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HistóriaTeólogos arminianos18 de 306

Manfred Marquardt: O sistemático metodista que mostrou a teologia por trás da ética social de Wesley

Diego Gonçalves13 min de leitura2.538 palavras

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Neste texto

Em 1953, uma família da Comunidade Evangélica (Evangelische Gemeinschaft), uma pequena igreja livre de origem americana, fugiu da Alemanha Oriental sem autorização do governo. Só puderam levar uma bolsa de mão e uma mala. Na primavera de 1945 já tinham fugido diante do avanço do exército soviético. Um dos filhos, Manfred, diria aos oitenta anos que o sustentaram nesse tempo as histórias bíblicas da escola dominical e os hinos que a mãe cantava. Aquele menino se tornaria o professor de teologia sistemática que formou gerações de pastores metodistas na Alemanha e um dos autores de um compêndio de teologia metodista traduzido para o português.

Vida

Da Alemanha Oriental ao Westerwald

Manfred Marquardt nasceu em 18 de maio de 1940 em Britz, perto de Eberswalde, em Brandemburgo. Depois da fuga de 1953 a família foi morar no Westerwald, no oeste da Alemanha, onde não havia congregação da Comunidade Evangélica. O rapaz passou a frequentar o grupo de jovens da paróquia da Igreja Evangélica da Renânia, e o jovem pastor fez dele uma espécie de assistente e quis que ele se tornasse pastor daquela igreja. Marquardt ficou com a Comunidade Evangélica, que ele chamou de “mina de tesouros” para a sua fé nas duas primeiras décadas de vida.

Pensou muito tempo em ser professor de alemão, latim ou francês, e no último ano do ginásio alguns professores lhe aconselharam física nuclear ou letras germânicas em vez do pastorado. Olhando para trás, descreveu aquela decisão como um chamado de Jesus que lhe dizia: “Tu serás o meu mensageiro!”.

Estudos, ordenação e pastorado

A partir de 1961 fez estágios em congregações de Hamburgo e de Gelsenkirchen e estudou teologia e filosofia na Escola Superior Eclesiástica de Wuppertal, no seminário da sua igreja em Reutlingen e nas universidades de Tübingen e de Bochum. Em 1967 foi nomeado para Wuppertal, para servir a congregações da Comunidade Evangélica e da Igreja Metodista. As duas denominações se uniram em 1968, na fusão que criou a Igreja Metodista Unida; na Alemanha, a igreja unida se chama Igreja Evangélica Metodista (Evangelisch-methodistische Kirche, EmK). No mesmo ano Marquardt foi ordenado pastor em Hamburgo pelo bispo Carl Ernst Sommer.

Enquanto pastoreava, trabalhava num doutorado, mas depois de um ano e meio saíram duas publicações sobre o mesmo tema, e ele teve de recomeçar. Percebeu então que, pastor metodista, sabia pouco sobre John Wesley. Leu os escritos dele num arquivo de Frankfurt e se encantou com um homem que lia de Platão aos filósofos do Iluminismo, visitava presos e condenados à forca e, com mais de oitenta anos, andou de casa em casa em Londres recolhendo dinheiro para dar cobertores a prisioneiros de guerra franceses.

Em 1975 defendeu na Universidade de Kiel, com a nota máxima, uma tese sobre a ética social de Wesley. O livro saiu em 1977 como Praxis und Prinzipien der Sozialethik John Wesleys (Prática e princípios da ética social de John Wesley), ganhou uma terceira edição ampliada em 2008 e traduções para o inglês, o coreano, o russo e o tcheco. A edição americana, traduzida por John E. Steely e W. Stephen Gunter, saiu pela Abingdon Press em 1992.

Professor e diretor em Reutlingen

Logo depois do doutorado, o superintendente Fritz Harriefeld e o bispo Sommer lhe pediram que se candidatasse à cadeira de teologia sistemática do seminário de Reutlingen, no lugar de Karl Steckel. Marquardt resistiu, porque queria continuar pastor. A primeira eleição fracassou, e ele aceitou a candidatura pensando que, se Deus o quisesse lá, assim seria. Foi eleito em 1975 e assumiu em 1977. Ensinou em Reutlingen até 2005 e dirigiu a escola de 1989 a 2001.

A sua direção coincidiu com a reunificação alemã: a partir de 1991 o seminário se uniu ao de Bad Klosterlausnitz, a escola da igreja na antiga Alemanha Oriental. Também começou o caminho para o reconhecimento estatal que transformou o seminário na Escola Superior de Teologia de Reutlingen (Theologische Hochschule Reutlingen).

