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Matt O’Reilly: o pastor metodista que se diz arminiano por causa de Romanos
Em julho de 2026, o pastor metodista Matt O’Reilly leu na The Gospel Coalition o depoimento do pastor Justin Dillehay, com o título “Como Romanos 8 me fez calvinista”, e respondeu com um título espelhado: “Por que Romanos 9 a 11 (e Romanos 8) me fazem arminiano”. O subtítulo resumia a tese: “sou arminiano por causa da Bíblia, e não apesar dela”. Doutor em Novo Testamento e pastor de igrejas locais desde o seminário, O’Reilly lê as cartas de Paulo com o grego aberto sobre a mesa e uma congregação esperando o sermão de domingo.
Vida
Formação
Matthew Patrick O’Reilly formou-se na Auburn University, no Alabama, e concluiu em 2009 o mestrado em divindade (M.Div.) no Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, seminário de tradição wesleyana. Em Asbury começou a convivência com Ben Witherington III, que em 2016 ele chamava de “professor e mentor” havia quase uma década.
Quem primeiro lhe sugeriu fazer o doutorado no Reino Unido foi um amigo, Jay Arnold. O’Reilly matriculou-se na University of Gloucestershire, na Inglaterra, sob a orientação do biblista Andrew T. Lincoln, com Witherington na supervisão, e entregou a tese em setembro de 2016: The Body and the Future (“O corpo e o futuro”), sobre a ética de Paulo e a ressurreição do corpo. Leram e comentaram capítulos dela Gareth Lee Cockerill, Philip Esler e Dean Flemming. É casado com Naomi, a quem dedicou a tese, e tem três filhos.
Pastor de cidades pequenas
O doutorado foi escrito no meio do pastorado. Enquanto pesquisava, O’Reilly foi pastor de três congregações da Igreja Metodista Unida: St. Mark, em Mobile, no Alabama; a Primeira Igreja Metodista Unida de Union Springs, também no Alabama; e a igreja de Jay, na Flórida. Em 2013, ainda em Union Springs, ensinava como professor adjunto de Novo Testamento em Asbury e no Wesley Biblical Seminary, de Ridgeland, no Mississippi, e escrevia para o Seedbed, editora ligada a Asbury, e para a The Gospel Coalition. Em 2019 abriu um canal no YouTube, Orthodoxy for Everyone (“Ortodoxia para todos”), com vídeos curtos de teologia, vários sobre o debate entre arminianos e calvinistas.
Por volta de 2018 assumiu a Igreja Metodista Unida de Hope Hull, perto de Montgomery, a capital do Alabama. Recebeu duas vezes o Prêmio John Stott de Engajamento Pastoral, do Henry Center, da Trinity International University, uma delas na lista de 2019-2020, e tornou-se membro do Center for Pastor Theologians, associação de pastores que escrevem teologia para a igreja. Em 2020 foi nomeado diretor de pesquisa do Wesley Biblical Seminary, onde dirige o programa de doutorado em ministério e ensina Novo Testamento, pregação e ministério pastoral. No mesmo ano saíram os seus dois primeiros livros: a tese revista, pela SBL Press, e um estudo das cartas aos Tessalonicenses para pequenos grupos, pelo Seedbed.
Da Igreja Metodista Unida à Igreja Metodista Global
Depois de anos de conflito sobre a autoridade da Bíblia e a ética sexual, milhares de congregações deixaram a Igreja Metodista Unida e formaram, em 2022, a Igreja Metodista Global, e O’Reilly participou da formação da nova denominação. Em outubro de 2022, a Christ Church de Birmingham votou por fazer essa mudança, aprovada pela Conferência do Norte do Alabama em 10 de dezembro. Em 2023 O’Reilly tornou-se o pastor titular dessa congregação.
Em Birmingham passou a ensinar também na Beeson Divinity School, da Samford University. Em abril de 2024 a Christ Church sediou a conferência Reconstructing Methodism (“Reconstruindo o metodismo”), e no mesmo ano saiu o livro com esse título, que trata das questões que dividiram a Igreja Metodista Unida e propõe uma base teológica para a nova igreja.
