
HistóriaTeólogos arminianos1 de 296
Michael D. Robinson: o pastor batista que defendeu a presciência de Deus
Neste texto
- Vida
- Casa de pastor
- Pastor e doutorando
- Professor em Kentucky
- Professor no Texas
- De volta a Indiana
- Pensamento
- O problema de partida
- Eternidade e liberdade (1995)
- Por que a presciência importa (2000)
- O debate com David Hunt (2004)
- As tempestades da providência (2003)
- Os manuais e o problema do mal
- Onde Robinson fica no arminianismo
- Obras principais
- Para aprofundar
O número de dezembro de 2004 da revista Religious Studies, da Universidade de Cambridge, trouxe em sequência um artigo de Michael D. Robinson, professor de uma faculdade batista de Kentucky, contra uma tese do filósofo David P. Hunt, a resposta de Hunt e a tréplica de Robinson. Quase trinta páginas para discutir se Deus pode usar o que sabe do futuro para governar o mundo sem criar um círculo impossível, em que o conhecimento de Deus explica o acontecimento e o acontecimento explica o conhecimento de Deus. Quem assinava a tréplica tinha passado doze anos como pastor de igrejas batistas no interior de Indiana e escrevera o doutorado enquanto pastoreava. Robinson é um dos filósofos da religião que, nas últimas décadas, defenderam ao mesmo tempo a liberdade humana e a presciência completa de Deus, e que chamaram essa posição pelo nome: arminianismo.
Vida
Casa de pastor
Michael Dale Robinson nasceu em 1958, nos Estados Unidos, e cresceu numa casa de pastor. Ele conta que aprendeu a fé com os pais e que fez a sua profissão de fé aos nove anos, num acampamento cristão de jovens em Westport, no estado de Indiana. A vocação para o ministério veio nos anos de faculdade. Formou-se bacharel (B.S.) pela Indiana University e casou-se em 1980.
Pastor e doutorando
Para estudar teologia, foi ao Southern Baptist Theological Seminary, em Louisville, Kentucky, o seminário mais antigo da Convenção Batista do Sul. Ali concluiu o mestrado em divindade (M.Div.) em 1986 e o doutorado (Ph.D.) em 1994. Durante todo esse tempo foi pastor em Indiana: primeiro de uma igreja batista em Shelbyville, de 1983 a 1987, e depois de outra em Hanover, de 1988 a 1995. Foi ordenado ao ministério cristão em setembro de 1988.
A tese de doutorado, defendida em 1994, tinha um título técnico: “A Critical Analysis of Divine Timelessness as a Solution to the Foreknowledge-Free Will Debate” (uma análise crítica da atemporalidade divina como solução para o debate entre presciência e livre-arbítrio). No ano seguinte ela saiu em livro pela University Press of America com o título Eternity and Freedom (1995).
Professor em Kentucky
Em 1995 Robinson deixou o pastorado e entrou no corpo docente do Cumberland College, hoje University of the Cumberlands, faculdade batista em Williamsburg, no sudeste de Kentucky. Foi professor assistente e depois professor associado de estudos religiosos, e o que mais ensinava era filosofia e teologia. Ficou ali catorze anos. Desse período é a maior parte da sua produção em filosofia da religião, inclusive “Does God Know Best?” (2007), escrito para uma seção da revista Philosophia Christi dedicada ao filósofo galês D. Z. Phillips e ao tema de Deus e o mal.
Um antigo aluno, ao comentar The Storms of Providence anos depois, lembrou dele como um ótimo professor e escritor.
Professor no Texas
Em 2009 Robinson mudou-se para Belton, no Texas, para lecionar na University of Mary Hardin-Baylor, universidade batista ligada à convenção batista do estado. Entrou como professor associado e chegou a professor sênior de estudos cristãos na Faculdade de Estudos Cristãos, sempre ensinando filosofia e teologia. Ali escreveu dois manuais para estudantes, Christianity: A Brief History (2019) e Christianity: A Brief Survey (2022), ambos pela Cascade Books.
