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Leroy M. Lee: O editor de Richmond que defendeu o arminianismo metodista no Sul
Neste texto
- Vida
- Uma família da primeira geração metodista
- Circuitos, cidades e o incêndio
- Quase um quarto de século no Richmond Christian Advocate
- Presbítero, guerra e velhice
- Pensamento
- Um wesleyano que se dizia arminiano
- A graça que acompanha o chamado
- The Great Supper Not Calvinistic
- Cristo, a cruz e a Escritura
- Riqueza e santidade
- Diferenças com a declaração de fé do site
- Obras principais
- Para aprofundar
Na noite de 20 de junho de 1835, um jovem pastor metodista de 27 anos dirigiu uma reunião de oração no subsolo da Igreja de Trinity, em Richmond, na Virgínia. Ele tinha chegado à cidade fazia pouco mais de três meses. Depois da meia-noite, o prédio pegou fogo e foi destruído por inteiro. O pastor ficou com a congregação, pregou onde conseguia e pôs a reconstrução de pé. A igreja reerguida foi dedicada em junho de 1836 e, anos depois, vendida e transformada em teatro. Ele gostava de contar, com o humor que todos lhe reconheciam, que era um pregador metodista que tinha construído um teatro. O pastor era Leroy Madison Lee, que pouco depois assumiria a pena mais influente do metodismo da Virgínia por quase um quarto de século.
Vida
Uma família da primeira geração metodista
Leroy Madison Lee nasceu em Petersburg, na Virgínia, em 30 de abril de 1808, filho de Abraham e Elizabeth Lee. Os avós paternos, Nathaniel e Elizabeth Lee, do condado de Prince George, converteram-se em 1772 sob a pregação de Devereux Jarratt, ministro anglicano evangélico, e entraram nas primeiras sociedades metodistas da Virgínia, formadas por Robert Williams. A casa deles virou ponto de pregação. Dois filhos do casal se tornaram pregadores: John Lee e Jesse Lee, o apóstolo do metodismo na Nova Inglaterra e o primeiro historiador do metodismo americano. Abraham, o pai de Leroy, era irmão dos dois. Leroy era, portanto, sobrinho de um dos pais do metodismo americano.
No verão de 1827, ele visitou a avó já idosa e ajoelhou-se para orar diante da velha cadeira de púlpito em que tinham pregado Francis Asbury, Thomas Coke, Freeborn Garrettson e os tios. Naquele mesmo ano, em 1º de abril, convertera-se em Petersburg sob o ministério de William A. Smith, que mais tarde presidiria o Randolph-Macon College. Em poucas semanas guiava uma classe de senhoras idosas; em agosto pregou pela primeira vez. Em fevereiro de 1828 a Conferência da Virgínia, reunida em Raleigh sob o bispo Joshua Soule, o admitiu no ministério itinerante. Ainda não tinha vinte anos.
Circuitos, cidades e o incêndio
Os primeiros anos foram de cavalo e estrada, em circuitos e cidades da Virgínia e da Carolina do Norte, de New Bern a Portsmouth. No circuito de Prince Edward, em 1831, um sermão sobre Isaías 3:11, o ai sobre o ímpio, despertou dezenas dos homens mais endurecidos da região.
Em julho de 1834 casou-se com Nancy Mosely Butler, de Elizabeth City, que morreu em novembro do mesmo ano. Em 1835 vieram Trinity e o incêndio. Doente, embarcou em novembro para Charleston, com a ideia de passar o inverno na Flórida, mas a guerra contra os seminoles fechou o caminho. Voltou em janeiro de 1836, depois de 23 dias de mar bravo, e encontrou uma surpresa: a conferência tinha comprado o Christian Sentinel, jornal metodista de Richmond para o qual ele escrevia desde 1832, e o queria como editor. Em novembro de 1836 casou-se com Virginia Addington, de Norfolk, com quem teve nove filhos.
Quase um quarto de século no Richmond Christian Advocate
O primeiro número sob a direção dele saiu em 4 de março de 1836. A saúde fraca o fez renunciar em abril de 1837, e ele passou dois anos viajando pela conferência para se recuperar. Em fevereiro de 1839 reassumiu o jornal, que passou a se chamar Richmond Christian Advocate, e só o deixou em 1858. Escrevia de primeira, quase sem rasuras.
