AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaTeólogos arminianos6 de 306

Moses Lowman: o pastor de Clapham que leu o Apocalipse como história

Diego Gonçalves12 min de leitura2.498 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Na primavera de 1752, Samuel Chandler foi visitar um amigo doente em Clapham, então uma aldeia ao sul de Londres. O doente tinha 72 anos. Chandler perguntou como ele estava diante da morte. A resposta, que o próprio Chandler contou depois no sermão fúnebre, foi que estava “perfeitamente tranquilo”, fosse qual fosse o desfecho que Deus desse à doença. Pouco depois as dores diminuíram e ele morreu, nas palavras do amigo, “sem um suspiro nem um gemido”. O homem era Moses Lowman, pastor dissidente de Clapham por quase quarenta anos, um dos maiores conhecedores das antiguidades judaicas na Inglaterra do seu tempo e autor do comentário do Apocalipse que Jonathan Edwards estudou nos seus cadernos.

Vida

Da advocacia à teologia

Moses Lowman nasceu em Londres em 1680. O pai tinha estudado em Cambridge para ser ministro da Igreja da Inglaterra, mas mudou de rumo e foi trabalhar na administração das rendas públicas, onde ficou conhecido pela competência e pela honestidade. O filho foi destinado ao direito: em 1697 entrou como estudante no Middle Temple, uma das escolas de advocacia de Londres, e o certificado dessa matrícula ainda existia quando Chandler pregou o sermão fúnebre. Um ou dois anos depois, Lowman trocou a advocacia pela teologia e decidiu servir como ministro entre os dissidentes, os protestantes ingleses que não se conformavam à Igreja oficial.

Como os dissidentes não podiam estudar em Oxford nem se formar em Cambridge sem aceitar a Igreja da Inglaterra, muitos iam para as universidades reformadas da Holanda. Lowman foi para lá no fim da década de 1690. Em Utrecht estudou com o metafísico Gerard de Vries, e em Leiden com Herman Witsius, um dos grandes teólogos reformados da época. Entre os colegas estavam John Shute, depois Lorde Barrington, e Jeremiah Hunt, mais tarde pastor e erudito entre os independentes de Londres.

Quase quarenta anos em Clapham

Em 1710, Lowman foi para Clapham como assistente do senhor Grace, ministro de uma congregação presbiteriana (sobre essa tradição, veja a história do presbiterianismo). Foi ordenado ali em 1714 e assumiu o pastorado, que exerceu até a morte. Pregava duas vezes todo domingo e só uma vez, dois anos antes de morrer, deixou o púlpito por doença. Manteve por quase quarenta anos o respeito tanto dos anglicanos da aldeia quanto das várias correntes de dissidentes, que, segundo Chandler, “nem sempre são os mais fáceis de agradar”.

Como pregador, foi menos lembrado. Os historiadores David Bogue e James Bennett registraram que um ouvinte assíduo dizia nunca conseguir entendê-lo. O talento de Lowman estava na escrivaninha.

O dissidente que entrou nas polêmicas

Em 1716, Lowman escreveu para os Occasional Papers, uma série de ensaios contra a intolerância religiosa publicada por um grupo de ministros jovens de Londres. Em 1718 e 1719 respondeu a Thomas Sherlock, então deão de Chichester e depois bispo, com uma Defesa dos dissidentes protestantes e com observações sobre a polêmica de Sherlock com o bispo Benjamin Hoadly, a chamada controvérsia de Bangor.

Em 1719, os ministros dissidentes de Londres se reuniram em Salters’ Hall para decidir se deviam assinar uma declaração de fé na Trindade antes de aconselhar as igrejas de Exeter, abaladas por acusações de arianismo. Lowman ficou com a maioria que recusou a assinatura. Muitos não subscritores professavam a Trindade; o que eles recusavam era impor como teste um texto humano em vez das palavras da própria Escritura. Essa linha marcou a vida inteira de Lowman e reaparece na frase com que ele fechou o seu último escrito: “A Escritura é a regra da nossa fé e do nosso juízo”.

Em 1735, pregou na série de sermões dos dissidentes contra o catolicismo romano, em Salters’ Hall. O sermão dele, Os princípios do papado são cismáticos, sustenta que foi Roma, e não a Reforma, quem rompeu a unidade da igreja, ao impor como condição de comunhão doutrinas que Cristo não instituiu.