Em setembro de 2024 o Seedbed lançou Free to Be Holy (“Livres para ser santos”), uma teologia bíblica da santificação para grupos de estudo, recomendada por Witherington e por John Oswalt. O’Reilly mantém o Theology Project, com artigos e aulas para pastores e leigos e o lema “teologia da igreja, para a igreja”.
Pensamento
O’Reilly é wesleyano: metodista, membro da Society of Evangelical Arminians e arminiano declarado, que defende a graça preveniente, a eleição condicional, a perseverança condicional e a inteira santificação. Ele começa onde começam Armínio e Wesley, pela incapacidade humana. Numa reflexão para a Quaresma, escreveu que nascemos “em escravidão” ao pecado e à morte, e citou o sermão de Wesley sobre o pecado original: nenhum homem ama a Deus por natureza, “assim como não ama uma pedra” (“Practicing Freedom”, 2014). Em 2013, num artigo para a The Gospel Coalition, agradeceu aos calvinistas por lhe mostrarem a gravidade do pecado e da incapacidade humana, a estrutura de aliança da criação e a paixão de Deus pela própria glória, que não concorre com o amor, porque “o amor de Cristo que se doa é a glória perfeita de Deus” (“Three Things this Methodist Learned from Calvinists”).
Uma só graça
Para explicar a graça preveniente, O’Reilly a compara com a graça comum da teologia reformada (“Common Grace vs. Prevenient Grace”, 2015). Na definição de Louis Berkhof, a graça comum é dada a todos, refreia os efeitos do pecado e torna possível a vida em sociedade, mas fica fora da salvação e “nunca remove a culpa” do pecado. A graça preveniente, a graça que vem antes da nossa resposta, pertence ao caminho da salvação: o Espírito age antes da conversão e prepara a pessoa para responder ao evangelho. Ela não garante o resultado, porque pode ser recusada. A graça preveniente, a justificadora e a santificadora são a mesma graça em momentos diferentes, e por isso, conclui ele, “há uma só graça”, toda ela cumprida em Jesus. Contra a objeção de que a graça preveniente não tem base bíblica, ele aponta 1 Tessalonicenses 1:4-5 e Atos 2:37-38 (ver graça preveniente, a graça que vem antes).
Eleitos para abençoar
O’Reilly lê a eleição a partir de Gênesis 12:1-3 (“To Bless the Nations”, Seedbed, 2013). Deus escolheu a família de Abraão entre as nações, mas para que nela fossem benditas “todas as famílias da terra”. A escolha é instrumental: os escolhidos são o meio da bênção aos que não foram escolhidos. Ele contrasta essa leitura com a Confissão de Westminster, em que eleitos e réprobos “se relacionam só por contraste”, e conclui que “a eleição é, no fundo, uma doutrina missional”: Deus “nos escolheu para sermos os agentes da sua bênção”.
A resposta a Dillehay, em 2026, leva esse raciocínio a Romanos 9 a 11. O ponto de partida é Romanos 11:17-25, onde Paulo adverte crentes gentios de que podem ser cortados da oliveira. Ali a permanência do indivíduo depende da fé, e por isso, argumenta O’Reilly, a eleição de Romanos 9 não pode ser uma eleição incondicional de indivíduos. Pelo contexto de Gênesis 25:23, Jacó e Esaú representam dois povos, e o faraó aparece como instrumento da fidelidade de Deus ao seu povo, e não como exemplo de um réprobo individual. Há, portanto, uma eleição incondicional do povo e uma eleição condicional dos indivíduos, que entram pela fé e saem pela incredulidade. A “corrente de ouro” de Romanos 8:28-30 descreve a família dos filhos de Deus. Na fórmula dele, “Deus salva indivíduos, mas os salva como parte de um grupo”. É a eleição corporativa defendida também por Brian Abasciano (ver a eleição condicional em Cristo). Ao leitor ele indica, entre outros, Teologia arminiana: mitos e realidades, de Roger Olson, e Why I Am Not a Calvinist, de Jerry Walls e Joseph Dongell.
