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Malcolm B. Yarnell III: O teólogo batista que não quis ser calvinista nem arminiano

Diego Gonçalves14 min de leitura2.703 palavras

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Neste texto

Por volta do ano 2000, um pastor batista que tinha passado parte da infância na Louisiana entrou numa sala da Universidade de Oxford para defender a sua tese de doutorado sobre o sacerdócio de todos os crentes na Reforma inglesa. Os examinadores eram Rowan Williams, então arcebispo de Gales e depois arcebispo de Cantuária, e Diarmaid MacCulloch, um dos maiores historiadores da Reforma. “Eles vão me reprovar”, pensou Malcolm Yarnell. Não reprovaram: gostaram tanto do trabalho que pediram a sua publicação, e a Oxford University Press o lançou em 2013 como Royal Priesthood in the English Reformation. Anos antes, quando o seu pastor lhe disse que se candidatasse a Oxford, ele tinha respondido que lá não aceitariam “um rapaz dos pântanos da Louisiana”.

Malcolm B. Yarnell III pregando diante de uma cruz
Malcolm B. Yarnell III, foto do Southwestern Baptist Theological Seminary, 2007. CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Da Escola Bíblica de Férias ao curso de finanças

Malcolm B. Yarnell III nasceu no norte do estado de Nova York e cresceu em várias regiões dos Estados Unidos, porque o pai servia na Força Aérea. Quando o pai foi destacado para Bossier City, na Louisiana, a família passou a frequentar a igreja com a bisavó, que tinha sido membro fundadora da Barksdale Baptist Church. Ali, aos sete anos, numa Escola Bíblica de Férias, ele “nasceu de novo, pela fé”, nas suas palavras, pouco antes de ser batizado. Na mesma igreja, anos depois, reconsagrou a vida ao Senhor.

Formou-se em finanças em 1986 na Louisiana State University em Shreveport, onde participou da União de Estudantes Batistas, e pensava que a sua vocação era sustentar ministros com o próprio trabalho. O chamado para o ministério o surpreendeu, porque ele, “um pouco introvertido”, não se via no perfil expansivo dos pregadores à sua volta.

Garrett, Duke e Oxford

Foi para o Southwestern Baptist Theological Seminary, em Fort Worth, no Texas, onde fez o mestrado em divindade. Sabia que Deus o chamava para ensinar, mas só entendeu o quê quando entrou na sala de James Leo Garrett: “foi aí que eu soube que era chamado não só para ensinar, mas para ensinar teologia”. Garrett seria o teólogo que mais o marcou. Em 1990 plantou uma congregação num conjunto de apartamentos de Fort Worth e, de 1992 a 1994, pastoreou a Lakeview Baptist Church, em Shreveport.

Para aprofundar a teologia da Reforma, foi para a Duke Divinity School, onde estudou com o historiador David Steinmetz e concluiu em 1996 um mestrado sobre o sacerdócio de todos os crentes na Reforma, enquanto pastoreava a Tabbs Creek Baptist Church, em Oxford, na Carolina do Norte. Planejava fazer o doutorado com Garrett, mas o pastor insistiu na Oxford inglesa, onde ele concluiu o doutorado em filosofia em 2000.

Administração e a recusa da Louisiana

Em 1º de julho de 2001 assumiu a vice-presidência acadêmica do Midwestern Baptist Theological Seminary, em Kansas City, no Missouri. Em outubro foi eleito também deão do corpo docente. Em 2003 voltou ao Southwestern como deão assistente de estudos teológicos e professor de teologia sistemática. Ali dirigiu o Centro de Pesquisa Teológica, e editou o Southwestern Journal of Theology por mais tempo que qualquer antecessor.

Em 24 de setembro de 2004 os curadores do Louisiana College, a faculdade dos batistas da Louisiana, o elegeram presidente. A escola estava dividida e sob investigação da agência que a credenciava. Na convenção estadual de novembro os líderes impuseram as mãos sobre ele e oraram, mas na negociação do contrato vieram à tona questões de governo da escola que limitariam a sua liderança. Em 23 de novembro de 2004 ele retirou o nome por e-mail, citando Amós 3:3: “Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?”.

No centro do debate sobre o calvinismo

Em novembro de 2007, em Ridgecrest, na Carolina do Norte, a Founders Ministries, ligada aos batistas calvinistas, e o Southeastern Baptist Theological Seminary promoveram a conferência “Construindo pontes”, em que cada tema era exposto por um calvinista e por um não calvinista. A palestra de Yarnell, “Calvinismo: motivo de alegria, motivo de preocupação”, saiu em livro em 2008. Ele distinguiu três calvinismos: o clássico, o batista e o hipercalvinismo, que nega a oferta do evangelho a todos. Calvinistas presentes o acharam duro demais e reclamaram que ele aproximava os três.

