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Nathanael Burwash: O teólogo metodista que uniu a experiência wesleyana ao método indutivo

Diego Gonçalves12 min de leitura2.441 palavras

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Neste texto

Em 1910, a Conferência Geral da Igreja Metodista do Canadá se reuniu em Victoria, na Colúmbia Britânica, e examinou queixas contra o ensino do Victoria College, de Toronto. Um grupo liderado pelo superintendente geral Albert Carman queria tirar dos seminários metodistas a crítica bíblica, a começar por George Jackson, professor de homilética, que a usava para ler os primeiros capítulos de Gênesis. Quem defendeu a faculdade foi o seu reitor, Nathanael Burwash, já com setenta anos completos. Ele apelou para John Wesley: obrigar os pastores metodistas a ler toda a Escritura de modo literal, disse ele, não era a ortodoxia metodista. A conferência lhe deu razão. Burwash passou a vida tentando mostrar que a fé recebida de Wesley não tinha medo das perguntas do seu tempo.

Retrato de Nathanael Burwash
Retrato de Nathanael Burwash, Victoria University, antes de 1919. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Da fazenda ao púlpito

Nathanael Burwash nasceu em 25 de julho de 1839, perto de St Andrews (hoje Saint-André-Est), no Baixo Canadá, atual Quebec. Era o mais velho dos seis filhos de Adam Burwash e Anne Taylor, uma família metodista. Em 1844 os pais se fixaram numa fazenda perto de Baltimore, no Alto Canadá, a poucos quilômetros de Cobourg, onde funcionava o Victoria College, a escola superior dos metodistas wesleyanos.

O menino entrou ali em 1852, no curso preparatório. Em dezembro daquele ano se converteu, e no semestre seguinte, durante um avivamento na faculdade, tornou-se membro da Igreja Metodista Wesleyana. O presidente do Victoria, Samuel Sobieski Nelles, marcou-o profundamente. Em 1855 parou de estudar por um ano para dar aulas e ajudar a pagar os estudos do irmão John. Formou-se em 1859.

Foi aceito no ministério itinerante em 1861 e serviu em Belleville, em Toronto, onde foi ordenado em 1864, e em Hamilton (1865-1866).

Desses anos veio a pergunta que guiaria a sua teologia. No prefácio do Manual de 1900, Burwash conta que tinha na igreja rapazes inteligentes, leitores do ceticismo da época, e que as defesas da fé do século XVIII não lhes serviam diante da crítica histórica, das objeções científicas e das filosofias materialistas. Ao tentar ajudá-los, teve a própria fé posta à prova, e a sua “única âncora nesse conflito” foi “a certeza interior da fé” (Manual, vol. 1, p. vi). Concluiu que, se nem os homens instruídos tinham tempo para examinar todas essas questões, a certeza da maioria tinha de repousar na experiência da fé.

Professor de ciências e de teologia

Em 1866 o Victoria o chamou para a cadeira de ciências naturais. Com o apoio de Edward Jackson, leigo metodista de Hamilton, passou alguns meses na Escola Científica Sheffield, da Universidade Yale, onde ouviu as aulas de química de Benjamin Silliman, e assumiu o posto no começo de 1867. Ensinava pelo método indutivo de Francis Bacon, que separa os “fatos” das “especulações e teorias”, e assim tratou da evolução de Darwin sem tomar partido e sem sentir a fé ameaçada.

Ao mesmo tempo, estudou teologia no Instituto Bíblico Garrett, a escola metodista de Evanston, nos Estados Unidos, onde recebeu o bacharelado (1871) e o doutorado (1876). Em 1873 o Victoria abriu a sua faculdade de teologia, e Burwash foi o primeiro deão, até 1900. Trabalhou também no hinário metodista, concluído em 1880. Como único teólogo metodista canadense de envergadura, foi por quase trinta anos o homem que mais pesou na formação dos pastores do país.

Em 25 de dezembro de 1868 casou-se com Margaret Proctor. Tiveram doze filhos e perderam oito ainda pequenos; em junho de 1889, a difteria levou três meninos e uma menina numa única semana.

Reitor e a federação

Em 1884 representou o Victoria nas negociações para federar as faculdades das igrejas com a Universidade de Toronto. A proposta dele dividia o trabalho: teologia e humanidades ficariam com as faculdades denominacionais; as ciências e a formação profissional, com a universidade pública. Em 1886 votou com Nelles contra a federação, que mesmo assim foi aprovada.

Nelles morreu em 1887, e Burwash o sucedeu como chanceler e presidente, cargo que ocupou até 1913. Na nova função, defendeu a federação. Um legado de William Gooderham, condicionado à mudança para Toronto, permitiu proclamá-la em 1890, e o novo prédio foi aberto em 1892. A residência masculina construída em 1913 leva o nome dele: Burwash Hall. A divisão de trabalho que ele desenhou durou, quase intacta, até 1974.

