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HistóriaTeólogos arminianos14 de 306

Max Lucado: O pastor do oeste do Texas que fez da graça o seu assunto

Diego Gonçalves15 min de leitura2.981 palavras

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Neste texto

No começo dos anos 1980, num pequeno salão do Rio de Janeiro, um jovem missionário texano pregava todo domingo para cerca de dez pessoas, quase todas americanas. Max Lucado e a esposa, Denalyn, tinham chegado ao Brasil em 1983 para plantar igrejas, e a igreja não crescia. A equipe resolveu estudar de novo o evangelho, e Lucado encontrou em si mesmo um “legalismo latente”: vinha cobrindo a mensagem de Cristo com regras e regulamentos. Arrependeu-se e passou a pregar o perdão dos pecados e a ressurreição dos mortos como o centro da fé. A congregação chegou a cinquenta pessoas, e ele chamou o que viu de “minirreavivamento”. Anos depois resumiu a lição numa frase: “Descobri que ensinamos a graça que experimentamos”. Daquele salão saiu o tema de uma obra que hoje passa de 150 milhões de exemplares, em mais de cinquenta línguas.

Retrato de Max Lucado
Max Lucado numa entrevista em novembro de 2019. Proverbs 31 Ministries, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Andrews, Texas

Max Lee Lucado nasceu em 11 de janeiro de 1955, em San Angelo, no Texas, o caçula dos quatro filhos de Jack e Thelma Lucado, e cresceu em Andrews, cidade de petróleo no oeste do estado. O pai era mecânico nos campos de petróleo da Exxon, e a mãe, enfermeira. Os dois eram cristãos conservadores das Igrejas de Cristo, e Max foi batizado aos dez anos.

Aos catorze anos começou a se rebelar. Aos dezesseis passou um verão cavando valas de oleoduto e bebendo com os colegas mais velhos. O pai o pegou bêbado, e ele lembra o momento em poucas palavras: “Eu o decepcionei”. Diz que Jesus mudou o seu coração antes que o alcoolismo tomasse conta dele.

Abilene

Em 1973 entrou na Universidade Cristã de Abilene (ACU), ligada às Igrejas de Cristo. Queria ser advogado e estudou comunicação de massa; das aulas de jornalismo levou o hábito das frases curtas e diretas. Pagou os estudos vendendo Bíblias de porta em porta e dividia o quarto com Steve Green, que anos depois seria o seu agente literário. No primeiro ano continuava bebendo e indo a festas. Um colega o levou à igreja, e a pregação de um pastor sobre o Evangelho de João o fez perguntar se Deus poderia perdoar alguém como ele. Na primavera do segundo ano, num culto de domingo à noite, entregou de novo a vida a Cristo. Uma viagem missionária ao Brasil, no terceiro ano, decidiu o rumo. Formou-se em 1977 e fez na ACU o mestrado em estudos bíblicos, concluído em 1983.

Miami e Rio de Janeiro

Em 1980 tornou-se ministro associado da Central Church of Christ, em Miami. Cuidava do grupo de solteiros e escrevia uma coluna semanal no boletim da igreja. Ali conheceu Denalyn Preston, ex-aluna da ACU que dava aulas na cidade, e os dois se casaram em 1981. “Foi em Miami que comecei a amar pregar”, disse.

Em 1983 o casal se mudou para o Rio de Janeiro com uma equipe de missionários. Foi lá a crise do salão vazio e a descoberta da graça, e foi lá também que começou a carreira de escritor. Lucado datilografou de novo as colunas de Miami e mandou o manuscrito a quinze editoras. Catorze recusaram. A Tyndale House aceitou, e On the Anvil saiu em 1985. Seguiram-se No Wonder They Call Him the Savior (1986) e God Came Near (1987), que passou de um milhão de exemplares. Os Lucado ficaram no Brasil até 1988.

Oak Hills

Jack Lucado morreu de esclerose lateral amiotrófica em 1987, e Max quis ficar perto da mãe. Em janeiro de 1988 a Oak Hills Church of Christ, em San Antonio, então com 525 membros, o contratou como pregador. Os sermões passaram a ser a matéria-prima dos livros: “Sou ministro primeiro e escritor depois”, disse em 1999. Com a renda dos livros, desde 1990 não recebe salário da igreja. A partir de The Applause of Heaven (1990), quase toda a obra saiu pela Word, depois incorporada à Thomas Nelson.

A igreja cresceu com ele, e em 2005 tinha cerca de cinco mil membros. O programa de rádio UpWords, mensagem diária de um minuto mantida com os direitos autorais, chegou a cerca de 1.200 emissoras. Foi o único autor a receber três vezes o prêmio de Livro Cristão do Ano, com When God Whispers Your Name, In the Grip of Grace e Just Like Jesus. Em 2004 a Christianity Today o pôs na capa como “o pastor da América”, e em 2005 a Reader’s Digest o chamou de “o melhor pregador da América”, título que a Câmara dos Deputados do Texas celebrou numa resolução. Para as crianças escreveu, entre outros, You Are Special (1997) e Hermie, a Common Caterpillar (2003), que virou série de desenhos animados.