Nesses anos ele escreveu o livro que os contemporâneos consideraram a sua obra-prima, The Life and Times of the Rev. Jesse Lee, com prefácio datado de março de 1848. A família do tio nunca se conformou com o Memoir de 1823, de Minton Thrift, feito às pressas a partir dos diários de Jesse, nem com o pouco espaço que a History of the Methodist Episcopal Church de Nathan Bangs dera ao “apóstolo do metodismo na Nova Inglaterra”. Leroy trabalhou sem as fontes principais, porque os manuscritos de Jesse Lee queimaram no incêndio do depósito de livros metodista de Nova York, em 1836. O livro quis mostrar o homem de oração por trás das anedotas de espírito rápido que corriam sobre o tio.
As décadas de 1840 e 1850 foram as da grande controvérsia. Lee foi delegado à Conferência Geral de 1844, em Nova York, onde a Igreja Metodista Episcopal se dividiu. O caso imediato foi o do bispo James O. Andrew, da Geórgia, que se tornara dono de escravos pelo casamento: a maioria do Norte pediu que ele deixasse o episcopado enquanto mantivesse essa condição, e as conferências do Sul se retiraram. Lee esteve na convenção de Louisville, em 1845, que organizou a Igreja Metodista Episcopal do Sul. No jornal, defendeu a igreja do Sul contra a imprensa metodista do Norte, de George Peck e de Abel Stevens, com uma ironia que os adversários sentiam na pele. Na Conferência da Virgínia, cuja fronteira norte era a linha de frente da disputa, foi a voz mais forte do lado sulista. Essa defesa aceitava uma igreja com bispos senhores de escravos, e é a parte da obra de Lee que menos resiste ao juízo do evangelho que ele pregava.
Participou de todas as Conferências Gerais do Sul até morrer. Presidiu a Comissão de Itinerância de 1850 a 1866 e a de Episcopado em 1870 e 1874. Em 1848 a Universidade Transilvânia, em Kentucky, deu-lhe o título de doutor em teologia. Em 1855 preparou com artigos sobre educação cristã a campanha que levantou cem mil dólares para o Randolph-Macon College.
Presbítero, guerra e velhice
Em 1858 recusou a reeleição para o jornal, porque queria voltar ao ministério itinerante, e foi nomeado presbítero presidente do Distrito de Norfolk. Em novembro de 1861, durante a conferência em Norfolk, teve um ataque súbito e ficou inconsciente por vários dias; nunca se recuperou de todo. Em 10 de maio de 1862 as tropas federais ocuparam Norfolk e o ministério no distrito acabou. Serviu depois em igrejas de Lynchburg, Norfolk e Richmond e como presbítero presidente nos distritos de Richmond e Petersburg. Em 1867, juntou-se aos comissários da Igreja do Sul que propuseram à Igreja Metodista Protestante, reunida em Montgomery, no Alabama, a união das duas igrejas. Em 1872 perdeu a esposa, que morreu de repente enquanto ele estava fora, numa reunião trimestral.
Um pregador mais novo lembrava dele como “o velho Nestor da conferência”. A última nomeação foi a igreja do Randolph-Macon, em Ashland, e em novembro de 1881 ele pediu a aposentadoria. Morreu na casa da filha Mary Virginia Banks, em Ashland, na tarde de 20 de abril de 1882, sentado na velha poltrona, depois de dizer à família: “Minha obra está feita; deitem-me e deixem-me descansar”. Pregadores carregaram o caixão até o Cemitério de Hollywood, em Richmond. Um neto, Leroy Lee Banks, seguiu o avô no ministério da Conferência da Virgínia.
