idoso era Leonard Ravenhill, autor de Why Revival Tarries (1959), o livro que saiu em português como Por que tarda o pleno avivamento? e que fez de uma pergunta incômoda o título da vida inteira dele.

Retrato de Leonard Ravenhill em 1988
Leonard Ravenhill em dezembro de 1988. Foto de Roland Heddins, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Um lar metodista em Leeds

Leonard Ravenhill nasceu em 18 de junho de 1907, em Leeds, no condado de Yorkshire, no norte da Inglaterra. Cresceu numa casa metodista. O pai, que não era cristão quando o menino era pequeno, passou por uma conversão profunda, e foi a mudança no pai que levou o filho a Cristo. Leonard viu no pai uma realidade que ele mesmo não tinha e se converteu aos 15 anos. Logo começou a ter uma vida de oração regular e a falar de Jesus às pessoas do bairro. O filho David conta que o pai pregou pela primeira vez aos dezesseis anos, para uma comunidade cigana.

Ravenhill estudou só a escola elementar e foi trabalhar na alfaiataria, como aprendiz de cortador nas oficinas de Montague Burton, uma das grandes confecções de Leeds. Frequentava a Holiness Church de Leeds, uma congregação do movimento de santidade. Em 1929, numa visita do pregador Maynard James, ele testemunhou ter recebido a “segunda bênção”, o nome que esse movimento dava à inteira santificação.

O Cliff College e os trekkers

Por volta dos vinte anos, ainda na alfaiataria, Ravenhill sentiu o chamado para o ministério e foi estudar no Cliff College, em Derbyshire, escola metodista de formação de leigos dirigida por Samuel Chadwick, um dos pregadores mais conhecidos da Inglaterra. Lá leu dois livros que mudaram o rumo da vida dele: a biografia de David Brainerd, o missionário dos índios da Nova Inglaterra no século XVIII, e The Hidden Life of Prayer, de D. M. McIntyre.

Chadwick sonhava levar o evangelho às massas que não entravam em igreja nenhuma, e o Cliff College mandava equipes de rapazes, os trekkers, para atravessar o país a pé. Empurravam uma carroça com as mochilas e uma barraca grande, chegavam a uma cidade, armavam a tenda e ficavam duas ou três semanas pregando, às vezes dois ou três meses. Ravenhill foi um dos dez homens que percorreram assim o norte da Inglaterra.

Pastor e evangelista na Inglaterra

Em 1931 Ravenhill tornou-se pastor auxiliar de uma igreja nova em Bolton, perto de Manchester. No verão de 1932, os trekkers da International Holiness Mission, liderados por Maynard James, fizeram uma campanha de “avivamento e cura” numa tenda no alto da West Street, em Oldham. Milhares foram à tenda, e no fim cerca de setecentos crentes alugaram um salão sobre uma loja de tecidos da Manchester Street para continuar a obra. Ravenhill juntou-se a James em Oldham e assumiu a congregação quando o amigo saiu para formar uma equipe evangelística. Ficou na memória da igreja como pastor cuidadoso.

Em 1934, Maynard James, Jack Ford, Leonard Ravenhill e Clifford Filer, quatro jovens evangelistas que tinham trabalhado sob a International Holiness Mission, fundaram a Calvary Holiness Church para cuidar dos convertidos das suas campanhas. A separação teve a ver com uma tensão sobre o falar em línguas. Em 1935 saiu o primeiro número da revista da nova igreja, The Flame, e Oldham, que entrou na Calvary Holiness Church naquele ano, virou centro de convenções. Ravenhill deu ao grupo o ímpeto dos primeiros anos, mas tinha pouco interesse por organização.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as suas campanhas atraíram multidões, e muitos convertidos seguiram para o ministério e para as missões. Em 1939 ele se casou com Martha Wilson, enfermeira irlandesa, com quem teve três filhos. Quando a Calvary Holiness Church se uniu à Igreja do Nazareno, em 1955, Ravenhill preferiu ficar de fora.

Trinta e seis anos na América

Em 1958, depois de 28 anos de ministério nas Ilhas Britânicas, Ravenhill mudou-se com a família para os Estados Unidos. Foi amigo próximo de A. W. Tozer, pastor da Southside Alliance Church, em Chicago, e os dois influenciaram um ao outro. No ano seguinte, a Bethany Fellowship, de Minneapolis, publicou Why Revival Tarries. Os capítulos eram, em boa parte, artigos que ele tinha escrito para o Herald of His Coming, jornal de avivamento de grande circulação, e para a Alliance Witness. No prefácio, Ravenhill avisava que todo o lucro do livro iria para as missões no exterior. Tozer escreveu a apresentação. O livro foi reeditado muitas vezes e passou do meio milhão de exemplares, em várias línguas.

