
SermõesRetiro de jovens: Simplesmente como Jesus1 de 5
Do jeito que você é (Romanos 8:28-29)
Retiro de jovens Simplesmente como Jesus · Pregação 1
Neste texto
- O retiro
- Abertura (cerca de 6 min)
- A imagem (cerca de 5 min)
- Leitura (cerca de 4 min)
- 1. Ele toca antes de lavar (cerca de 12 min)
- a) A mão no leproso
- b) O pai que correu
- c) A bacia e a toalha
- d) O amor de Deus não funciona como o amor das pessoas
- e) Venha do jeito que está
- 2. Ele não deixa a terra no joelho (cerca de 12 min)
- a) O plano tem nome: a imagem do Filho
- b) Como é o coração dele
- c) Um parêntese sobre “predestinou”
- d) “Eu sou assim mesmo”
- e) Que parte do meu “jeito” é terra no joelho?
- 3. Ele já mudou para dentro de casa (cerca de 10 min)
- a) Cristo vive em mim
- b) A luz instalada e as velas acesas
- c) Arde, mas é amor
- d) A nossa parte: estender o joelho e olhar para ele
- Conclusão (cerca de 4 min)
- Momento de resposta (sugestão)
- Oração final
Texto: Romanos 8:28-29 · Duração: cerca de 50 minutos · Base: a carta “Querido amigo” e os capítulos 1 (“Um coração como o seu”), 2 (“Ame as pessoas com as quais está pregado”) e 3 (“O toque de Deus”) de Simplesmente como Jesus, de Max Lucado.
O retiro
Cinco encontros com um fio só: Jesus é simples, está perto, e nos torna parecidos com ele quando vivemos na presença dele. O pecado aparece com mais peso no primeiro dia; depois o foco passa para a presença de Deus e a devoção.
| Encontro | Título | Texto central | Base no livro do Max Lucado | Frase para levar |
|---|---|---|---|---|
| Pregação 1 | Do jeito que você é | Romanos 8:28-29 | “Querido amigo” e capítulos 1, 2 e 3 | Deus me ama do jeito que eu sou. Deus não vai me deixar do jeito que eu estou. |
| Devocional de domingo | Bom dia, Pai | Lamentações 3:22-23; Sofonias 3:17 | Capítulo 4 e a prática da manhã do capítulo 5 | Hoje eu pertenço a ti. |
| Pregação 2 | Andando com o Pai | Marcos 1:32-38; João 15:4-5 | Capítulos 4, 5, 7, 8 e 9 | Quem anda com o Pai não se perde na multidão. |
| Pregação 3 | Olhos nele | Hebreus 12:1-3 | Capítulos 6, 10, 11, 12 e conclusão | Jesus começou a minha fé. Jesus vai terminar a minha corrida. |
| Revisão final | O que levamos para casa | Romanos 8:29; Hebreus 12:2 | O livro todo | As quatro frases, em sequência |
As citações bíblicas estão na Bíblia Livre. Material para todo o retiro: papel e caneta para cada participante, uma caixa e, se possível, uma cruz simples.
Abertura (cerca de 6 min)
Boa noite.
Que bom ter vocês aqui.
Eu sei que cada um chegou de um jeito.
Tem gente que veio empolgada, contando os dias.
Tem gente que veio cansada de uma semana pesada.
E tem gente que veio meio sem saber por que veio.
Todos são bem-vindos do mesmo jeito.
Neste fim de semana teremos três mensagens, um devocional no domingo de manhã e uma revisão na segunda antes de irmos embora.
E tudo vai girar em torno de uma pergunta só.
E se eu fosse parecido com Jesus?
Para preparar este retiro, eu li um livro do Max Lucado chamado Simplesmente como Jesus.
Logo na abertura ele conta uma história da casa dele.
Ele diz que, para ele, a casa estava ótima do jeito que estava. Paredes brancas, um tapete, uma poltrona, uma geladeira. Para ele, isso bastava.
Só que a esposa dele não consegue morar numa casa sem mudar alguma coisa.
Pintou as paredes. Trocou as cortinas. Trocou o tapete.
E ele faz uma observação que eu achei linda: Deus é assim conosco.
