AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaTeólogos arminianos25 de 306

Leo G. Cox: O wesleyano que estudou o pecado e a perfeição em Wesley

Diego Gonçalves13 min de leitura2.519 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Na segunda metade da década de 1950, um pastor metodista wesleyano que tinha sido missionário na Austrália preparava, na State University of Iowa, uma tese sobre a perfeição cristã em John Wesley. O orientador era presbiteriano, e o chefe do departamento de religião, um metodista liberal, brincava que o coração “estranhamente aquecido” de Wesley em Aldersgate tinha sido provavelmente uma indigestão. Os outros membros eram um batista, um católico romano, um judeu liberal e um luterano, e o único que entendia alguma coisa de perfeição cristã era o católico. Leo George Cox concluiu o doutorado em 1959, publicou a tese em 1964 e, no ano seguinte, ajudou a criar a sociedade de estudiosos wesleyanos que lhe tinha feito falta naqueles anos: a Wesleyan Theological Society (Sociedade Teológica Wesleyana), de que foi o primeiro presidente.

Vida

Formação e ministério

Leo George Cox nasceu em 1912 e se converteu aos dez anos. Em 1934 casou-se com Esther Burgan, e em 1937 concluiu o bacharelado no Miltonvale Wesleyan College, a escola da Igreja Metodista Wesleyana no Kansas. Fez depois o bacharelado em divindade e, no Marion College, em Indiana, hoje Indiana Wesleyan University, um mestrado em religião. Foi ordenado ministro da Igreja Metodista Wesleyana, uma denominação do movimento de santidade, o ramo do metodismo americano que pregava a inteira santificação como segunda obra da graça.

No começo da década de 1940, Cox estudou a relação entre a santidade e o elemento humano numa tese que nunca publicou, In Earthen Vessels (Em vasos de barro). Incomodava-o a falta de clareza dos pregadores de santidade em distinguir o pecado que ainda resta no crente das falhas que continuam na vida de quem já foi inteiramente santificado. A pergunta voltaria em quase tudo o que escreveu.

A missão na Austrália

Em 1947 o pastor Kingsley Ridgway organizou, na Austrália, a conferência inaugural da Igreja Metodista Wesleyana daquele país, ligada à Igreja Metodista Wesleyana norte-americana. Em 1948 a nova igreja comprou uma propriedade em Hadfield, em Melbourne, para abrir um colégio bíblico, com ofertas dos metodistas wesleyanos da América do Norte.

Para dirigir o colégio veio Leo Cox. Ele chegou com a família em novembro de 1948 e no mesmo ano foi eleito presidente da conferência, sucedendo Ridgway. Em março de 1949 o Wesleyan Methodist Bible College começou a funcionar em regime de internato, com sete alunos, e Cox foi o seu primeiro diretor. Acumulou a direção da escola e a presidência da conferência até o fim do seu período na Austrália, em 1953. Em 1973 o colégio recebeu o nome de Kingsley College, em homenagem a Ridgway.

Iowa: o pecado e a perfeição em Wesley

De 1955 a 1959 Cox esteve na State University of Iowa. Ali escreveu a dissertação de mestrado Wesley’s Concept of Sin (O conceito de pecado em Wesley) e a tese de doutorado John Wesley’s Concept of Perfection (O conceito de perfeição de John Wesley). Nesses anos pastoreava uma igreja metodista e quase não tinha contato com os colegas do movimento de santidade.

Depois do doutorado, Cox passou a frequentar a Evangelical Theological Society (Sociedade Teológica Evangélica), onde encontrou ajuda sobretudo sobre a autoridade da Bíblia e em cujo boletim publicou os primeiros artigos. Nessa época já ensinava no Marion College, a escola da denominação em Indiana, onde também ensinava Charles W. Carter.

Em 1964 a Beacon Hill Press, de Kansas City, publicou a tese com o título John Wesley’s Concept of Perfection. Os cinco capítulos tratam do pecado e da graça, das etapas da perfeição, da perfeição presente, dos limites humanos e dos “pecados” dos santificados. O livro foi reeditado com prefácio de Lee M. Haines e traduzido para o espanhol, El concepto de Wesley sobre la perfección cristiana. A Igreja Wesleyana o chama de um “clássico dos estudos wesleyanos”.

A Sociedade Teológica Wesleyana

No começo da década de 1960 Cox se aproximou da National Holiness Association (Associação Nacional de Santidade), que reunia as denominações do movimento de santidade. Merne Harris, do Vennard College, o pôs à frente do seminário de doutrina das convenções. Entre 1961 e 1963 o presidente da associação, Kenneth Geiger, levou grupos de professores, entre eles Cox, a dezessete escolas para palestras sobre a santidade. Em 1964 Geiger reuniu mais de oitenta pessoas em Winona Lake, Indiana, numa conferência sobre os “distintivos da teologia wesleyano-arminiana”.