Nos anos 1960, a família viajou pelo país fazendo campanhas em tendas e reuniões de avivamento. Ravenhill trabalhou com a editora Bethany House, pela qual saíram os seus livros principais, e pregou também em igrejas batistas.

O que mais impressionava quem o conhecia era o tempo que ele passava orando. Mack Tomlinson, amigo da família desde 1977 e autor da biografia In Light of Eternity, calcula seis a oito horas diárias de oração particular, além de várias horas de leitura da Bíblia. Ravenhill acordava por volta da meia-noite e ficava no escritório até as quatro, cinco ou seis da manhã.

Lindale

Já idoso, Ravenhill mudou-se para perto de Lindale, no leste do Texas, a pouca distância do rancho da Last Days Ministries, a missão do cantor Keith Green e da esposa, Melody. Deu aulas ali e foi mentor de Keith Green. David Wilkerson também morava na região, e a revista da missão publicava textos dos dois. Na sua casa, Ravenhill dirigia a reunião de oração semanal, depois mensal, frequentada sobretudo por pastores.

Leonard Ravenhill morreu em casa, em 27 de novembro de 1994, aos 87 anos, e foi sepultado no cemitério de Garden Valley, no Texas. A lápide traz uma pergunta que ele repetia: “As coisas pelas quais você vive valem a morte de Cristo?”. Martha morreu em 2001.

Pensamento

Um metodista do século XVIII nascido no século XX

Ravenhill é um wesleyano do movimento de santidade, a corrente que, no século XIX e no começo do XX, retomou o ensino de John Wesley sobre a inteira santificação. Todo o percurso dele está dentro dessa tradição: o lar metodista de Leeds, o Cliff College de Chadwick, a International Holiness Mission e a Calvary Holiness Church, que acabou na Igreja do Nazareno. O biógrafo Mack Tomlinson o chamou de “um metodista do século XVIII nascido no século XX”, e a resenha de Peter Culver o descreve como metodista wesleyano tradicional, que não defendia a perfeição sem pecado.

Ravenhill não escreveu teologia sistemática; a doutrina dele está nos sermões e nos livros. Num artigo sobre Wesley publicado em 1964 na revista Dayspring, da Bethany House, ele resume a conversão de Aldersgate numa frase: o coração de Wesley “foi estranhamente aquecido, e por causa disso o mundo está mais quente desde então”. No mesmo texto, apresenta Wesley como pregador de uma santidade de “segunda bênção” e cita a carta em que Wesley diz que o crescimento na santificação é gradual, mas que a libertação plena do pecado “é sempre instantânea”.

Santidade: primeiro pureza, depois poder

O tema que mais volta na pregação de Ravenhill é a santidade. Num sermão chamado Christ Came to Make Men Holy (Cristo veio para fazer os homens santos), ele argumenta que Jesus não veio só para perdoar nem só para livrar do inferno, mas para formar um caráter santo. Define a santidade como a relação certa com Deus, e o caráter como a relação certa com o mundo. Reconhece que o crente não fica sem falhas, mas insiste que ele pode viver irrepreensível pela habitação do Espírito: “o cristianismo não é uma religião de pecar”. Sobre o batismo com o Espírito, faz uma observação típica do movimento de santidade: em Atos, a ênfase “não era poder, era pureza”.

Essa é a doutrina wesleyana da inteira santificação, que o movimento de santidade chamava de segunda bênção: depois do novo nascimento, Deus, numa obra recebida pela fé, purifica o coração do crente e o enche de amor perfeito. Em Why Revival Tarries Ravenhill aplica esse esquema ao próprio Wesley: em Aldersgate ele “nasceu do Espírito; mais tarde foi cheio do Espírito”. E, ao pedir que os cristãos aprendam a odiar o pecado, escreve: “Ouvimos muito (embora não a metade do que devíamos) sobre o amor perfeito”. “Amor perfeito” é a expressão do próprio Wesley para essa obra. A declaração de fé deste site afirma a mesma doutrina, como obra da graça posterior à regeneração, que não significa ausência de erros nem de limitações (ver o estudo sobre a santificação).