As controvérsias sobre a Bíblia

Em 1890, o professor de Antigo Testamento George Coulson Workman foi atacado pelo modo como lia as profecias messiânicas e acabou afastado da cadeira. Em 1909 veio o caso de George Jackson, pregador britânico que o próprio Burwash convidara em 1905. A leitura que Jackson fazia de Gênesis não diferia muito da de Burwash, que em 1910 expôs o caso num memorando à Conferência Geral.

Burwash aceitou a crítica bíblica aos poucos e de modo seletivo, sem abrir mão das doutrinas metodistas. A partir de 1904 presidiu a subcomissão de doutrina nas conversas pela união das igrejas metodista, presbiteriana e congregacional, que daria origem à Igreja Unida do Canadá em 1925.

Os últimos anos

Membro da Sociedade Real do Canadá desde 1902, deixou a reitoria em 1913 e deu palestras no Japão, a convite de ex-alunos missionários. Continuou a ensinar história das doutrinas até morrer em Toronto, em 30 de março de 1918. Foi sepultado em Baltimore, perto da fazenda da infância. O sucessor, Richard Pinch Bowles, disse que ninguém no metodismo canadense tinha guiado tanto o pensamento do ministério. Entre os seus alunos estava James Shaver Woodsworth, que levou a ênfase de Burwash na santidade para o cristianismo social. A History of Victoria College saiu em 1927.

Pensamento

Burwash é wesleyano, e o diz com todas as letras. Na introdução aos sermões de Wesley (1881), escreveu que os sermões e as notas de Wesley, postos nas escrituras de cada capela metodista, garantiam “uma pregação arminiana evangélica” para sempre (Wesley’s Doctrinal Standards, p. xviii).

Uma teologia que parte da experiência

A teologia, diz ele, quase sempre seguiu o caminho dedutivo: tratava as verdades da fé como axiomas e tirava delas um sistema, misturado à filosofia da moda. O método indutivo, que observa os fatos da revelação, compara-os e só então generaliza, é “um caminho mais humilde, porém muito mais seguro” (Manual, vol. 1, p. 7). Mas cada ciência tem o seu instrumento, a balança na química e o microscópio na biologia; na teologia, a verdade espiritual se julga por provas espirituais, e o primeiro requisito do estudante é “uma fé religiosa forte e clara” (vol. 1, p. 8).

Essa fé tem nome wesleyano: o testemunho do Espírito, a certeza que o Espírito Santo dá ao crente de que é filho de Deus (Romanos 8:16). Para Burwash, essa experiência e a perfeição cristã eram uma prova vivida contra a incredulidade, e foi esse fundamento que lhe permitiu receber a ciência e a crítica bíblica. Ele escreve que a psicologia elementar do Novo Testamento, “como a astronomia ou a cosmogonia da mesma época”, pertence à forma de pensar dos tempos bíblicos (Manual, vol. 2, p. 2). A declaração de fé do site afirma que os autógrafos das Escrituras foram preservados de erro, uma ênfase que Burwash não fazia.

A graça vem sempre primeiro

Burwash chama de graça universal, o “dom gratuito para todos”, o efeito da obra de Cristo e do Espírito sobre toda a raça humana. Com base em Tito 2:11 e Romanos 5:18, diz que essa graça “traz salvação” a todos como força moral consciente, que ensina (Manual, vol. 2, p. 213-214). Ele corrige dois erros: a antiga teologia calvinista, que a reduzia a benefícios temporais ou a uma obra do Espírito incapaz de salvar, e “alguns arminianos”, que a transformavam numa regeneração automática de todas as crianças e deixavam o pecado original quase hipotético. Contra estes, lembra que todos precisam nascer de novo (João 3:7).

É a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer movimento humano em direção a Deus. A nova “probação”, o tempo de prova aberto por Cristo, começa “em completa impotência moral” e avança por dons sucessivos de graça (vol. 2, p. 223). O arrependimento inclui “o lado divino de toda graça preveniente” e o lado humano da resposta a ela (vol. 2, p. 227). E Burwash resume a relação entre graça e vontade com cuidado: o Espírito e a verdade vêm antes, “a nossa salvação é, assim, de Deus”, e o assentimento da vontade é só a submissão do homem a Deus. A graça vem sempre primeiro; a vontade age com ela, mas é uma vontade “graciosamente capacitada pela própria graça com a qual coopera”, livre a ponto de poder resistir ao Espírito (vol. 2, p. 229; Atos 7:51). Nada aqui dá ao ser humano o primeiro passo. Em 1881 ele já observava que arminianos do século XVII apoiados demais na razão, como Daniel Whitby, caíram no semipelagianismo, enquanto Wesley manteve com Agostinho a doutrina da corrupção herdada da natureza humana (Wesley’s Doctrinal Standards, p. xv). É a linha de Jacó Armínio, estudada em A graça preveniente em Armínio.