Ali Cox viu que a troca de ideias só duraria com uma sociedade e uma revista nos moldes da Sociedade Teológica Evangélica. Propôs a ideia a Harris e, em 13 de fevereiro de 1965, passou duas horas com ele no aeroporto O’Hare, em Chicago, acertando o projeto que seria levado à diretoria da associação. Em abril de 1965, no Hotel Statler, em Detroit, durante a convenção da associação, cerca de vinte homens aprovaram a constituição e elegeram Cox presidente, com Harris como secretário e Richard S. Taylor como presidente eleito.

A primeira reunião anual aconteceu em 5 e 6 de novembro de 1965, no Spring Arbor College, em Michigan, com cerca de sessenta pessoas. Cox apresentou ali o trabalho “Sin in Believers” (O pecado nos crentes) e propôs um boletim anual, que se tornou o Wesleyan Theological Journal, editado por Charles Carter desde o primeiro número, de 1966. A sociedade teve 92 membros fundadores, e Cox queria que ali os jovens estudiosos submetessem as suas ideias aos mais velhos. Depois de debates acalorados sobre a inerrância, em 1969 a sociedade passou a chamar a Bíblia de “única regra infalível” de fé e prática. Entre os que entraram na sociedade depois dessa mudança esteve Donald Dayton.

Bartlesville e os últimos anos

Em 1968 a Igreja Metodista Wesleyana se uniu à Igreja Peregrina de Santidade para formar a Igreja Wesleyana, e o Central Pilgrim College, de Bartlesville, em Oklahoma, passou a se chamar Bartlesville Wesleyan College. Em 1969 Cox assumiu a presidência dessa escola e, ao mesmo tempo, a do Miltonvale Wesleyan College, onde tinha estudado. Em 1972 as duas se fundiram em Bartlesville. Cox presidiu a instituição unida até 1974; ela é hoje a Oklahoma Wesleyan University. Depois foi secretário-geral das instituições de ensino da Igreja Wesleyana, e de setembro a novembro de 1983 voltou a Bartlesville como presidente interino.

Esther morreu em 1990. Em 1992 Cox se casou com Leila, viúva do seu irmão, que morreu em 1994. Já professor emérito da Indiana Wesleyan University, escreveu em 1995 as memórias da primeira década da sociedade, terminando com uma frase de fé: “o meu próximo grande passo será para o céu”, onde esperava ver com mais clareza o que ainda não entendia. Leo G. Cox morreu em Marion, Indiana, em 28 de agosto de 2001.

Pensamento

Um arminiano wesleyano

Cox é um arminiano wesleyano. Foi ministro da Igreja Metodista Wesleyana e depois da Igreja Wesleyana, dedicou a carreira ao estudo de John Wesley e chamou a própria tradição de “wesleyano-arminianismo” (“Prevenient Grace: A Wesleyan View”, 1969). Defendia a graça para todos, a graça resistível, a justificação somente pela fé e a perseverança condicional, a tradição arminiana de Armínio e Wesley lida pelo movimento de santidade, na linha de H. Orton Wiley, que ele cita.

A graça preveniente

O artigo mais lido de Cox é “Prevenient Grace: A Wesleyan View” (A graça preveniente: uma visão wesleyana), publicado em 1969 no Journal of the Evangelical Theological Society. O argumento tem cinco pontos.

Primeiro, a graça preveniente, a graça que vem antes da salvação, é dada a todos. Segundo, ela é ministrada pelo Espírito Santo: todo bem que aparece no ser humano fora da salvação vem da presença do Espírito, e não de uma bondade que tenha sobrado da queda. Terceiro, ela leva à salvação. Ela faz tudo o que os reformados atribuem à graça comum, que refreia o mal, mas para os calvinistas a graça comum e a graça salvadora são de espécies diferentes, e para os wesleyanos a graça preveniente prepara para a graça salvadora e capacita a pessoa a entrar nela.

O quarto ponto responde à acusação de semipelagianismo. Cox admite que alguns que se dizem wesleyanos caem nesse erro, mas afirma que não se pode acusar Wesley dele. Por natureza, diz, o ser humano está “totalmente depravado e totalmente incapaz”, livre apenas para o mal. Toda liberdade verdadeira vem da graça, que dá o conhecimento do bem e o poder de escolhê-lo, e essa graça pode ser recusada. Por isso Cox descreve a posição wesleyana como “uma forma de sinergismo entendida no meio de um monergismo” (1969, p. 148). A frase tem uma ordem: no começo só Deus age, e depois que ele começou a sua obra a pessoa, liberta por ele, pode responder. O quinto ponto conclui que a sola gratia e a sola fide ficam preservadas. Como a própria reação humana à graça já é graça, quem chega ao fim “pode olhar para trás e dizer: foi a graça que me trouxe para casa”, e nenhum mérito sobra nem para o ato de crer. Na conclusão, a graça preveniente “eleva todos os homens a um ponto em que podem ser salvos”.