Pensamento
Um wesleyano que se dizia arminiano
Lee pertence à classe wesleyana: foi ministro da Igreja Metodista Episcopal e, depois de 1845, da Metodista Episcopal do Sul, cujos Artigos de Religião afirmam a graça que vem antes da boa vontade humana. Ele mesmo se colocava sem rodeios no campo arminiano. Ao narrar um domingo em que Jesse Lee, sozinho numa cidade da Nova Inglaterra, teve de escolher entre um culto calvinista e um universalista, escreveu que a verdade, “na figura do seu representante arminiano”, ocupava o centro entre “o calvinismo rígido e o universalismo frouxo” (The Life and Times of the Rev. Jesse Lee, 1848). Escreveu também uma resenha sobre a vida e os escritos de Armínio para a revista trimestral da igreja do Sul (1854). O historiador E. Brooks Holifield usa os textos dele como exemplo de como os metodistas do Sul se ligavam, com orgulho, à revolta de Armínio contra o calvinismo.
A graça que acompanha o chamado
O ponto central da polêmica de Lee era o alcance da graça. Na biografia do tio, ele registra com aprovação três teses que Jesse Lee defendeu num sermão sobre Mateus 22:14, diante de um pastor batista e de um congregacional: todos os homens são chamados a deixar o pecado; com esse chamado, o pecador recebe “o poder gracioso de obedecer”; e os homens são chamados antes de ser escolhidos. Lee chamou isso de “um tiro certeiro no calvinismo”. É a doutrina da graça preveniente, a graça que vem antes da resposta humana e torna possível crer. Os metodistas do Sul usavam a expressão “capacidade graciosa” (gracious ability): a capacidade de crer existe, mas é dom da graça, e não força natural.
Essa graça alcança um homem perdido. Na introdução que escreveu em 1849 às Cartas sobre a filiação eterna de Cristo, de William Beauchamp, Lee condena como “heresias” o arianismo e o pelagianismo que se espalhavam pelo Oeste americano, e louva quem combateu a doutrina da “liberdade inerente do homem da culpa e da condenação”. Para ele, todo ser humano nasce culpado e só é salvo pela expiação de Cristo, e por isso não pode ser lido como semipelagiano. O que recusava era a graça irresistível. Conta, com evidente prazer, a cena em que Jesse Lee interrompeu um pregador calvinista que lia o Salmo 110:3 como “o teu povo será feito voluntário no dia do teu poder”; Jesse mostrou na Bíblia de bolso que a palavra “feito” não estava no texto.
The Great Supper Not Calvinistic
O livro doutrinário mais conhecido de Lee responde ao presbiteriano Ashbel Green Fairchild, que em três sermões sobre a parábola da grande ceia (Lucas 14:16-24) defendeu as “doutrinas da graça” no sentido calvinista. O título da réplica já diz a tese: a parábola, que fala de um convite recusado pelos primeiros convidados e estendido depois aos pobres, aos aleijados e aos que estavam pelos caminhos, não ensina o calvinismo. A editora da igreja do Sul a anunciava como defesa do “evangelho da graça de Deus”, e Holifield a cita entre os textos metodistas que defendiam o alcance universal da expiação e a capacidade graciosa de crer. Lee também escreveu um folheto sobre a perseverança final dos santos, tema em que os metodistas ensinavam a perseverança condicional.
Cristo, a cruz e a Escritura
Lee defendia a ortodoxia cristológica dentro do próprio metodismo. Na introdução às cartas de Beauchamp, apoiou a refutação da tese de Adam Clarke, que negava a filiação eterna de Cristo, já combatida na Inglaterra por Richard Watson, mas reconheceu que Clarke cria firmemente na divindade de Jesus. Sobre a cruz, escreveu que pela morte de Cristo “o pecado foi expiado”, a justiça divina foi “propiciada” e se abriu o caminho da reconciliação; e acrescentou que a expiação não está no sofrimento em si, mas na morte sofrida “como ato judicial”, no sangue derramado. É a linguagem da substituição penal. No ensaio “Pulpit Hermeneutics” (1852), defendeu que “o sentido real” de um texto bíblico é “aquele que é pretendido” pelo autor.