Deus não consegue morar num coração sem começar a mudar alguma coisa.
Onde nós nos contentamos com uma poltrona e uma geladeira, ele não se contenta com nada menos que um palácio.
Não porque ele é exigente, mas porque ele ama.
E no primeiro capítulo o Lucado faz uma pergunta que eu quero fazer a vocês hoje.
O que aconteceria se, por um dia, Jesus vivesse a sua vida?
A mesma casa. A mesma família. O mesmo celular.
A mesma faculdade, o mesmo trabalho, o mesmo chefe.
Os mesmos problemas, a mesma conta para pagar, a mesma agenda.
Só que com o coração dele.
Como seria a sua segunda-feira?
Você responderia à sua mãe do mesmo jeito?
Mandaria aquela mensagem que mandou na semana passada?
Olharia do mesmo jeito para aquela pessoa que você não suporta?
Teria a mesma ansiedade antes de dormir?
Confesso que essa pergunta me incomodou.
Porque a resposta honesta é que muita coisa na minha vida mudaria.
O lugar seria o mesmo, as pessoas seriam as mesmas, mas eu seria diferente.
É sobre isso que vamos conversar neste fim de semana.
E hoje vamos começar pelo começo: como Deus olha para nós antes de qualquer mudança.
A imagem (cerca de 5 min)
Antes de abrirmos a Bíblia, quero levar vocês de volta à infância.
Quase todo mundo aqui já ralou o joelho quando era criança.
[Se tiver uma lembrança sua de joelho ralado, ela entra aqui.]
Pense na cena.
Uma partida de futebol na rua, uma corrida no quintal, uma bicicleta sem as mãos no guidão para impressionar os amigos.
E então o chão.
O joelho aberto, cheio de terra, pedras pequenas grudadas, sangue misturado com areia.
E o que a criança faz?
Corre para casa chorando.
Ela não para no caminho para se lavar primeiro.
Ela não pensa: “Deixa eu limpar isso antes, senão minha mãe vai brigar.”
Ela vai do jeito que está.
E o que a mãe faz quando vê o filho na porta?
Abraça.
Sujo, chorando, com terra na roupa.
Ela abraça primeiro.
Só que ela não fica só no abraço.
Nenhuma mãe olha para um joelho cheio de terra e diz:
— Filho, eu te amo do jeito que você é, pode ficar assim.
Ela leva o filho para o tanque.
Abre a torneira, pega o sabão e tira as pedras uma por uma.
E então vem a pior parte.
Muitos de nós se lembram do Merthiolate de antigamente. Ardia muito.
O menino grita para ela parar.
E ela para?
Não para.
Ela sopra, mas não para.
Por quê?
Porque ama.
Ama demais para deixar o machucado do jeito que está.
Leitura (cerca de 4 min)
Vamos abrir a Bíblia em Romanos 8.
Imagino que quase todos aqui sabem o versículo 28 de cor.
Vamos ler juntos o 28 e o 29.
“E sabemos que todas as coisas juntamente contribuem para o bem daqueles que amam a Deus, dos que são chamados segundo o seu propósito. Pois aos que desde antes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”
(Romanos 8:28-29, Bíblia Livre)
O versículo 28 aparece em todo lugar.
Em quadro na parede da cozinha, em legenda de foto, em caneca de café…
Só que quase ninguém lê o 29.
E é o 29 que explica o 28.
O versículo 28 diz que todas as coisas contribuem “para o bem”.
E logo pensamos: bem é passar na prova, conseguir o emprego, ver tudo dar certo.
Só que Paulo diz qual é o bem logo em seguida.
O bem é sermos parecidos com Jesus.
O Max Lucado resume isso numa frase que eu vou pedir para vocês repetirem comigo.
Digam comigo:
“Deus me ama do jeito que eu sou, mas não vai me deixar desse jeito.”
Essa frase tem duas metades, e hoje vamos olhar para as duas.
E depois vamos ver uma terceira coisa, que é a melhor notícia de todas: quem faz essa mudança já está morando dentro de casa.
1. Ele toca antes de lavar (cerca de 12 min)
A primeira metade é esta: Deus ama você do jeito que você é.
