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HistóriaTeólogos arminianos28 de 306

Laurence Womock: O bispo anglicano que escreveu o Exame de Tileno

Diego Gonçalves12 min de leitura2.411 palavras

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Neste texto

Em 1658, o livreiro londrino Richard Royston pôs à venda, sem nome de autor, um diálogo curto e estranho. Um candidato ao ministério chamado Tilenus se apresenta, com certificado e carta de apresentação em ordem, diante de quinze examinadores da “república de Utopia”. Os nomes deles dizem tudo: Dr. Absoluto, que preside a sessão, Sr. Fatalidade, Sr. Preterição, Dr. Confiança, Dr. Duvidoso, Sr. Eficaz, Sr. Indefectível. Tilenus responde a perguntas sobre a sua conversão e sobre os cinco artigos do Sínodo de Dort. No fim, a comissão o reprova e o manda para casa, a “pensar em algum outro emprego”. O autor era Laurence Womock, um pregador da Igreja da Inglaterra que havia perdido o lugar na guerra civil, tinha deixado o calvinismo da juventude lendo os remonstrantes holandeses e terminaria a vida como bispo de St David’s, no País de Gales.

Vida

Norfolk e Cambridge

Laurence Womock nasceu em 1612, no condado de Norfolk, no leste da Inglaterra. O pai, também chamado Laurence, foi reitor da paróquia de Lopham de 1607 até morrer, em julho de 1642, e o avô, Arthur Womock, ocupara antes dele o mesmo benefício.

Em 4 de julho de 1629 ele entrou no Corpus Christi College, em Cambridge, como pensioner, o estudante que pagava a própria pensão. Em outubro do mesmo ano recebeu uma das bolsas fundadas por Sir Nicholas Bacon, reservadas a rapazes de Norfolk. Formou-se bacharel em artes em 1632, foi ordenado diácono em Norwich em 21 de setembro de 1634 e depois tirou o grau de mestre.

Womock foi educado no calvinismo. Anos depois ele falaria dos “erros da minha educação” e contaria que lhe tinham incutido fortes preconceitos contra as doutrinas que acabou abraçando.

Capelão e pregador

Em 1641, Womock era capelão de William Paget, quinto barão Paget, e dedicou a ele o seu primeiro livro, Beaten Oyle for the Lamps of the Sanctuarie. O título alude ao azeite batido que alimentava a luz do tabernáculo (Êxodo 27:20), e o livro defende a oração escrita e a liturgia, então atacadas pelos puritanos no Parlamento. Nessa época ele ganhou fama como pregador no oeste da Inglaterra, e o poeta Clement Barksdale lhe dedicou versos depois da tomada de Hereford, em 1645.

Sem lugar na república

Defensor do episcopado e da monarquia, Womock perdeu o lugar na igreja com a vitória do Parlamento e passou os anos da guerra e da república de Cromwell sem cargo nem benefício. Foi nesse tempo que ele leu os teólogos remonstrantes, os seguidores de Jacó Armínio condenados em Dort, e mudou de convicção. James Nichols, o editor metodista que reimprimiu o Exame de Tileno em 1824, observou que Womock foi o primeiro teólogo inglês a reconhecer abertamente a sua dívida com os escritos dos holandeses.

Em 1654, Cromwell criou uma comissão central para aprovar os pregadores que assumiriam paróquias, os Triers, “examinadores”, e comissões locais para afastar os ministros considerados inaptos. Os examinadores, quase todos calvinistas, perguntavam ao candidato pela sua experiência de conversão. John Goodwin, o arminiano puritano de Coleman Street, atacou a comissão em 1657 com o panfleto The Triers, or Tormentors, Tried and Cast. Womock escolheu a sátira.

O Exame de Tileno

O Exame de Tileno saiu no fim de 1657 com data de 1658. O nome do candidato foi tomado de Daniel Tilenus (1563-1633), teólogo protestante nascido na Silésia que ensinou na academia de Sedan, na França. Tilenus começou como calvinista rígido e polemizou contra Armínio, mas acabou convencido pelos argumentos dele e criticou abertamente o Sínodo de Dort. O resumo dos cânones de Dort que Womock pôs no diálogo foi traduzido do francês de Tilenus. O livro trazia ainda os artigos dos remonstrantes, com as provas bíblicas de cada um, e anotações em latim sobre as teses do puritano Thomas Parker a respeito da conversão.

O livro saiu anônimo, e poucos amigos sabiam quem o escrevera. Richard Baxter, em quem James Nichols via o modelo do Dr. Duvidoso, defendeu o sínodo no prefácio de The Grotian Religion Discovered, e Henry Hickman, de Oxford, refutou Tilenus num sermão em latim de 1659 e chamou o autor de “escrevinhador”. Womock só reconheceu a autoria anos depois, numa carta a um dos comissários da Conferência de Savoy. Os críticos puritanos o puseram na mesma lista de Thomas Pierce e Jeremy Taylor, os outros arminianos da igreja episcopal derrotada.

