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Michael J. Gorman: O leigo metodista que leu Paulo pela forma da cruz

Diego Gonçalves13 min de leitura2.600 palavras

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Neste texto

Em 8 de novembro de 2012, o Seminário e Universidade St. Mary’s, em Baltimore, a casa de formação de padres católicos mais antiga dos Estados Unidos, ouviu a aula inaugural de uma cátedra nova, com o nome do padre sulpiciano Raymond E. Brown (1928-1998), um dos grandes biblistas católicos do século XX. O primeiro titular era um leigo da Igreja Metodista Unida. Michael J. Gorman deu à aula um título que ecoava o livro mais conhecido de Brown, The Death of the Messiah (A morte do Messias): “A morte do Messias: teologia, espiritualidade, política”. As três palavras resumem o trabalho de uma vida. Para Gorman, a cruz de Cristo mostra quem Deus é, dá forma à vida de quem crê e cria um povo que vive de outro modo no meio do mundo.

Vida

Maryland, Gordon e Princeton

Michael J. Gorman nasceu em 3 de novembro de 1955 e cresceu no condado de Anne Arundel, em Maryland. Estudou no Gordon College, faculdade evangélica de Wenham, em Massachusetts, e se formou em 1977 em francês, com a láurea máxima e estudos complementares em Novo Testamento, grego e educação.

No Seminário Teológico de Princeton concluiu o mestrado em divindade em 1982. Foi monitor de Novo Testamento sob a supervisão de Bruce Metzger em 1983 e 1984, ensinou grego e conduziu, de 1983 a 1987, um seminário de exegese e pregação para candidatos à ordenação presbiteriana. O doutorado em Novo Testamento saiu em 1989, sob a orientação de Paul W. Meyer e Martinus C. de Boer. A tese estudava os pronomes reflexivos nas cartas de Paulo (“a mim mesmo”, “a si mesmo”) e os comparava com os Discursos do estoico Epicteto. Por trás da gramática havia uma pergunta teológica: como Paulo pensa o eu diante do Senhor e diante do outro. A pesquisa virou livro em 2023.

O primeiro livro: o aborto e a igreja antiga

Ainda no seminário, Gorman publicou Abortion and the Early Church (O aborto e a igreja primitiva, 1982). O livro mostrava, pelos textos cristãos, judeus e pagãos do mundo greco-romano, que os cristãos dos primeiros séculos recusaram o aborto e o infanticídio, práticas comuns em Roma. No epílogo, ele ligou essa recusa à aversão da igreja antiga a todo derramamento de sangue, incluindo a guerra e a pena de morte. Francis Schaeffer resenhou o livro na Christianity Today e gastou mais linhas atacando o epílogo, por suspeitar dele uma forma de pacifismo, do que aprovando a tese. Gorman manteve as duas convicções juntas: em 1989 falou sobre a “ética consistente da vida” num sínodo presbiteriano e, em 2003, publicou com Ann Loar Brooks Holy Abortion? (Aborto santo?), crítica teológica à coalizão de grupos religiosos que defende o direito ao aborto nos Estados Unidos. Tratamos do tema em O que a Bíblia diz sobre o aborto.

Trinta e cinco anos em Baltimore

Em 1991, depois de quatro anos no Conselho para a Religião nas Escolas Independentes, em Washington, Gorman começou a ensinar no Instituto Ecumênico de Teologia do St. Mary’s, a escola de pós-graduação que recebe alunos de todas as igrejas, e em 1993 passou a ensinar também os seminaristas católicos. Foi deão do Instituto Ecumênico de 1995 a 2012, depois de um ano como deão interino, e professor de Sagrada Escritura de 2002 a 2012, quando assumiu a cátedra Raymond E. Brown. Por mais de três décadas, um metodista formou padres, diáconos e leigos de muitas tradições. De 2013 a 2017 ensinou também no curso de formação da Igreja Metodista Unida para pastores locais.

Em 2009 foi professor visitante na Duke Divinity School e no Wesley Theological Seminary e ensinou no Grand Séminaire de Bertoua, nos Camarões; de 2016 a 2018 orientou doutorandos, em francês, na Universidade Shalom de Bunia, na República Democrática do Congo. Em 2016 fez as Didsbury Lectures no Nazarene Theological College, em Manchester, que viraram o livro Abide and Go (2018). Em março de 2020 recebeu um livro de homenagem, Cruciform Scripture (Escritura cruciforme), organizado por Nijay K. Gupta, Andy Johnson, Christopher W. Skinner e Drew J. Strait e publicado em 2021.