Em março de 2019 deu a palestra do Fórum de Estudos Cristãos da universidade, na Manning Chapel, sobre o problema do mal. Apresentou o argumento como os descrentes costumam formulá-lo, contra a existência ou a bondade de Deus, e passou pelas respostas clássicas dos cristãos. Encerrou dizendo aos alunos que quem tinha vindo buscar respostas não as tinha recebido dele, e que o mal é um problema que continua e que “exige fé no meio do pensar”.
De volta a Indiana
Em maio de 2023, depois de mais de 28 anos de ensino em tempo integral, Robinson aposentou-se e voltou para Indiana, para perto da família. Voltou também ao pastorado, numa congregação vizinha da Butler University, em Indianápolis, onde passou a dar aulas como professor adjunto no departamento de filosofia e religião. Ele resume a vida assim: estudar e ensinar filosofia e religião é “parte da minha missão e vocação de vida”.
Pensamento
O problema de partida
O dilema que ocupou Robinson desde a tese pode ser dito em poucas linhas. Se Deus sabia ontem, sem possibilidade de erro, que eu vou escolher café amanhã, a crença de Deus já faz parte do passado. O passado não muda: os filósofos dizem que ele tem “necessidade acidental”, isto é, não precisava ter acontecido, mas, uma vez acontecido, ninguém o desfaz. Então parece que amanhã eu não poderei escolher chá, porque isso tornaria falsa uma crença infalível de Deus. Os calvinistas aceitam a conclusão e dizem que a liberdade humana é compatível com a determinação. Os teístas abertos rejeitam a premissa e dizem que Deus não conhece com certeza as escolhas livres futuras. O arminianismo clássico quer as duas coisas: Deus conhece todo o futuro e as nossas escolhas continuam livres. Jacó Armínio fundou o quarto decreto da sua Declaração de Sentimentos (1608) justamente na presciência: Deus decreta salvar ou condenar pessoas determinadas segundo o que sabe de antemão de quem crerá e perseverará. Toda a obra filosófica de Robinson gira em torno dessa combinação.
Eternidade e liberdade (1995)
A saída mais antiga para o dilema vem de Boécio, no século VI, e de Tomás de Aquino: Deus não está no tempo. Ele não “prevê” o futuro como quem olha adiante numa estrada. Vê todos os tempos num único presente eterno, como quem, do alto de um monte, vê de uma vez todos os viajantes da estrada. Se Deus não sabe antes, mas simplesmente sabe, a crença dele não fica presa no passado, e o argumento perde a força.
Em Eternity and Freedom, Robinson examina essa solução com cuidado. Os sete capítulos passam pelos modelos clássicos de atemporalidade, pela natureza do tempo (com a teoria da relatividade), pelos modelos contemporâneos de Eleonore Stump, Norman Kretzmann e Brian Leftow e pela coerência de um Deus atemporal com o Deus pessoal da fé cristã. A conclusão é que a atemporalidade resolve o dilema, desde que se faça um ajuste que a teologia clássica não costumava fazer. Para Robinson, o conhecimento de um Deus atemporal pode ser afetado pelos acontecimentos das criaturas. Em outras palavras, Deus sabe o que eu faço porque eu o faço, e não o contrário. Esse ajuste, segundo o livro, é condição tanto para a liberdade humana genuína quanto para que Deus se relacione pessoalmente com as criaturas. O ponto o põe em tensão com a impassibilidade divina do teísmo clássico, a ideia de que nada nas criaturas afeta Deus. Para Robinson, um Deus que não pode ser afetado não poderia interagir de verdade com ninguém.