Parece frase de adesivo.
Todo mundo aqui já ouviu.
Só que eu desconfio que poucos acreditam nela de verdade.
E eu me incluo nisso.
Então, em vez de explicar, eu quero mostrar Jesus fazendo isso três vezes.
a) A mão no leproso
Mateus 8 conta que Jesus desceu de um monte com uma multidão atrás dele.
E no meio do caminho aparece um homem que ninguém queria ver.
Um leproso.
O Lucado passa um capítulo inteiro imaginando a vida desse homem.
Naquele tempo, quem tinha lepra era expulso de casa.
Perdia a família, o trabalho, os amigos.
Tinha que andar de roupa rasgada e cabelo solto, cobrir o lábio de cima e gritar “Imundo! Imundo!” para ninguém chegar perto (Levítico 13:45-46).
As mães puxavam os filhos quando ele passava.
Fazia anos que ninguém encostava nele.
Anos sem um abraço, sem um aperto de mão, sem um toque no ombro.
E esse homem se ajoelha diante de Jesus.
Vejam o que acontece:
“E eis que um leproso veio e prostrou-se diante dele, dizendo: Senhor, se quiseres, podes me limpar. Jesus estendeu a mão e o tocou, dizendo: Quero, sê limpo. E logo ele ficou limpo de sua lepra.”
(Mateus 8:2-3, Bíblia Livre)
Repare na ordem.
Jesus podia ter curado com uma palavra. Ele fez isso outras vezes, até de longe, como logo depois com o servo do centurião (Mateus 8:5-13).
Mas aqui ele estende a mão e toca primeiro.
Toca um homem ainda doente.
Toca antes de limpar.
O toque veio antes da cura.
Talvez esse homem precisasse do toque tanto quanto precisava da cura.
E repare na palavra que Jesus usa: “Quero.”
O leproso tinha dúvida justamente disso: “se quiseres”.
Ele sabia que Jesus podia. Não sabia se Jesus queria.
E Jesus responde à dúvida antes de responder ao pedido.
Quero.
Talvez alguém aqui tenha a mesma dúvida hoje.
Você sabe que Deus pode. A pergunta é se ele quer chegar perto de alguém como você.
A resposta de Jesus continua a mesma: quero.
b) O pai que correu
Jesus contou uma história que mostra o mesmo coração.
Um filho pede a parte dele da herança, vai embora, gasta tudo e termina cuidando de porcos.
Com fome, desejando a comida dos animais.
Até que decide voltar para casa.
Vejam como ele é recebido, em Lucas 15:20:
“E levantando-se, foi a seu pai. E quando ainda estava longe, o seu pai o viu, e teve compaixão dele; e correndo, caiu ao seu pescoço, e o beijou.”
(Lucas 15:20, Bíblia Livre)
Esse filho vinha do chiqueiro.
Sem banho, com a roupa rasgada, com cheiro de porco.
E o pai correu.
O pai abraçou.
O pai beijou.
Antes do banho, antes da roupa nova, antes de o filho terminar o discurso que tinha ensaiado.
c) A bacia e a toalha
E há uma terceira cena, talvez a mais bonita de todas.
É a última noite de Jesus antes da cruz.
João 13 diz assim:
“E antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que sua hora já era vinda, para que deste mundo passasse para o Pai, havendo amado aos seus, que estavam no mundo, até o fim os amou.”
(João 13:1, Bíblia Livre)
E então Jesus se levanta da mesa, tira a roupa de cima, amarra uma toalha na cintura, coloca água numa bacia e começa a lavar os pés dos discípulos (João 13:4-5).
Naquele tempo, lavar os pés dos outros era o serviço do empregado mais simples da casa.
E quem está com a bacia e a toalha é o Rei do universo.
O Lucado diz assim: as mãos que formaram as estrelas agora lavam a sujeira.
E ele chama atenção para um detalhe.
Jesus sabia o que aqueles homens iam fazer naquela mesma noite.
Pedro ia negar. Os outros iam fugir.
E Judas ia trair.
O Lucado procurou alguma tradução da Bíblia que dissesse “Jesus lavou os pés de todos, menos os de Judas”. Não achou nenhuma.