Em 2008, com Tom Ascol, calvinista, e Bart Barber, ele deu a redação final à resolução sobre a membresia regenerada que a Convenção Batista do Sul aprovou. Em 2010 escreveu um capítulo de Whosoever Will, o livro organizado por David L. Allen e Steve Lemke contra o calvinismo de cinco pontos. Em setembro do mesmo ano o seu centro publicou “Nem calvinistas nem arminianos, mas batistas”, assinado por ele, Allen, Kenneth Keathley, Lemke, Paige Patterson, Jerry Vines e Richard Land. Em 2012 assinou a Declaração Tradicional redigida por Eric Hankins. Em março de 2015, no Jacksonville College, no Texas, debateu com Ascol a Declaração Tradicional.

Professor de pesquisa e pastor de ensino

Hoje é professor de pesquisa em teologia no Southwestern, onde formou boa parte dos teólogos sistemáticos da casa. Desde outubro de 2018 é pastor de ensino da Lakeside Baptist Church, em Granbury, no Texas, porque acha que “a academia existe para a igreja” e que quem forma líderes de igreja precisa liderar numa igreja.

Em 2023 o presidente da convenção, Bart Barber, seu ex-aluno, o pôs na comissão de resoluções. Yarnell escreveu a resolução sobre o senhorio exclusivo de Cristo sobre a consciência, base batista da liberdade religiosa. Em 2024 lançou God, o primeiro volume da série Theology for Every Person, escrita para o discípulo comum de Jesus; o segundo, Word, saiu em 2026, e o terceiro se chamará Spirit. É casado com Karen e tem cinco filhos.

Pensamento

Nem calvinista nem arminiano

Classe: simpatizante. Yarnell rejeita os pontos centrais do calvinismo de Dort, mas recusa o nome de arminiano e também o sistema wesleyano. O documento de 2010 responde a Roger Olson, que tinha chamado os autores de Whosoever Will de arminianos: “Somos calvinistas? Não. Somos arminianos? Não. Então, quem somos nós? Somos batistas”, da tradição de Sandy Creek. Numa entrevista de 2008 ao seminário de Nova Orleans foi mais longe e pediu que os batistas deixassem “aos calvinistas e aos wesleyanos, cristãos que são”, os seus sistemas, que ele chamou de “extrabíblicos e desnecessariamente complexos”.

A cruz por todos e a graça primeiro

Na mesma entrevista ele pôs a Ceia como celebração da expiação “que Jesus Cristo realizou na cruz por toda a humanidade”. O documento de 2010 diz que, contra o calvinismo de Dort, a Escritura não ensina que a graça “faz violência à vontade humana” nem que a morte de Cristo deixou de propiciar pelos pecados “do mundo inteiro” (1 João 2:2), e cita Thomas Helwys, companheiro de John Smyth: a morte de Cristo por todos é uma “doutrina confortadora”. Por isso os autores defendem o convite público ao arrependimento. Nesses pontos Yarnell está com a soteriologia arminiana e com a nossa declaração de fé, que ensina a expiação universal e a graça resistível.

Quando Albert Mohler disse que trechos da Declaração Tradicional pareciam semipelagianos, Yarnell respondeu em junho de 2012 que os signatários creem que a fé chega ao ser humano como ato da graça divina, como a cruz e a pregação. “Sempre ensinei aos meus alunos”, escreveu, “que a graça divina tem a prioridade na salvação, do começo ao fim.” O documento de 2010 afirma que “a verdadeira fé é impossível sem a obra do Espírito de Deus com a Palavra de Deus”.

Aqui aparece a distância em relação ao arminianismo clássico. O mesmo documento diz que a maioria dos signatários não vê na Escritura que o ser humano seja “totalmente incapaz” de responder ao chamado de Deus. Jacó Armínio ensinou o contrário: depois da queda, a vontade para o bem verdadeiro está perdida, e só a graça preveniente, dada a todos, a liberta para crer. Yarnell também liga a obra do Espírito à Palavra escrita e pregada: “fui salvo porque alguém me deu a Palavra de Deus, e não conheço outro modo de alguém ser salvo”. Armínio e a nossa declaração de fé reconhecem o Espírito agindo em todas as pessoas, ordinariamente pela pregação, mas também antes e além dela. Yarnell não põe o pecador dando o primeiro passo sem Deus, mas não adota a vontade libertada pela graça preveniente de que fala o arminianismo.

Salvo para sempre

O segundo ponto de distância é a perseverança. O documento de 2010 lembra que a Remonstrância deixou a questão em aberto e declara que os signatários têm certeza absoluta de que o nascido de novo será salvo, como diz a confissão Baptist Faith and Message. A nossa declaração de fé ensina a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo, e a fé pode ser abandonada (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14).