Contra os deístas

A maior parte da obra de Lowman nasceu da defesa da Bíblia contra os deístas, que aceitavam um Deus criador mas rejeitavam a revelação. Quando Anthony Collins publicou o Discurso sobre os fundamentos e as razões da religião cristã (1724), argumentando que as profecias citadas no Novo Testamento só se cumpriam em sentido alegórico, Lowman redigiu uma resposta, que só publicou em 1733: O argumento da profecia em prova de que Jesus é o Messias, defendido. A tese dele é que a palavra “profecia” cobre tipos diferentes de texto, e que confundi-los era o que dava força aparente à objeção de Collins.

Contra Thomas Morgan, que no Filósofo moral (1737) acusou Moisés de ter imposto a Israel um governo arbitrário e opressor, Lowman escreveu a Dissertação sobre o governo civil dos hebreus (1740), que lhe deu a reputação de autoridade em antiguidades judaicas. Ganhou segunda edição em 1745 e tradução alemã em 1756, e o bispo Sherlock, antigo adversário dele, aprovou o livro. Em 1748 veio o complemento, Uma explicação racional do ritual do culto hebreu. Em 1735 tinha publicado, sem o nome dele, um Argumento para provar a unidade e as perfeições de Deus a priori, que Chandler considerava uma demonstração rigorosa.

O comentário do Apocalipse

Em 1737 saiu a obra mais lida de Lowman, Uma paráfrase com notas sobre o Apocalipse de São João, reeditada em 1745, 1791 e 1807 e incorporada à coleção de comentários bíblicos de Simon Patrick, William Lowth, Daniel Whitby e Richard Arnald. Philip Doddridge escreveu que o livro lhe tinha dado mais satisfação sobre as dificuldades do Apocalipse do que qualquer outro, e Jonathan Edwards fez dele a principal fonte dos seus cadernos sobre o Apocalipse.

Os últimos anos

Lowman estudou até o fim e deixou vários volumes manuscritos de anotações sobre a Bíblia. Morreu em maio de 1752, aos 72 anos, e Chandler pregou o sermão fúnebre em Clapham sobre 1 Pedro 5:4, com o título O caráter e a recompensa de um bispo cristão. Philip Furneaux o sucedeu em 1753. Em 1756, Chandler, Nathaniel Lardner e Edward Sandercock publicaram os Três tratados que Lowman pretendia levar ao prelo, sobre as aparições de Deus no Antigo Testamento, a Shekinah e o Verbo.

Pensamento

Onde ele fica

Lowman pertence à ala moderada da dissidência inglesa do século XVIII, a que recusava credos impostos, e, na classificação desta série, fica entre os simpatizantes do arminianismo, e não entre os arminianos clássicos. Três fatos sustentam a classificação. Ele ficou com os não subscritores em Salters’ Hall, ao lado de Lardner e Hunt, contra os subscritores, entre eles o calvinista Thomas Ridgley. Ensinou a perseverança condicional: no sermão de 1735, apoiado em Romanos 11:22, diz que, se não continuarmos na fé e na obediência do evangelho, “não continuamos na bondade de Deus” e perdemos “todo direito às bênçãos” prometidas à igreja. E, nas notas ao Apocalipse, lê o livro da vida como o registro dos que têm direito à promessa da vida eterna, ligado à perseverança: “a salvação de Deus, por meio de Cristo, pertence somente aos que perseverarem”. A obra dele não discute a eleição nem a graça preveniente, temas centrais de Armínio, e é por isso que ele aparece como simpatizante.

Chandler resumiu o temperamento teológico do amigo: os seus princípios eram “moderados e livres de todos os extremos”, e a sua piedade, “racional, e não supersticiosa”.

A profecia como história

O comentário de Lowman é historicista: lê as visões como um mapa da história da igreja do século I até o fim. A profecia, diz ele, não foi dada “para satisfazer a nossa curiosidade” sobre o futuro, mas para confirmar a paciência e a constância dos crentes quando o erro parece vencer (prefácio da Paráfrase, 1737). E nada escureceu tanto o Apocalipse quanto “as tentativas comuns de interpretá-lo”, com a mania de achar mistério em cada palavra ou de forçar o texto a caber num esquema prévio.

O esquema dele divide a profecia em períodos. Os selos cobrem a igreja sob o império pagão até Constantino; as trombetas, as invasões dos séculos seguintes; as taças, o domínio do poder temporal do papado, nascido em 756, quando Pepino entregou ao papa as cidades do exarcado de Ravena. Contando os 1.260 dias de Apocalipse 11 e 13 como anos, Lowman chegou a uma data aproximada para a queda desse poder: por volta de 2016. Depois viriam os mil anos de Apocalipse 20, um tempo de pureza, paz e prosperidade da igreja na história, antes do último ataque de Satanás e do juízo final. É uma leitura pós-milenista: o reino de mil anos acontece antes da volta de Cristo (veja a segunda vinda de Cristo e o milênio).