Jesus segurou os pés de quem ia entregar ele, colocou na bacia e lavou.
O Lucado resume: ele perdoou o pecado deles antes de eles cometerem.
É o que Paulo diz: “Mas Deus prova o seu amor por nós através de Cristo haver morrido por nós, quando ainda éramos pecadores” (Romanos 5:8, Bíblia Livre).
O toque no leproso.
O abraço no filho sujo.
A bacia nos pés de Judas.
É assim que Jesus é.
Simples assim. Ele chega perto antes.
d) O amor de Deus não funciona como o amor das pessoas
Só que vivemos num mundo em que o amor sobe e desce conforme o desempenho.
Você tira nota boa e recebe elogio.
Você passa no vestibular e a família inteira posta foto.
Você publica uma foto bonita e chovem curtidas.
Você erra e as pessoas somem.
O Lucado observa que o carinho das pessoas costuma aumentar com o desempenho e diminuir com os erros.
E nós aprendemos a enxergar Deus do mesmo jeito, como um professor com a caderneta na mão.
Orou nesta semana? Ponto a favor.
Leu a Bíblia? Ponto a favor.
Brigou em casa? Ponto contra.
Só que o amor de Deus não funciona assim.
O Lucado escreve, num outro livro dele, que Deus não nos ama menos porque fracassamos, nem mais porque triunfamos.
A sua oração não aumenta esse amor, e o seu pecado não diminui esse amor.
e) Venha do jeito que está
E por que isso importa para nós hoje, neste retiro?
Porque há quem quase não tenha vindo.
Há quem tenha pensado:
— Eu não estou bem com Deus. Não tenho cara de retiro.
Há quem tenha chegado carregando algo que ninguém aqui sabe.
Uma briga em casa.
Um vício que ninguém conhece.
Uma raiva guardada.
Uma dúvida que dá vergonha de dizer em voz alta.
E a tentação é pensar: primeiro eu me arrumo, depois volto para Deus.
Isso se parece com o menino de joelho sangrando, parado na esquina, tentando limpar a ferida com a mão suja antes de ter coragem de bater em casa.
Ele só vai piorar a ferida.
Venha para casa do jeito que você está.
O toque vem primeiro.
2. Ele não deixa a terra no joelho (cerca de 12 min)
Mas, se pararmos aqui, ficamos com metade da frase.
E metade da verdade pode virar uma mentira muito confortável.
Porque a segunda metade é: Deus não vai deixar você desse jeito.
Voltemos ao filho que voltou para casa.
O pai abraçou o filho sujo.
Mas vejam o versículo 22:
“Mas o pai disse a seus servos: Trazei a melhor roupa, e o vesti; e ponde um anel em sua mão, e sandálias nos seus pés.”
(Lucas 15:22, Bíblia Livre)
O pai não deixou o filho com a roupa do chiqueiro.
E o leproso também não ficou com a lepra.
Jesus tocou o homem doente, mas não deixou ele doente.
a) O plano tem nome: a imagem do Filho
Voltemos a Romanos 8:29.
“Para serem conformes à imagem do seu Filho.”
O que quer dizer “conformes”?
Quer dizer ter a mesma forma. Ficar com o jeito dele.
E Paulo continua: “para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos”.
Primogênito quer dizer o filho mais velho.
Ou seja, Jesus é o irmão mais velho, e Deus está formando uma família inteira parecida com ele.
Quem tem irmão mais velho conhece bem a frase: “Como você é parecido com o seu irmão.”
É isso que Deus quer que digam de nós.
b) Como é o coração dele
E como é esse irmão mais velho?
O Lucado descreve o coração de Jesus com cinco palavras, e eu quero passar por elas devagar.
O coração de Jesus era puro.
Multidões seguiam ele, e mesmo assim ele vivia feliz com uma vida simples. Pedro, que andou três anos com ele, chamou Jesus de “cordeiro sem falha e sem contaminação” (1 Pedro 1:19, Bíblia Livre).
O coração de Jesus era pacífico.
Os discípulos se desesperaram com a multidão com fome, e ele agradeceu pelo pão. Os discípulos gritaram na tempestade, e ele dormia. Pedro puxou a espada, e Jesus estendeu a mão para curar a orelha de Malco, o servo do sumo sacerdote (Lucas 22:50-51; João 18:10).