Cortados da oliveira
O’Reilly mudou de ideia sobre a perseverança. Em 2013 contou que antes acreditava, pelo conforto da ideia, que o verdadeiro convertido nunca se perde, com base em Filipenses 1:6. O grego mudou a leitura: o “vós” é plural, e a preposição pode indicar o lugar da obra, de modo que o versículo pode ser traduzido “aquele que começou a boa obra no meio de vós todos há de completá-la até o dia de Cristo”. Paulo fala da igreja de Filipos, e não promete a perseverança de cada indivíduo.
Em 2019, quando o pastor Joshua Harris anunciou que tinha abandonado a fé, O’Reilly voltou a Romanos 11 num artigo para o Center for Pastor Theologians (“Falling Away or Cut Off?”). Os gentios a quem Paulo escreve “pela fé” estão firmes (Romanos 11:20), e em Romanos a fé é o que justifica; Paulo fala, portanto, a pessoas justificadas. A fé é a condição de permanecer, e a incredulidade, a de ser cortado. Isso não faz da fé um mérito, porque “a condição da fé não é o mesmo que realizar uma obra meritória”: a fé é receber o que não podemos fazer. Quem age no texto é Deus, que corta e que não poupa, e por isso, escreve ele, “é mais exato falar em ser cortado da graça do que em cair dela”. A possibilidade da apostasia pede da igreja um discipulado mais sólido (ver perseverança e apostasia na teologia arminiana e a biografia de B. J. Oropeza).
O corpo e o futuro
A tese de 2016 estuda como a esperança da ressurreição do corpo molda o que Paulo espera do corpo no presente, em 1 e 2 Coríntios, Romanos e Filipenses. Com a psicologia social de Marco Cinnirella, O’Reilly descreve a ressurreição como uma “identidade social futura possível”: o crente se vê desde já como membro do povo que será ressuscitado, e essa identidade orienta o uso do corpo hoje. Paulo divide a humanidade em dois grupos, o de Adão, que leva à morte, e o de Cristo, cabeça do povo que será ressuscitado, e por isso, resume ele, “a ressurreição é participativa”. Em Filipenses, essa esperança reforça a unidade contra as facções e a perseverança na perseguição. Stephen Barton, da Universidade de Durham, chamou o livro de “lúcido e inovador” (ver a esperança na ressurreição do corpo).
Livres para ser santos
O tema que une a obra de O’Reilly é a santidade. Em Free to Be Holy (2024), santidade é ter o caráter de Deus, o que significa receber, partilhar e estender o amor que o Pai, o Filho e o Espírito têm entre si. Nascemos escravos do pecado e incapazes de deixar de pecar; a graça nos liberta para encarnar o amor perfeito de 1 João 4:18. O livro segue o tema da criação ao Sinai, ao exílio, aos Evangelhos e a Romanos. Romanos 7, lido junto com os capítulos 6 e 8, descreve a vida desligada de Cristo, e não a vida cristã normal, que deve ser de santidade. “O convite à santidade é um convite a experimentar o melhor de Deus”, disse ele ao Seedbed em 2024.
Essa santidade é dom recebido pela fé, e não autoaperfeiçoamento. Numa entrevista ao pastor Andy Miller III, O’Reilly disse que a santidade é “o ponto de partida, e não a linha de chegada” da vida cristã e que o alvo da Grande Comissão é “a santidade global”. A liberdade também se pratica: pela desobediência, quem foi liberto pode voltar à escravidão (Romanos 6:16-18). As disciplinas da Quaresma não pagam pelo pecado, já expiado por Cristo; elas “não servem para rebaixar o corpo, e sim para treiná-lo para a justiça” (“Practicing Freedom”, 2014).