Para Burwash, os “arminianos evangélicos, especialmente Wesley e a sua escola”, deram três passos: separaram a graça preveniente da regeneração, fizeram do arrependimento e da fé as condições da salvação plena e recuperaram a certeza pessoal da salvação (Manual, vol. 2, p. 263-264). Ele lembra também que a expiação universal não foi importada da Holanda: foi crida por “nove décimos da Igreja cristã” durante 1.500 anos antes de Armínio (Wesley’s Doctrinal Standards, p. xiv). Veja Arminianismo: Expiação para Todos.

Predestinação e expiação

Burwash lê a predestinação em Paulo como um propósito de Deus para a Igreja: não um decreto de que “este pecador seja salvo e aquele deixado nos seus pecados”, mas o plano de constituir em Cristo um povo aberto a judeus e gentios (Manual, vol. 2, p. 278-279). É o que hoje se chama eleição corporativa: Deus elege um povo em Cristo, e cada pessoa entra nele pela fé.

Na expiação, ele se afasta da substituição penal no sentido estrito. Se Cristo pagou a pena exata dos pecados de alguém, argumenta, o resultado seria uma quitação legal automática, e não um perdão condicionado ao arrependimento e à fé; isso, diz ele, pode caber no calvinismo, mas é “fatal” na teologia arminiana (vol. 2, p. 174). O que cancela o pecado é “o mérito de uma obra de valor moral infinito”, a obediência amorosa de Cristo até a morte, que honra a Deus e a lei em nome da raça humana e torna justo que Deus perdoe quem vem em nome de Cristo (vol. 2, p. 179). Nesse ponto ele fica perto de John Miley e longe de William Burt Pope. O site entende a cruz, com Armínio e Wesley, como satisfação penal substitutiva: Cristo levou sobre si a pena do nosso pecado (Isaías 53:5-6; Gálatas 3:13).

A perfeição cristã

Burwash ensinou a santificação em três aspectos: a pureza do coração e da vida, o amor perfeito e a consagração completa de todas as forças a Deus. Assim como a justificação chega à plenitude na certeza da fé, “na inteira santificação o chamado e a eleição” do crente se confirmam (Manual, vol. 2, p. 315). Essa perfeição não é ausência absoluta de pecado nem um limite fixo de crescimento: é “a maturidade, o pleno desenvolvimento normal da graça espiritual” (vol. 2, p. 316).

Em 1907 publicou, para os estudantes, um resumo do Last Check to Antinomianism, de John Fletcher. Na introdução, chama a obra de um clássico só menos importante que a Explicação clara da perfeição cristã, de Wesley, e elogia a definição de Fletcher por estar “cuidadosamente protegida contra os extremos do fanatismo”. A declaração de fé do site fala da inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração e recebida pela fé; Burwash ensinava esse alvo, com a ênfase no crescimento até a maturidade. Veja Santificação na teologia sistemática.

O legado

Burwash foi mais mestre e organizador do que pensador original, mas os seus livros e aulas foram referência para os metodistas do Canadá por uma geração. Ele mostrou que a herança de John Wesley podia conversar com a ciência e com o estudo histórico da Bíblia sem perder o centro: a graça que vem antes, a fé que recebe e a santidade que transforma.

Obras principais

  • Memorials of the Life of Edward & Lydia Ann Jackson (1876).
  • The Genesis, Nature, and Results of Sin (1878).
  • Wesley’s Doctrinal Standards. Part I: The Sermons, with Introductions, Analysis, and Notes (1881).
  • The Relation of Children to the Fall, the Atonement, and the Church (1882).
  • A Handbook of the Epistle of St. Paul to the Romans (1887).
  • Inductive Studies in Theology, Including the Doctrines of Sin and the Atonement (1896).
  • Manual of Christian Theology on the Inductive Method, 2 volumes (1900).
  • Egerton Ryerson, na série The Makers of Canada (1903).
  • A Review of the Founding and Development of the University of Toronto as a Provincial Institution (1905).
  • John Fletcher, The Last Check to Antinomianism, resumo com introdução de Burwash (1907).
  • The History of Victoria College (1927, póstuma).

Para aprofundar

Veja também as biografias de John Wesley, John Fletcher, Richard Watson, William Burt Pope e John Miley.

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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