O coração de Jesus era cheio de propósito.
Ele resumiu a vida dele numa frase só: “o Filho do homem veio para buscar, e para salvar o que tinha se perdido” (Lucas 19:10, Bíblia Livre).
O coração de Jesus era agradável.
As crianças gostavam de ficar perto dele. Ele via beleza nos lírios do campo. Passou trinta e poucos anos no meio da nossa bagunça e mesmo assim viu em nós algo que valia a pena salvar.
E, acima de tudo, o coração de Jesus era espiritual.
Ele vivia ligado ao Pai. Ia à sinagoga, como era costume dele (Lucas 4:16). Sabia a Escritura de cor. Retirava-se para orar (Lucas 5:16). Dizia: “Crede em mim que eu estou no Pai, e que o Pai está em mim” (João 14:11, Bíblia Livre).
Repararam que nada disso é complicado?
Jesus não tinha uma vida espiritual cheia de fórmulas.
Ele tinha um coração simples, inteiro, voltado para o Pai.
E é esse coração que Deus quer formar em nós.
Paulo pede aos filipenses que esteja neles “este modo de pensar, que também esteve em Cristo Jesus” (Filipenses 2:5, Bíblia Livre).
O verbo que Paulo usa fala de mente e de atitude ao mesmo tempo.
O mesmo modo de pensar.
O mesmo coração.
Só que, quando colocamos o nosso coração do lado do dele, a distância assusta.
O Lucado faz essa comparação com toda a honestidade.
Ele é puro, e nós somos cobiçosos.
Ele é pacífico, e nós explodimos fácil.
Ele é cheio de propósito, e nós vivemos distraídos.
Ele é espiritual, e nós vivemos agarrados a esta terra.
E é nesse ponto que a segunda metade da frase vira boa notícia.
Deus não vai deixar essa distância do jeito que está.
O coração de Jesus
- Puro: feliz com uma vida simples
- Pacífico: dormia na tempestade
- Cheio de propósito: veio buscar e salvar o perdido
- Espiritual: vivia ligado ao Pai
O nosso coração
- Somos cobiçosos
- Explodimos fácil
- Vivemos distraídos
- Vivemos agarrados a esta terra
c) Um parêntese sobre “predestinou”
[Parêntese opcional. Usar se alguém do grupo costuma perguntar sobre predestinação.]
A palavra “predestinou” costuma levantar perguntas, então abro um parêntese breve, porque esse não é o assunto de hoje.
Os irmãos de tradição calvinista leem esse versículo como Deus escolhendo, desde a eternidade, quem vai ser salvo, sem depender de nada que ele previu na pessoa.
Na tradição arminiana e wesleyana, que é a que eu sigo, entendemos que Deus conheceu de antemão os que iam responder à graça dele com fé, e o que ele predestinou foi o destino dessas pessoas: ficar parecidas com Jesus.
As duas tradições levam a Bíblia a sério e concordam no principal deste texto.
O alvo de Deus para quem é dele é a imagem do Filho.
d) “Eu sou assim mesmo”
Aqui entra uma frase que eu ouço muito, e que eu mesmo já disse.
— Eu sou assim mesmo. Sou pavio curto. É de família, meu pai também é assim.
— Eu sou ciumento, sempre fui.
— Eu sou preguiçoso, não adianta.
O Lucado pergunta: de onde tiramos a ideia de que não podemos mudar?
Agora imagine o menino no tanque dizendo para a mãe:
— Não precisa limpar. Meu joelho é assim mesmo, sempre foi cheio de terra.
Ela aceitaria?
De jeito nenhum.
Porque ela sabe a diferença entre o joelho do filho e a terra que grudou nele.
Deus também sabe.
Aquilo que chamamos de “meu jeito”, muitas vezes Deus chama de ferida.
E ele não vai deixar a ferida aberta.
e) Que parte do meu “jeito” é terra no joelho?
Quero que você pense numa pergunta, com toda a honestidade, porque ela é só entre você e Deus.
O que em mim eu chamei de “jeito” e Deus chama de machucado?