Novo nascimento, arrependimento e a soberania que não dispensa a oração

Na salvação, Ravenhill pregava o que pregavam os metodistas da sua infância: arrependimento, fé no sangue de Cristo e novo nascimento pelo Espírito. Numa das suas pregações sobre o tribunal de Cristo, ele responde a quem pergunta se Deus pode perdoar todos os pecados: pode, se a pessoa se arrepender, recorrer ao sangue de Cristo e pedir misericórdia. Para ele, muita gente nos bancos das igrejas nunca tinha nascido de novo. Tomlinson lembra que Ravenhill via muitos membros de igreja batizados e filiados que não tinham passado pela regeneração operada pelo Espírito Santo, e Bercot o ouviu dizer que duvidava que mais de dois por cento dos que se diziam cristãos nos Estados Unidos tivessem nascido de novo.

Ravenhill também recusava o uso da soberania de Deus como desculpa para a preguiça espiritual. No capítulo 16 de Why Revival Tarries, que tem por título o grito de Raquel em Gênesis 30:1, “Dá-me filhos, senão morrerei”, ele critica quem, “na sua sonolência”, recorre à soberania de Deus e diz: “Quando ele se mover, o avivamento virá”. Chama isso de meia-verdade. O avivamento, argumenta, nasce de dores de parto em oração, como um filho nasce depois de meses de gestação.

Nesse ponto ele cita Charles Finney, para quem Deus é “um avivamento represado”, e aproveita dele a urgência e a confiança de que Deus responde à oração do seu povo. A teologia de Finney, porém, negava a incapacidade herdada do pecado original e se afasta do arminianismo clássico. A de Ravenhill não vai por esse caminho: para ele o pecador precisa ser regenerado pelo Espírito e perdoado pelo sangue de Cristo, e a oração da igreja é o meio que o próprio Deus escolheu para agir. É a graça preveniente vista do lado de quem intercede.

A oração como o tamanho do homem

A frase que Ravenhill mais repetia vem de um sermão sobre Elias: “Não creio que homem algum seja maior do que a sua vida de oração”, e nenhuma igreja seria maior do que a sua reunião de oração. Elias, lembrava ele, fez milagres espantosos, mas Tiago 5:17 resume a vida dele em duas palavras: “orou”. Em Why Revival Tarries a ideia aparece de vários modos. O capítulo 2 traz o aforismo mais citado dele: “O segredo de orar é orar em segredo”, eco de Mateus 6:6 (ver a oração secreta). O capítulo 6 dá a resposta à pergunta do título: “O avivamento tarda porque nos falta urgência na oração”. E o capítulo 1 trata da unção do pregador, que para ele não se aprende em sala de aula e só vem pela oração.

A escola de oração de Ravenhill tem nomes conhecidos. Além de Brainerd e McIntyre, ele organizou A Treasury of Prayer (1961), uma seleção dos escritos de E. M. Bounds sobre oração. Também chamou de enciclopédia o livro Mighty Prevailing Prayer (1990), do missionário metodista livre Wesley Duewel.

Profetas, e não animadores

A outra marca de Ravenhill é a crítica à igreja do seu tempo. No capítulo 4 de Why Revival Tarries, ele contrasta o simples pregador com o profeta: o primeiro pode ajudar qualquer um sem ferir ninguém, o segundo mexe com todos e enfurece alguém. Nos Estados Unidos, ele desconfiava do evangelismo centrado no homem e das estatísticas de decisões. “O entretenimento é o substituto que o diabo oferece no lugar da alegria”, dizia, e a igreja que precisa de diversão é a que perdeu a alegria na casa de Deus.

Tozer, na apresentação do livro, chamou o amigo de “especialista religioso”, enviado para confrontar falsos profetas e líderes descuidados, e disse que diante de Ravenhill ninguém fica neutro: ou se ama ou se odeia. Fora do púlpito, quem conviveu com ele o descreve como homem manso e de vida exemplar.

Obras principais

  • Why Revival Tarries (1959), com apresentação de A. W. Tozer
  • Meat for Men (1961)
  • A Treasury of Prayer (1961), seleção de textos de E. M. Bounds
  • Revival Praying (1962)
  • Tried and Transfigured (1963)
  • Sodom Had No Bible (1971)
  • America Is Too Young to Die (1979)
  • Revival, God’s Way (1983)
  • Heart Breathings: In Poetry and Prose (1995, póstumo)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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