Gorman é casado com Nancy, com quem tem três filhos e oito netos. Há mais de trinta anos os dois recebem em casa um grupo ecumênico de estudo bíblico e oração. O filho mais velho, o reverendo Mark Gorman, é pastor e teólogo e ensina no mesmo Instituto Ecumênico.

A obra cresceu em torno de Paulo. Cruciformity (Cruciformidade, 2001) lançou a ideia que organiza tudo o que ele escreveu depois. Elements of Biblical Exegesis (2001), manual de exegese em sete etapas, saiu no Brasil como Introdução à exegese bíblica. Apostle of the Crucified Lord (2004), introdução teológica a Paulo, foi chamado por Craig Blomberg de talvez o melhor livro-texto disponível sobre o apóstolo.

Pensamento

Um wesleyano num seminário católico

Gorman é wesleyano. É membro leigo ativo da Igreja Metodista Unida e escreveu a introdução e as notas do Evangelho de João na Wesley Study Bible (2009). Contribuiu com um ensaio sobre a santidade em Paulo para um volume organizado por dois estudiosos nazarenos, Kent Brower e Andy Johnson (2007). Ele escreve como exegeta, e não como teólogo sistemático, mas a marca wesleyana aparece nos temas a que volta sempre: a santidade como transformação real, a graça que age por dentro, o alcance universal da salvação e a fé que se mostra no amor. Em Romanos 9 a 11, lê a predestinação como “testemunho da misericórdia e da fidelidade de Deus” e insiste que a salvação está aberta a todos os que creem que Deus ressuscitou Jesus e confessam o seu senhorio, judeus e gentios (Romans, 2022). É uma leitura afinada com a eleição condicional em Cristo, e não com um decreto que escolhe uns e deixa outros de fora.

Cruciformidade

A palavra junta “cruciforme” (em forma de cruz) e “conformidade”. Gorman a define como “conformidade a Jesus, o Messias crucificado” (“Paul and the Cruciform Way of God in Christ”, 2013). Quem confessa o Messias crucificado está “nele”, pela fé e pelo batismo, e ele, pelo Espírito, está em quem crê; a cruz passa a ser a fonte e a forma da vida cristã. O texto-chave é Filipenses 2:6-11, a “história-mestra” de Paulo (ver o nosso estudo de Filipenses 2:5-11). O poema tem uma estrutura que se repete nas cartas: embora tivesse um status, Cristo não o usou em proveito próprio, mas se esvaziou e se entregou. Paulo aplica o padrão a si mesmo, quando abre mão dos seus direitos de apóstolo em 1 Coríntios 9, e às igrejas, quando pede: “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” (Filipenses 2:4).

Gorman distingue isso de uma simples ética de imitação. Paulo fala da ação do Cristo vivo que habita no crente, que é ao mesmo tempo obra do Espírito; a vida cristã repete o caminho de Cristo “pelo poder do Espírito”. A cruciformidade depende da graça do começo ao fim, e Gálatas 2:20 é a sua fórmula: “já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”. Como alguns leitores entenderam que ele valorizava a cruz à custa da ressurreição, Gorman passou a falar de “cruciformidade ressurrecional”: quem dá forma de cruz à vida do crente é o Jesus ressuscitado.

O Deus cruciforme e a theosis

Em Inhabiting the Cruciform God (2009), Gorman deu um passo além. Em Filipenses 2:6, Cristo não se aproveitou da igualdade com Deus embora estivesse na forma de Deus, mas também porque estava na forma de Deus. O esvaziamento de Cristo (a kénosis) mostra como Deus é: os deuses pagãos usavam o poder em proveito próprio, e o Deus de Israel se revela na entrega de si. Então conformar-se ao Crucificado é conformar-se a Deus. Gorman chama isso de theosis, palavra dos pais gregos para a participação do crente, pela graça, na vida de Deus, sem deixar de ser criatura. Num livreto de 2018 resumiu: “a cruciformidade é também teoformidade, ou theosis; isto é, a existência em forma de cruz é existência em forma de Deus”.

A ponte com a tradição wesleyana é a santidade. No ensaio de 2007, Gorman reescreveu Levítico 19:2 (“Santos sereis, porque eu, o Senhor, vosso Deus, sou santo”) como lema de Paulo: “Sereis cruciformes, porque eu sou cruciforme”. John Wesley leu os pais gregos mais do que os protestantes do seu tempo e entendia a salvação como cura e renovação da imagem de Deus, como mostrou Randy Maddox. A theosis de Gorman fala a mesma língua. A nossa declaração de fé acrescenta a inteira santificação, obra da graça posterior à regeneração e recebida pela fé, que enche o coração de amor perfeito (ver o capítulo sobre a santificação).