A forma como eu falo com os meus pais?
O que eu vejo no celular quando todos já foram dormir?
A mágoa que eu guardo de um amigo, de alguém de casa?
A mentira que virou costume?
Deus ama você com tudo isso.
E justamente por amar, não vai deixar isso do jeito que está.
3. Ele já mudou para dentro de casa (cerca de 10 min)
Agora vem a melhor notícia da noite.
Quando olhamos para a distância entre o nosso coração e o de Jesus, a pergunta natural é: como é que eu vou chegar lá?
O Lucado responde com uma frase que me surpreendeu.
Se você está em Cristo, você já tem o coração de Cristo.
a) Cristo vive em mim
Paulo diz isso em Gálatas 2:20:
“Já estou crucificado com Cristo. Estou vivendo não mais eu, mas Cristo vive em mim; e vivo a minha vida na carne por meio da fé no Filho de Deus, que me amou, e entregou a si mesmo por mim.”
(Gálatas 2:20, Bíblia Livre)
“Cristo vive em mim.”
O Lucado explica assim: quando você entregou a sua vida a Jesus, ele se mudou para dentro dela.
Trouxe a mala, desfez a bagagem e ficou.
Ele não veio como visita de domingo, mas como morador.
E quem mora dentro da casa é justamente aquele que vai reformar a casa.
Vocês se lembram da esposa do Lucado trocando as cortinas?
Deus não reforma de longe, mandando instrução por mensagem.
Ele reforma de dentro, morando junto.
b) A luz instalada e as velas acesas
Só que aqui o Lucado conta uma história que eu acho que descreve muitos de nós.
No começo do século passado, na Irlanda, uma senhora que morava numa casa simples perto da praia resolveu instalar energia elétrica.
Foi uma das primeiras da região.
Algumas semanas depois, o funcionário da companhia apareceu para ler o medidor e estranhou.
O relógio quase não tinha andado.
Ele perguntou se a energia estava funcionando.
Ela disse que sim, que estava ótima.
— Mas a senhora está usando?
— Claro. Todo dia, quando escurece, eu acendo a luz para conseguir acender as velas. Depois eu apago.
Ela tinha a instalação inteira, mas continuava vivendo à luz de vela.
O Lucado diz que muitos cristãos vivem assim.
A alma está salva, mas o coração continua igual.
Confiamos em Jesus para a salvação, mas resistimos à transformação.
De vez em quando ligamos o interruptor, num retiro, num culto mais forte.
E depois voltamos para a vela.
E se deixássemos a luz acesa?
E se Jesus, que já mora em você, tivesse liberdade para andar pela casa inteira?
c) Arde, mas é amor
Só que, quando ele começa a andar pela casa, mexe em coisas.
E então volta o Merthiolate.
Abram em 2 Coríntios 3:18:
“E todos nós, com o rosto descoberto, refletindo como que um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, segundo a mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.”
(2 Coríntios 3:18, Bíblia Livre)
“Somos transformados.”
A palavra grega que Paulo usa ali, metamorphoō, é a mesma de onde vem “metamorfose”.
Quer dizer mudança de forma, de dentro para fora.
E ele acrescenta: “de glória em glória”. Ou seja, por etapas.
O joelho não sara no mesmo dia.
Primeiro se limpa. Depois forma a casca. Depois coça, e é preciso resistir à vontade de arrancar.
E um dia você olha e percebe que sarou.
Muitos se convertem achando que no dia seguinte vão acordar com o coração de Jesus pronto.
E, quando percebem que ainda têm raiva, ainda têm inveja, ainda erram, concluem:
— Então não mudou nada. Eu sou uma fraude.
Não é bem assim.
O verbo está no presente. É algo que está acontecendo.
E quem começou vai terminar: “E disto tenho certeza: aquele que começou a boa obra em vós irá completá-la até o dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6, Bíblia Livre).
Quando Deus começa a mexer na ferida, arde.
Às vezes arde quando ele expõe um pecado que queríamos esconder.
Às vezes arde quando ele pede que perdoemos alguém que não merece.
Às vezes arde quando uma porta se fecha, um namoro termina, um plano dá errado.