O’Reilly defende que a inteira santificação não é invenção de Wesley. Em 2013 comparou a Carta aos Filipenses de Policarpo, para quem “aquele que tem amor está longe de todo pecado”, com a definição de John Wesley em Uma explicação clara da perfeição cristã: o amor a Deus e ao próximo que implica a libertação de todo pecado. Nos dois, amor e pecado se excluem, e a santidade nasce de quem amamos, e não da simples mudança de comportamento. Os pais da igreja ensinaram isso, parte da Reforma esqueceu, e Wesley recuperou o que ele mesmo chamava de “cristianismo primitivo”.
Nos pontos centrais, O’Reilly está com a declaração de fé do Diego: depravação total, graça preveniente para todos e resistível, perseverança condicional e inteira santificação recebida pela fé, que enche o coração de amor perfeito. A diferença está no modo de ler a eleição. Os quatro decretos de Armínio falam da eleição de pessoas determinadas, segundo a presciência de Deus de quem creria e perseveraria; O’Reilly prefere pôr a eleição incondicional no povo e a condição na fé de cada pessoa que entra nele. As duas leituras são arminianas e chegam ao mesmo lugar: a eleição é em Cristo, e ninguém é salvo nem perdido por um decreto que ignore a fé.
Obras principais
- The Body and the Future: A Socio-Rhetorical Approach to Paul’s Ethics with Special Reference to the Resurrection of the Body (tese de doutorado, University of Gloucestershire, 2016).
- Paul and the Resurrected Body: Social Identity and Ethical Practice (SBL Press, 2020; Emory Studies in Early Christianity 22).
- The Letters to the Thessalonians (Seedbed, 2020; série OneBook: Daily-Weekly).
- Reconstructing Methodism: Crucial Issues Facing the Global Methodist Church (Francis Asbury Press, 2024).
- Free to Be Holy: A Biblical Theology of Sanctification (Seedbed, 2024).
- Artigos: “To Bless the Nations: Election in Biblical and Missional Perspective” (Seedbed, 2013); “Falling Away or Cut Off? Romans and the Question of Apostasy” (Center for Pastor Theologians, 2019); “Why Romans 9-11 (and Romans 8) Make Me Arminian” (Theology Project, 2026).
Para aprofundar
- Matthew Patrick O’Reilly, The Body and the Future, tese de doutorado, University of Gloucestershire, 2016 (resumo, agradecimentos e texto completo em PDF).
- Wesley Biblical Seminary, “Dr. Matt O’Reilly” (perfil do professor).
- World Methodist Evangelism, “Matt O’Reilly” e Joseph Seger, “Free To Be Holy: Book Review”, 2025.
- Seedbed, Free to Be Holy (descrição e recomendações) e entrevista com o autor, 2024.
- Andy Miller III, “Free to Be Holy with Matt O’Reilly” (podcast).
- Center for Pastor Theologians, “What is Holiness? Matt O’Reilly”, 2025.
- PlainSpoken, “Reconstructing Methodism”, 2023.
- Mark Tooley, “Are Christians Free to Be Holy?”, Juicy Ecumenism, 2025.
- Bhamwiki, “Christ Church Birmingham”.
- Society of Evangelical Arminians, textos de Matt O’Reilly, entre eles “To Bless the Nations”, “Three Things this Methodist Learned from Calvinists”, “The Question of Perseverance in Philippians 1:6”, “Practicing Freedom: A Lenten Reflection”, “Common Grace vs. Prevenient Grace” e “Entire Sanctification in the Early Church”.
- Society of Evangelical Arminians, “SEA Member Matt O’Reilly publishes book on Paul and the Resurrected Body”, 2020.
- Matt O’Reilly, “Falling Away or Cut Off? Romans and the Question of Apostasy”, Center for Pastor Theologians, 2019.
- Matt O’Reilly, “Why Romans 9-11 (and Romans 8) Make Me Arminian”, Theology Project, 2026.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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