Por que a presciência importa (2000)
Na década de 1990, os teístas abertos, como Clark Pinnock, John Sanders e William Hasker, propunham abandonar a presciência exaustiva. Para eles, um Deus que conhece todo o passado e todo o presente, e conhece as escolhas livres futuras como possibilidades, se relaciona de modo mais real com as criaturas. Robinson respondeu em “Why Divine Foreknowledge?” (Religious Studies, 2000). O artigo sustenta que a presciência é valiosa para o teísmo cristão e que “um preço teológico pesado” precisa ser pago por quem a rejeita. Ele também tenta mostrar que o Deus desses modelos sabe muito menos do que os seus defensores afirmam. Segundo Robinson, esse Deus não poderia conhecer nem as necessidades físicas futuras, nem as probabilidades físicas, nem os atos livres futuros que ele mesmo pretende realizar, nem os acontecimentos que a própria natureza divina exige. Sanders, um dos principais nomes do teísmo aberto, catalogou o artigo na sua bibliografia entre os trabalhos contrários à teologia aberta.
O debate com David Hunt (2004)
A defesa da presciência levou Robinson a uma discussão mais fina. Desde o fim dos anos 1980, David Basinger, Hasker e, depois, Sanders sustentavam que a presciência “simples” (Deus conhece o futuro real, sem determiná-lo e sem conhecer também os futuros hipotéticos, como no molinismo de William Lane Craig) não ajuda Deus a governar o mundo. Se Deus já vê o que de fato vai acontecer, incluindo as próprias ações dele, é tarde para usar esse conhecimento e mudar alguma coisa. David Hunt, filósofo do Whittier College, defendia o contrário: há casos em que Deus pode usar o que sabe do futuro, e a presciência simples seria um caminho do meio entre o molinismo e o teísmo aberto.
Os dois concordavam num ponto, que Hunt chamava de “Princípio Metafísico”: círculos causais são impossíveis. Deus não pode saber de um fato futuro, agir por causa desse saber e, com isso, produzir o próprio fato que explica o seu saber. Hunt dizia que basta Deus não usar a presciência de modo que esses círculos se formem. Em “Divine Providence, Simple Foreknowledge, and the ‘Metaphysical Principle’” (2004), Robinson respondeu que a posição de Hunt ainda deixa possível a formação de tais círculos, e que a simples possibilidade já viola o princípio. Na tréplica, “Divine Guidance and an Accidentally Necessary Future”, acrescentou que o cenário de Hunt não se sustenta, quer se diga que os fatos futuros têm a necessidade acidental do passado, quer se diga que são contingentes. A Stanford Encyclopedia of Philosophy, no verbete sobre presciência e livre-arbítrio, põe Robinson entre os críticos de Hunt, ao lado de Kapitan, Basinger e Hasker.
As tempestades da providência (2003)
The Storms of Providence: Navigating the Waters of Calvinism, Arminianism, and Open Theism reúne essas discussões num livro para estudantes. A imagem náutica organiza os capítulos: preparar a viagem, mapear as águas do calvinismo, do arminianismo e do teísmo aberto, atravessar a tempestade guiado primeiro pelo “farol” da Bíblia e depois pelos “ventos da lógica” e, por fim, “cuidar da tripulação”. A tese, como a editora a resume, é que o modelo mais sólido, teológica e filosoficamente, afirma que as ações humanas são livres e não determinadas por Deus, ao mesmo tempo que Deus tem conhecimento completo do futuro. O livro chama a sua posição de versão modificada do arminianismo tradicional. O filósofo Dale Tuggy, na resenha que publicou em Religious Studies (2005), o descreveu como uma entrada breve, informada e bem organizada no debate, escrita de uma perspectiva arminiana.
Os manuais e o problema do mal
Os dois livros dos anos de Texas mudam de público. Christianity: A Brief History (2019) apresenta o cristianismo pela sua história e pelas pessoas que o viveram, da Palestina do século I à era contemporânea, sem esconder os fracassos morais da igreja. Christianity: A Brief Survey (2022) parte de uma definição simples: o cristianismo é um modo de vida centrado na pessoa, na vida, no ensino, na morte e na ressurreição de Jesus Cristo. O livro percorre Escrituras, doutrina e ética e fecha com quatro desafios atuais: o problema do mal, a relação com as outras religiões, a relação com a ciência e o ministério das mulheres. William Hasker, adversário de Robinson no debate sobre o teísmo aberto, recomendou o livro como uma visão de conjunto magistral.