Fora do molde das Igrejas de Cristo

Sob a sua pregação, Oak Hills se afastou de duas marcas das Igrejas de Cristo: o canto só a cappella e a ideia de que o batismo é necessário para a salvação. Os instrumentos entraram aos poucos, e em 2003 a igreja tirou “Church of Christ” do nome para alcançar quem hesitava em entrar numa Igreja de Cristo. Lucado explicou a posição sobre o batismo assim: “Entendemos que o batismo é necessário como obediência, mas que ele não acrescenta nada ao que Cristo faz por nós na cruz”. Hoje Oak Hills é uma igreja independente, que batiza por imersão os que creem.

Crise e maturidade

Por volta dos cinquenta anos, Lucado carregava conflitos de equipe, prazos e um problema cardíaco. “Eu disse a Deus que tinha tudo sob controle”, escreveu, e passou a beber escondido, comprando cerveja do outro lado da cidade para não ser reconhecido. Num estacionamento sentiu Deus confrontá-lo: “Sério, Max?”. Confessou a hipocrisia aos presbíteros, que oraram com ele e montaram um plano para aliviar a carga, e contou o caso à congregação. Comparou o episódio à luta de Jacó em Gênesis 32 e disse ter recebido de Deus um nome novo, “perdoado”. A história está em God Never Gives Up on You (2023). No começo de 2007, por causa de uma fibrilação atrial, deixou o cargo de ministro principal e continuou em Oak Hills como ministro de ensino.

Lucado não apoia candidatos, mas em fevereiro de 2016 escreveu que Donald Trump, então à frente nas primárias republicanas, não passaria na “entrevista de decência” que ele fazia com os rapazes que saíam com as suas filhas, e pediu que os cristãos cobrassem de qualquer líder cristão um padrão mais alto de fala. Em 2021 um sermão seu sobre a ansiedade, transmitido pela Catedral Nacional de Washington, provocou protestos por causa de uma pregação de 2004 contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Numa carta, ele reconheceu ter sido desrespeitoso e ferido pessoas naquela pregação, e manteve a compreensão bíblica tradicional do casamento.

Em julho de 2024, depois da renúncia do fundador Robert Morris, aceitou ser pastor de ensino interino da Gateway Church, em Southlake, sem deixar Oak Hills. Unbreakable Courage, de agosto de 2026, é o seu 48º livro para adultos. Ele e Denalyn têm três filhas e sete netos.

Pensamento

Um simpatizante vindo do movimento de restauração

Lucado é um simpatizante do arminianismo, e não um arminiano clássico. É pregador, e não teólogo de sistema, e nunca se apresentou como arminiano nem como calvinista. Formou-se nas Igrejas de Cristo, herdeiras do movimento de restauração de Barton W. Stone e Alexander Campbell, e Stone começou esse caminho rompendo com a doutrina calvinista da eleição. Nos livros, Lucado fica do lado arminiano em dois pontos centrais da controvérsia: o convite de Deus alcança todas as pessoas, e Deus não força ninguém a amá-lo. Num terceiro ponto ele se afasta do arminianismo clássico: ensina a segurança eterna do crente.

“Todo aquele”

3:16: The Numbers of Hope (2007) percorre João 3:16 quase palavra por palavra. No capítulo sobre o “todo aquele”, Lucado fala da “política do todo aquele” do céu, sempre aberta: “Todo aquele convida o mundo para Deus”, escreve, e “Deus exporta a sua graça para o mundo inteiro”. Na vida comum quase nada se oferece a qualquer um; no evangelho a oferta vai para quem quer que creia. É a mesma convicção que levou os arminianos a afirmar que Cristo morreu por todos (ver expiação para todos).

O mesmo livro descreve o novo nascimento como obra de Deus: “Deus cuida da tarefa, do começo ao fim”, e o nascimento, “por definição, é um ato passivo”, porque o bebê não contribui com nada para o parto. Um crítico viu aí uma forma de calvinismo. A frase cabe também no arminianismo clássico, para o qual a regeneração é obra só de Deus e a fé que a recebe não acrescenta mérito, como a mão do mendigo que recebe o presente, na imagem de Jacó Armínio.

Sobre a resposta humana, Lucado é direto. “Somos livres para amar a Deus ou não”, escreve num texto reunido em Everyday Blessings (2004). Deus convida e insiste, mas um amor forçado seria menos que amor, e por isso “ele deixa a escolha conosco”. Lucado não usa a linguagem da graça preveniente, com a qual os arminianos explicam como alguém morto no pecado pode responder a Deus. A ênfase dele recai sobre a iniciativa de Deus: “a salvação pertence ao Senhor e não pertence a você”, disse em 2005, “e isso é boa notícia”.