Womock voltou à carga em 1659 com Arcana Dogmatum Anti-Remonstrantium, or the Calvinists Cabinet Unlock’d, uma “apologia de Tilenus” contra a defesa de Dort feita por Baxter, com observações sobre os papéis de Hickman. Em 1661 publicou, também sem nome, The Result of False Principles, seis diálogos em que um pregador calvinista chamado Diótrefes conversa com um pagão, com um homem carnal e com outros ouvintes.

A Restauração

Com a volta de Carlos II, no verão de 1660, Womock recebeu uma prebenda na catedral de Hereford e outra na catedral de Ely. Em 8 de dezembro foi nomeado arcediago de Suffolk, cargo que manteve até ser feito bispo. Em 1661 recebeu o doutorado em teologia por carta do rei. Foi ainda reitor de Horningsheath, perto de Bury St Edmunds, desde 1662, e de Boxford, também em Suffolk, desde 1663.

Nos anos seguintes ele escreveu sobretudo para defender a igreja restaurada. Pulpit-Conceptions, Popular-Deceptions (1662) responde aos papéis que os presbiterianos apresentaram na Conferência de Savoy em favor da oração livre. An Antidote (1663) responde ao sermão de Edmund Calamy sobre Eli, que tremia pela arca. Em 1680, defendeu o direito dos bispos de votar no Parlamento, inclusive nos processos capitais.

Casou-se duas vezes, com Anne Aylmer, viúva de Bury, em 1668, e com Katherine Corbett, de Norwich, em 1670. Teve uma filha, Anne.

Bispo de St David’s

O arcebispo William Sancroft o indicou para o episcopado, e Womock foi sagrado bispo de St David’s em 11 de novembro de 1683, na capela do palácio de Lambeth, junto com Francis Turner, que assumia Rochester. Aceitou a contragosto, já com mais de setenta anos, e dizia que teria preferido uma cadeira de cônego residente na catedral de São Paulo. Não chegou a residir na diocese galesa. No mesmo ano publicou Suffragium Protestantium, contra o Protestant Reconciler de Daniel Whitby, que propunha concessões aos dissidentes.

Morreu na sua casa de Westminster em 12 de março de 1686, aos 73 anos, e foi sepultado na igreja de St Margaret, ao lado da abadia de Westminster, onde uma lápide de mármore lembra a ele e à filha Anne. Era alto, de aspecto grave, espirituoso e dono de uma das maiores bibliotecas particulares da época, cujo catálogo saiu impresso em 1687 com o título Bibliotheca Womockiana.

Pensamento

Um arminiano clássico na Igreja da Inglaterra

Womock é um arminiano clássico, do tipo remonstrante, dentro da Igreja da Inglaterra. Ele declara que deixou o calvinismo pela leitura dos remonstrantes, elogia a erudição e a constância deles no exílio e anexa ao Exame de Tileno os cinco artigos remonstrantes, reordenados por ele em teses positivas e negativas, com as provas bíblicas de cada uma. Ele pertence à mesma linhagem anglicana de John Plaifere e de Christopher Potter, e a imprensa da Universidade de Cambridge reuniu os três num só volume em 1719.

Na epístola que abre o Exame, endereçada a um amigo calvinista, ele responde à acusação de inconstância: “quanto maiores foram os preconceitos que me incutiram contra essas doutrinas, maior deveis julgar a luz” que o convenceu (Exame de Tileno, 1658). E acrescenta que “nunca somos velhos demais para aprender na escola de Cristo”.

Graça primeiro

Os artigos remonstrantes que Womock publicou começam pela incapacidade humana. A primeira tese do terceiro e do quarto artigos diz que o homem não tem a fé salvadora de si mesmo nem pela força do seu livre-arbítrio, porque, no estado de pecado, não pode, por si mesmo, pensar, querer nem fazer nenhum bem salvador. Precisa ser renovado por Deus, em Cristo, pelo Espírito Santo. A segunda afirma que a graça de Deus é “o começo, a continuação e a consumação de todo bem”, de modo que nem o regenerado pode pensar, querer ou fazer o bem, nem resistir à tentação, sem a graça que vem antes, desperta, acompanha e coopera. É a graça preveniente, a graça que precede qualquer resposta humana, na linguagem da Declaração de Sentimentos de Armínio.

