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Leslie D. Wilcox: O professor de grego que ensinou a santidade em Cincinnati
Neste texto
- Vida
- Conversão e formação
- Pastor e presidente da conferência
- O historiador da conferência
- God’s Bible School
- A crise de 1966
- Os últimos anos
- Pensamento
- Um wesleyano do movimento de santidade
- Be Ye Holy: a santidade como segunda obra da graça
- O pecado e a erradicação
- A perfeição no dia a dia
- A história como lição
- Obras principais
- Para aprofundar
Na pequena Tippecanoe, no condado de Harrison, em Ohio, um pastor metodista wesleyano perguntava por uma antiga igreja da sua denominação que aparecia nos registros do condado. Os moradores responderam que ali nunca tinha havido igreja nenhuma. Ele insistiu, e o mandaram rua abaixo, até a casa de um homem de mais de oitenta anos. “Sim, senhor, havia uma igreja wesleyana aqui”, disse o velho, que tinha frequentado a escola dominical dela quando menino. Levou o visitante até o lugar onde ficava o prédio, num triângulo entre a ferrovia e a estrada, e explicou por que a igreja tinha fechado: os membros brigaram entre si. O pastor era Leslie D. Wilcox, e a história entrou no último capítulo do livro em que ele contou um século da Igreja Metodista Wesleyana em Ohio, com um comentário seco: “Por que precisaríamos dizer mais?”
Vida
Conversão e formação
Leslie D. Wilcox nasceu em 1907. Converteu-se aos dezesseis anos e foi estudar na God’s Bible School (Escola Bíblica de Deus), em Cincinnati, Ohio, a escola que Martin Wells Knapp fundou em 1900 para formar pregadores e missionários do movimento de santidade, o ramo do metodismo americano que pregava a inteira santificação como segunda obra da graça. Formou-se em 1927.
No mesmo ano entrou para a Conferência de Ohio da Igreja Metodista Wesleyana. Essa denominação nasceu em 1843, quando metodistas contrários à escravidão, liderados por Orange Scott, deixaram a Igreja Metodista Episcopal, que se recusava a condenar o sistema escravista. Em Ohio, os primeiros wesleyanos estavam ligados ao movimento abolicionista e, em boa parte, ao Oberlin College. No século XX a igreja já era uma denominação de santidade, com reuniões de acampamento, convenções de santidade e uma disciplina rigorosa de costumes.
Pastor e presidente da conferência
O primeiro pastorado de Wilcox foi Harrison Chapel, no antigo circuito de Licking, de 1927 a 1933. Era uma das igrejas mais antigas da conferência, que já tinha recebido a sessão anual de 1851. De 1930 a 1933 Wilcox foi também o secretário da conferência, cujas sessões se faziam então em Victory Camp, o acampamento que os wesleyanos de Ohio compraram na década de 1920.
De 1934 a 1936 pastoreou a igreja de West View, fundada em 1º de abril de 1843, sessenta dias antes da convenção de Utica, Nova York, que organizou a denominação. Em 1935 a conferência o elegeu presidente. Desde 1924 a conferência mantinha o seu presidente em campo, como “presidente itinerante” que percorria as igrejas. Wilcox presidiu as sessões de 1935 a 1941, com Leroy A. Wilcox, pastor de West View depois dele, como secretário.
O historiador da conferência
Durante a presidência, Wilcox reuniu a história da sua igreja no estado. Wesleyan Methodism in Ohio (O metodismo wesleyano em Ohio), de 129 páginas, saiu em edição do próprio autor e foi escrito em 1942. Ele trabalhou sobre as atas das conferências, inclusive as da Conferência de Allegheny, e sobre as coleções antigas do jornal Wesleyan Methodist, que recomendou aos pesquisadores futuros como “uma rica mina de informação”. O livro trata das conferências, das igrejas e dos pregadores de 1835 a 1941, e o propósito, diz o autor, era “preservar um registro dos acontecimentos mais destacados e significativos da nossa história”.
God’s Bible School
Wilcox voltou à God’s Bible School como professor e serviu a escola em três períodos diferentes, que somaram 23 anos. Ensinou grego, Bíblia e teologia e foi deão acadêmico. A escola o lembra como linguista bíblico, conhecedor de várias línguas, que tinha o Novo Testamento grego sempre à mão, e como defensor firme da doutrina e da prática wesleyanas tradicionais. Ela lhe deu o seu primeiro título de doutor em divindade honoris causa.
Um ex-aluno lembra que Wilcox o animou, nos primeiros anos de magistério, a ler C. S. Lewis.
Das aulas saiu o livro mais conhecido de Wilcox, Be Ye Holy (Sede santos), publicado em 1965 pela Revivalist Press, a editora da escola, e reeditado em 1977. A apresentação do livro observa que o texto já tinha passado “pela prova prática e crítica do uso em sala de aula”.