Justificação por cocrucificação

A tese mais discutida de Gorman trata da justificação. Lendo Gálatas 2:15-21 e Romanos 6, ele concluiu que, para Paulo, “a justificação é por cocrucificação”, isto é, pela participação na morte e na vida de Cristo (Inhabiting the Cruciform God). Ele não nega o lado jurídico: o veredito de Deus existe, mas é uma palavra que faz o que diz e cria a realidade nova que declara. Em Romans (2022), afirma que a participação em Cristo é o princípio que guia a carta e que justificar não é só perdoar ou declarar justo, mas tornar justo.

Aqui há uma diferença com a nossa declaração de fé. Com Armínio e Wesley, o site afirma que Deus declara justo o pecador que crê, por causa de Cristo, e distingue o que Deus faz por nós (perdoar e justificar) do que faz em nós (o novo nascimento e a santificação), dois dons que chegam juntos, pela fé (ver A justificação pela fé). Gorman funde as duas coisas na participação. O que os aproxima é a recusa de uma fé que não muda a vida: a fé que justifica é a mesma “fé que atua pelo amor” (Gálatas 5:6), tão cara a Wesley.

A nova aliança e a cruz

Em The Death of the Messiah and the Birth of the New Covenant (2014), Gorman notou que nenhuma das teorias da expiação se chama “aliança”, e achou isso “surpreendente”. Para ele, a cruz teve como alvo criar o povo da nova aliança prometido em Jeremias 31:31-34 e em Ezequiel 36 e 37: um povo perdoado, liberto, santificado, cheio do Espírito, enviado em missão e marcado pela paz. Ele não quis tomar o lugar das teorias clássicas, mas lembrar a finalidade delas. A teologia sistemática deste site põe a substituição penal no centro da cruz (ver o capítulo sobre a expiação); Gorman não a nega, mas a coloca dentro desse quadro maior.

Tornar-se o evangelho

Em Becoming the Gospel (2015), Gorman lê Paulo como convite à igreja para encarnar aquilo que anuncia; no livreto de 2018, disse que a igreja é chamada “não só a crer no evangelho, mas também a tornar-se o evangelho”. Em Abide and Go, mostrou que “permanecer” e “ir”, as duas palavras de João 15, formam uma só espiritualidade. A mesma lógica explica a ênfase na não violência: o perseguidor Saulo, convertido ao Messias crucificado, virou apóstolo da paz, e a cocrucificação exclui a violência na vida cristã.

O Apocalipse lido com responsabilidade

Gorman combateu por anos a leitura sensacionalista do Apocalipse, e em 2011 publicou Reading Revelation Responsibly (Lendo Apocalipse com responsabilidade). Num artigo de 2014 escreveu que muitos leem o livro “como se fosse um vídeo antecipado de acontecimentos futuros”, leitura condenada ao fracasso porque ignora o gênero, que é apocalíptico, profético e epistolar (“Spirituality and the Book of Revelation”). O Apocalipse forma a igreja pelo culto a Deus e ao Cordeiro, chama-a a sair da Babilônia, que é deixar os valores do império e não o mundo, e a dar um testemunho fiel e não violento. Termina em esperança, com a cura das nações, e isso não é universalismo: os que não estão escritos no livro da vida ficam fora da nova criação. A leitura simbólica combina com a escatologia deste site (ver A segunda vinda de Cristo e o milênio).

Gorman pertence à geração de biblistas metodistas de Joel B. Green e Ben Witherington III, e prefaciou Vox Petri, a teologia de Pedro de Gene L. Green. O que ele deu à tradição wesleyana foi uma leitura de Paulo em que a graça transforma de verdade e a cruz é a fonte e a forma da vida em Cristo.

Obras principais

  • Abortion and the Early Church (1982)
  • Cruciformity (2001)
  • Elements of Biblical Exegesis (2001; 3.ª ed., 2020)
  • Apostle of the Crucified Lord (2004; 2.ª ed., 2017)
  • Inhabiting the Cruciform God (2009)
  • Reading Revelation Responsibly (2011)
  • The Death of the Messiah and the Birth of the New Covenant (2014)
  • Becoming the Gospel (2015)
  • Abide and Go (2018)
  • Participating in Christ (2019)
  • Romans (comentário, 2022)
  • 1 Corinthians (comentário, 2025)
  • Life Transfigured (2026)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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