De 1978 a 1987 participou das conversas doutrinárias com as igrejas luteranas, reformadas e unidas da Alemanha, que terminaram com o reconhecimento mútuo do púlpito e da Ceia e abriram o caminho para a entrada da Igreja Evangélica Metodista na Comunhão de Igrejas Protestantes na Europa, a antiga Comunhão de Leuenberg. Marquardt foi coeditor da revista do seminário, Theologie für die Praxis, de 1977 a 2005, e da revista ecumênica Una Sancta de 1995 a 2010, participou do Instituto de Oxford de Estudos Teológicos Metodistas de 1987 a 2002 e foi o primeiro presidente da associação das escolas teológicas metodistas da Europa, de 1999 a 2007.

Professor visitante e coautor

Ensinou no Leste Europeu e, de 1998 a 2012, no seminário metodista de Moscou. Foi professor visitante na Drew University (2001) e na Perkins School of Theology, em Dallas (2005), e deu palestras na Índia e no Brasil, onde as conferências da Semana Wesleyana de 1999 saíram pela Editeo como Redescobrindo o sagrado (2000).

O livro que o tornou conhecido fora da Alemanha foi escrito com o colega e depois bispo Walter Klaiber, nascido no mesmo ano. Gelebte Gnade (Graça vivida), de 1993, é um esboço completo da teologia da Igreja Evangélica Metodista. Saiu em português em 1999, como Viver a graça de Deus: um compêndio de teologia metodista, em inglês em 2001, como Living Grace, e também em búlgaro e em coreano.

Tradutor de Wesley

Marquardt também traduziu Wesley: O caráter de um metodista (1981, revisto várias vezes) e, em 2016, os 53 sermões doutrinários, em 816 páginas, volume que abriu a série Methodistische Quellentexte (Textos-fonte metodistas), dirigida por ele e por Michael Nausner, o seu sucessor na cadeira.

Em maio de 2019, na conferência anual do sul da Alemanha, em Öhringen, fez a palestra teológica sobre o sermão de Wesley O espírito católico. Em 2020 a pandemia cancelou a festa dos oitenta anos dele e de Klaiber, e a escola de Reutlingen os homenageou com um filme, Teologia e biografia. Na entrevista dos oitenta anos, resumiu a própria fé: o que mais o marcou foi a experiência de Deus “não como um Deus que castiga lá no céu, mas como um Pai amoroso”, uma força que o “puxou mais do que empurrou”.

Pensamento

Um wesleyano

Classe: wesleyano. Marquardt é pastor de uma igreja que tem os sermões de Wesley entre as suas normas de doutrina, e a sua obra expõe a soteriologia wesleyana. Na tese de 1975, a segunda parte, sobre os princípios da ética de Wesley, começa por dois pressupostos: “a incapacidade do homem natural para o bem” e “a ação da graça preveniente”, seguidos da graça que renova e das boas obras. No prefácio dos sermões de 2016, ele aponta como centro inegociável da pregação metodista a autoridade da Escritura, o evangelho de Cristo como redentor do mundo e “a mensagem da graça preveniente de Deus, que vale para todas as pessoas, as liberta e as renova”. Em Viver a graça de Deus, ele e Klaiber escrevem que o homem que vive no pecado, sem Deus, “não é capaz de reagir, por si mesmo, à abordagem de Deus” (p. 235). É a posição do arminianismo clássico: o ser humano caído não dá o primeiro passo, e a graça preveniente, dada a todos, o liberta para crer.

A ética nasce da graça

O livro sobre Wesley tem duas partes. A primeira descreve a prática: o Clube Santo de Oxford, a ajuda aos pobres, a ética econômica, as escolas, a luta contra a escravidão e a assistência aos presos. A segunda mostra os princípios: os pressupostos (a graça preveniente e a graça que renova), as normas (o amor a Deus e ao próximo, os mandamentos, o exemplo de Cristo e a razão) e os alvos (a renovação da pessoa e a da sociedade). A tese central é que Wesley não pode ser arquivado nem como mero evangelista nem como mero reformador social: a ação social dele vinha da sua teologia.

Marquardt mostra, por exemplo, que Wesley preferia a ajuda entregue pessoalmente pelos membros das sociedades à caridade a distância, e que, antes da experiência de Aldersgate, em 1738, Wesley via as boas obras como caminho para a salvação e, depois dela, como fruto da salvação, sustentando juntos a justificação pela fé e a necessidade das obras, numa dialética que liga Paulo a Tiago. O resultado, nas palavras de Marquardt, é uma ética “de responsabilidade e solidariedade”.

O livro não é uma hagiografia. Nas conclusões, Marquardt aponta três fraquezas de Wesley: a visão conservadora do Estado, a renúncia a mudanças estruturais na sociedade e o conhecimento deficiente das causas econômicas. Aponta também quatro qualidades: Wesley manteve unidos fé e obras, amor e razão, indivíduo e sociedade, prática e teoria. Um resenhista do Acton Institute elogiou o livro, mas achou que o apego de Wesley às pessoas e às associações voluntárias era o caminho certo.