Edwards usou esse esquema e também discordou dele. Rejeitou a ideia de que os três “ais” de Apocalipse 8 a 11 seriam períodos de domínio dos sarracenos e anotou que “o senhor Lowman confunde a ordem das profecias deste livro”. No Humilde tentativa (1747), onde convoca as igrejas à oração unida pelo avivamento, Edwards contestou justamente a data distante: não havia razão, escreveu, para supor a queda do Anticristo “tão distante quanto Lowman a coloca”.

A república dos hebreus

Na Dissertação, Lowman argumenta que o governo de Israel foi uma teocracia no sentido literal: Deus era o Rei da nação, e a lei de Moisés funcionava como a constituição de um povo que aceitou esse Rei por aliança no Sinai. A constituição tinha dois propósitos. O primeiro era preservar o culto ao único Deus num mundo tomado pela idolatria. O segundo era proteger “a propriedade, a liberdade, a paz e a segurança do povo”, com a terra repartida entre as famílias e inalienável, as cidades governadas por anciãos e o cuidado para que nenhuma parte, nem mesmo os levitas, concentrasse poder demais. Contra Morgan, essas leis mostram a justiça e a bondade de Deus. O mesmo raciocínio guia a Explicação racional do ritual: cada rito servia para afastar Israel da idolatria dos vizinhos e guardar o culto verdadeiro até a vinda de um profeta maior que Moisés.

A Shekinah e o Verbo

Os Três tratados reúnem o estudo de uma vida sobre as aparições de Deus no Antigo Testamento. Lowman pergunta se quem falou com Moisés na sarça e habitou entre os querubins era o próprio Deus ou um anjo que o representava, ou ainda a alma do Messias existindo antes da encarnação, como alguns teólogos do seu tempo propunham. A resposta dele é que era o próprio Deus, que não se desloca nem cabe em lugar algum, mas manifesta uma presença especial por sinais visíveis, a glória que os judeus chamaram de Shekinah. Ao discutir quem é o anjo do Senhor, Lowman examina a leitura de Hugo Grócio, que aplicava o nome divino ao arcanjo Miguel porque ele age em nome de Deus, e no estudo sobre o Verbo recorre às anotações de Jean Le Clerc, o erudito remonstrante de Amsterdã.

Daí ele passa ao prólogo de João 1. O Verbo, diz Lowman, estava no princípio, estava com Deus e era Deus, “não uma criatura” nem um ser intermediário entre Deus e os homens, o que o põe contra os arianos do seu tempo. Mas ele não trata o Verbo como uma pessoa eterna distinta do Pai: o Verbo é o próprio Deus que se revela, e Cristo é o homem em quem esse Verbo habitou, como a glória habitava no templo. Os textos sobre os limites do Filho, como Marcos 13:32, ele aplica a Cristo como homem e profeta. Os editores avisaram no prefácio que não se responsabilizavam por todas as opiniões do autor. A declaração de fé do Diário do Diego confessa um só Deus que subsiste eternamente em três pessoas coeternas e coiguais, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e nesse ponto a leitura de Lowman fica fora dela (sobre a doutrina, veja o capítulo sobre a Trindade).

O legado

A Dissertação e a Explicação racional foram reeditadas em 1816, e a Paráfrase circulou na coleção de comentários de Patrick e Whitby até meados do século XIX. Pelas mãos de Edwards, o esquema histórico de Lowman entrou no debate americano sobre o milênio. Na dissidência inglesa, ele ficou como exemplo de um pastor erudito, avesso a credos impostos e firme na defesa da revelação contra os deístas.

Obras principais

  • A Defence of the Protestant Dissenters (1718), resposta a Thomas Sherlock.
  • Remarks on Dr. Sherlock’s Answer to the Lord Bishop of Bangor (1719).
  • A Sermon Preach’d to the Societies for Reformation of Manners (1720).
  • The Argument from Prophesy, in Proof that Jesus is the Messiah, Vindicated (1733).
  • The Principles of Popery Schismatical (1735), sermão em Salters’ Hall.
  • An Argument to Prove the Unity and Perfections of God a priori (1735), anônimo.
  • A Paraphrase and Notes on the Revelation of St. John (1737; 2.ª ed., 1745).
  • A Dissertation on the Civil Government of the Hebrews (1740; 2.ª ed. com apêndice, 1745).
  • Considerations on Mr. Foster’s Discourse on the Jewish Theocracy (1744).
  • A Rational of the Ritual of the Hebrew Worship (1748).
  • Three Tracts (1756, póstumo), sobre as aparições de Deus no Antigo Testamento, a Shekinah e o Verbo.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

140pal/min