Da tolerância à graça

A graça é o assunto de Lucado. Ele mesmo descreveu três etapas da sua compreensão. Primeiro, achava que a graça era, “no máximo, Deus me tolerando”. Depois, pensou que o perdão dependia do seu desempenho. Por fim entendeu que a obra de Cristo na cruz bastava e que o desempenho “não tem nada a ver com isso”. No começo do ministério, confessou, ensinava uma graça que “nos salvava, mas não nos sustentava”. Define a graça como “um presente de perdão, dado uma vez, e um presente da presença de Deus, dado para a vida toda”, e a ilustra com a imagem de um transplante de coração: Cristo passa a morar em quem crê.

Na época de Grace (2012), ele tratou o legalismo como a tendência natural do coração, contra a qual ainda luta. Mas não separa a graça da vida santa: “A graça recebida como deve ser cria desejo de santidade, e não de impiedade”. É a mesma ordem de Efésios 2:8-10, que o arminianismo wesleyano resume dizendo que a fé justifica sozinha, mas nunca fica sozinha.

Do jeito que somos, não do jeito que ficamos

Em Just Like Jesus (1998), publicado no Brasil como Simplesmente como Jesus, Lucado tomou uma frase que ouvia na infância como lista de proibições, “você precisa ser como Jesus”, e a reescreveu como promessa: “Deus ama você do jeito que você é, mas não quer deixá-lo assim”. O livro descreve o coração de Jesus como puro, pacífico, cheio de propósito, agradável e espiritual, e insiste que quem está em Cristo já tem Cristo morando dentro de si. Uma série de pregações para jovens tomou o livro como roteiro. A ênfase está perto do coração da tradição de John Wesley: a graça que perdoa é a mesma que transforma.

O resto da obra aplica essa graça às lutas comuns. Em You Are Special, o boneco de madeira Punchinello descobre que o seu valor vem do artesão que o fez, e não das etiquetas que os outros lhe colam. Em Traveling Light (2001), cada verso do Salmo 23 ajuda a largar uma bagagem, e a culpa só tem um lugar para ser deixada, a cruz.

A segurança eterna

Aqui Lucado se separa dos arminianos clássicos. Já pastor, convenceu-se da segurança eterna do crente: “Se uma pessoa é genuinamente salva, ninguém pode arrancá-la das mãos do Pai”, disse em 2005, deixando claro que os presbíteros de Oak Hills não fazem disso doutrina oficial da igreja, embora ele a ensine. Em 2012 resumiu: “Como eu ousaria dizer o contrário?”. Num devocional de 2017 escreveu para os cristãos que vivem em dúvida, que fazem da salvação “uma questão de momento” e esperam morrer numa fase boa, e respondeu com João 10:28: “Deus não solta, e não vai soltar você”.

A preocupação pastoral é legítima, e os arminianos a partilham: a segurança do crente está em Cristo, e não no desempenho, e o testemunho do Espírito (Romanos 8:16) dá certeza ao filho de Deus. A diferença está na condição. A declaração de fé do Diego ensina a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e as advertências de João 15:4-6 e Hebreus 3:12-14 falam de uma apostasia real, o abandono da fé. Armínio deixou essa questão em aberto; Wesley afirmou a possibilidade da queda. Lucado, como Adrian Rogers e os batistas provisionistas, combina o convite a todos e a liberdade de responder com a garantia de que o verdadeiro crente nunca cairá.

No batismo, ao contrário, ele está perto dessa declaração: o batismo segue a conversão, é ato de obediência e testemunho público, e nada acrescenta à obra de Cristo na cruz.

Obras principais

  • On the Anvil (Tyndale, 1985).
  • No Wonder They Call Him the Savior (Multnomah, 1986).
  • God Came Near (Multnomah, 1987).
  • Six Hours One Friday (Multnomah, 1989).
  • The Applause of Heaven (Word, 1990).
  • When God Whispers Your Name (Word, 1994).
  • In the Grip of Grace (Word, 1996).
  • You Are Special (Crossway, 1997).
  • Just Like Jesus (Word, 1998).
  • He Chose the Nails (Word, 2000).
  • Traveling Light (W Publishing, 2001).
  • It’s Not About Me (Integrity, 2004).
  • Facing Your Giants (W Publishing, 2006).
  • 3:16: The Numbers of Hope (W Publishing, 2007).
  • Grace: More Than We Deserve, Greater Than We Imagine (Thomas Nelson, 2012).
  • Anxious for Nothing (Thomas Nelson, 2017).
  • God Never Gives Up on You (Thomas Nelson, 2023).
  • Unbreakable Courage (2026).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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