A discordância com Dort está no modo como essa graça age. Quando o Sr. Eficaz pergunta se ele já sentiu o Espírito fazer “violência santa” à sua vontade, Tilenus responde que a conversão de Paulo foi extraordinária e que o caminho comum não é o reino dos céus tomar o homem à força (Mateus 11:12). Diante de Efésios 2:1, os mortos em delitos e pecados, ele lembra que uma metáfora não basta como prova, porque “o semelhante não é o mesmo”: se o pecador fosse morto em todos os sentidos, nem poderia resistir à graça, e os próprios calvinistas admitem que ele resiste. Estêvão acusou os seus ouvintes de resistir sempre ao Espírito Santo (Atos 7:51). Diante de Filipenses 2:13, Tilenus concede que Deus opera a capacidade de querer e de fazer, mas não o próprio ato, porque então o ato seria de Deus e deixaria de ser obediência. Deus não força a vontade, explica ele, porque não desfaz a ordem que pôs na criação do homem.

A doutrina testada no púlpito

A ideia mais original de Womock é pastoral. No meio do exame, Tilenus pede para assumir quatro papéis: o incrédulo, o homem carnal, o morno e o tentado à beira do desespero. Os examinadores tentam ganhar cada um deles usando só a doutrina do sínodo, e falham. O desesperado ouve o Dr. Confiança falar da propiciação de Cristo e responde que esses consolos, segundo Dort, foram preparados só para um pequeno número, e que nada lhe garante estar entre eles.

O mesmo plano organiza The Result of False Principles (1661), que parte de um silogismo baseado em 2 Timóteo 3:16. A Escritura é útil para ensinar, repreender, corrigir e educar na justiça; uma doutrina que não serve para nenhuma dessas coisas não serve às almas nem é “segundo a piedade”. Os diálogos procuram mostrar que a doutrina dos decretos absolutos, na forma supralapsária ou na infralapsária, é escândalo para os pagãos, capa para o carnal, santuário para o descuidado, desculpa para o presunçoso e açoite para o desconsolado. Na conclusão do Exame, Tilenus diz que essa doutrina esvazia também os sacramentos, porque o pastor batiza todos com as promessas da aliança e dá a Ceia a todos, enquanto ensina que Cristo não morreu pelos reprovados.

No prefácio do Calvinists Cabinet Unlock’d, Womock resume a objeção num contraste: os decretos absolutos, “enquanto exaltam a soberania de Deus, acusam a sua bondade” (1659).

Expiação, eleição e perseverança

Os artigos anexos afirmam que Deus quis salvar o homem só depois de satisfeita a sua justiça, e que o preço da redenção pago por Cristo bastava para todos e foi pago “por todos e cada um” (1 Timóteo 2:5-6). A eleição é em Cristo e condicional: Deus decretou salvar os que creem e perseveram. Sobre a perseverança, ele segue os remonstrantes posteriores a Armínio. Deus dá aos crentes graça suficiente para perseverar e vencer as tentações, mas o crente verdadeiro pode, por culpa própria, abandonar a fé e perecer. O crente pode ter certeza presente da sua salvação e a certeza de que a graça não lhe faltará enquanto vigiar e orar.

Pontos de distância

No essencial, Womock está com a declaração de fé deste site: a incapacidade humana, a graça que vem antes e sustenta todo bem, a expiação por todos, a graça resistível e a perseverança condicional. As diferenças estão na ênfase. Ele era um anglicano zeloso da liturgia, do episcopado e da monarquia, e escreveu boa parte da obra contra os dissidentes, a quem não queria tolerar. O seu Tilenus desconfia das conversões datadas que os examinadores exigiam e prefere a fé recebida desde a infância, e o próprio James Nichols advertiu os leitores metodistas a ler com cautela essas passagens. A tradição wesleyana, que o site segue, dá mais peso ao novo nascimento consciente e ao testemunho do Espírito (Romanos 8:16).

Influência

O Exame de Tileno entrou em 1719 na Collection of Tracts Concerning Predestination and Providence, da imprensa da Universidade de Cambridge. Em 1783, John Wesley publicou o Calvinists Cabinet Unlock’d em onze capítulos no sexto volume da Arminian Magazine, de janeiro a novembro. Em 1790, saiu em Londres um extrato de The Result of False Principles. Em 1824, James Nichols reeditou o Exame.

Obras principais

  • Beaten Oyle for the Lamps of the Sanctuarie (1641).
  • The Examination of Tilenus before the Triers (1658).
  • Arcana Dogmatum Anti-Remonstrantium, or the Calvinists Cabinet Unlock’d (1659).
  • The Result of False Principles, or Error Convicted by its Own Evidence (1661).
  • The Solemn League and Covenant Arraigned and Condemned (1661).
  • Pulpit-Conceptions, Popular-Deceptions (1662).
  • An Antidote to Cure the Calamites of their Trembling for Fear of the Arke (1663).
  • Go Shew Thy Self to the Priest (1679).
  • Two Treatises (1680).
  • Suffragium Protestantium (1683).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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