Nos artigos de 1962 e 1969, Cox acrescenta, com Wesley e John Fletcher, que a graça preveniente remove de todos a culpa herdada de Adão: ninguém será condenado eternamente só pelo pecado de Adão, e as crianças que morrem antes da idade da responsabilidade são salvas por Cristo. A declaração de fé deste site afirma que todos nascemos pecadores e sob a justa condenação de Deus; Cox não nega isso, porque também diz que toda criança nasce sob a culpa de Adão. O que ele acrescenta é que, em Cristo, essa culpa herdada é cancelada para todos, e a condenação eterna recai sobre o pecado pessoal, que é a recusa da graça recebida.

O pecado e a perfeição

Para Cox, ninguém entende a doutrina da perfeição cristã de Wesley sem entender antes o que ele dizia sobre o pecado. No artigo de 1962 ele resume o pensamento de Wesley em algumas teses. O ser humano caiu e ficou totalmente depravado. Só o pecado voluntário, a “transgressão voluntária de uma lei conhecida”, condena eternamente. Os crentes ainda carregam a corrupção interior, que já não reina sobre eles. Mesmo depois da inteira santificação, que purifica o coração e o enche de amor a Deus, continuam os pecados de ignorância e de fraqueza, pelos quais o santificado precisa sempre do sangue de Cristo. Quando a pessoa crê, a culpa desaparece e o poder do pecado se quebra, mas a raiz continua até a purificação completa, e mesmo então o santificado é perfeito só no sentido de que os motivos do coração foram purificados para amar a Deus. O livro de 1964 desenvolve esse esquema.

No trabalho de 1966 sobre o pecado nos crentes, Cox traçou duas fronteiras. De um lado, o pecado que resta no crente precisa ser distinguido do estado do incrédulo, que se entregou ao mal: se o padrão da vida nova sobe demais, só os santificados seriam cristãos, e se desce demais, os crentes seriam “miseráveis pecadores” para sempre. Do outro lado, esse pecado precisa ser distinguido das falhas humanas que continuam no santificado, como a ignorância, as limitações do corpo e da mente e os traumas que a psicologia chama de complexos reprimidos. Se essas fronteiras se apagarem, escreveu, “a mensagem da santidade fica em perigo nas mãos dos seus próprios cirurgiões teológicos” (Wesleyan Theological Journal, 1966). O crente pode ceder em parte à tentação e ser restaurado pelo Advogado de que fala 1 João 2:1; a vida espiritual só se apaga quando ele persiste em ceder ao pecado. É a perseverança condicional, a mesma da declaração de fé deste site.

Wesley e Lutero

No artigo de 1964 sobre a visão de Wesley a respeito de Lutero, Cox reconstrói o caminho de Wesley até a justificação somente pela fé, das conversas com o morávio Peter Böhler em 1738 à noite de Aldersgate, quando alguém lia o prefácio de Lutero à Carta aos Romanos. Wesley se considerou sempre de acordo com Lutero sobre a salvação somente pela fé. A diferença, segundo Cox, estava na santificação: Lutero via o pecado original no regenerado como uma ferida que começa a sarar mas continua aberta até a morte, e Wesley ensinava que todo pecado interior pode ser tirado antes dela. Cox cita o estudo de Gordon Rupp sobre Lutero e termina com um apelo: as diferenças teológicas entre irmãos não devem quebrar a unidade cristã, e nisso, ao menos, todos podem seguir Wesley.

Obras principais

  • John Wesley’s Concept of Perfection (tese de doutorado, State University of Iowa, 1959).
  • “John Wesley’s Concept of Sin”, Bulletin of the Evangelical Theological Society 5, n. 1 (1962).
  • “John Wesley’s View of Martin Luther”, Bulletin of the Evangelical Theological Society 7, n. 3 (1964).
  • John Wesley’s Concept of Perfection (Beacon Hill Press of Kansas City, 1964).
  • “Sin in Believers”, Wesleyan Theological Journal 1 (1966).
  • “John’s Witness to the Historical Jesus”, Bulletin of the Evangelical Theological Society 9, n. 4 (1966).
  • “Prevenient Grace: A Wesleyan View”, Journal of the Evangelical Theological Society 12, n. 3 (1969).
  • “Wesleyan Theological Society: The First Decade”, Wesleyan Theological Journal 30, n. 1 (1995).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

140pal/min