Mas lembrem-se do versículo 28: todas as coisas contribuem juntamente para o bem.
E o bem é sermos parecidos com Jesus.
Então muita coisa que arde não é castigo, mas Deus limpando.
E ele sopra.
Ele não nos deixa sozinhos no tanque.
d) A nossa parte: estender o joelho e olhar para ele
Quem já foi criança sabe: quanto mais se debate, mais demora, e mais dói.
Quem limpa é a mãe.
Mas o menino pode estender o joelho ou pode fugir.
Quem transforma é Deus. O texto diz que é “pelo Espírito do Senhor”.
Ninguém aqui vai se parecer com Jesus por força de vontade.
Só que a graça de Deus não arrasta ninguém à força.
Ela vem primeiro, ela chama, ela capacita, e nós respondemos.
E como estendemos o joelho?
O mesmo versículo responde: “refletindo como que um espelho”.
A palavra grega vem de “espelho” e pode querer dizer olhar como num espelho ou refletir como um espelho; por isso a ARA traduz “contemplando”.
E um espelho só reflete aquilo para onde está virado.
Ficamos parecidos com aquilo que contemplamos.
Quem passa o dia olhando briga na internet fica mais briguento.
Quem passa o dia olhando a vida perfeita dos outros fica mais ansioso.
Quem passa o dia olhando para Jesus fica parecido com Jesus.
O Lucado termina o primeiro capítulo convidando o leitor a fazer exatamente isso: passar um tempo olhando para o coração de Cristo, para ver o que nós podemos chegar a ser.
E é isso que faremos no resto deste retiro.
Amanhã cedo, no devocional, vamos começar o dia na presença dele.
Na próxima mensagem, vamos ver como Jesus andava com o Pai o dia inteiro.
E na última, vamos aprender a manter os olhos nele.
Conclusão (cerca de 4 min)
Voltemos ao tanque.
Muitos aqui ainda carregam uma cicatriz no joelho.
A cicatriz não dói mais.
Ela só conta uma história.
Conta que um dia você caiu.
Conta que alguém abraçou você sujo.
Conta que alguém lavou, mesmo com você pedindo para parar.
E conta que sarou.
Tomara que, quando voltarmos para casa, estejamos um pouco mais perto de contar essa história.
Você chegou a este retiro cansado?
Ele ama você do jeito que você é.
Chegou com raiva de alguém?
Ele ama você do jeito que você é.
Chegou distante, frio, achando que nem devia ter vindo?
Ele ama você do jeito que você é.
Chegou com um pecado que ninguém aqui conhece?
Ele ama você do jeito que você é.
Mas vai voltar para casa igual?
Não vai.
Porque ele não vai deixar você desse jeito.
Digam comigo uma última vez:
“Deus me ama do jeito que eu sou.
Deus não vai me deixar do jeito que eu estou.”
Momento de resposta (sugestão)
[Distribuir papel e caneta antes da oração.]
Quero que cada um escreva nesse papel uma coisa só.
A terra no seu joelho.
Aquilo que você chamou de “jeito” e hoje percebeu que é ferida.
Ninguém vai ler. Fica entre você e Deus.
Dobre o papel e guarde dentro da Bíblia.
No último dia do retiro voltaremos a ele.
E antes de orar, quero fazer com vocês o que o leproso fez.
Ele não fez um discurso. Disse uma frase só: “Senhor, se quiseres, podes me limpar.”
Quem quiser, pode dizer essa frase em silêncio agora.
[Pausa de silêncio.]
E ouçam a resposta dele, que continua a mesma: “Quero.”
Oração final
Senhor Jesus, obrigado porque tu nos tocaste quando ainda estávamos sujos.
Obrigado porque não esperaste que nos limpássemos para correr ao nosso encontro.
Obrigado porque te ajoelhaste com a bacia e a toalha diante de quem não merecia.
Mas não nos deixes do jeito que estamos.
Tu já moras em nós. Anda pela casa inteira.
Lava-nos, ainda que arda.
Sopra quando doer.
E faze-nos, de glória em glória, parecidos contigo.
Amém.
- Sermão
- Juventude
- Resenhas
- Santificação
- Romanos