Riqueza e santidade
A santidade wesleyana aparece em Lee como uso dos bens. No sermão “O pecado e o castigo da riqueza egoísta”, sobre Lucas 12:21, publicado em The Methodist Pulpit, South (1859), ele define a riqueza cristã como “a capacidade de fazer o bem, conforme a oportunidade se oferece e os meios permitem”. A riqueza é talento confiado por Deus, o dízimo é o mínimo, e a cobiça é idolatria que a igreja tolera nos bancos como se fosse compatível com a fé. O rico da parábola, diz Lee, tinha um deus, “mas era o ouro”.
Diferenças com a declaração de fé do site
Em dois pontos Lee difere da declaração de fé que orienta este site. O primeiro é o batismo: ele defendia o batismo de crianças e combateu o que chamava de “imersionismo”; deixou pronto um livro sobre o batismo infantil. A declaração entende que o batismo segue a conversão. O segundo é a linguagem da justificação. Lee escreveu que a doutrina da justiça imputada de Cristo, como a ensinava o calvinista Jarratt, “não faz parte da teologia metodista”, posição comum entre os metodistas do Sul, como Thomas O. Summers. O site, com John Wesley no sermão O Senhor, justiça nossa, afirma a justificação pela fé com a imputação da justiça de Cristo. Na graça preveniente, na expiação universal e na recusa da eleição incondicional, Lee e o site estão do mesmo lado.
Obras principais
- Advice to a Young Convert, cartas sobre o cristianismo prático publicadas no Christian Sentinel em 1832 e reunidas em livro (Nova York, 1840).
- The Life and Times of the Rev. Jesse Lee (Charleston, 1848; Nashville, 1860).
- Ensaio introdutório a William Beauchamp, Letters on the Eternal Sonship of Christ (Charleston, 1849).
- “Pulpit Hermeneutics” (1852) e “The Life and Writings of Arminius” (1854), na revista trimestral da Igreja Metodista Episcopal do Sul.
- The Great Supper Not Calvinistic: Being a Reply to the Rev. Dr. Fairchild’s Discourses on the Parable of the Great Supper (1854-1855; ed. de Nashville, 1856).
- “The Sin and Punishment of Selfish Wealth”, sermão em The Methodist Pulpit, South (Washington, 1859).
- A Dream; and What Followed It (Richmond, 1882).
- Folhetos: A Tract on Confirmation e On the Final Perseverance of the Saints.
Para aprofundar
- Alexander G. Brown, “Rev. Leroy Madison Lee, D. D.”, necrológio nas Minutes of the Virginia Annual Conference of the Methodist Episcopal Church, South, 1882, no Internet Archive.
- John J. Lafferty, Sketches of the Virginia Conference, Methodist Episcopal Church, South (Richmond, 1880), pp. 13-15, no Internet Archive.
- “Pen and Ink Sketch of Rev. Leroy M. Lee, D. D.”, em The Southern Methodist Pulpit (1848), no Internet Archive.
- E. Brooks Holifield, The Gentlemen Theologians: American Theology in Southern Culture, 1795-1860 (Duke University Press, 1978), caps. 4 e 8, no Internet Archive.
- Richard Irby, History of Randolph-Macon College, Virginia (Richmond), no Internet Archive.
- A Hundred Years of Richmond Methodism (Richmond, 1899), no Internet Archive.
- Matthew Simpson (ed.), Cyclopaedia of Methodism (Filadélfia, ed. revista), verbete sobre a Igreja Metodista Protestante e lista de autores metodistas, no Internet Archive.
- D. G. C. Butts, After Fifty Years (Richmond, 1920), no Internet Archive; Samuel A. Steel, Eminent Men I Met Along the Sunny Road (Cokesbury, 1925), no Internet Archive.
- Leroy M. Lee, The Life and Times of the Rev. Jesse Lee (ed. de 1860), no Internet Archive; introdução a William Beauchamp, Letters on the Eternal Sonship of Christ (1849), no Internet Archive; “The Sin and Punishment of Selfish Wealth”, em William T. Smithson (org.), The Methodist Pulpit, South (1859), no Internet Archive; A Dream; and What Followed It (1882), no Internet Archive.
- Ashbel G. Fairchild, The Great Supper; or, An Illustration and Defence of the Leading Doctrines of Grace (Filadélfia, 1847), o livro a que Lee respondeu, no Internet Archive.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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