A graça vivida em todo o caminho

Viver a graça de Deus organiza a teologia metodista em quatro partes: a pregação responsável, a salvação universal, a fé pessoal e o cristianismo inteiro, isto é, a realidade do amor na igreja e no mundo. A terceira parte segue o caminho da salvação de Wesley: a graça preveniente, descrita ali como “a atenção permanente de Deus” ao ser humano; o despertar; o arrependimento; a fé; a justificação, comparada nos reformadores e em Wesley; o novo nascimento; e a santificação, com um excurso sobre a perfeição cristã como “consumação do amor”.

A santificação é o tema a que Marquardt mais voltou: Imago Christi als Leitbild der Heiligung (1992), “Crescer no amor: a compreensão wesleyana da santificação” (1999) e “Sanctification as Formation in the Image of Christ” (2001). No prefácio de 2016 ele resume a lição que Wesley aprendeu em 1738: “santificação não é um processo penoso de esforço próprio, mas a experiência da graça de Deus, que capacita para o amor” e para a entrega no Espírito de Jesus. Ele põe o peso no crescimento e na formação à imagem de Cristo. A nossa declaração de fé dá um passo a mais e afirma de modo expresso a inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração, recebida pela fé.

A Escritura e o chamado quadrilátero

Num rodapé do prefácio de 2016, Marquardt critica o termo “quadrilátero”, cunhado por Albert Outler: a palavra engana, diz ele, porque não mostra a primazia da Escritura, cuja interpretação é servida pelas outras três perspectivas, a tradição, a razão e a experiência (ver a introdução ao quadrilátero wesleyano). Ao mesmo tempo, ele trabalha com o método histórico-crítico e lê a Bíblia como “documento histórico” e “livro vivo”. Contou que, depois de uma aula na universidade sobre as cartas aos Coríntios, achou que nunca mais conseguiria pregar, até encontrar um caminho que une a pesquisa e a leitura devota. Por isso diz que as normas de 1 Timóteo não podem passar tal qual para a disciplina da igreja: se passassem, as mulheres não poderiam pregar. A nossa declaração de fé fala de modo mais forte sobre a Escritura e afirma que os autógrafos foram preservados de erro.

O espírito católico

A outra marca de Marquardt é o ecumenismo, que ele tira do sermão O espírito católico. Na palestra de 2019 lembrou que Wesley, ao preparar os artigos de fé dos metodistas americanos, conservou quase todos os Trinta e Nove Artigos anglicanos, mas cortou as condenações herdadas da Reforma. Explicou a distinção de Wesley entre as verdades que sustentam a igreja e as “opiniões”, convicções firmes em que cristãos podem discordar sem romper. Pediu que a Igreja Metodista Unida, dividida pelo debate sobre a homossexualidade, buscasse esse caminho de corações retos e mãos estendidas; anos antes, ele tinha organizado um caderno de estudo sobre o tema para grupos de conversa (1997).

Obras principais

  • Praxis und Prinzipien der Sozialethik John Wesleys (Vandenhoeck & Ruprecht, 1977; 3ª ed. revista e ampliada, Edition Ruprecht, 2008); em inglês, John Wesley’s Social Ethics: Praxis and Principles (Abingdon, 1992).
  • “John Wesleys ‘Synergismus’”, em Lorenz Hein (org.), Die Einheit der Kirche, Festschrift Peter Meinhold (1977).
  • Gelebte Gnade: Grundriss einer Theologie der Evangelisch-methodistischen Kirche (1993; 2ª ed. revista, 2006), com Walter Klaiber; em inglês, Living Grace: An Outline of United Methodist Theology (Abingdon, 2001).
  • “Christian Conversion: Connecting Our Lives with God”, em Randy L. Maddox (org.), Rethinking Wesley’s Theology for Contemporary Methodism (Abingdon, 1998).
  • Redescobrindo o sagrado: Semana Wesleyana 1999 (Editeo, 2000).
  • “Sanctification as Formation in the Image of Christ”, em Hendrik R. Pieterse (org.), Serving God with Heart and Mind (2001).
  • “Methodism in the Nineteenth and Twentieth Centuries”, em William J. Abraham e James E. Kirby (orgs.), The Oxford Handbook of Methodist Studies (Oxford University Press, 2009).
  • “Imagens do ser humano, imagens de Deus”, em Helmut Renders e José Carlos de Souza (orgs.), Teologia wesleyana, latino-americana e global (São Bernardo do Campo, 2011).
  • John Wesley, Lehrpredigten, tradução e edição (Edition Ruprecht, 2016).

Livros em português

  • Walter Klaiber e Manfred Marquardt, Viver a graça de Deus: um compêndio de teologia metodista (Editeo e Editora Cedro, 1999). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Helmut Renders e José Carlos de Souza (orgs.), Teologia wesleyana, latino-americana e global (2011), com o capítulo de Marquardt sobre a imagem de Deus. Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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