A crise de 1966
Na década de 1960 Wilcox voltou a presidir a Conferência de Ohio, num momento de divisão. A Igreja Metodista Wesleyana preparava a fusão com a Igreja Peregrina de Santidade, aprovada pela conferência geral de 1966 e concluída em 1968, com a formação da Igreja Wesleyana. Em Ohio, o pastor Edsel R. Trouten organizou a Sociedade para a Preservação do Metodismo Wesleyano Primitivo, cujo Manifesto, de fevereiro de 1966, atacava sobretudo a centralização do governo da igreja.
Wilcox conversou com o grupo e levou o caso à junta consultiva da conferência. A resposta oficial, por telefone, foi que a junta não via “nenhuma possibilidade” de alcançar dentro da igreja os objetivos do Manifesto, e que, se depois de pensar e orar os membros da sociedade continuassem convictos, o caminho era sair. Em junho de 1966 os pastores dissidentes acertaram com a conferência a questão das propriedades e formaram a Wesleyan Connection of Churches. Esse grupo deu origem, com os Bible Methodists do Alabama, à Bible Methodist Connection of Churches, cuja primeira conferência geral se reuniu em 1970, justamente na God’s Bible School.
Os últimos anos
Wilcox se aposentou da God’s Bible School em 1981. Nos anos seguintes a Schmul Publishing, de Salem, Ohio, publicou os três volumes de Profiles in Wesleyan Theology (Perfis da teologia wesleyana), entre 1983 e 1985. Leslie D. Wilcox morreu na Carolina do Sul em 2 de dezembro de 1991.
Pensamento
Um wesleyano do movimento de santidade
Wilcox é um arminiano wesleyano, da linha do movimento de santidade. Foi ministro da Igreja Metodista Wesleyana e professor de uma escola de santidade. Em Be Ye Holy conta a origem do arminianismo na obra de Jacó Armínio e dos seus seguidores na Holanda, explica que, das duas correntes da Igreja da Inglaterra, a calvinista e a arminiana, foi a arminiana que deu a cor básica ao metodismo, e remete o aluno à exposição de H. Orton Wiley sobre a posição arminiana diante do calvinismo. É a tradição arminiana de John Wesley e de John Fletcher, a mesma da declaração de fé deste site.
O centro do pensamento dele é a santidade. Em Profiles in Wesleyan Theology ele escreve que “não há santidade para o homem a não ser a que se baseia na santidade de Deus” (1985, p. 65). A santidade do cristão vem de Deus e é exigida por ele, como em Levítico 11:44 e em 1 Pedro 1:15-16, os textos que dão título ao livro de 1965.
Be Ye Holy: a santidade como segunda obra da graça
O prefácio de Be Ye Holy anuncia dois propósitos. O primeiro é dar ao leitor uma exposição sistemática do que a Escritura ensina sobre a inteira santificação, e a ele se dedicam as seis primeiras partes do livro, das definições à vida de santidade. O segundo é a história e a literatura do movimento de santidade, do avivamento de Wesley às igrejas de santidade do século XX. Wilcox observa que muita gente conhece dois, três ou meia dúzia de livros de santidade e pouco mais. Por isso o livro tem, no fim de cada capítulo, “leituras paralelas” em Wesley, Wiley, Daniel Steele, A. M. Hills, J. A. Wood e outros, e um apêndice de livros recomendados.
Três capítulos centrais dizem como a santificação acontece. Ela é obra instantânea: “um dom de Deus, concedido pelo seu poder, e não o resultado” de um desenvolvimento gradual. É segunda obra da graça, posterior à regeneração. E é obra condicional, recebida por consagração e fé. Wilcox reconhece que há objeção legítima ao uso raso e popular da palavra “consagração”, mas distingue a consagração barata da verdadeira: além da consagração que o cristão já fez, há uma consagração mais profunda, que entrega a Deus a própria natureza carnal.
O professor de grego aparece no argumento a partir dos tempos verbais, que ele manda estudar nos Milestone Papers de Steele. O grego tem dois tempos para o passado, explica Wilcox aos que não sabem a língua: um descreve ação que se prolonga no tempo, e o outro, o aoristo, não tem essa ideia de duração e é o tempo usado normalmente para fatos instantâneos, como em Marcos 5:13, quando os porcos se precipitam no mar. O Novo Testamento usa regularmente o aoristo para falar da inteira santificação, e isso é, para ele, uma confirmação de que a santificação plena acontece numa crise. Wilcox também sustenta que já era possível experimentar a regeneração antes de Pentecostes, um dos argumentos do movimento de santidade para a segunda obra.
O pecado e a erradicação
Para Wilcox, a doutrina da santidade depende da doutrina do pecado. Os escritores de santidade, “seguindo a teologia wesleyana, definem o pecado como uma transgressão voluntária de uma lei conhecida de Deus” (Be Ye Holy, 1977, p. 40). Ao lado desse pecado voluntário há o princípio do pecado que permanece no regenerado, chamado de pecado original, carnalidade, natureza carnal ou pecado inato, e que a inteira santificação purifica. Em Profiles ele acrescenta que no ato de pecar há sempre uma atitude de desafio e de rejeição da autoridade, a decisão de seguir o próprio caminho (1985, p. 145).