Onde Robinson fica no arminianismo
Robinson é um arminiano de tradição batista. Ele mesmo dá esse nome à posição que defende em The Storms of Providence, e a sua obra filosófica sustenta as duas teses que separam o arminianismo tanto do calvinismo quanto do teísmo aberto: as escolhas humanas não são determinadas por Deus, e Deus conhece todo o futuro, inclusive essas escolhas. A presciência que Armínio pôs na base da eleição condicional encontra nele um defensor filosófico, como encontrou em Bruce Reichenbach, outro filósofo arminiano que defendeu a presciência diante do teísmo aberto. Nisso ele está com a declaração de fé deste site, que afirma a presciência exaustiva e rejeita o teísmo aberto.
Duas observações ajudam a situá-lo. A primeira é o campo da obra: Robinson trabalha a doutrina de Deus e da providência, e não a ordem da salvação. A incapacidade humana depois da queda e a graça preveniente, que o arminianismo clássico põe no centro, ficam fora do foco dos seus livros; para elas, o leitor tem Roger Olson e Robert Picirilli. A segunda é a revisão do teísmo clássico: um Deus cujo conhecimento é afetado pelas criaturas, e a crítica à impassibilidade, vão além do teísmo que Armínio herdou. Robinson propõe esse ajuste para preservar a liberdade e a relação pessoal, e um arminiano pode concordar com o alvo sem adotar todo o caminho.
Obras principais
- Eternity and Freedom: A Critical Analysis of Divine Timelessness as a Solution to the Foreknowledge/Free Will Debate (University Press of America, 1995)
- “Why Divine Foreknowledge?”, Religious Studies 36, n. 3 (2000), p. 251-275
- The Storms of Providence: Navigating the Waters of Calvinism, Arminianism, and Open Theism (University Press of America, 2003)
- “Divine Providence, Simple Foreknowledge, and the ‘Metaphysical Principle’”, Religious Studies 40, n. 4 (2004), p. 471-483
- “Divine Guidance and an Accidentally Necessary Future: A Response to Hunt”, Religious Studies 40, n. 4 (2004), p. 493-498
- “Does God Know Best?”, Philosophia Christi 9, n. 2 (2007), p. 383-405
- Christianity: A Brief History (Cascade Books, 2019)
- Christianity: A Brief Survey (Cascade Books, 2022)
Para aprofundar
- Página do corpo docente de Filosofia e Religião da Butler University, com o depoimento biográfico de Michael Robinson (infância, conversão, formação, pastorados, carreira e aposentadoria).
- Catálogo da University of Mary Hardin-Baylor, 2014-2015: corpo docente, com os títulos acadêmicos (B.S., Indiana University; M.Div. e Ph.D., Southern Baptist Theological Seminary).
- “Christian Studies Forum Explores Problem of Evil”, notícia da University of Mary Hardin-Baylor, 28 mar. 2019.
- Registro de Eternity and Freedom no Internet Archive e página do livro no Google Livros, com o sumário e a descrição da editora.
- Michael D. Robinson, “Why Divine Foreknowledge?”, Religious Studies 36 (2000).
- Michael D. Robinson, “Divine Providence, Simple Foreknowledge, and the ‘Metaphysical Principle’” e “Divine Guidance and an Accidentally Necessary Future”, Religious Studies 40 (2004); com a réplica de David P. Hunt, “Providence, Foreknowledge, and Explanatory Loops: A Reply to Robinson”.
- Dale Tuggy, resenha de The Storms of Providence, Religious Studies 41, n. 2 (2005), p. 237-242.
- David Hunt e Linda Zagzebski, “Foreknowledge and Free Will”, Stanford Encyclopedia of Philosophy.
- William Hasker, “Why Simple Foreknowledge Is Still Useless”, Journal of the Evangelical Theological Society 52, n. 3 (2009), p. 537-544, para o debate sobre a presciência simples.
- Páginas da editora Wipf and Stock sobre Christianity: A Brief History e Christianity: A Brief Survey, com descrições e recomendações.
- John Sanders, “Bibliography on Open Theism”.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Batistas
- Filosofia