O perigo das tendências calvinistas

No capítulo de Whosoever Will, Yarnell apontou três tendências que o calvinismo pode trazer às igrejas batistas: uma visão agostiniana da igreja, que deixa a igreja universal no centro e enfraquece o cuidado com a pureza da congregação local; um elitismo aristocrático, visível no governo presbiteriano por presbíteros; e uma inclinação antinomiana, isto é, de descaso com a lei de Deus na vida cristã. O alvo de Yarnell é o sistema que, para ele, especula além do texto bíblico, e não a piedade dos calvinistas, com quem ele diz manter comunhão.

A Trindade lida na Escritura

A maior parte da sua obra recente trata de Deus. Em God the Trinity: Biblical Portraits (2016), lê de perto oito textos, de Deuteronômio 6:4-7 a Apocalipse 5:6, procura em cada um um retrato do Deus trino e defende que “o padrão da Trindade está tecido” nos dois Testamentos. Pede também que os evangélicos deixem de reduzir a revelação a proposições, hábito herdado do Iluminismo.

Com essa leitura ele se opõe à subordinação funcional eterna, a tese de que o Filho está eternamente sob a autoridade do Pai, defendida por alguns teólogos calvinistas. Em 2023 chamou-a de “erro teológico” alimentado por “uma antropologia peculiar de hierarquia masculina”. Em God (2024) resume a doutrina em dez pontos e a rejeita de novo. Nisso está com a nossa declaração de fé, que confessa as três pessoas “coeternas e coiguais em poder e glória” (ver a doutrina da Trindade).

Sacerdócio, aliança e consciência

A outra linha da obra de Yarnell é a igreja livre: as igrejas que nasceram fora das Igrejas estatais da Reforma, como anabatistas, batistas e, na sua lista, até metodistas, e que defenderam a liberdade religiosa. Em Royal Priesthood mostrou que, na Inglaterra do século XVI, o sacerdócio de todos os crentes foi lido sobretudo em favor da autoridade do rei, e não como doutrina individualista e anticlerical. Em The Formation of Christian Doctrine foi buscar no anabatista Pilgram Marpeck uma base para a doutrina e distinguiu o desenvolvimento legítimo, que tira à luz o que está implícito na Escritura, da invenção que a contradiz. Sobre a herança anabatista, ver Balthasar Hubmaier, Menno Simons e batistas e anabatistas.

Num artigo de 2023, a partir de Atos 15, defendeu que a dogmática da igreja livre vive de uma tensão entre a aliança da congregação e a liberdade da consciência. A igreja local decide as interpretações em disputa; os sistemas dos teólogos são “empreendimentos pessoais e especulativos”. O equilíbrio se mantém porque “Cristo continua sendo o Senhor da consciência e o Senhor da aliança”. Daí também a convicção de que todo cristão faz teologia: “todo bom cristão deveria ser um teólogo”, disse em 2024, porque todos têm o Espírito e o acesso à Palavra. Na palestra de 2017 que homenageia Herschel Hobbs na Oklahoma Baptist University, a partir do grande mandamento de Marcos 12:28-34, explicou que, se teologia é amar a Deus com todo o ser, ela envolve a mente, a imaginação e a vontade, e precisa “brotar em ação exterior”.

Obras principais

  • The Formation of Christian Doctrine (B&H Academic, 2007).
  • “Calvinism: Cause for Rejoicing, Cause for Concern”, em Brad Waggoner e E. Ray Clendenen (orgs.), Calvinism: A Southern Baptist Dialogue (B&H Academic, 2008).
  • “The Potential Impact of Calvinist Tendencies upon Local Baptist Churches”, em David L. Allen e Steve W. Lemke (orgs.), Whosoever Will (B&H Academic, 2010).
  • Royal Priesthood in the English Reformation (Oxford University Press, 2013).
  • The Anabaptists and Contemporary Baptists: Restoring New Testament Christianity (B&H Academic, 2013), organizador.
  • God the Trinity: Biblical Portraits (B&H Academic, 2016).
  • “The Covenant Theology of the Early Anabaptists, 1525-1527”, em Paul S. Fiddes (org.), The Fourth Strand of the Reformation (Oxford Centre for Baptist History and Heritage, 2018).
  • Who Is the Holy Spirit? Biblical Insights into His Divine Person (B&H Academic, 2019).
  • Trinitarian Theology: Theological Models and Doctrinal Application (B&H Academic, 2019), com Bruce Ware, Matthew Y. Emerson e Luke Stamps.
  • God, Theology for Every Person, vol. 1 (B&H, 2024).
  • Special Revelation and Scripture (B&H Academic, 2024), com David S. Dockery.
  • Word, Theology for Every Person, vol. 2 (B&H, 2026).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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