Daí a crítica que ele faz, no livro de 1942, à teologia de Oberlin. Charles Finney foi para ele uma força poderosa de piedade e de evangelização, mas, como mostrou A. M. Hills, que o conheceu pessoalmente, ensinava uma teoria do pecado que o reduzia à atitude da vontade, e por isso não podia anunciar a purificação da inclinação para o pecado que está na raiz das más escolhas. Na mesma linha, Wilcox descreve o movimento de Keswick, ou da “vida vitoriosa”, como uma volta diferente da teologia clássica da santidade: alguns dos seus mestres ensinam uma segunda crise para receber poder, mas não para a purificação do coração.
A palavra “erradicação” foi muito usada pelos escritores de santidade da geração anterior, e os que a rejeitavam chamaram o ensino contrário de teoria da “supressão”. Wilcox examina as objeções contra o termo, lembra que ele tem a seu favor uma lista impressionante de escritores e cita autores que, mesmo sem usar o verbo “erradicar”, mostram que uma simples “supressão” ou “repressão” do pecado não basta. A declaração de fé deste site diz a mesma coisa com outras palavras: na inteira santificação Deus purifica o coração do crente do pecado original e o enche de amor perfeito.
A perfeição no dia a dia
Wilcox não pensava a perfeição cristã como uma vida sem erros. Em Profiles ele diz que uma das marcas da perfeição cristã é “a disposição e a prontidão para pedir desculpas” (1985, p. 251). E compara o amor perfeito a uma ferramenta nova: depois de recebê-la, a pessoa precisa aprender a usá-la (p. 260). A experiência é recebida numa crise, mas a vida de santidade se aprende, e a sexta parte de Be Ye Holy trata justamente da vida de santidade e das suas relações.
No mesmo volume Wilcox rejeita a separação entre o arrebatamento da igreja e a manifestação de Cristo, ensinada pelo pré-tribulacionismo: para ele não há texto bíblico que a sustente, e os seus defensores são, na maioria, calvinistas (p. 311). Nesse ponto ele fica perto da declaração de fé deste site, que trata a segunda vinda de Cristo como um acontecimento único.
A história como lição
O livro de 1942 mostra o pastor por trás do historiador. No capítulo final, Wilcox pergunta por que tantas igrejas wesleyanas de Ohio desapareceram e aponta causas: membros mal instruídos, brigas internas, perda de líderes e, sobretudo, o declínio do espírito evangelístico e da pregação da santidade. A observação mais aguda é sobre o reformador. Os wesleyanos nasceram combatendo a escravidão, e o reformador precisa de convicções firmes, mas essas mesmas qualidades podem virar uma armadilha: no zelo pela sua causa ele esquece outras verdades, “degenera num mero contendor” e perde a paixão evangelística.
Daí a regra que Wilcox propõe para a pregação: “a verdade em si nunca muda”, mas as necessidades de cada geração pedem que a ênfase seja revista. Cem anos antes era preciso pregar contra a escravidão; quem fizesse disso o centro do ministério em 1942 estaria fora do seu tempo. O livro termina com uma lista do que tinha renovado a conferência, a começar pela insistência na experiência da santidade de coração, e com um apelo à nova geração para manter o estandarte levantado.
Obras principais
- Wesleyan Methodism in Ohio (edição do autor, escrito em 1942).
- Be Ye Holy: A Study of the Teaching of Scripture Relative to Entire Sanctification, with a Sketch of the History and the Literature of the Holiness Movement (Revivalist Press, 1965; edição revista, 1977).
- Profiles in Wesleyan Theology, 3 volumes (Schmul Publishing, 1983-1985). Os dois primeiros reúnem textos de Wesley, Fletcher, William Burt Pope, John Miley, Hills, Thomas Ralston e cerca de quarenta outros autores wesleyano-arminianos, organizados por doutrina; o terceiro traz as aulas e os esboços do próprio Wilcox.
Para aprofundar
- God’s Bible School & College, “Hall of Fame”, verbete de Leslie D. Wilcox (1907-1991).
- Leslie D. Wilcox, Wesleyan Methodism in Ohio (1942), na Wesleyan-Holiness Digital Library, com o verbete do autor.
- Leslie D. Wilcox, Be Ye Holy (Revivalist Press, 1965), e Profiles in Wesleyan Theology (Schmul, 1983), no Internet Archive.
- A. Philip Brown II, “Bible Methodism” (1995), história da Bible Methodist Connection of Churches.
- “Leslie D. Wilcox (death Dec 2, 1991)”, blog Separate-Holy, memória de um ex-aluno com citações de Profiles in Wesleyan Theology.
- Wesleyan Books (Schmul Publishing), fichas de Profiles in Wesleyan Theology e de Be Ye Holy.
- “Conservative holiness movement”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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